Carrocentrismo da EPTC supera expectativas

Hoje, sábado dia 14 de setembro, tive uma situação (denúncia de estacionamento em local proibido) que seria apenas mais uma, apesar do final um tanto surpreendente, NÃO FOSSE o insólito, bizarro, praticamente surreal diálogo que tive com o atendente da EPTC, no atendimento de protocolo 105851-2013, realizado ao redor das 19:15. Descrevo abaixo a situação.

Ao sair de casa para comprar pão, percebo que, do outro lado da rua, exatamente numa esquina, havia um enorme Camaro (todos são enormes, por sinal), de cor prata, estacionado em diagonal, tipo “uma ponta em cada lado” da esquina. Como eu sei que na esquina há uma rampa de cadeirante, fui ali me certificar e, para minha não-surpresa, o super-dimensionado carro estava ali, bloqueando completamente o acesso a essa rampa.

Fui no boteco da outra quadra, rapidamente, comprei o pão, quando voltei o carro ainda estava lá, e fui mais do que rapidamente ao telefone, ligar pra EPTC (118). Ao comentar o fato com minha esposa, ela falou que, de fato, um caminhão há pouco tempo estava com dificuldade de fazer a curva, porque o Camaro esse estava NO CAMINHO. Ligando pra EPTC, me atendeu um rapaz, cujo nome eu sei mas prefiro não escrever aqui, e o diálogo foi o seguinte:

Eu: “Boa noite, eu gostaria de fazer uma denúncia de irregularidade”.

Ele: “Pois não, senhor”

Eu: “É um estacionamento em local proibido, o veículo está estacionado bem na esquina, obstruindo uma rampa de cadeirante e dificultando a passagem de outros veículos”.

Ele: “Certo, senhor, mas no momento os nosso agentes estão atendendo somente casos de acidente com feridos ou estacionamento irregular em saídas de garagem”.

Eu: “Tá, mas daí eu não faço a denúncia, então?”

Ele: “Não, o senhor pode fazer a denúncia, eu vou registrar aqui e repassar, mas o que eu posso lhe dizer é que, a princípio, não vamos enviar fiscalização, pelos motivos que lhe falei”.

Eu: “Bom, está certo então, mas eu vou fazer a denúncia mesmo assim, e gostaria de anotar o protocolo”.

(então ele anotou o modelo e a cor do carro, endereço, o meu nome, e me passou o número do protocolo: 105851-2013)

Eu: “Mas me diga uma coisa, eu queria tirar uma dúvida: Por que a EPTC só está atendendo casos de acidente com feridos e OBSTRUÇÃO DE SAÍDA DE GARAGEM??”

Ele (transcrevo tão literalmente quanto a memória me permite): “É que quando tranca a saída da garagem IMPEDE O FLUXO DAS PESSOAS, elas precisam sair, alguém pode estar passando mal, essas coisas”.

Eu: (WHAT THE FUCK!?!?!?!?!) “Tá, mas tu não diria que a trancar uma rampa de cadeirante também é obstruir a passagem das pessoas, que também não vão conseguir passar, e que QUASE COM CERTEZA vão estar com alguma limitação de saúde… Bom, tá, deixa assim, não vamos entrar no lado “filosófico” da coisa, eu sei que o que tu me falou é o que tu tinha pra falar, enfim, muito obrigado…”

Ele: “…(silêncio)”.

Eu: “Então tá, boa noite, muito obrigado”.

Ele: “Boa noite”.

E AGORA, CONFORME O PROMETIDO, o desfecho surpreendente…

A cena do bonitão em questão era esta:

Estacionado exatamente NA QUINA da esquina...

Estacionado exatamente NA QUINA da esquina…

 

A rampa de cadeirante, que já deságua em um combo buraco/bueiro, estava totalmente obstruída

A rampa de cadeirante, que já deságua em um combo buraco/bueiro, estava totalmente obstruída

Tendo percebido que a EPTC não resolveria absolutamente nada, ao menos eu fiz questão de DOCUMENTAR o fato, sem qualquer tentativa de ser discreto. Peguei minha máquina fotográfica, atravessei a rua, e comecei a bater fotos do carro. Fiz questão de mostrar bem a posição, a placa e a obstrução da rampa de cadeirante, e como estava escuro fiz algumas tentativas com o flash, que ficaram ruins.

