Eu e o massa crítica

No último ia 29, participei de meu segundo Massa Crítica. Achei que poderia interessar a alguns minha relação com o movimento, pois muitos podem se encaixar na mesma situação mas se encontram em um momento diferente.

Quando começaram os primeiros eu já não pedalava há muito tempo, provavelmente mais de dez anos. Bicicleta para mim era uma lembrança de infância na Redenção e nos veraneios do litoral norte, bem longe da nossa Porto Alegre de hoje. Em um primeiro momento simpatizei com a proposta, pois achei que a cidade deve ter espaço para quem não tem ou não quer usar automóveis extensivamente, mas logo me pareceu que o movimento estava um pouco “combativo” demais por assim dizer. Acho que pensei isso um pouco por ainda não entender a ideia de ciclismo como meio de transporte na cidade, um pouco pelo fato de que os mais barulhentos sempre são os que mais aparecem mesmo (mas não necessariamente são a maioria) e também pela maneira que estes movimentos normalmente são retratados na mídia ou na conversa de bar por aquele que não os conhece.

Acontece que em 2012 infelizmente fiquei desempregado por um tempo e neste período decidi botar uma bicicleta velha de volta em operação. Comecei a passear sem destino como exercício físico e lembrei como gostava de pedalar. Eventualmente consegui um novo emprego e fiquei chateado em largar o hobby redescoberto. Foi nesse momento que pensei: por que largar? O novo emprego ficava apenas a 6 km de onde moro, então por que não conciliar este hábito saudável com a rotina de trabalho? Consegui descobrir um bicicletário e vestiário na região e assim tenho feito há 8 meses – excluindo os dias de chuva, claro.

Apesar da mudança no meu meio de transporte (antes usava misto de carro e ônibus), minha implicância com o massa crítica persistia. Isso até o penúltimo, quando consegui companhia e resolvi dar uma chance e participar. Combinamos que se víssemos qualquer provocação por parte dos ciclistas contra os motoristas pelo caminho, ou qualquer outro comportamento agressivo,  abandonaríamos o evento imediatamente.

A minha grata surpresa foi que não vimos um único evento destes. Vimos muitos pedestres sorrindo, alguns motoristas buzinando em comemoração e uma minoria que se irritava e queria seguir com seu carro. Vi os ciclistas colaborando com os agentes da EPTC presentes e pedalando conosco. Neste último tinha inclusive um corredor se somando as ciclistas, patinadores, skatistas, etc. Qualquer opção sem motor vale! Vimos ciclistas que pedalavam pelas calçadas, desrespeitando o código de trânsito e pondo em risco os pedestres? Sim, havia e é uma pena, mas eram muito poucos, geralmente gurizada, nada além do inevitável.

Decidi depois destas duas tentativas que vou seguir participando enquanto o movimento continuar assim. E gostaria de te convidar, caso tenhas aquela bicicleta guardada sem ou com pouco uso, ou caso querias ter uma mas tem receio de andar pelas ruas. Participe do próximo, é diversão garantida e uma aula de convívio pacífico.

Acontece toda última sexta-feira do mês, partindo do Largo Zumbi dos Palmares (antigo Largo da Epatur).

‘Bora pedalar! 😉

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17 respostas para Eu e o massa crítica

  1. Guarani Kaiowa Irônico disse:

    não era toda sexta?

  2. Bah, Felipe, muito parecido com o que eu (ainda) penso. Ano passado, não lembro exatamente quando, fui com uma amiga que recém estava começando a pedalar e mais um amigo que pedala há muitos anos e foi o cara que me animou a voltar pra bicicleta um ano e meio atrás. Foi meu primeiro e último massa. Ficamos na rabeira, do mesmo modo que fiquei na rabeira do cicloatividade que rolou há pouco tempo. Não gosto de sair lá na frente assim como não gosto de sentar nas cadeiras da frente em qualquer reunião. Me arrependi. Cara, era uma gritaria sem sentido e muita provocação e xingamento aos motoristas. Parecia que estava pedalando junto com alguns homens da caverna. Quando saímos da João Pessoa e entramos na Venâncio eu já estava completamente incomodado. Tanto que quando a galera entrou na Lima e Silva, nós seguimos reto pela Venâncio, pegamos a Getúlio, Ipiranga e fomos pedalar no Gasômetro. Se o objetivo do massa é angariar simpatia para a causa da bicicleta, tenho absoluta certeza que aquele dia, muitos motoristas passaram a odiar o ciclismo e os ciclistas. Não creio que tenha um bom resultado. Mas, como tenho contatos que também pedalam, seguidamente vejo as chamadas do massa. Às vezes penso em me dar outra chance. No cicloatividade eu achei meio bobo o lance do caminhão, mas a pedalada em si foi legal. Pode ser que um dia desses eu tente mais uma vez pra ver se acabo com a péssima impressão que eu fiquei. Valeu pela reflexão do post.

