Administração Fortunati: violação de leis, desrespeito ao meio ambiente e à qualidade de vida – tudo pelo carro.

Recentemente, a Mobicidade noticiou a construção de novo trecho da rua Dona Alzira, na Zona Norte de Porto Alegre, obra que viola o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) por não apresentar a estrutura cicloviária respectiva exigida pela lei.  O PDCI diz que em toda sua DSC04248extensão a rua Dona Alzira deve contar estrutura cicloviária (ciclovia ou ciclofaixa, vias exclusivas para bicicleta), mas não foi o que a administração municipal fez. Sabe-se lá por qual motivo (carrocentrismo galopante?) os planejadores de Porto Alegre resolveram que seria interessante deixar de lado a implementação de ciclovia ou ciclofaixa e colocar pedestres e ciclistas para compartilhar uma faixa de 2m de largura, enquanto destina 18m da via para o trânsito de automóveis particulares.

Aquelas pessoas que participaram de reuniões com a EPTC ou já viram seus representantes explicarem em debate porque as ciclovias de Porto Alegre não são o ideal, com certeza já ouviram argumentos do tipo: “a cidade já está estabelecida”, “temos que trabalhar com o espaço que está aí”, “as ruas de Porto Alegre são estreitas”, “se retirar espaço dos carros o prefeito não se reelege”. Essa última foi uma pérola soltada por Vanderlei Cappellari, em reunião com usuários de bicicleta lá por 2011. Isso tudo nos levou a pensar: Como a EPTC faria uma rua nova? Como seria o projeto deles em cima de uma folha em branco?

A resposta é: pior ainda.

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Se as ciclovias entregues até então pela EPTC estão aquém das expectativas de seus usuários, a nova ciclovia da rua Dona Alzira vai surpreender: ela não existe. Deveria, por que a lei manda, mas não tem. Provavelmente numa tentativa fracassada de cumprir a lei depois de ter terminado a obra (“Seus burros, esqueceram da ciclovia!”, pode ter bradado alguém lá dentro), a EPTC criou um novo conceito em ciclovia: a ciclovia compartilhada com pedestre. Um paradoxo, pois a definição de ciclovia é ser uma faixa exclusiva para ciclistas. Mas esta é uma faixa exclusiva para os ciclistas, onde os pedestres podem circular e tem a preferência.

Acompanhar o raciocínio dos técnicos desta cidade não é para qualquer um.

É como a Av. Ipiranga, só que sem as árvores.

É como a Av. Ipiranga, só que sem as árvores.

Esse novo trecho da Rua Dona Alzira, entregue na semana passada  é feito com a mentalidade rodoviarista do século passado. E isso é facilmente comprovado, basta compará-lo com a Avenida Ipiranga, projetada e construída na década de 1940. Como na Avenida Ipiranga optou-se por canalizar o arroio deixando a via o mais reta possível, com três faixas para automóveis de cada lado do canal, sem estrutura específica para transporte coletivo, sem ciclovia ou ciclofaixa, etc. A principal diferença é que a Av. Ipiranga tem o arroio mais largo no centro. Ah, e ela também tem mais árvores! Estamos pior do que no século passado!

Por incrível que pareça, a nova via da Zona Norte tem 1,4km de passeio público recentemente feito, com piso de concreto, onde não há um único espaço reservado para o plantio de árvores. Isso além de uma completa irresponsabilidade ambiental, também mostra que a atual administração municipal tem zero de preocupação com pedestres e ciclistas, que terão que derreter sob o intenso sol de Porto Alegre. E depois ainda temos que agüentar esse pessoal dizendo que “não tem mais espaço para se plantar árvores em Porto Alegre”. Tenho certeza de que qualquer pessoa que caminhe ou pedale bastante pela Capital pode citar de cabeça uma dezena de ruas e avenidas que podiam ter mais árvores.

Mas vai ver foi com o plantio de árvores em mente que resolveram fazer o piso das calçadas com um material tão frágil, mas tão frágil que menos de uma semana depois de a obra ter sido entregue, já está todo quebrado e rachado. Agora fica fácil plantar, é só remover os torrões de cimento e pronto!

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É engraçada também a opção da administração municipal de canalizar o arroio, bem como nos moldes da Av. Ipiranga, depois de ter assinado um termo para revitalizar o arroio Dilúvio que se degradou muito após ter sido canalizado com a construção da avenida. A idéia é degradar também o arroio da Dona Alzira para revitalizá-lo no futuro? Mas esse Fortunati é muito astuto!

Dá um desespero ver o que está sendo feito e compará-lo com nossos sonhos, com o que poderia ser feito em Porto Alegre. É muita falta de visão. É muita falta de abertura para novas idéias.

Se a idéia de expandir a Dona Alzira e conectá-la com a Av. Severo Dullius para fornecer um novo acesso ao aeroporto, por quê limitar-se a pensar esse acesso em automóvel? Os automóveis já tem acesso ao aeroporto, na verdade, são que mais tem acesso. É tão fácil chegar lá de carro que é praticamente impossível chegar a pé ou de bicicleta.

Por quê não pensar nessa conexão da Dona Alzira com a Severo Dullius tendo como prioridade o transporte público coletivo, a bicicleta e o pedestre? Por sinal é isso que manda o Plano Diretor de Porto Alegre, bem como a Política Nacional de Mobilidade Urbana.

Trecho por onde passará extensão da D. Alzira é das últimas áreas verdes da Zona Norte.

Trecho por onde passará extensão da D. Alzira é das últimas áreas verdes da Zona Norte.

