Tensão no trânsito.

Tenho percebido nos últimos tempos uma crescente tensão e hostilidade no trânsito. Dia após dia me sinto cada dia mais agredido com o trânsito e com o comportamento violento dos motoristas em Porto Alegre. Será um reflexo do grande número de obras que bloqueiam parte das vias aumentando o congestionamento e o estresse?

Pode ser, mas não justifica a ameaça e desrespeito às outras pessoas, principalmente por parte dos motoristas profissionais – de táxis, lotações e ônibus – que deveriam ter monitoramento psicológico, e estão entre os que mais desrespeitam quem anda de bicicleta. É o caso do relato abaixo, que está circulando pelas redes sociais:

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Condutor do táxi de prefixo 4505 ameaçou ciclista no centro da capital.

“Cara eu estava passando pela Washington Luís com a Mal. Floriano… quando vejo no meio da rua um ciclista peguntando para o taxista se ele sabia a distância que deveria ficar das bikes. Pelo visto o taxi deve ter fechado o casal. O taxista ficou berrando que sabia a distância, chamou o ciclista de filho da puta saiu do carro e falou que iria quebrar a cara do ciclista então o ciclista falou: ‘Ok, mas tem bastante testemunha aqui’. Dai o motorista voltou para o carro, tirei essa foto”.

Este caso não é exceção, muitos motoristas tornam-se extremamente agressivos ao serem questionados ou criticados. Não faz mais de um mês, um conhecido que andava de bicicleta teve que se esconder no seu local de trabalho de um motorista irritado que queria bater nele por uma pequena desavença no trânsito. Pelo menos descer do carro para brigar é uma atitude um pouco (bem pouquinho) mais digna que usar o peso e força do automóvel para ameaçar ou agredir as pessoas, como infelizmente é comum demais. Chovem relatos de pessoas que foram ameaçadas ou atropeladas propositalmente por condutores que não estavam satisfeitos com a sua presença ou postura no trânsito, como se eles tivessem o direito de servir como júri e carrasco.

Conduzir um automóvel deveria ser um privilégio a quem tem condições psicológicas e amplo conhecimento do Código de Trânsito Brasileiro, além de alto nível de civilidade, mas infelizmente é considerado por muitos como um direito inalienável, até mesmo aos indivíduos mais violentos. Tanto que são raros os casos de pessoas que tem suas carteiras de habilitação permanentemente cassadas, mesmo com o alto nível de violência no nosso trânsito.

E de quem é a responsabilidade? Quem concede as carteiras de motorista é o DETRAN de cada estado, e infelizmente é frouxo demais. e incompetente na suas tarefas – concedendo habilitação a verdadeiros psicopatas e outras pessoas completamente despreparadas para conduzir um automóvel com segurança em áreas densamente povoadas. O exame psicotécnico é totalmente insuficiente e ineficiente. As provas teóricas são fracas e induzem o examinado a marcar a resposta correta mesmo que não tenha a menor idéia das regras de trânsito. O conteúdo ensinado no curso teórico é inócuo. Os instrutores de trânsito passam todos os seus vícios de desrespeito à lei aos alunos, e por aí vai.

No caso dos motoristas profissionais de transporte de passageiros, a responsabilidade recai também sobre o órgão de trânsito municipal, no caso de Porto Alegre, a EPTC, que é (ou deveria ser) a responsável pelo transporte público e coletivo. Já denunciei em diversas ocasiões, como passageiro, como pedestre e como usuário da bicicleta, motoristas de ônibus e táxi, de comportamento irresponsável e homicida. Não faço idéia do número total de reclamações dos condutores profissionais ao serviço da EPTC, mas se a minha experiência serve como parâmetro, imagino que se todas elas fossem levadas em conta, iríamos  estar sofrendo com uma escassez de motoristas de ônibus e táxi. Não é o que acontece e não tenho a impressão de que o número de motoristas infratores e violentos vem diminuindo.

É claro que existem motoristas gentis e educados e que cumprem as leis, mas parecem ser a exceção. Cada vez mais eu evito pegar táxi porque mesmo quando eu digo para o motorista ir sem pressa, ele parece ter dificuldade em não passar dos 60km/h (limites de 40 e 30km/h NUNCA são respeitados), em não arrancar bruscamente para frear em seguida no próximo semáforo, etc.

E qual é a solução para os problemas cotidianos se não temos uma expectativa de reforma no funcionamento do DETRAN ou da EPTC? A violência, seja verbal ou física não é uma solução, ela só agrava o problema. O motorista agredido, vai descontar toda sua frustração na próxima pessoa que encontrar pela frente. O diálogo é complicado e sensível, pois ao serem questionados e confrontados muitos condutores tornam-se agressivos e ficam na defensiva. Uma boa solução é a difusão e propagação de técnicas de comunicação não-violenta, que nos ensina a travar um verdadeiro diálogo, ao invés de dois monólogos onde um acusa o outro ad infinitum.

Quem tem mais alguma idéia de como evitar ou reduzir a agressividade das pessoas no trânsito?

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16 respostas para Tensão no trânsito.

