Protesto ou Celebração? Ou algo ainda mais profundo?

texto de Chris Carlsson

Para participar de uma Massa Crítica, você – se tiver uma bicicleta – não precisa comprar nada; nem objeto, nem serviço, nem ideologia; você não precisa nada a não ser o desejo de tomar parte na vida pública, sobre duas rodas. Quando centenas ou milhares de ciclistas tomam as ruas tal qual convivas utilizando o espaço público de forma celebratória, muitas das expectativas e regras do capitalismo moderno são desafiadas. Comportamentos individuais escapam à lógica do comprar e vender, ainda que apenas por algumas horas. Uma vez nas ruas, conexões inesperadas emergem, coisas não planejadas acontecem, relacionamentos bacanas iniciam por acaso. Diferentemente de uma ida ao shopping ou ao mercado, as conversas estão livres do jugo da lógica das transações, dos preços, das  medidas. É um intercâmbio livre, entre pessoas livres. A experiência altera nossa percepção do viver citadino imediatamente e, mais importante que isso, mexe com nosso imaginário coletivo de maneiras que estamos recém começando a aprender.

Ciclistas em uma Massa Crítica estão entre os praticantes mais visíveis de um novo tipo de conflito social. A “deserção assertiva” corporificada no ato de pedalar corrói o sistema de exploração social organizado através da indústria petrolífera e da posse de automóvel particular. Ao pedalar em centros urbanos do Império, nós nos juntamos a um crescente movimento mundial que está repudiando os modelos econômicos e sociais controlados pelo capital multinacional e impostos a nós sem qualquer forma de consentimento democrático. A tomada das ruas, em massa, por um enxame de ciclistas “sem líderes” é exatamente o tipo de lógica de entrelaçamentos sociais auto-dirigida que está transformando nossas vidas, do ponto de vista econômico, e ameaçando a estrutura de governo, de negócios, bem como a estrutura policial e bélica (algo que os estrategistas militares mais imaginativos estão começando a entender).

A Massa Crítica tem uma nova prima na cidade: a San Francisco Bike Party [Festa da Bicicleta de São Francisco, doravante abreviada SFBP]. Esse caráter festivo sempre esteve presente na Massa Crítica; mas o modelo Festa da Bicicleta, tal como foi desenvolvido em San Jose e outras cidades, tem como ponto de partida uma equipe de organizadores (e monitores) voluntários que conduz a diversão. A primeira SFBP aconteceu em uma gélida noite de 7 de janeiro de 2011, e atraiu 1000 ciclistas, apesar do frio intenso. Foi muito parecido com a Massa Crítica, em alguns aspectos: eu curti muitas conversas com pessoas que estavam perto durante a pedalada, havia música, e vibrações amigáveis dos ciclistas bem como dos passantes. Éramos dúzias e centenas de ciclistas preenchendo as ruas no lugar de automóveis, exatamente como sonhávamos durante os primeiros meses da Massa Crítica, lá em 1992.

A Massa Crítica é, ou parece ser, politizada. Mas vamos combinar: sua política é relativamente difusa ou inarticulada; ou talvez seja algo tão plural que não possa ser resumido facilmente em um único conjunto de idéias. A Festa da Bicicleta [SFBP], por outro lado, é declaradamente apolítica, um pouco obcecada com a obediência às regras de trânsito, e – considerando os freqüentes berros de “Festa da Bicicleta!” durante o passeio – acaba estabelecendo uma concepção bastante rasa e vazia do que seja “diversão em bicicletas”.

Mais interessante, talvez, é a liderança informal que se movimenta nos bastidores tanto da SFBP quanto da Massa Crítica. Existe uma linha de continuidade entre a SFBP – com seu comitê organizador e seus “pássaros” (monitores) – e as Massas Críticas mais recentes, ‘da pesada’[hardcore], “sem líderes”, lideradas por anarquistas. Entre os dois extremos – em um papel decididamente imoderado – estão alguns de nós, que gostamos de ambos eventos, por motivos parecidos, mas temos nossas diferenças com ambos, também. Nós não queremos pessoas nos mandando ir para a faixa da direita, de maneira prepotente, ou dando ordem de parar em semáforo quando não há necessidade, ou num ponto de parada obrigatória quando não há tráfego transversal. Como disse um amigo: “não faço isso na minha vida normal, por que faria em uma Festa da Bicicleta?

