Dia das crianças e o triunfo da motinho elétrica

No vídeo, a Av. Tramandaí congestionada numa tarde de domingo, como quase todos os domingos. E o dia era das crianças. Na rua paralela a essa, também congestionada, as crianças brincavam na orla com suas novas motinhos, patinetes, skates… elétricos.

Não há mais ruas para brincar. A todo momento os pais preocupados gritam “olha o carro!”. E esta cidade, que é apenas um espaço de passagem entre centros comerciais, serve apenas para isso: consumo. E daí a motinho elétrica. Porque correr com seus filhos, jogar bola, ficou desusado. E cansa. Desacostumado a se movimentar, o pobre bípede implume está debilitado. Seriamente debilitado. E transmite sua debilidade para os filhos. Compra o brinquedo que move o filho. E o filho se move cada vez menos. E a rua, que seria o espaço do filho brincar, praticamente não se move. Mas segue sendo perigosa, como num lúgubre desfile de mamutes em câmera lenta.
Por sua vez, a autoridade enfatiza os cuidados que a criança deve ter ao atravessar a rua (https://www.facebook.com/DetranRSoficial/photos/a.177572875784063.1073741828.167301056811245/290748101133206/?type=1&theater). Evidentemente, mães e pais devem ensinar estes cuidados aos filhos, mas a ênfase recai no pedestre, e não no motorista que deve ter cuidado ao transitar. As duas coisas coexistem, é claro, mas a ênfase da campanha diz muito sobre a visão de cidade de cada um.
Datas rituais servem para lembrar periodicamente valores que nos guiam. Valores que negligenciamos no dia a dia, e nos emocionamos ao sermos lembrados em alguma data periódica. Por que um dia das crianças se todos os dias as crianças fossem cuidadas, tratadas com dignidade, etc? E é exatamente aí que estamos falhando. Na questão da mobilidade em particular, construir um ambiente seguro em que as crianças possam ir à escola de bicicleta, a pé, de ônibus, em grupos. E não cada uma isolada em seu casulo familiar, entregue como uma encomenda à porta da escola.
Como diz a canção do vídeo, saudosista, o progresso não pode parar. A transformação da sociedade é constante. Mas o tipo de transformação não é pré-determinado. É construído por nós, dia a dia. São escolhas. Tolerar um ambiente que isola ou mutila ou mata uma criança é uma escolha. A escolha entre a velocidade máxima de 60km/h em vez de 30km/h. Escolha de vias rápidas, largas, hostis. Escolha por locais fechados para brincar (para quem pode pagar), ao invés da cidade como espaço de convívio.

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8 respostas para Dia das crianças e o triunfo da motinho elétrica

  1. André Gomide disse:

    Bela reflexão…o meu sobrinho Felipe de 4 anos é uma garoto que já experimenta a liberdade de pedalar por aí…e EU, o seu titio André, vai continuar lutando para entregar um mundo ao menos “não pior”.

  2. Pablo disse:

    Ainda temos (pessoas em geral, na média e me incluindo) muito medo da violência urbana. Acho que a “intolerância” a todo o tipo de violência está alinhado com a nossa iniciativa de dominar os espaços públicos.

    São iniciativas como pedalar, serenata iluminada ou passear com o cachorro tarde da noite que quebram parte do nosso medo do mundo lá fora. A outra parte tem que vir de ações efetivas do estado no combate a violência urbana. O assaltante não é um excluído da sociedade, o assaltante exclui a sociedade do espaço público.

  3. Pablo disse:

    offtopic: Em uma discussão no ClickRBS acabei encontrando alguns números e fiz uns cálculos. A debatedor estava tentando mostrar que os impostos pagos pelos motoristas pagam a infraestrutura de trânsito e tudo mais que o carro demanda.

    Dados:
    Consumo da gasolina: 39,698 bilhões de litros (cnt.org.br) .
    Preço da gasolina: R$2,90 (é o que eu vejo por aí).
    Imposto: 50% (Acho que foi isso que li em algum lugar).

    Calculando… Total arrecadado R$ 57,5621 bi.

    Entretanto… IPEA estima custo anual com acidentes em R$ 40 bilhões (vias-seguras.com).

    Resumindo, sem contar os custos de manutenção de via, custo operacional de agentes de trânsito, demandas crescentes por mais infraestrutura de trânsito… os custos do carro acabam sendo maior do que o montante de dinheiro que esse arrecado.

    • phrayres disse:

      Da mesma forma que os impostos da venda de cigarros não pagam o custo de saúde.

      E a questão está longe de se resumir a impostos.

      O custo social do carro. Por exemplo:

      – poluição (que não é meramente “gastos com saúde”, mas bem-estar e vida);
      – desperdício energético: um dia irão ler os livros de história e perguntar por que diabos usávamos um veículo que consome tanta energia e espaço para deslocar poucas pessoas;
      – urbanização caótica das cidades: o carro criou a fantasia que é possível/normal morar longe do trabalho, percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Isso deixa a sociedade não-motorizada refém de bólidos passando em velocidades incompatíveis com a vida ao redor;
      – indução ao sedentarismo: mesmo que o motorista pratique exercícios, é uma prática isolada do seu cotidiano, seu deslocamento não é ativo, precisa separar um tempo para movimentar o corpo, quando seria perfeitamente normal usar seu caminho como exercício;
      – e outros malefícios que queiram enumerar.

      Todo esse custo social está longe de ser coberto pelo afamado IPVA. Sim, bicicletas não pagam algum “imposto sobre veículo”, simplesmente porque não têm todo esse custo social. Seu custo social (energia para produzi-las, basicamente) provavelmente é coberto no próprio preço da bicicleta. Depois é só sair rodando.

      Então, a coisa toda está longe de se resumir a impostos. E há, claro, a indireta suposição de que quem não tem carro não contribui, não paga impostos. Pessoalmente, como cidadão brasileiro adulto, pago IPTU, água, luz, internet, imposto sobre os alimentos, impostos (quase metade) sobre minhas bicicletas e acessórios, etc. Ou seja, um cidadão como outro qualquer.

      Para resumir a prosa, classificar o pedestre/ciclista como “sub-consumidor” é a tática de um sistema que vê as pessoas basicamente como consumidores, e não cidadãos. Cidadãos são todos. Cada um contribui com impostos conforme o tamanho da sua renda/posse. Creio que seja assim em qualquer país civilizado ou que pretenda ser.

      • Pablo disse:

        Com certeza! Concordo plenamente. Se eu tivesse tempo eu faria uma planilha com todos esses custos para provar que o carro drena a economia, não impulsiona. Infelizmente precisamos de números para as coisas serem mais creditáveis.

        Eu estava pesando ainda sobre a questão do diesel. O diesel é subsidiado, isso quer dizer que o que ele gera de imposto é negativo. Para cada litro de diesel usado o governo perde diretamente uma quantidade de dinheiro ao invés de receber através dos impostos.

    • Pablo disse:

      Me desculpe sair tanto do tema, mas estou impressionado com esses números.

      Há duas coisas acontecendo atualmente, o grande aumento da frota de veículos e a estagnação da economia brasileira medida pelo PIB. Penso no quanto essas duas coisas não estão conectadas. Talvez uma grande quantidade de familias estejam sacrificando boa parte do seu orçamento na prestação do carro seguro e revisões e deixando de comprar alimentos de melhor qualidade e saudáveis, vestuário, passeios e cultura ou até cursos.

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