Obrigado, Brasil!

Este post – que é uma tradução de um artigo recentemente publicado na revista eletrônica alemã ZEIT ONLINE – não encaixa totalmente no perfil do Vá de Bici. Peço desculpas aos leitores e co-blogueiros por inseri-lo aqui. É o melhor lugar a que tenho acesso para um texto dessa importância neste momento histórico. Espero que me desculpem. Espero tbém que gostem e compartilhem. O original está aqui. Breve comentário meu abaixo.

Obrigado, Brasil!

Os brasileiros assumem um papel que nem os alemães (em 2006), nem os sul-africanos (em 2010) ousaram assumir. Um povo se ergue contra a Fifa. Isso terá conseqüências – comenta Christian Spiller.

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Manifestantes em Belo Horizonte. Foto: Yuri Cortez

Com isso eles não contavam – os senhores da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Um milhão de pessoas em 100 cidades brasileiras protestaram contra os caríssimos estádios e o gigantismo da Fifa. E justo no Brasil – o país mais louco por futebol.

O protesto não se dirige exclusivamente à Fifa, é claro. As pessoas estão preocupadas com a incapacidade do governo, que não consegue alinhar o desenvolvimento econômico com o desenvolvimento social. Estão preocupadas com a corrupção e a inflação. Entretanto, inseparavelmente ligada a essas questões, está a subserviência do governo brasileiro à Fifa e ao COI (Comitê Olímpico Internacional) – os guardiões, respectivamente, da Copa 2014 de futebol e dos Jogos Olímpicos de 2016.

Aos brasileiros causa indignação o fato do país entrar no jogo de “pegar ou largar” – que Fifa e COI costumam propor aos países-sede. Contratos leoninos bilionários repletos de isenções fiscais; exclusividade para patrocinadores bilionários; despudoradas exigências de construir estádios ainda maiores, hotéis, aeroportos.

Os brasileiros não aceitam mais esse tipo de coisa. Ninguém deve passar necessidade por causa do circo do futebol. Ninguém pode ser usado como cenário para imagens ensolaradas de uma Copa do Mundo ou Olimpíada, e ao mesmo tempo não ter como pagar o pão de cada dia, o ônibus, a educação básica. Se é para ter padrão Fifa, que esse padrão sirva também para hospitais e escolas. É isso que os brasileiros exigem, das ruas. E eles são o primeiro povo apaixonado por esporte que expressa isso em alto e bom som.

As pessoas do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte estão com isso prestando um favor ao resto do mundo. O protesto delas demonstra não apenas o amadurecimento de uma nação, que há apenas 30 anos ainda era governada por generais. Elas estão também dando um claro sinal de “basta” aos gigantes do esporte: “até aqui, e não além”. Finalmente, uma democracia se ergueu contra a profundamente anti-democrática Fifa. Aquilo que nem a África do Sul (em 2010),  nem mesmo a Alemanha (em 2006) ousaram fazer, assume agora uma nação emergente, que ainda luta por encontrar seu lugar no mundo.

Há poucos meses, cidadãos de Viena, e depois de Graubünden (cantão suíço), recusaram a possibilidade de receber os Jogos Olímpicos em suas cidades. ‘Caro demais, grande demais, não precisamos disso’. Um estudo dinamarquês de 2011 demonstrou que megaeventos esportivos estão migrando da Europa e da Améria do Norte para Estados autoritários, onde ninguém se rebela: China, Rússia, Katar. O Brasil foi algo como uma exceção democrática. Estamos vendo as conseqüências.

Mas quem lê estudos dinamarqueses? No Brasil, as pessoas estão finalmente despejando essa situação intragável nas ruas. Entidades como Fifa e COI terão que que começar a repensar. Se elas se refugiarem – por comodidade – em países com governos autoritários, mais cedo ou mais tarde acabarão por perder a legitimidade democrática. Elas terão que voltar [para o I Mundo] – porém de uma outra forma. Elas terão que se relacionar com os países-sede de maneira integrada, partilhar a gestão [dos megaeventos], inclusive financeira. Os eventos terão que ser mais modestos, mais transparentes, mais individuais.

Os grandes federações esportivas terão que mudar sua forma de pensar. Isso será benéfico para todos; inclusive para os atletas e para as competições, que há muito tempo se tornaram algo secundário nesses megaeventos. Por tudo isso: Obrigado, Brasil!

[O artigo online é ilustrado por esta vídeo-reportagem, que não consegui inserir aqui. O vídeo tem esta legenda: “Apesar das concessões do governo, protestos continuaram aumentando. Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas, para protestar contra injustiça social, corrupção e deficiências no sistema educacional e no serviço de saúde”]

christian-spillerChristian Spiller é redator na seção de esportesde ZEIT ONLINE. Seu perfil se encontra aqui.

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observações do lobodopampa:

– A tradução é de minha autoria e certamente não é perfeita. Se você domina o idioma alemão e detectar algum erro relevante, por favor avise pela seção de comentários!

– Os dizeres entre [itálico] foram adicionados por mim, para clarificação.

– O autor demonstra um invejável conhecimento da conjuntura brasileira, especialmente para alguém que mora em outro continente, não conhece nosso idioma, e não é especialista no assunto. Mesmo assim, escapou-lhe um aspecto grave da relação aviltante entre o governo brasileiro e a Fifa: a inaceitável interferência desta última em questões legais e de segurança; na minha opinião uma afronta à soberania e à dignidade cidadã.

– Acho curioso o fato de um artigo tão contundente e crítico ser publicado justo na seção de esportes. Me parece que nos nossos jornais isso seria impensável. Nossa crônica “esportiva” é descaradamente uma crônica do futebol e para o futebol – para o futebol como negócio e como poder paralelo, quero dizer – e descaradamente reacionária ao repercutir os fatos recentes.

– Quando eu morava na Alemanha – isso foi no século passado e a internet estava mal e mal engatinhando – “Die Zeit”, que era uma publicação semanal impressa (obviamente), me chamava a atenção pelo altíssimo nível de suas matérias e profundidade de conteúdo.

– Também naquela época, seria impensável ver um artigo com esse teor num jornal europeu. Futebol, carnaval e crime/miséria – MUITO crime – eram os únicos “temas brasileiros” repercutidos lá. O olhar e o tom das reportagens era invariavelmente “de cima para baixo”. Reparem que este artigo é um de uma série de matérias dedicadas ao momento brasileiro, várias delas lincadas no próprio texto. Isso é uma conquista da cidadania brasileira, a meu ver – estamos conquistando reconhecimento internacional.

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Sobre lobodopampa

Falar de si mesmo é contraproducente. Ah: lobodopampa e artur elias são a mesma pessoa (eu acho).
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Uma resposta para Obrigado, Brasil!

  1. marcelo disse:

    acho que o futebol lá nas europa é mais visto como um “negocio” como qualquer outro. Aqui misturam futebol com interesses politicos. Circo para o povo…

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