O que motiva os organizadores e monitores da Festa da Bicicleta? Teriam eles uma necessidade de assegurar que um grupo de pessoas obedeça seus padrões de comportamento? Sabemos que há muitos ciclistas altamente comprometidos com o “bom comportamento e observância às lei”, e que defendem ser este o padrão segundo o qual ciclistas de todos os tipo devem ser julgados.  A SFBP recém começou, é provável que cresça muito, e atraia a atenção da polícia. Quando os organizadores começarem a negociar com a polícia, não vai demorar muito para que esta resolva determinar o que é aceitável e o que não é, em termos de trajetos, paradas e velocidade. Como vai ficar a diversão da Festa da Bicicleta quando os “pássaros” se tornarem óbvios guardiães das preferências policiais?

Dito isso, a primeira SFBP estava de fato muito divertida, e sua auto-disciplina era um espetáculo à parte. Aqui e ali, quando surgia a possibilidade de conflito com algum motorista ou ônibus que precisava passar, as pessoas educadamente faziam espaço. Ninguém furou um sinal vermelho ou avançou contra o tráfego transversal. Nada disso exigiu monitoramento; aconteceu naturalmente, a partir das preferências dos ciclistas.

Interessante observar que esse tipo de cortesia, emanada do bom-senso, poderia ser adotada pela Massa Crítica, de forma rotineira (isso já acontece, mas de forma esporádica); reduzindo assim a tensão e aumentando o prazer na pedalada para a maioria das pessoas. Alguns de nós articulamos esta abordagem e argumentamos em seu favor, em panfletos bem como na Rede, durante anos. Mas nós não queremos ser monitores e não queremos impor nada a ninguém. Nós gostaríamos que as pessoas se comportassem de maneira bacana e respeitosa, porque elas querem fazer isso, e porque isso é mais subversivo do que mostrar raiva e atitude confrontacional!

A Massa Crítica sempre se caracterizou como algo radicalmente democrático. No espaço público de nossas ruas, as pessoas presentes traçam seus próprios destinos segundo a maneira como interagem umas com as outras e com os passantes, coisa que pode ser profundamente democrática – não no sentido de votação onde a maioria ganha, que geralmente aceitamos como definição de democracia – mas no sentido diretamente democrático de participação aberta e não-mediada. Em outros sentidos, a Massa Crítica nunca foi “democrática”: poucas pessoas influenciam a escolha do trajeto (ainda que, em princípio, qualquer pessoa possa exercer influência a cada edição do passeio) e menos pessoas ainda causam conflitos, ao pedalar na contramão ao lado da Massa, ou adiantando-se ao grande grupo e guinando subitamente contra o trânsito transversal.

Nos primeiros anos, trajetos eram propostos e “votados” através da contagem aproximada de mãos erguidas, antes do início do passeio, na Peewee Herman Plaza. Algumas dúzias de pessoas, apenas, conseguiam participar nesse processo, mesmo que houvessem centenas presentes às imediações. Na prática, cada passeio é conduzido pelos ciclistas mais convincentes e assertivos dentre aqueles que se posicionam à frente do grupo. Desde o ataque policial de 1997 – que levou a um grande declínio na comunicação escrita entre os ciclistas (a tão propalada “xerocracia” parece ter se atrofiado) – não houve mais do que uma dúzia de propostas de trajeto, ao longo de igual número de anos. Resultou disso que muitas pessoas que não vivenciaram a Massa Crítica nos anos 90 se tornaram ideologicamente compromissadas com os conceitos “não há trajetos propostos” e “não há líderes”.