Nisso, as luzes do carro piscaram, e de eentro do mercadinho que fica nessa esquina, veio saindo o dono do carro. Para a minha surpresa, era uma “pessoa que nem eu”, com a mesma idade (trinta e poucos) e usando o mesmo tipo de roupa (camiseta e bermuda). Olhei pra ele, ele olhou pra mim, e nos cumprimentamos com um sorriso descontraído:

Ele: “Ôpa, tudo bem?”

Eu: “Ôpa, tudo bem!”

Nisso eu, que já havia terminado a sessão de fotos, desliguei a máquina e voltei tranquilamente pra casa sem dar tchau nem olhar pra trás, numa mistura de alívio e tensão (isso existe?). O fato é que, antes que eu terminasse de abrir a porta, ouvi o motor do carro sendo ligado. E ao olhar pela janela em seguida, já dentro de casa, vi que o carro já não estava mais ali, e a esquina e a rampa estavam desimpedidas novamente.

=============

Como já disse Willian Cruz em seu blog Vá de Bike, é uma pena que um blog com esse nome tenha que ficar denunciando irregularidades ao invés de estimular a ensinar as pessoas a usar a bicicleta no seu cotidiano. Tecnicamente, o fato relatado nem ao menos se relaciona com bicicleta, como tem sido o caso de várias postagens recentes, que se fazem necessárias pela pertinência mais abrangente dessa problemática, que é comum e às vezes um tanto “urgente”, e pela falta de um blog apropriado ao ativismo de mobilidade.

Por esse e por outros motivos, está se organizando um movimento de Ativismo Pedestre, por enquanto contando com um grupo no Facebook, do qual todos os interessados serão muito bem-vindos em fazer parte.

 

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31 respostas para Carrocentrismo da EPTC supera expectativas

  1. Emanuel disse:

    Então está explicado porque não dá em nada as minhas reclamações quanto a estacionamento na calçada.
    E, se possível, abre opções fora do face, por favor. Não é todo mundo que vive lá.

    • Felipe X disse:

      Não entendi parte do face.

      • Augusto disse:

        Existem GNU-chatos e outros viventes que não têm/não querem ter Facebook. Eu não estaria postando esse comenário se isso exigisse login pelo Facebook, e não teria sequer ficado sabendo da história se ela tivesse sido postada na plataforma Zuckerbergiana.

      • Felipe X disse:

        Mas não precisa do face aqui.

      • André Gomide disse:

        Já estou com 22 protocolos junto a EPTC por estacionamento irregular;;;;kkkkkkkkkkk
        entreguei alguns para o ver. Marcelo cobrar oficialmente, pois eu não obtive nenhum retorno…kkkkkk
        O que eu ouvi dos atendentes é muito parecido com o que está escrito aí em cima.

      • Marcelo disse:

        Felipe, o Emanuel disse isso porque o grupo de ativismo pró-pedestre é um grupo dentro do Facebook e portanto quem não quer ter conta no Facebook não pode acessar. Eu sou outro que não participo do grupo por causa disso.

        Por sinal, acho incrível que mesmo com todas as denúncias de vigilância e invasão de privacidade as pessoas sigam usando Google/Facebook/Windows, etc.

      • Felipe X disse:

        Bem, é questão de alguém criar usando outra ferramenta. Só cuidado, o bandido não é o facebook, é o governo. O wordpress também está sujeito as mesmas leis.

        O pessoal ainda usa gmail por que facilita muito a vida.

      • heltonbiker disse:

        O grupo está no Face por enquanto. Foi combinado que será feito algum tipo de concurso para definir um NOME para o blog, e assim que isso for feito, será criado um blog, nos moldes do VaDeBici, mas para tratar de Ativismo Pedestre. E assim que isso ocorrer, será feita uma divulgação apropriada.

      • Marcelo disse:

        Felipe, empresas como Facebook, Google e Microsoft colaboram com o governo mais do que a lei exige. De qualquer forma, sejam eles vilões ou não são ferramentas inseguras.

        Sim a solução seria criar grupos/fóruns em outras ferramentas. Mas a maioria das pessoas insiste em usar apenas o Facebook.

  2. Bruno disse:

    Pra EPTC quem está dentro de um carro é uma pessoa com direitos. Mas quem anda pelas calçadas é gado manso, deve se contentar com o espaço entre os “bretes” e olhe lá… Lamentável.

  3. Felipe X disse:

    Isso é fogo, as pessoas acham que é um direito básico estacionar perto do destino e o resto é secundário. Esse caso descrito aqui já é típico e também é comum estacionarem em cima da calçada quando não tem lugar na rua. Principalmente quando é proibido estacionar em toda a via.