    • Felipe X disse:

      Puxa, que pena que viste isso, certamente eu ficaria incomodado se visse isso também. Tem um cara que estava nas duas que fui, eu não sei o nome dele mas em termos práticos é uma liderença forte no massa. Quando ele falava dava muita ênfase na idéia de que “gentileza gera gentileza” (palavras dele) e ele pedia que as pessoas explicassem a idéia do massa para os motoristas sem discutir. É exatamente o que penso, não devemos procurar briga, só vai atrair negatividade para o ciclismo.

    • Aldo M. disse:

      Essas diferentes impressões, às vezes totalmente opostas, acontecem com frequência até na mesma massa crítica. Não sei explicar, mas aparentemente quem participa projeta algo que aconteceu à sua volta para todo o evento, o que pode estar muito distante da realidade.
      Tenho uma forte desconfiança que, em algumas vezes, houve ciclistas “infiltrados” com o único propósito de fazer provocações e gerar conflitos, se afastando em seguida. Depois que um começa, ninguém sabe dizer quem fez a primeira ofensa.
      Os verdadeiros participantes, todos os demais, sequer respondem à eventuais atitudes menos respeitosas de alguns motoristas, que aliás são cada vez mais raras.
      Quase sempre, os passeios são muito tranquilos e divertidos. Aliás, não conheço outra ocasião em que se possa circular pela cidade, com qualquer meio de transporte, de forma tão relaxada. Quem ainda não experimentou, não tem como imaginar. É completamente diferente das versões fantasiosas e terríveis que a grande mídia adora inventar.

  3. Bagual disse:

    Eu to impressionado com o novo movimento que está surgindo na cidade: os anti-bicicleta. Aparentemente um radicalismo em resposta aos tais “homens das cavernas” sobre rodas mencionados acima. Esses dois grupos se merecem na verdade, e é uma pena que são eles que se sobressaem e podem ser percebidos como representantes/lideranças. É um fenômeno típico da nossa província. O negócio é diálogo, paciência e tôlerância. Nada de radicalismo, seja de qual lado for.

    • lobodopampa disse:

      Discordo, amigavelmente.

      Os “anti-bicicleta”, do meu ponto de vista – que é o ponto de vista de alguém que pedala 20, 30 km diariamente, há anos – não precisam de nenhuma “ajuda” da “brigada da testosterona”.

      Os anti-bicicleta, do meu ponto de vista, são pessoas sofrendo de uma distorção cognitiva grave; são as pessoas que começaram a esquecer que o direito à vida é o mais importante; uma vez que este direito estiver assegurado, podemos discutir tudo o mais.

      No momento, este direito NÃO está assegurado. O trânsito brasileiro mata 42 mil pessoas
      por ano. Motoristas ameaçam intencionalmente pedestres e ciclistas DIARIAMENTE. Não estou falando de barbeiragem, estou falando de MALDADE.

      Essas pessoas têm séria confusão mental no que diz respeito a princípios. Elas estão frustradas com os engarrafamentos, com o fato de terem pago muito $ por um objeto que SUPOSTAMENTE lhes daria grande mobiidade, velocidade e conforto – além do status. Elas se dão o direito de descontar essa frustração – em si compreensível – justamente naqueles que estão fazendo ALGUMA coisa para melhorar o estado de coisas.

      Isso tem ZERO a ver com a Massa.