Alguns dentre essas mesmas pessoas parecem crer que a Massa Crítica é um “protesto” e que o sentido da coisa é ocupar vias arteriais importantes, de maneira a bagunçar [screw up] o trânsito o mais possível. Às vezes se pode ouvir essas pessoas resmungando, quando o passeio se dirige para o sul, ou muito para oeste, e clamando que deveríamos voltar para a área central, para poder cumprir sua abordagem tática. Dessa maneira esquisita, eles/elas ESTÃO liderando a Massa Crítica, mas sem explicar sua idéia, nem como esse proceder poderia efetivamente levar ao cumprimento de sua não-declarada “missão”. Isso revela essa realidade peculiar, auto-governada, da Massa Crítica: lideranças improvisadas [ad-hoc] tomam decisões importantes que influenciam a experiência que todos estão tendo, mas não dão satisfações a ninguém a não ser a eles mesmos.

É aí que alguns de nós, veteranos,  ficamos coçando a cabeça. Quem disse que a Massa Crítica é um “protesto”? Ser um ciclista antagônico não é contraproducente? O que está havendo em algumas subculturas juvenis cujos membros acham que é realmente radical ‘aprontar’ [to act out] e causar brigas com pessoas que não pensam como eles nem têm a mesma aparência? Não seria mais radical tentar tornar essas pessoas aliados ativos na luta por uma vida melhor? E o estilo de vida convencional [“mainstream”], dependente do automóvel, contra o qual os radicais protestam, não é inerentemente pior do que poderia ser? Não queremos convidar aqueles que estão assim aprisionados a se juntar a nós, ao invés de dar-lhes motivo de nos odiarem?

Em algumas cidades, a polícia conseguiu com sucesso parar a Massa Crítica, talvez porque os ciclistas não tenham conseguido ser tão criativos com o passeio e sua lógica. Em Austin, Texas, e Minneapolis, Minnesota, e até mesmo em Manhattan, a polícia agrediu e prendeu ciclistas, conseguindo assim desencorajar muitas pessoas a participar. Em Portland, Oregon, uma cidade muito pró-bicicleta, a Massa Crítica se extinguiu quando a cultura se tornou demasiadamente dominada por homens jovens e raivosos (em São Francisco nós os chamamos “A Brigada da Testosterona”) que pensam que existe uma “guerra de classes” entre carros e bicis. Eles fazem um esforço extra para bloquear carros, escarnecer e provocar motoristas, especialmente os que estão em carros dispendiosos. Aqueles que fazem essas coisas sentem orgulho disso e crêem estar levando as coisas às últimas conseqüências; mas, para o resto de nós, eles parecem apenas covardes se escondendo na multidão.

Objetos inanimados não têm luta de classes; ver as pessoas dentro dos carros como inimigos é um enorme erro político. Motoristas não são o inimigo, e sim nossos aliados naturais! Esse pessoal, preso no trânsito, dentro de carros ou ônibus, são claramente mais parecidos do que diferentes dos ciclistas que estão temporariamente alterando o ritmo da vida urbana ao tomar as ruas pedalando. O objetivo [the point] da Massa Crítica, na minha opinião sempre foi criar um espaço celebratório convidativo que seja tão contagioso que pessoas que ainda pedalam pouco sejam atraídas, de maneira irresistível, e queiram experimentar aquilo.  Se você ofende pessoas ou tenta fazê-las se sentir culpadas ou constrangidas, existe pouca chance de que elas venham a mudar a maneira como pensam e, por conseguinte, mudar seu comportamento. Nosso prazer é mais subversivo do que nossa ira e, para muitos, é difícil lembrar disso no calor das ruas.

É fácil esquecer que uma das melhores coisas a respeito da Massa Crítica é que ela põe centenas ou mesmo milhares de nós juntos nas ruas, onde as regras e a etiqueta nem sempre são claras. Isso significa que nós temos que resolver os problemas que surgem através do diálogo, vamos acertando/superando as coisas no calor do momento, e com isso adquirimos importante prática em auto-organização política e autogerenciamento.