  4. Paulo disse:

    Sugestão:

    Minta na chamada. Diga que o carro está obstruindo uma garagem.
    Quando a fiscalização chegar, dia que “te confundistes”

    Estando lá, o agente da EPTC vai ser obrigado a multar o carro.
    Caso contrário é prevaricação, crime feio.

    Abs!

  5. zigli disse:

    Na medida em que li o post fui me identificando com a atitude do autor e pensando: quantas vezes telefonei para a EPTC reclamando de veículos estacionados sobre passeio público e praças; quantas vezes nessas ligações tive que ouvir “você é a chamada de número vinte e poucos”; quantas vezes ouvi dos atendentes respostas similares à relatada para tentar justificar o injustificável descomprometimento da EPTC com os pedestres. Porém, continuo reclamando.
    Lembro de um dia que estava pedalando pela avenida Ipiranga e, no cruzamento com a avenida João Pessoa, havia um carro da EPTC com dois agentes, parados, apenas observando o fluxo. Como todo atento ciclista, verifiquei que mais adiante, próximo dali, havia um carro estacionado sobre a calçada, obstruindo praticamente todo os espaço destinado aos pedestres. Assim, educadamente dirigi-me aos agentes e alertei-os sobre a situação do carro e ouvi como resposta: “desculpa senhor, mas estamos com muitas demandas”. Demandas? Ah? Quem? Onde? Quando?

  6. MOISES RIBEIRO disse:

    VEJA OS CARAS NÃO ATENDEM UM CHAMADO EXTREMAMENTE IMPORTANTE OU DERREPENTE CADEIRANTE NÃO TEM IMPORTÂNCIA,É NA VISÃO DELES NÃO MAS EXISTE UMA SOCIEDADE QUE CONTA COM CADEIRANTES PRA TUDO,MAS VAMOS AOS FATOS VEJA QUE FUI MULTADO POIS MEU AOUTOMOVEL TINHA UM LED NO FAROL QUE NÃO TEM FORÇA DE LUMINOSIDADE PARA ILUMINAR MINHA CARTEIRA DE MOTORISTA

  7. Joaquim José da Silva disse:

    Apesar de gostar muito de carros (eu teria um carro maior do que o Camaro), também sou ciclista, pedestre e usuário de ônibus em Porto Alegre. O problema do trânsito é apenas um problema de falta de educação e egoísmo (eu primeiro). E não é limitado a motoristas ou motociclistas, mas atinge ciclistas e pedestres também. Quem anda a pé sabe como é ruim ficar próximo de fumantes entre outros tipos de mal educados.
    Uma ideia, que não sei dizer se é válida ou não, talvez nossos amigos advogados possam nos orientar, seria de começar a denunciar formalmente, embasado em fotos e vídeos pessoas que cometem infrações e delitos de trânsito. Um cidadão não pode dar voz de prisão a alguém que comete um delito? Ora, uma foto ou vídeo de um veículo furando um sinal, estacionado em cima da calçada, não basta de prova? É necessário que um agente de trânsito ou policial esteja presente mesmo? No que isso ajudaria? Ora, imagina cada integrante do massa crítica fotografando e filmando infrações por aí. Entregar um documento aos agentes de trânsito e cobrar que sejam emitidas multas, seria ilegal? Ou inválido? Isto ajudaria a resolver a falta de fiscais de trânsito. Eu sou um que com uma câmera no guidão conseguiria diversas provas em poucas quadras e sinaleiras.

  8. Zeca disse:

    Você viu o kra, sabia que estava errado e não falou nada pra ele?
    Deisou ele passar na sua frente mantendo o silêncio. Sinceramente parece uma atitude de covarde. Se sabe que está errado e te incomoda tanto deveria ter dito isso a ele. Sendo homem e defendendo seu ponto de vista. Por mais que ele esteja errado, você está expondo ele divulgando o veículo do cidadão desta forma. Parabéns pela denúncia, mas lamentável pela atitude.

