A morte de Joel e os crimes dos motoristas, do poder público e da imprensa.

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Na manhã deste domingo, 8 de fevereiro, Joel Fagundes foi morto por um taxista na Avenida Severo Dullius, na Zona Norte de Porto Alegre. Antes de qualquer tipo de investigação sobre as causas do acidente, o jornal Zero Hora se apressou em divulgar que “segundo informações preliminares” o ciclista estaria sem capacete – já transferindo parcialmente para a vítima a culpa pela sua morte.

O jornal também salienta o estado mental do condutor do táxi após ter matado Joel: “ficou muito abalado”. Mas não faz a menor menção ao estado em que ficou a vítima. Joel Fagundes era casado, e deixou duas filhas.

Ao mesmo tempo, não há nenhuma menção ao grande número de infrações cometidas diariamente pelos taxistas de Porto Alegre. As infrações são tão freqüentes, principalmente o excesso de velocidade e o desrespeito aos semáforos, que é tarefa quase impossível encontrar taxista que respeite as leis de trânsito. Isso também vale para outros motoristas “profissionais” como condutores de ônibus e lotação.

Basta olhar as fotos publicadas pela própria Zero Hora para perceber que o motorista estava em velocidade muito acima da permitida na via: o estado em que ficou o táxi não condiz com o impacto contra o corpo de uma pessoa em baixa velocidade, seria preciso uma alta velocidade para afundar o capô do carro como na foto abaixo.

Foto: Ronaldo Bernardi / Agência RBS

Foto: Ronaldo Bernardi / Agência RBS

O jornal ainda falhou ainda ao não relatar a culpa do poder público: culpa da EPTC que não fiscaliza com rigor o comportamento do motorista e do próprio Executivo Municipal, nas pessoas dos senhores José Fortunati e Sebastião Melo, que falham na implementação do Plano Cicloviário de Porto Alegre (PDCI) – preferem esvaziar os cofres públicos com duplicações de avenidas e construções de viadutos, obras que incentivam ainda mais o excesso de velocidade.

A tragédia poderia ter sido evitada se a Prefeitura Municipal implementasse as ciclovias com maior rapidez, pois o PDCI prevê ciclovia em toda a extensão da Avenida Severo Dullius, onde morreu Joel. Nenhuma novidade aí, já que Daíse e Patrícia também morreram ano passado em vias onde deveriam haver ciclovias. Se houvessem ciclovias nestes locais, as vítimas pelo menos teriam estado protegidas da imperícia e imprudência dos condutores de veículos. Mas Fortunati e Melo fracassam em cumprir suas próprias promessas e metas: tinham prometido cumprir o artigo 32 do PDCI  e construir 50km de ciclovias até o final de 2014. Resultados: não conseguiram cumprir a lei e acabaram modificando-a para não serem obrigados a cumprí-la pelo Ministério Público e o ano de 2014 terminou e não havia nem metada dos 50 km de ciclovias prometidos.

Para completar, a morte ainda acontece a pouco mais de duas semanas antes do aniversário de quatro anos do atropelamento coletivo da Massa Crítica em Porto Alegre, e o agressor Ricardo Neis ainda não foi nem a julgamento. Isso comprova também a cumplicidade do sistema judiciário brasileiro, que pouco tem de justiça, na sensação de impunidade que permite com que os condutores de veículos façam o que bem entenderem no trânsito.

Tradução livre: Homicídios com arma de fogo para a esquerda, com carros para a direita.

Tradução livre: Homicídios com arma de fogo para a esquerda, com carros para a direita.

 

 

 

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11 respostas para A morte de Joel e os crimes dos motoristas, do poder público e da imprensa.

  1. Aldo Maraschin disse:

    Quando participei de uma edição do Conversas Cruzadas, o apresentador Cláudio Brito me provocou num dos intervalos: “E se vier um ciclista em alta velocidade, cruzar o sinal vermelho e se chocar contra um carro, de quem será a culpa?”. Respondi: “Bem, se o ciclista morrer só irá restar a versão do motorista”. Ele ficou calado por um tempo e, com sua experiência jurídica, admitiu: “E, nesses casos, dificilmente, o motorista é condenado.”