Nos EUA, durante as últimas duas décadas, houve uma Guerra Cultural muito séria que definiu a sociedade; fundamentalistas cristãos de direita ousaram cada vez mais tentar controlar o comportamento do resto da sociedade. Do outro lado estão milhões de pessoas que preconizam um alto nível de liberdade e tolerância, e você pode encontrar muitas das pessoas mais ardorosas e articuladas desse grupo pedalando na Massa Crítica.

Existe tensão, de fato, entre valores diferentes que se digladiam tentando influenciar essas pedaladas em massa. Uma grande parte dos participantes provavelmente não está nem aí, desde que tenham um passeio divertido todo mês. Não há problema nisso, mas se deixarmos essas questões mais profundas de lado, nós não estaremos correspondendo a nossas próprias expectativas. Quaisquer que sejam nossas preferências pessoais, nem a Massa Crítica, nem a SF Bike Party estão se saindo bem em comunicar aos passantes o significado mais profundo de sua existência. Podemos não gostar de tudo que acontece a cada passeio, mas será que a gente não deveria se puxar mais, tentar influenciar a cultura que compartilhamos, debatendo abertamente nossos comportamentos, nossas “mensagens” (ou a falta delas) e nosso propósito?

Chris Carlsson

título original: Protest or celebration? Or Something Deeper Still?

extraído do blog Nowtopia; primeiramente distribuído pelo autor como panfleto na Massa Crítica de S. Francisco em 28 de janeiro de 2011

traduzido por Artur Elias Carneiro com revisão gramatical de Cláudia Ávila Moraes

observações sobre a tradução:

expressões entre “aspas” estão assim no original (ex.: “sem líderes”)

expressões entre (parênteses) estão assim no original

[colchetes] contém a expressão original em inglês

expressões em negrito ou em itálico estão assim no original

‘aspas’ simples foram adicionadas por mim

[colchetes em itálico] foram tbém acrescentados, para clarificação

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Sobre lobodopampa

Falar de si mesmo é contraproducente. Ah: lobodopampa e artur elias são a mesma pessoa (eu acho).
Esse post foi publicado em Massa Crítica, mobilidade, pedalada e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

23 respostas para Protesto ou Celebração? Ou algo ainda mais profundo?

  1. Jose Antonio Martinez disse:

    Parabéns pela iniciativa Seu Guará ta lobo de bom e sem mordida alguma, tu te superaste e isso que estas cheio de afazeres. Saúde e novamente parabéns pela tua dedicação docente. Saude

  2. Marcelo Sgarbossa disse:

    Lobo: parabéns!!!!

    Perdi minha senha do blog.

    Queria fazer uma postagem para abrir um debate sobre o percurso da próxima Massa. Vou ter que fazer aqui Artur, desculpe. Reproduzo o texto que coloquei na lista de emails.

    Colegas
    Aproveitando o Forum Social Temático que está ocorrendo, gostaria de
    abrir uma conversa para sugerir um bom trajeto para a próxima Massa
    Crítica
    Que tal:
    José do Patrocínio
    Lopo Gonçalves
    Lima e Silva
    Perimetral até o Gasômetro
    Andradas (parada na frente da Casa de Cultura Mario Quintana –
    atividades do FST)
    Uma volta na quadra para pegar a Riachuelo e passar na frente do
    Institutos Arquitetos Brasil (estará sendo julgado o melhor projeto a
    proteção da ciclovia)
    Volta para Andradas
    Julio de Castilhos
    Tunel
    Osvaldo Aranha (passa na frente do Instituto de Educação
    José Bonifácio
    João Pessoa
    Perimetral
    Lima e Silva
    Fernando Machado e volta para o Zumbi dos Palmares
    É um passeio mais curto, para dar tempo de ficar um pouco alí comendo
    um lanche no final.
    Abraços
    marcelo sgarbossa

  3. Naza disse:

    Algumas pessoas nos perguntaram na marcha de abertura do Fórum ontem onde alugar bicicletas em Porto Alegre e, em especial, para participarem da massa crítica. Não soube responder…

  4. E a grande pergunta é

    “SERÁ QUE PODEREMOS CONVIDAR O CHRIS PARA UMA MASSA CRÍTICA DE PORTO ALEGRE, SEM CHOCAR ELE ?”