Por quê não fazer essa ligação com um corredor verde, exclusivo para bicicletas e pedestres, sobrevoado por uma extensão do aeromóvel, que poderia ir até o Terminal Triângulo? Por que não abrir uma via mais estreita do que a prevista, exclusiva para a circulação de ônibus e bicicletas e reservar o restante do espaço para um caminho verde para pedestres, integrado com o arroio e com a natureza ao redor? Por que não utilizar essa área para um parque ou reserva e otimizar as vias já existentes, priorizando o transporte coletivo?

É triste que em pleno Século XXI tenhamos uma política  de espaços públicos tão ultrapassada sendo posta em prática, acabando com espaços verdes, removendo áreas de parques já consolidados, criando estacionamentos sobre praças e todo outro tipo de descalabro, tudo para priorizar o modo de transporte mais ineficiente, ambientalmente devastador e fatal, que é o automóvel.

 

 

 

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17 respostas para Administração Fortunati: violação de leis, desrespeito ao meio ambiente e à qualidade de vida – tudo pelo carro.

  1. phrayres disse:

    Ciclovia “qualificada”, nos moldes da Restinga. Padrão construtivo qualificado, nas palavras do próprio Capellari, como pode ser conferido no áudio abaixo. Pardon a baixa qualidade do som, gravado com celular. Para quem não tiver paciência de ouvir, os dois primeiros minutos bastam.

    Talvez por algum descuido administrativo, na Restinga esqueceram as placas de compartilhamento com pedestres. Ou pressa de se eleger mesmo, já que essa ciclovia foi inaugurada às vésperas da eleição. No mesmo evento inaugurou-se a LICITAÇÃO das lotações Restinga e Belém Novo, que até hoje não existem.

    E la nave va.

  2. phrayres disse:

    Aproveitando, deixo meus elogios à atual administração:

  3. Pablo disse:

    Eu não achei a ciclovia tão ruim, o mais triste é não ver uma árvore ao longo do caminho, tornando a passagem a pé ou de bicicleta muito ruim.

    O certo mesmo é isso aqui, mas…

    • Diego Canto Macedo disse:

      Por ser uma via nova e aberta acho que ficou muito ruim Pablo. Se estivéssemos falando de uma rua pequena no centro da cidade eu concordaria contigo. O contexto (ter a oportunidade de fazer algo decente e dentro da lei e não fazer), para mim, torna ela uma verdadeira piada e não uma ciclovia. Eu simplesmente não vou usar isso quando passar por ali. Acho que não podemos admitir a hipótese de, em ruas e avenidas novas, sermos colocados em cima das calçadas com os pedestres.

      • Marcelo disse:

        Uma coisa é ser no mesmo nível da calçada, mas num espaço amplo e com separação de espaços, o que eu não vejo problema. Outra coisa é ser em cima da calçada tirando espaço do pedestre ou compartilhando um espaço estreito.

        Se as pistas fossem mais estreitas, ou tirassem uma das daixas de veículos com 3m de largura. Dava pra deixar 2m pra uma ciclovia de verdade em nível com 3m de passeio para pedestres e dava pra plantar árvores a dedéu.

      • Diego Canto Macedo disse:

        É verdade Marcelo. A calçada tem que ter uma largura razoável para poder fazer esse tipo de marcação sem prejudicar o pedestre (o que, obviamente, não é o caso da Dona Alzira).

    • Marcelo disse:

      Podes até não achar tão ruim, Pablo, só não vem dizer que é ciclovia, porque não é. Segundo o próprio PDCI, artigo 8º, item 2:

      “ciclovia toda pista destinada ao trânsito exclusivo de bicicletas, aberta ao uso público, separada da via pública de tráfego motorizado e da área destinada aos pedestres;”

    • Felipe X disse:

      Eu não acharia tão ruim se não soubesse que vai virar justificativa para os motoristas darem “finas educativas” nos ciclistas ali, como já acontece na beira rio por exemplo.

  4. phrayres disse:

    Aproveitando o ensejo, é digno de nota essas mega ampliações de pequenos trechos de vias como se fosse a sacrossanta solução do trânsito. O problema atual do motorista não é a distância, é ficar parado. E quanto maior a via, maior a frustração. Vide o binário que vai ser feito Borges – Praia de Belas. Vai engarrafar igual, e vai ser mais rápido percorrer o trecho de bicicleta por dentro do parque.

    Os constantes engarrafamentos distorceram a noção de distância. Passa-se muito tempo travado percorrendo pequenas distâncias.

    As empreiteiras devem adorar essa distorção de percepção, já que abre brecha para fazer mega avenidas em distâncias ridículas. Não quero nem pensar em corrupção…

    • heltonbiker disse:

      Tocaste em um dos cernes da questão: vias que são alargadas para, além de induzirem demanda (de forma ilusória), simplesmente aumentar a velocidade até o próximo gargalo. Quem viver verá…

  5. Felipe X disse:

    Acho que o que vai salvar ali é que por enquanto não deve ter quase fluxo de pedestres né? Parece meio que um vazio urbano… Mas não conheço a região.

    De qualquer forma é lamentável isso, mais uma vez se cria uma estrada dentro da cidade. Lamentável não ter árvores nela (nem espaço para isso). E a ciclovia… bem, tocaram uma tinta vermelha na calçada para poder botar nas estatísticas mais alguns km’s de ciclovia.

    Sabe né… quando usam a estatística num site tipo o Mobilize eles só repetem o dado, não verificam a qualidade da obra.

  6. Pablo disse:

    Essa pavimentação de concreto, ou se faz realmente bem feito ou não vai durar um ano. Ou se faz uma fundação de pelo menos 1m ou logo veremos degraus nas juntas de dilatação.

  7. André Gomide disse:

    Voltando depois de uma longa parada……mais que merda, não mudou nada na cidade????/ Alias, mudou sim, criaram um novo invento para chamarem de ciclovia.
    Contando os dias para o fim deste governo ou da cidade, o que vier primeiro.

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