  2. André Gomide disse:

    Vou conversar com o Macedo amanhã na loja dele….acho que chegou a hora de sitiar os verdadeiros responsáveis destes homicídios.

  3. Lucio Ritter disse:

    Brasil e RS. País e estado de POLÍTICOS CÍNICOS E COVARDES !!!!!

  4. Eduardo disse:

    Mas para se autoconceder vantagens pecuniarias o judiciario é extremamente ágil. Já sei: apenas cumprem a lei.

  5. lurochasp disse:

    O Brasil é o país da impunidade, principalmente da impunidade de homicida que usa o carro como arma. Por causa da ditadura do automóvel, da carrocracia, as ruas do Brasil são o inferno que são para pedestres, ciclistas e até animais. A solução, além das ciclovias, é reduzir a velocidade máxima das ruas e avenidas. Motoristas de ônibus aqui em Porto Alegre não podem dirigir na alta velocidade com que dirigem, inclusive em corredores exclusivos. Não dá mais para admitir que pessoas imprudentes e irresponsáveis recebam do Estado licença para dirigir.

  6. Não nenhum comentário sobre a questão do capacete… por isto faço uma pequena contribuição. Muito embora o capacete seja um item necessário da proteção do ciclista, não faz parte da lista de itens obrigatório para o condutor da bicicleta. Neste caso, acho irrelevante citar ou gerar atenção sobre, principalmente por parte da imprensa, o capacete. Uma vez que ele não se torne obrigatório pelo CTB, não faz diferença se a vítima usava ou não. Não estava a bicicleta sendo mal usada por não haver capacete na cabeça do ciclista e também não vejo como um impacto daquela natureza, com capacetes simples, pudesse ter desfeche diferente do ocorrido. O corpo humano é frágil frente a qualquer impacto, em especial com relação a automóveis. Lamentável é pensar e refletir, quase que inutilmente, a respeito de mais uma vítima. Não há nenhuma possibilidade de conserto desta situação, e a curto prazo, não se imagina uma melhoria sobre este assunto de relevância ímpar na mobilidade.

  7. Eu uso bicicleta para deslocamento urbano.
    No mínimo 3 vezes por semana eu deixo o automóvel na garagem e faço tudo de bicicleta.
    Nesses 4 anos como ciclista depois de adulto(68 anos) , venho registrando imprudências tanto praticadas por ciclistas qto e principalmente por taxistas e moto boys.
    Ciclistas em alta velocidade sobre as calçadas pondo em risco pedestres?
    Sim, já vi diversas vezes.
    Ciclistas costurando no trânsito por entre os carros? Cansei de ver.
    Moto boys arrancando suas motos sem ver a aproximação do ciclista, muitas vezes em alta velocidade?
    Sim, qse sofri um acidente descendo a Protásio Alves.
    Taxistas e automóveis passando rente à minha perna?
    Várias vezes.
    Andar em ciclovias por mais precárias que sejam é o ideal.
    Com a falta delas, em trechos perigosos deve-se andar pela calçada sempre lembrando que o pedestre ali é soberano.
    No momento em que o trânsito aliviou, voltar pro asfalto.
    Quanto aos motoristas inábeis ou truculentos, só resta serem educados e serem hábeis ao dirigir, respeitando o espaço e a distância do ciclista.
    Eu não acreditava em capacete até que me mudei e comecei a descer a Protásio Alves.
    Hoje só ando de capacete e luvas.
    Triste Joel… se soubesse que vc era do ramo, já teríamos saído juntos para pedalar.
    Vai em paz ”colega”.

  8. Aldo Maraschin disse:

    A velocidade máxima de uma via precisa levar em conta, por exemplo, a presença de entes vulneráveis, como ciclistas, pedestres, idosos, crianças, enfermos, etc. Eu desconfio que, em Porto Alegre, a determinação da velocidade máxima é completamente arbitrária, passa ao largo de critérios de Engenharia (e talvez até dos engenheiros), e as placas de 60 km/h são distribuídas ao longo de todas as vias que convencionaram chamar de “arteriais”. Aliás, este é um nome que evoca a prioridade absoluta do fluxo “vital” dos automóveis sobre tudo e sobre todos.

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