  1. Netto disse:

    O exame psicotécnico deveria ser eficiente pra separar quem pode guiar um veículo de quem não deve nem chegar perto de um. Infelizmente não é assim, por isso temos tantos maníacos no trânsito.
    Semanas atras eu estava pedalando rumo ao Centro e tinha um carro à minha frente, devagar, no meio da rua, como se estivesse procurando um endereço. Logo pensei: ele nem deve estar prestando atenção na rua e isso vai dar merda”. Não deu outra, ele deu uma brecada no meio da rua e por pouco não bati no parachoque dele! Ele encostou uns metros a frente e fui dizer pra ele tomar mais cuidado, pois brecou no meio da rua e tal. Pô, ele já apelou gritando “Tá tudo bem, tudo bem!” como se ainda tivesse razão! Como ciclista e cidadão eu fico revoltado com isso, e como motorista fico profundamente envergonhado com estas toupeiras no volante…

  2. Enrico Canali disse:

    Há cerca de um mês, num sábado pela manhã, eu vinha pela Beira-Rio e perto das cuias um carro de auto-escola tirou uma fina milimétrica de mim, perto das cuias. Imaginei que o instrutor fosse aproveitar o ocorrido para orientar a aluna sobre o art. 201, a lei do 1,5 metro… Mais adiante, após eu ter ultrapassado eles (já que estavam relativamente devagar por aquela avenida), levei uma nova fina! Aparentemente, eles estavam posicionados mais a direita para permitir que veículos mais rápidos o ultrapassassem. Quando os alcancei, perto da confluência Beira-Rio-Av. Pres. João Goulart, falei pro instrutor, cordialmente: “Cara, tem que orientar tua aluna a respeito da lei do um metro e meio, artigo 201 do CTB, eu tomei duas finas ali atrás.” E o cara, um INSTRUTOR DE CFC, ironizou: “Ah, então vou ter que andar com uma régua agora?!”

    A conversa ficou um pouco menos polida depois disso (nada próximo de uma agressão, felizmente), e fui pra casa desesperançoso, já que se os professores estão com essa conduta, imagina os alunos que estão sendo formados. Espero que a aluna tenha algum senso crítico e que o fato tenha servido de aprendizado positivo para ela.

  3. Fabian disse:

    Anda no Cristóvão Colombo, é muitos motoristas de ônibus tiram fino e quase encostam na roda traseira de bicicleta nas sinaleiras (que não são poucas).
    Não consigo compreender esse tipo de covardia de um motorista: Ônibus VS bicicleta.

    • heltonbiker disse:

      Isso quando não fazem a mesma coisa COM A BIKE EM MOVIMENTO, ficam a poucos metros, o ciclista fica totalmente sem opção… Embora eu tenha recentemente DIMINUÍDO a velocidade, obrigando o cara a diminuir também, ao invés de eu acelerar e o cara acelerar ainda mais atrás de mim (tudo isso na Osvaldo Aranha em obras, no meu caso)

  4. Pedro disse:

    Peguei um táxi saindo do Praia de Belas em direção à rua Lima e Silva, em um domingo. O cara procurou andar acima de 60Km/h e afirmou que “não dá para ficar chupando bala”, pois o trânsito está complicado. Os táxis deveriam ter tacógrafos, ou algum outro controle absoluto da EPTC sobre a velocidade.

  5. Juliano disse:

    Os taxistas de Porto Alegre são extremamente mal preparados. A fiscalização da EPTC sobre os mesmos é deficiente. Eles abusam em desrespeitar leis de trânsito e não ter o menor respeito por passageiros e demais motoristas. Precisamos de mais ações assim, de alguma testemunha tirar foto de fatos ocorridos denunciando o taxista/prefixo do táxi. E cobrar das autoridades competentes punições aos mesmos.

  6. Bagual disse:

    Acho que está na hora de revogar essa lei do 1,5m e aprovar uma legislação mais moderna, que seria deixar a faixa inteira para o cliclista, fazendo com que o automóvel utilize a outra faixa para ultrapassagem (como é nos Estados Unidos). Aí fica bem mais fácil fiscalizar, sem falar que um caminhão em alta velocidade pode derrubar um ciclista com a pífia distância de 1,5m.

  7. Bagual disse:

    Só uma correção: não são raros os casos de quem tem a CNH permantemente cassadas, tais casos são inexistentes.

  8. Aldo M. disse:

    Há poucos dias, um táxi atrás do meu carro piscou várias vezes os faróis porque eu estava a menos de cinquenta km/h em uma via em que o máximo é QUARENTA. Quando me ultrapassou, pôs a cabeça para fora do carro para me xingar, com muita fúria. Acho que, numa próxima vez, vou acelerar para evitar confronto e tentar bater uma foto para denunciá-lo.

