Cicloativismo, por onde anda?

Apesar de pedalar desde que me conheço por gente (nas ruas faz uns vinte anos), desconhecia o evento Massa Crítica até acontecer o nefasto atropelamento em 2011. Como morador da periferia, esse tipo de evento simplesmente não existe. Simples assim.

Menção honrosa aos ciclistas que começaram o evento em Porto Alegre, poucos e valorosos, lá pelo ano de 2008. Sim, a bicicleta não foi criada por Ricardo Neis, ela já existia.

Pós-atropelamento, o evento se popularizou, aumentou o número de participantes, pressionou as autoridades num primeiro momento, e depois…

Depois essa administração desastrosa seguiu incentivando o uso do automóvel, enquanto fingia dialogar com ciclistas. No plano federal, passaram-se anos e anos de isenção ou redução do IPI sobre automóveis (notem: sobre automóveis, não sobre bicicletas). A frota de veículos cresceu exponencialmente. Veio a Copa autorizando todo tipo de baixaria na mobilidade urbana: viadutos onde não passam coletivos, BRT de mentirinha e que não ficou pronto, quintuplicação de vias onde também não passam coletivos.

Esse cenário e mais uma conivente campanha da imprensa, tornou o trânsito mais e mais agressivo. E as aparentes conquistas da Massa Crítica foram… pelo ralo. Obviamente isso não impediu um forte hype da bicicleta nos últimos anos, inclusive inflacionando o mercado de bicicletas e acessórios.

E aí vem outro lado nefasto: o popular veículo barato vem se tornando mais e mais caro. Por causa do hype. Enquanto as condições de mobilidade só pioram. Uma equação que não fecha.

O que vou dizer a seguir é extremamente antipático, mas como tudo nesse blog, reflete a opinião de quem escreve, não uma opinião geral, então lá vai: parte do cicloativismo tem como meta se legitimar como não-pobre. Poder usar a bicicleta nos seus círculos sociais sem ser mal visto. Curto e grosso: sem ser considerado pobre. Pode até ser involuntário, a psicologia explica.

Divagações à parte, considero a Massa Crítica uma celebração bonita, ver ruas sem carros, mesmo que por alguns momentos, é refrescante para o espírito. O problema é o passo adiante: usar a bicicleta no dia a dia. Celebrar uma vez por mês uma coisa que não faz parte da sua vida é como… peidar na farofa.

Em resumo, o evento sozinho é ineficiente, e até irrelevante na periferia da cidade. Não é à toa que a maior parte dos ciclistas que morrem atropelados são da periferia. Não há infraestrutura, o trânsito é selvagem, e a atenção da mídia é pouca. A infraestrutura que deveria começar pela periferia, começa (ainda que mambembe) no centro. A se pensar.

Abraços e sigamos pedalando!

Esse post foi publicado em Massa Crítica, mobilidade, políticas públicas, video. Bookmark o link permanente.

7 respostas para Cicloativismo, por onde anda?

  1. Pablo disse:

    Sempre penso que o melhor cicloativismo é a bicicleta na rua, todos os dias e vestido normalmente, fazendo suas atividades normalmente e de bicicleta.

    • phrayres disse:

      Pablo

      Normal é muito relativo. É apenas questão de acostumar-se. A tecnologia e a ciência estão aí para ajudar. Camisa de ciclismo com zíper e bolsos traseiros, uma bermuda de lycra acolchoada e sapatilhas são boas para pedalar. Se o mundo acha esquisito, é falta de costume. Num imaginário futuro em que muitas pessoas usem esse equipamento, cheguem no trabalho e troquem de roupa, vai ser normal.

      O que eu não entendo é a aversão que alguns tem a “parecer um atleta”. Dizem que afasta o público por passar uma imagem de que é preciso toda uma indumentária para pedalar. Não é preciso, é apenas possível. Uma das tantas possibilidades. Considero bem mais produtivo explicar a utilidade do equipamento do que criar um conceito de cyclechic desnecessário. Uma vez entendida a coisa, cada um faz a sua escolha.

      Como comparação, imagine um corredor. É de se esperar que ele esteja vestido de certa forma para correr, e não é considerado estranho. Em parte porque imagina-se que um corredor está APENAS se exercitando, e nunca INDO a alguma parte. Mais uma vez: tudo questão de costume.

      Abraços!