    Pensem e reflitam muito que neste texto está o conteúdo que viemos discutindo algum tempo atrás ao respeito do comportamento das pessoas, na Massa Crítica que é um momento de exaltação do comportamento pacifista e civilizado.

    Quando falamos que outra Porto Alegre é possível, estamos falando disto, do comportamento cidadão, da paz que a bicicleta nos transmite, de nunca, mas nunca brigar; de nunca, mas nunca incitar a violência; de sempre procurar a paz por todos os meios, porque nos estamos de bem com a vida, nos somos ciclistas e como tais queremos outra cidade, que sim é possível.

    Não sou um santo, já briguei muito no trânsito e dependendo da circunstância tem vezes que tenho reações inadequadas, para o perfil comportamental que tento transmitir para todos advindo do uso da bicicleta. Este comportamento testosterona pura não é bom, mas nos foi incutido desde os primeiros anos de vida, numa ascendente vertical que, muitas vezes, transmitimos aos nossos filhos com o nosso exemplo.

    Ainda a questão dos roteiros que tanto o Pablo, aconselhou, que tivesse algum tipo de definição descobrimos neste texto que estes roteiros são planejados e tem um grupo de pessoas chamados de pássaro,s responsáveis digamos assim pela conduta e pelo percurso.

    Ainda a abordagem de que o motorista de veículos automotores é nosso parceiro e uma genial visão, não podemos brigar com ele, ele é o causador da nossa alegria, sem ele nunca poderíamos conscientizar nenhuma pessoa a andar de bicicleta.

    Nosso prazer é mais subversivo do que nossa ira

    Se estivéssemos numa empresa, adoraríamos o motorista, já que ele é o nosso cliente e como tal precisamos dele feliz e faceiro conosco.

    Nos temos, a cura para a doença dele.

    Nos temos, o produto para a felicidade dele.

    Parabéns novamente Artur pela tua contribuição e um agradecimento todo especial a Cláudia Ávila Moraes pela revisão gramatical do texto, ainda a proposta do Marcelo vem a calhar já que sim este é o momento de adequação da Massa Crítica acertando sim um percurso, que ficou muito bacana.

    To nessa Marcelo. Saúde a todos. Martinez

    • lobodopampa disse:

      apenas para clarificar:

      a atuação dos “pássaros” (monitores) é um procedimento da San Francisco Bike Party (Festa da Bicicleta), NÃO da Massa Crítica!

      Releia o texto para conferir que o Chris começa falando da SFBP, para depois falar da MC, traçando um paralelo entre as duas, fazendo uma apreciação crítica de ambas, e perguntando “para onde vamos”, ou seja, deixando em aberto e estimulando o debate e a criatividade.

    • lobodopampa disse:

      Sobre “chocar” nosso convidado, acho que não há motivo para preocupação, visto que onde ele vive existem problemas semelhantes.

      Existem diferenças, claro. Por exemplo, a nossa “Brigada da Testosterona” é bem unissex hehehe.

      Na minha opinião, baseada no que observei na Massa de Ano Novo (e em relatos de outras), comportamentos destrutivos que seria bom evitar seriam:

      – xingar ou hostilizar (ainda que sutilmente) os azuizinhos ou quaisquer outras otoridades

      – pedalar na calçada, em alta velocidade, fazendo manobras radicais (ou não)

      – tentar constranger todos os participantes a realizar uma determinada ação (p.ex. deitar na rua, ou parar completamente em algum lugar, ou qualquer outra coisa que algumas pessoas acham super “cool” mas outras não acham, e – muito importante – ao não conseguir convencer TODOS, endereçar-se de maneira raivosa, aos berros, xingando aqueles que pedem licença e tentam seguir pedalando

      (Essa última coisa ME deixou MUITO chocado)

      • Mariza disse:

        Eu não deito na rua, não tenho idade para dar pulinhos e nem por isso “quero motor”. Existem formas e formas de autoritarismo – e essa “sutil” é uma delas.Engraçado que venha de pessoas tão libertárias, mas tudo bem, já tive 15 anos…

  5. Aldo M. disse:

    Este texto é riquíssimo e inspirador – tem muito material para se trabalhar nele. Para mim, um dos grandes desafios é transmitir a essência da Massa Crítica a todos os participantes. Eu classifico a Massa Crítica como um movimento sofisticado, erudito. Sua beleza e força estão justamente na simplicidade da proposta. Não há um protesto declarado. Ele é sutil e, por isto mesmo, poderoso. Aqueles que acham que é preciso aproveitar o momento para “protestar” não entendem que já estão protestando, não com palavras de ordem mas com um massivo ato coletivo.

    É preciso também entender que este movimento tem limitações óbvias. Ele é uma ação questionadora de vários aspectos de nossa sociedade e, portanto, pode servir a vários objetivos. Ele serve para despertar as pessoas para outras possibilidades. Mas precisa ser complementado com outras formas de ação, dentre elas a própria discussão que está se fazendo aqui, por uma pequena fração de participantes ou interessados, para atingir objetivos mais concretos,.

    Então, é perfeitamente normal que a Massa Crítica atraia pessoas com diferentes objetivos. Eu diria até que todos eles são válidos, exceto quando põem em risco a própria existência do movimento. Nestes casos, temos ações de viés reacionário que se apresentam falsamente como radicais. Talvez este seja o ponto a ser ressaltado: questionar aos da “brigada da testosterona” de que lado afinal eles estão.

  6. lobodopampa disse:

    oi Aldo

    Pois é. Tbém achei o texto algo extraordinário, que vai muito além dos clichês do cicloativismo.

    Ele mexe com muitas crenças que muitos de nós têm, com certeza mexeu comigo.

    Num primeiro momento pensei em traduzir/divulgar apenas alguns trechos mais “essenciais”, depois me dei conta que isso iria destruir a suave complexidade, tão fiel à vida real, que permeia cada parágrafo – mesmo aqueles que incomodam ou que a gente talvez não concorde tanto…

    Confesso que a pouca repercussão me surpreende.

    O que terá acontecido?

    Especulando:

    – muitas pessoas leram, entenderam, concordaram com tudo e não sentiram necessidade de comentar, debater ou desenvolver o assunto

    – muitas pessoas deram uma olhada por cima, pensaram “que troço comprido”, e foram ler algo mais simples ou mais parecido com as idéias que já temos na cabeça e que não exigem esforço

    – muitas pessoas não estão nem aí pra nada que leiam, a não ser que se trate de algo “epidermicamente polêmico”

    O que mais me espanta é o seguinte: está havendo um grande esforço coletivo, na forma de arrecadação de $, para viabilizar a presença do autor deste texto no Fórum Mundial da Bicicleta. O excedente do valor arrecadado vai para as outras despesas do FMB. Mas o mote da campanha é o Chris. E a campanha vai bem, felizmente! Eu me pergunto: pessoas estão dispostas a dar dinheiro para que o Chris venha, mas talvez (aparentemente, hipoteticamente), não estão interessadas no que ele tem a dizer?

    • Vladimir disse:

      que texto bom… venho pensando nisso ultimamente, e em “entender” + os motoristas do que odiá-los. É difícil pela minha natureza, mas venho tentando me mudar e ao invés de xingar, pelo menos gritar alguma coisa que faça sentido “vc tá me prensando no meio-fio, presta atenção” ou algo assim. É difícil, mas estou tentando mudar. É que ‘as vezes, ao enfrentar resistência e descer da bicicleta na ciclovia pra explicar pra alguém (algum macaquinho) que está fazendo caminhada, que aquilo é uma ciclovia, e que ela PELO MENOS deveria andar do lado esquerdo (e não direito, de quem está indo), a pessoa ñ entende de jeito nenhum, e isso me faz perder um pouco a esperança. Tenho a impressão que vivemos num país onde as pessoas são MUITO mal-educadas e pronto, é isso. Ainda bem que vocês são otimistas meus colegas! Preciso disso.