  9. Flavio Oliveira Filho disse:

    Ensinar nossos filhos e rezar para que não repitam os mesmos erros. Os que estão aí, fazendo o que fazem, muito por saber da impunidade, do “não dá nada”, por já serem formados no erro, na ideia absurda do simplesmente possuir um automóvel para ser mais um nos intermináveis engarrafamentos, estes, na minha opinião, só tirando a carteira ou esperando que envelheçam e saiam de circulação dando lugar, finalmente, a uma geração em sintonia com tudo que lhe cerca. Tenho uma cicatriz ao lado do olho, ocasionada por uma paulada que levei de um motorista de táxi, quando simplesmente tentava apartar uma briga de trânsito. Não moro mais em Porto Alegre e claro, não sinto falta nenhuma da estupidez humana que ferve neste trânsito assassino ao qual, Graças a Deus, sobrevivi.

  10. fmobus disse:

    O ciclista dessa foto sou eu! Não tinha visto fotógrafos na hora!

    Bom, nada mais justo do que eu contar o que aconteceu, por isso o comentário longo. Este incidente se deu na Rua Fernando Machado, entre a Mal. Floriano e a Borges, num sábado à tarde. Para dar mais contexto, ocorre que, nos sábados à tarde, a Mal. Floriano fica bloqueada em função da feira dos antiquários, sendo então comum os motoristas que pretendiam dobrar nessa rua ficarem meio “perdidos” quando encontram o bloqueio. Em geral, isso acaba tornando a circulação mais lenta.

    Em função disso, nesse dia, uma pequena fila (dois ou três carros) formou-se no lado mais a esquerda da rua, esperando o motorista desistir da conversão. Coisa rápida, tava todo mundo de boa, ninguém buzinava, até porque afinal de contas, era sábado. Eu e minha namorada pedalávamos pela direita da via, no espaço entre os carros estacionados e os carros que esperavam na fila. Como eu percebi que algum motorista poderia tentar passar por este espaço e nos dar uma fina, fiz questão na hora de tomar a faixa e ganhar visibilidade. Segundos depois de eu fazer isso, esse cavalo, digo, motorista profissional, escapou da fila trocando de faixa agressivamente, e ficou atrás de nós, rosnando o motor e até usando a buzina.

    A discussão começou quando eu, sem alterar a velocidade da minha pedalada de lazer, virei-me e pedi que o equino se acalmasse, usando alguma referência a promiscuidade da genitora do referido equino como hipérbole. Mal sabia eu que o profissional haveria de se ofender gravemente com isso, e a partir daí esqueceria toda sua pressa para demonstrar o profissionalismo dele. Aí começou a parte do relato original aí, onde eu questionei se ele, sendo profissional, sabia as obrigações legais do motorista com relação aos ciclistas, e ele respondeu com algum non-sense do tipo “nunca tomei multa blablabla”. Foram uns bons 5 minutos de bate-boca, com as ameaças referidas no relato, e com toda essa gente de testemunha, com direito a xingamentos em dois pontos distintos do meu trajeto minutos depois.

    Enfim, infelizmente eu tenho esse tipo de experiência com assustadora frequência em Porto Alegre. Seja quando eu sou pedestre, ciclista ou motorista. Os motoristas médios de Porto Alegre são absolutamente insanos, e eles são apenas produto de uma cultura de impunidade e desrespeito à vida e a falta de urbanidade. São como cavalos xucros.

    É desolador constatar que os motoristas de táxi estão entre os piores, ao ponto de que às vezes me questiono se eles sequer são multados, tipo, at all. Sério, alguém tem estatística de multa pra taxista? Alguém já viu eles serem parados em bafômetro? Porque eles não tem tacógrafo (considerando que ônibus têm)? Quantos taxistas já perderam a carteira? O serviço de táxi é uma concessão de serviço que emana do poder público, sendo diligência deste supervisionar as condições em que o serviço é realizado. Até quando o poder público vai se omitir?

    Num comentário adicional: sabe, acho que vou começar a evitar essa região aí. Porque esse é o terceiro incidente de trânsito que eu me envolvo num raio de 50 metros desse lugar. O primeiro foi na Zombie Walk de 2008, quando os zumbis cercaram um carro parado como parte da brincadeira, e o animal acelerou pra cima de mim enquanto eu tentava advertí-lo que ele tinha passado a roda por cima do pé de uma guria. Tem foto disso até, acho. O segundo foi na marcha de protesto uma semana após o atropelamento em massa, quando a marcha seguia pela Borges sentido Centro e eu tentava atravessar a Borges sentido Bairro (para ir ao supermercado) e um motorista distraído avançou o sinal vermelho e parou a milímetros de mim – isso tudo diante dos olhos de agentes da EPTC, que resistiram MUITO em multar o motorista, e só o fizeram com muita pressão minha e dos transeuntes.

  11. ilce disse:

    Estou fazendo um TCC sobre como a CNV de Marshall como parte da capacitação dos motoristas, pode interferir, de maneira positiva na violência do transito . Um dos pontos que acho importante é ter consciência que a agressão não é pessoal, O agressor só está mostrando de uma maneira trágica suas necessidades não atendidas, Outro ponto é que mesmo quando tentamos acalmar a pessoa que esta tomada por raiva (medo) usamos frases que não mostram que estamos entendendo que ele precisa expressar sua raiva, e que está sendo ouvido compascivamente antes de conseguir se conectar a outra pessoa. Quem puder me ajudar serei muitoo agradecida. Namastê. Ilce

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