      • lobodopampa disse:

        Postado por um amigo no fb há pouco:

        “Ocorreu agora mesmo, nesta tarde de quinta, 4 de marco! Um acidente de bicicleta, poderia ser grave e fatal!Estava atravessando a Av. Osvaldo Aranha no cruzamento com a Rua José Bonifacio. Sinalizei para um motorista de carro que eu ia seguir na Avenida e mesmo me olhando ele cruzou a minha frente batendo na roda da minha bicicleta e quase passando por cima de mim com seu carro. Foi por muito pouco que nao atingiu a minha perna. Cai da bicicleta e ele parou a frente. Quando ele viu que eu estava caminhando, arrastando a minha bicicleta do meio da rua ele fugiu. Duas pessoas do posto de gasolina da esquina me ajudaram e anotaram a placa do carro. Tentei dar queixa na Brigada Militar ali ao lado mas me disseram que nao era seu departamento e nao poderiam ajudar. Fui ate a Policia rua jacinto Gomes registrar queixa mas o sistema estava fora do ar e me disseram que nada poderia ser feito. Que as leis brasileiras sao fracas e nao prevem nenhuma punicao para isso. Sai indignado, triste e assustado com um numero na mao e um sentimento de impotencia. Ate quando ese motorista vai dirigir sem nenhuma punicao? Ate ele realmente atingir fatalmente alguem? Agradeco aos dois jovens do posto que dentro do possivel fizeram de tudo para me ajudar.
        PLACA DO CARRO: HUS3022”

    • Aldo M. disse:

      Não existe nenhum “movimento” anti-bicicleta. Isso é delírio. O que pode haver são atitudes individuais (e individualistas) de alguns transtornados. Esse tipo de gente não se organiza para atuar de forma coordenada, apenas esperneiam como crianças mimadas – eles são incapazes de criar movimentos sociais.

  4. Eu ando pensando em adaptar um monopé na bike e pedalar com a filmadora ligada, sem esconder, ostensivamente mesmo. Uma cena como essa, do rapaz que foi atropelado no cruzamento, causaria muito mais impacto na rede com um vídeo para assistir do que simplesmente sendo relatada. Câmera posicionada de um jeito que pegasse a cara e a placa do meliante. Se alguém já faz isso ou tem alguma ideia do tipo, podia relatar aí.

    • lobodopampa disse:

      Muita gente já fez isso, Wladimir. Geralmente prendem a câmera no capacete; às vezes no guidão. Tem câmeras leves e relativamente baratas.

      Na Inglaterra isso chega a ser moda. Tem muita gente fazendo, tem até um documentário da BBC sobre os conflitos de trânsito que foca bastante nisso e mostra muitas imagens geradas dessa maneira.

      Pra quem tem paciência para lidar com arquivos de vídeo. FIcar gravando e apagando todos os dias, com o objetivo de ter uma prova CASO um dia tudo dê errado.

      Algumas pessoas acham que vale a pena; é algo bem pessoal.

      • Aldo M. disse:

        Tentei uma vez e valeu muito a pena. A filmagem em si ficou bem ruim, mas fui nunca fui tão respeitado: nenhum carro ou ônibus ousava se aproximar vendo o visor da câmera ligado sobre meu capacete. Assim que eu conseguir uma outra câmera (aquela já pifou), pretendo repetir a experiência.

      • É exatamente o que eu tenho pensado, Aldo, que vai inibir a violência gratuita. Obrigado por compartilhar a experiência. Só uma dúvida: a filmadora ficava virada para trás do capacete? Porque foi o que eu pensei em fazer, gravar quem vem atrás, porque acho que esse é o maior perigo.

      • Aldo M. disse:

        A minha intenção foi simplesmente gravar um trajeto, então eu virei a câmera para frente. Como o visor ficou ligado, chamou bastante a atenção dos motoristas que vinham por trás, mais do que eu imaginava.

        Para gravar trajetos, agora sei que é melhor ter uma GoPro, mas ela não é tão chamativa quanto uma câmera qualquer com visor.

      • É verdade. Eu vi uma GoPro e parece mais com uma fotográfica do que uma filmadora. Eu tô pra colocar bagageiro na bike e pensei em adaptar um monopé no bagageiro, bem visível, com uma filmadora com visor, que já tenho, fixada nele. Pros motoristas que respeitam, vai servir apenas como curiosidade. Para os que gostam de tocar por cima, pensei até em colocar um cartaz, avisando: Sorria, você vai parar no youtube!

  5. Rafael Zart disse:

    Que história bacana, muito parecida com a minha. Fica claro que as ideias de cada um são cada vez mais o pensamento de muitos. Um brinde de gratidão a massa crítica.

  6. Antônio Soares disse:

    Pessoas que pensam assim não devem abandonar a Massa e deixar que a brigada da testosterona domine. A maioria certamente é composta de pessoas amigáveis e que mostram para as pessoas da cidade que a bicicleta é um transporte viável.

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