  7. Meu amigo Guará das pampas, sempre quando lemos um texto destes que são no mínimo polêmicos, com as nossas idéias preconcebidas, tentamos não pensar muito e deixar de lado para momentos mais necessários. Falo de necessários porque existem momentos nas nossas vidas em que necessitamos questionar nossos ideais.
    Mas to aqui, voltei a cena do crime. Dizem que todo assassino volta à cena do crime. E estou aqui, mas tu acho que foste o assassino eu só voltei de curioso, até me perguntando o mesmo que tu comentou com o Aldo.
    Sinceramente este texto no fundo é a legítima terapia do Analista de Bagé, aquela do chute nos colh…. , que faz tu cair na realidade e tens que reavaliar se todo o que tu achaste até hoje da Massa Crítica, é realmente aquilo pelo qual tu te alinhaste a ela.
    As vezes quando éramos muito jovens, chegávamos num movimento ou numa manifestação e entravamos nela (ano 68) e nem pensávamos muito o porque dela existir e íamos nos aliando, sempre pensando em nossos objetivos e achando que existia alguma identidade que nos levava a apoiar todo o conjunto.
    Grandes chavões serviam para todo, por exemplo luta contra a guerra do Vietnã, luta pela liberação do Mohamad Ali, etc.
    O ser humano nunca foi diferente, ele quando está descontente, procura bandeiras para empunhar, se alia a outros e sai na luta sem querer explicar muito os porquês.
    A questão da Massa Crítica e seus desdobramentos no mundo parecem ter sofrido este tipo de influências e ter sido em cada país uma coisa e com comportamentos diferentes e no Brasil como se diz usualmente “o movimento foi tropicalizado”.
    Participei da Massa Crítica de Portugal que tem lugar em várias cidades da terrinha e fiz meu cadastro na internet para poder participar do fórum de debates deles e sinceramente vejo que lá existe um processo de conscientização profundo, para que as pessoas larguem o carro (distribuem milhares de panfletos) e durante a bicicletada abordam as pessoas para conversar e conscientizar. Só por curiosidade da uma olhada no site deles http:\massacriticapt.net e verás a quantidade de material para imprimir banners, flyers, cartazes, fitas para guidão, etc. Este movimento é extremamente pacífico e integrador quando realiza a Massa Crítica.
    Tem algumas coisas que ainda desafiam a minha inteligência e se trata de como poder ajudar a crescer, um evento que é horizontal?
    Por exemplo, em Porto Alegre o atropelamento sem querer, ajudou a crescer mas isto no mínimo é ridículo, porque assim chegamos novamente a 1968, em que em alguns paises se procuravam vítimas, para poder ter bandeiras. Me lembro, que num lugar da América (del qual no quiero ni acordarme), um policial foi agredido, foi tirada a roupa dele e quando ele revidou puxando a arma, se teve assim a primeira vítima do país.
    Este sistema de crescer por desgraça é muito ruim, o legal seria crescer por reconhecimento, mas para isto precisa um programa estruturado de conscientização e até uma ação política (o Chris acha ruim) como explicar para as pessoas o que Chris fala que o melhor e atuar corretamente, porque é este o comportamento mais revolucionário.
    Num post anterior falamos do importante que é que cada dia tenha mais pessoas nas ruas pedalando, mas isto só é possível conscientizando as pessoas e como faze-lo se em determinados momentos se existem ações ríspidas e agressivas ou até chocantes, desnecessariamente?
    Não é querer colocar mordaça em ninguém, todo pelo contrário e querer ensinar às pessoas, que elas são tão livres, mas tão livres, que estão ocupando ou retomando por alguns instantes um lugar que lês pertence e que lês fora tirado pelos carros e que este protesto demonstrativo é tão imensamente grande, que não precisa mais nada, é só pedalar com liberdade oferecendo flores e informação para os motoristas, fundamentalmente convidando eles a se unir ao nosso momento.
    Bom acredito que estas sejam algumas reflexões aleatórias que não sei se ajudam ou complicam mais, mas que funcionam como uma catarse de idéias que foram movidas com o artigo. Saúde

    • lobodopampa disse:

      Valeu Aldo e Martinez pelas reflexões e complementos tão bem contextualizados.