      • Pablo disse:

        Mais ou menos… Analisaste o conceito de relativo sem considerar o aspecto temporal. Vou contar a minha história com a bicicleta que fica mais fácil.

        Inicialmente comprei uma bicicleta para fazer algo aos domingos, indo mais longe e conhecendo lugares que estão muito longe para ir a pé e de carro é ruim de parar e não se vê nada quando se passa rápido.

        Depois de um mês comecei a ir para o trabalho de bicicleta, pois notei que o trajeto entre minha casa e o trabalho era tranquilo.

        Atualmente uso a bicicleta direto e raramente o carro. Uso todos os dias para ir ao trabalho, vou ao centro, faço passeios ciclísticos e as vezes participo de algumas provas. Em cada uma das atividades tem uma vestimenta mais adequada, como era de se esperar, mas são atividades distintas.

        No meu primeiro mês eu poderia ser criticado por só usar a bicicleta para passeio, no fim de semana. Nas provas posso ser criticado por estar “vestido de atleta e não contribuir para redução do trânsito, não usar ciclovias…”.

        Mas note que essa mudança foi acontecendo aos poucos, foi gradual, e o relativo foi mudando com o tempo.

        Imagine o cara que quer começar a pedalar e todos estão sempre fardados do pé a cabeça para a bicicleta, como esse cara começa?

        Há um casal de amigos maus que desistiram da bicicleta porque nos passeios ciclísticos encheram o saco deles por causa do capacete e luva.

        A diversidade também se aplica ao mundo da bicicleta. Todos devem ser bem vindos, desde o atleta até o senhora com o cachorro na cestinha.

        Acho uma certa prepotência pensar que as pessoas “devam se acostumar”, ao invés de olharmos para nós mesmos e aceitarmos as pessoas como são e elas que decidam se vão se acostumar ou não.

  2. Bom texto, concordo praticamente tudo que está escrito nele. Uso a bicicleta diariamente há alguns anos, tanto para o deslocamento para o trabalho quanto para as demais atividades da minha rotina e considero que a melhor forma de mostrar para as pessoas que é possível resolver os problemas cotidianos de deslocamento com a bicicleta é ver e ser visto como ciclista.

    Pessoalmente, como forma de ajudar a criar uma cultura de respeito à bicicleta, ajudo a organizar um grupo de ciclistas no meu trabalho para conscientizar e incentivar os colegas a tentarem se deslocar de bicicleta (e obtermos de nossa empresa as condições necessárias para isto) e já obtivemos alguns sucessos.

    Sempre que possível vou na Massa, mas como diz o texto, as vezes a celebração mensal da bicicleta não é o suficiente para conseguirmos mostrar que somos parte integrante do trânsito.

    Assim como vestir a camiseta do cicloativismo e fazer do cyclechic um estilo de vida ( com todas aquelas morais chatas sobre “como o ciclista urbano deve parecer e se comportar, quais equipamentos, roupas e bicicleta usar”) também não torna ninguém melhor: Há cerca de uma semana, por exemplo, vi gente que sempre está na massa berrando “mais amor, menos motor” passar o sinal vermelho, e tocar a bicicleta sobre os pedestres que estavam atravessando na faixa.

    Entendo a importância da Massa, e acho ótimo pedalar com ela, mas acho o “cicloativismo” deve ser um processo diário e constante, algo que transcende a ultima sexta feira do mês.

    Boas pedaladas a todos !

    • phrayres disse:

      É, Gilson, oprimir o pedestre é uma das coisas que mais me desgosta nesse mundo do “ciclismo urbano”. Mas é a humanidade sendo a humanidade: o opressor troca de roupa, não de caráter. No caso, troca de veículo.

      Não digo que o ciclista deva ficar parado num sinal para carros, onde não está acontecendo absolutamente nada, para depois ter que arrancar junto com uma manada de carros apressados. Essa é uma argumentação para outro momento. Mas pedestre é prioridade sempre.

      Aliás, como moro no extremo sul de Portalegre, devo ser considerado um ciclista rural? :p

      Abraços!

  3. André Gomide disse:

    Pelo texto Aires…tb passei por diversas fases….mas sabe que na faculdade é normal eu utilizar a bici, no início eu era um ET para gurizada de 20 e poucos anos, agora já tenho adpetos.
    Adorei a sua definição da troca de rupoa e não caráter.

    Aproveitando…saudade dos amigos

  4. André Gomide disse:

    digo…belo

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