O Casulo de Aço*

Carros distorcem nossas percepções de tempo e espaço. Eles agem como extensões portáteis do abrigo oferecido pelas nossas casas, anestesiando-nos quanto à realidade da distância viajada, e cegando-nos para a topografia através da qual viajamos. Usando uma quantidade enorme de energia, os carros reduzem os esforços físicos requeridos para nos movermos pelo mundo a não mais do que um movimento do pé e uma virada do pulso; um esforço físico quase comparável a trocar o canal da televisão ou navegar na internet.

Os carros também nos isolam da realidade das condições do tempo. Vento a favor ou vento contra não têm significado dentro de um carro. Chuva é apenas uma inconveniência. Temperaturas congelantes requerem apenas um ajuste no botão do termostato. Experimentar uma tempestade de dentro de um carro é como assistir um filme sobre a natureza em um Home Theater climatizado e confortável.

Andar de bicicleta, por outro lado, nos faz mais intimamente conscientes das nuances da paisagem e da energia requerida para cobrir determinada distância. Pedalar nos tira do útero sedentário de conforto e conveniência proporcionado pelo automóvel e nos submerge no mundo real e perceptível de mau tempo, subidas, fumaça de escapamento, cães latindo, odores naturais, e belos pôres-do-sol. Dirigir um carro é tão fácil que torna praticamente desnecessário pensar se devemos ou não realizar um trajeto. Pedalar, por outro lado, requer um esforço bem definido, e consequentemente estimula o planejamento e a eficiência. O ciclismo, pela própria natureza, pune o desperdício de energia.

Nós pagamos um preço pesado pela conveniência oferecida pelo automóvel. Dependência de petróleo, aquecimento global, fumaça, acidentes de trânsito, e muitos outros problemas são todos uma parcela de nosso desejo de extender nosso conforto além de nossas casas dirigindo nossos carros. A pergunta é: Vale mesmo à pena? E se não, o que vamos fazer a respeito?

*Tradução da postagem “The Steel Cocoon”, publicada em http://www.ecovelo.info/2008/06/12/the-steel-cocoon/

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7 respostas para O Casulo de Aço*

  1. Pedro disse:

    Se carros são tão confortáveis, por que essa cara de enfado e azia que se vê na quase totalidade dos motoristas? Esse conforto é um mito. É uma promessa frustrada de conforto.

  2. Daniel disse:

    Ele não gosta do casulo, mas 99% dos demais gostam, fazer o que né…

    • heltonbiker disse:

      Nós pagamos um preço pesado pela conveniência oferecida pelo automóvel. (…) A pergunta é: Vale mesmo a pena? E se não, o que vamos fazer a respeito?

  3. Pedro disse:

    99% gostam de carro.

    99% bebem coca cola.

    99% tomam uma cervejinha no fim de semana.

    99% gostam de futebol.

    Percepção publicitária da vida. Há um mundo lá fora, apesar.

    • Pedro 2 disse:

      Boa, Pedro! É isso mesmo. Essa percepção publicitária da vida às vezes esquece que ela mesmo ajuda a criar o que diz ser seu objeto de intervenção, ou seu “público”.

  4. ggtesta disse:

    O carro traz aquilo que chamo de conforto momentâneo: baseado no consumismo e preguiça. Naquele instante específico que o sujeito está sentado no veículo com ar condicionado, aparentemente está em uma situação mais confortável do que aquele pedalando suado sob o sol. Entretanto, a longo prazo, esse ‘conforto’ traz stress, indisposição, e mais preguiça; enquanto a bicicleta nos traz o prazer e satisfação atrelados à endorfina típica da prática esportiva.

    É como aqueles dias que estamos com preguiça de levantar, dormimos um pouco mais e depois ficamos com uma sensação de morosidade e arrependimento.

    Claro que o carro possui uma função interessante: transporte de carga ou viagens de longas distâncias. O problema principal que vejo (além do ambiental), é que está sendo utilizado para as tarefas erradas: deslocamentos de curtas e médias distâncias, todos os dias.

  5. Bruno Carapeto disse:

    É óbvio que não vale a pena. Esse “útero sedentário de conforto e conveniência”, como foi dito, é um mito, uma promessa frustrada, uma ilusão. Mas ainda assim, é difícil explicar os efeitos da endorfina para quem não pedala ou não os conhece na pratica, pois só praticando que se entende a sensação de bem estar que a bike proporciona. Pedalar e sorrir. É o que vou fazer a respeito, pedalar e sorrir. Esse sistema já é falido e a cada dia mais pessoas tomam consciência disso. Os rodoviários já sabem disso e não reconhecem nem seu próprio sindicato corrupto, fazem greve num movimento desorientado e sem liderança. O carro vai parar os centros urbanos do mundo e colocar um ponto de interrogação na cabeça de todos. Falta pouco, estamos a caminho de atingir a massa crítica. E hoje temos temperatura agradável e um baita céu azul aqui em Poa, dia ideal para pedalar,😀

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