Depois dos ciclistas, Globo culpa os pedestres

Já foi mencionada aqui no blog uma matéria da Globo que tenta culpar os ciclistas pelos acidentes de trânsito. Agora é vez de culpar os pedestres.

Link para a matéria completa do dia 20/maio, com vídeo, mas provavelmente os melhores trechos são estes:

Em uma avenida de um bairro popular, apenas a cem metros de um semáforo, o rapaz se arrisca na frente de quatro carros. Outro corre para escapar de um ônibus e uma van. Um casal com uma criança de colo e um mecânico também atravessam fora da faixa.

A lei de trânsito nacional deixa muito claro que o pedestre só precisa percorrer 50m até uma faixa de segurança, caso não exista a preferência é dele. O fato dos motoristas não respeitarem os pedestres ou a rodoviarização das cidades tornar o ambiente mais hostil não são mencionados.

Ao final da matéria, uma “especialista” (seus títulos e qualificações não são especificados) larga a seguinte pérola:

O pedestre, que é o mais vulnerável, precisa adotar uma postura preventiva. Sempre aguardar, mesmo que o semáforo esteja aberto para ele, verificar se todos os carros pararam

A dica é útil e importante, mas não há sequer uma menção dos motoristas que diariamente passam no sinal vermelho e trafegam acima do limite de velocidade sem punição, pondo em risco os pedestres, ciclistas, motociclistas e outros motoristas.

Para não ficar sem um exemplo no ciclismo, segue um vídeo que demonstra um risco frequente. Muitos motoristas ainda não entenderam que a preferencial também vale para os ciclistas. Será que alguém vai dizer que o ciclista é que devia aguardar no meio da rótula e ver se os carros pararam antes de ir?

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11 respostas para Depois dos ciclistas, Globo culpa os pedestres

  1. Aldo M. disse:

    Esse tipo recorrente de reportagem serve para martelar na cabeça das pessoas que pedestres devem dar prioridade aos automóveis. Isso é essencial para manter as pessoas alienadas, inibindo-as de reivindicar o espaço que lhes foi tomado pelos carros. O que precisamos é fazer contra-propaganda, revelando aos pedestres o grande segredo: eles têm prioridade no trânsito!

    Perto do meu trabalho, sempre paro antes de uma faixa de segurança quando há pedestres esperando. Como é na saída de uma rodovia com limite de 60 km/h, quase nenhum carro para. Então preciso ligar o pisca-alerta para avisar aos demais motoristas da minha intenção de dar passagem. Fazendo assim, normalmente eles acabam parando.

    Num outro dia, quando fui atravessar a mesma faixa de segurança desmontado de minha bicicleta, já havia vários pedestres ali que esperavam pacientemente uma brecha no fluxo dos carros. Vendo a atitude passiva deles, resolvi colocar a roda dianteira da minha bicicleta no leito da pista. Para minha surpresa, o próximo carro que vinha imediatamente parou e foi imitado pelos demais, possibilitando a travessia de todos.

    O conceito é simples: os pedestres precisam saber que, se puserem qualquer parte do corpo sobre a via, os carros são obrigados a parar. E efetivamente muitos param, o que torna muito mais fácil reivindicar este direito do que se poderia imaginar. A questão da distância da faixa de segurança não tira o direito do pedestre. Ele poderia ser no máximo multado caso reivindicasse fazer uma travessia a menos de 50 metros de uma faixa-de-segurança ou com o sinal fechado.

    Se todos os pedestres agissem assim, provavelmente muitos motoristas acabariam não circulando nas vias onde o movimento de pessoas é grande, ou pelo menos reduziriam a sua velocidade.

    Não será a conscientização dos pedestres de seus direitos sobre os automóveis um dos caminhos à humanização das cidades? A ostensiva propaganda da grande mídia para idiotizar o pedestre me faz desconfiar que sim.

  2. Eduardo disse:

    Cara, a nossa imprensa é muito superficial. É formatada para aquele cidadão de classe média que não lê um livro por ano.

    • Marcus Brito disse:

      A imprensa é ruim porque o espectador é burro? Eu acho que na verdade o espectador continua burro porque a imprensa é ruim (e tem um fortíssimo interesse em deixar o espectador mal informado).

      • Eduardo disse:

        Digamos que existe um círculo vicioso.

      • Pablo disse:

        Aquele que pensa um pouco acaba ou que não tem interesses ou parentescos nos grandes meios de comunicação ou governos é vencido no cansaço por não encontrar um ambiente onde suas ideias causem eco.

        Por isso é que veículos independentes e grupos como o das bicicletas são importantes. São ambientes onde podemos confrontar ideias e entender melhor a situação, etapa essencial para qualquer mudança.

  3. JP disse:

    Esse vídeo aí da rótula é um ótimo exemplo de como o ciclista ainda é ignorado no trânsito. Uns dias atrás eu estive na mesma situação, estava na preferencial, seguindo atrás de um carro quando outro carro, em cima de um enorme sinal de PARE quase me atropelou. Não bastasse, começou a buzinar e gritar perguntando se eu queria morrer. Quando mandei tomar no devido lugar, o carro me fechou e o carona desceu enraivecido e começou a chutar minha bicicleta, minhas pernas e me xingar…. Fiquei quieto, dei meia-volta e fui com as testemunhas registrar ocorrência. Não vai dar em nada, mas pelo menos fiz minha parte.

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