    • heltonbiker disse:

      É um ponto de vista. Eu tenho preferido não “pessoalizar” a coisa, por vários motivos. Um deles é a idéia de que o cara não deve agir certo porque apareceu alguém para “mostrar” ou “convencer” ou “multar”, mas sim porque ele SABE a diferença entre certo e errado. Por algum motivo ele tirou o carro dali imediatamente após eu sair. Outro motivo é que existe uma tendência enorme ao confronto e à briga nessas situações, mesmo quando a “abordagem” é feita de forma calma e racional. Isso já me aconteceu outras vezes. O objetivo também não é brigar, nem dar vazão a agressividade de qualquer tipo, mas sim buscar, através de ações, o estímulo a atitudes menos incorretas. Mas, como eu disse, são pontos de vista, e acho que cada um deve avaliar sua própria atitude e agir da forma que julgar mais positiva.

    • Flávio disse:

      Sim, daí o cara tá armado e te dá um tiro…

  9. Alan L disse:

    Já denunciei carros estacionados de formas esdrúxulas diversas vezes, mas acho que nunca deu em nada.

  10. Pablo disse:

    Para o carro passar para sua garagem há fiscalização (estacionamento na garagem), mas para as pessoas passarem não há fiscalização.

  11. Todas as respostas ao post são publicadas? Parece que não. Quais os critérios para a seleção?

    • Marcelo disse:

      Mensagens consideradas “spam” (anúncios comerciais e fraudes) são filtradas. Mensagens agressivas, como aconteceu depois do atropelamendo da MC ameaçando pessoas, também.

      Fora isso acho que tudo passa pela nossa rigorosa moderação.

  12. Guilhermino disse:

    Quanto a estacionamento sobre as calçadas, venho relatar o que acontece pelo menos umas quatro vezes por semana perto de onde moro. Na Av. Cristiano Kraemer, ao lado de um condomínio residencial construído há poucos anos, tem uma igreja do Evangelho Quadrangular. Sempre quando há cultos ali, a calçada, dos dois lados da via, fica lotada de carros dos fiéis. A avenida tem somente uma pista para cada sentido, por isso o pessoal sobe na calçada para estacionar. Dá vontade de entrar ali e perguntar se “para participar tem que ter carro”, porque o templo não é tão grande, e não creio que o pessoal more tão longe para ter de ir de carro até o local. Quem mora perto, acredito eu, não vai a pé porque acha perigoso. É dureza…

  13. eduardo disse:

    Estava lendo seu relato, no predio onde moro, seguido estacionam na saída da garagem, ja liguei pra EPTC em 3 situações, em nenhuma fui atendido, eles sempre alegavam que no momento atenderiam apenas acidentes com danos pessoais…. infelizmente a EPTC (Empresa Pública de Transtornos e Congestionamentos) para nada serve… Há cerca de 1 mês fui coagido por estar estacionado em local permitido….

  14. Nunes disse:

    Eu li três vezes o texto inteiro e não consegui identificar o “desfecho surpreendente” citado pelo autor. Seria o fato de o autor ter ficado perplexo ao constatar que uma pessoa normal era o condutor do veículo? (Mas o quê o autor esperava…? Um ser extraterrestre?)

    • heltonbiker disse:

      Pra mim, foi surpreendente (porque não era o que eu consideraria um “comportamento típico”) que o motora, ao ver seu carro sendo fotografado, na mesma hora discretamente tirasse o carro dali. Diria que foi uma surpresa positiva. Aliás por isso acho que criar conflitos não é via de regra a melhor alternativa, porque nunca se sabe se alguém agiu mal por intenção ou simplesmente por não se dar conta. Se o motora tiver ao menos pensado POR QUE alguém estaria fotografando seu veículo (supondo que não fosse por admiração ao carro), já está valendo. Além do mais, achei surpreendente também o comportamento da EPTC, mas nesse caso, surpreendente no MAU sentido.

      • Marcelo disse:

        Ele parou o carro numa esquina e em frente à rampa de deficientes porque “não se deu conta”? Ele só viu sua infração sendo registrada e ficou com medo de qualquer tipo de punição/represália, por isso removeu o carro.

  15. Régis Hasperoy disse:

    Se em Porto Alegre é ruim, vcs imaginem nas cidades da Região Metropolitana. Aqui em Gravataí onde praticamente inexiste fiscalização de trânsito (e não é privilégio deste ou daquele partido que está na prefeitura) os pontos de táxi são fixados em cimas das calçadas muitas vezes. É coisa mais comum o pedestre ter q ir para a pista de rolamento disputar espaço com os carros em circulação pois estacionar na calçada é corriqueiro. Tenho vergonha, vontade de discutir com os infratores, chutar a porta, quebrar o vidro, mas em nome da “civilidade” me contenho.

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