      Quanto mais penso, mais me parece que o que “falta” a esse post para que ele se torne “popular” é realmente o maniqueísmo. Aquela coisa “nós” versus “eles”. Nós bonzinhos, eles malvados. O “sistema” que nos “massacra”. Etc.

      A grande mídia (tão mal-falada aqui neste blog, curiosamente! – que ironia) – se alimenta justamente desse condicionamento e por isso tenta sempre se comunicar destacando polêmicas, e, quando não há nenhuma, inventando-as na maior cara de pau. Pode-se ler a grande imprensa caindo nesse jogo ou apenas assisti-lo. Assim como se pode reproduzir neste e noutros espaços alternativos esse condicionamento que assegura a pertuação do maniqueísmo e de uma visão simplista e infantil de sociedade.

      Compañero Martinez (desculpem), nasci justo no “ano que não acabou”, 1968. Em uma família na qual pessoas arriscaram a vida e tudo mais, duas gerações antes, na luta libertária por dignidade e direitos mínimos.

  8. Pingback: Massa Crítica com pique-nique «

  9. Meu Caro Guará, sabes que 68 não terminou e isto quer dizer que muitas coisas pelas quais estávamos lutando continuamos até hoje atrás delas. E as oportunidades estão aí. A luta aquela libertária continua porque a cada dia vemos mais liberdades que nos foram tolhidas desde o começo do mundo, a cada dia vemos mais coisas que estavam erradas e só não sabíamos ou não tínhamos tomado conhecimento disto ou não estávamos preparados para vê-las. Te garanto a luta de hoje é melhor que aquela que era muito ingrata e desajeitada, a de hoje é mais evidente e as pessoas enxergam as enrolações com maior facilidade. Ontem uma jornalista mostrou como a aurora boreal estava bonita, no hemisfério norte e falou que nunca tinha sido visto algo tão bonito e foram mostradas às imagens e fiquei pensando quem não conhece ou nunca viu, não tem como mensurar isto; o conceito de maior e menor e com algum referencial predefinido e quando não vemos ou não conhecemos não temos como manifestar o assombro ao respeito de algo; assim são as liberdades, assim são os direitos. Naquele ano fatídico nenhum de nos imaginou, por exemplo, que as mulheres sempre tinham sido relegadas nos aspectos profissionais ou que não era ético fazer pesquisas com animais e tantas outras coisas que não enxergávamos porque recém estávamos abrindo os olhos ao novo, ao admirável mundo novo. São só lamentações que não levam a lugar algum mas que mesmo assim as vezes são referenciais.

  10. Pingback: Relembrando o Chris | Vá de Bici

  11. Pingback: “Por que as bicicletadas são subversivas” | Outras Mídias - Outras Palavras

  12. vigario disse:

    Olá senhores bem li o Chris, depois li o que vocês postaram, pois bem fiquei realmente com outro pensamento da Massa Critica. Bem fui atropelado, fiquei no asfalto, sai disto com o pensamento, depois de acordar, kk que deveria desacelerar com a bicicleta mesmo estando com rasão, pois estava eu certo, mas eu era o pequeno na mão certa, sinal verde, lomba abaixo, trabalhar, desvantagem era grande perante os carros e outros, fui cortado por um veiculo , voei. kkkk Dai conheci a Massa Critica, fui direto com o pensamento de protesto, em cima dos carros, cheio de razão, pois queria minha fatia do asfalto, mas lendo tudo isto achei bem legal, e o próximo vai ser um passeio de trocas, gentilezas , descobridor , vai ser diferente. Obrigado falem mas.

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