Por quê a Prefeitura de Porto Alegre insiste no atraso?

Em audiência pública ontem na Câmara de Vereadores de Porto Alegre a administração municipal mais uma vez não ouviu o povo que manifestou-se contra a duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva com excelentes argumentos, insistindo numa política retrógrada e já descartada pelas grandes cidades do mundo. O que esperar de um político que diz ser “um homem de diálogo” mas que nunca comparece para dialogar com a população e cujo blog só aprova os comentários que concordam com a sua posição?

A Prefeitura anunciou através do vice-prefeito, porque o prefeito José Fortunati não estava lá, que irá continuar com o corte de centenas de árvores e remoção de um trecho da praça Júlio Mesquita para convertê-lo em pista para automóveis (e para a Fórmula Indy). Os argumentos da prefeitura não convencem, Fortunati diz que o alargamento é a solução para o congestionamento e para a poluição, mas são incapazes de mostrar um único exemplo de cidade que tenha conseguido acabar com os congestionamentos e reduzir a poluição investindo no aumento das vias para automóveis particulares. É impossível acabar com congestionamentos abrindo mais espaço para o carro, qualquer urbanista atualizado sabe disto.

Uma vez que os argumentos da prefeitura são claramente rasos e equivocados, fica difícil para nós entender por quê a insistência nessas obras de (i)mobilidade. Isso se assumirmos que o que a atual administração municipal busca o melhor para a cidade e para a coletividade, mas e se os objetivos deles forem outros que não querem nos revelar? Vejam bem as empreiteiras foram as maiores doadoras para a campanha eleitoral de José Fortunati e ele mesmo não esconde que é amigo do SICEPOT, o Sindicato da Indústria de Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplenagem do RS. Será que Fortunati governa para Porto Alegre ou para seus amigos e colaboradores? Isso explicaria de forma convincente porque a insistência nessas obras, que provavelmente serão desfeitas daqui a alguns anos, como várias cidades do mundo vêm fazendo, afinal, fazer para depois desfazer obras representa um lucro milionário para as empreiteiras (e um prejuízo milionário para os cofres públicos e para a população portoalegrense).

Assinem este abaixo assinado pelo reconhecimento do Parque do Gasômetro.

Aqui abaixo coloco algumas imagens de PROGRESSO. Quando se fala em progresso, é importante definir “progresso em direção a quê?”. Progresso em direção a cidades dominadas por automóveis ou progresso em direção a cidades mais humanas, mais seguras, menos poluídas, mais silenciosas e verdes? As grandes cidades progressistas do mundo estão removendo espaço do automóvel particular e devolvendo-o às pessoas, optaram pela segunda opção. E Porto Alegre?

Harbor Drive em Portland nos anos 60.

Harbor Drive em Portland nos anos 60.

Harbor Drive em Portland atualmente.

Harbor Drive em Portland atualmente.

TSBeforeAfter

Times Square em Nova Iorque, antes e depois.

Orla do Sena em Paris antes.

Orla do Sena em Paris antes.

Orla do Sena em Paris depois.

Orla do Sena em Paris depois.

Auckland, na Nova Zelândia, removendo espaço do automóvel particular e criando VLT sobre um gramado.

Auckland, na Nova Zelândia, removendo espaço do automóvel particular e criando VLT sobre um gramado.

Seul removeu uma via expressa para revitalizar o rio e criar um parque. Investiou em corredores exclusivos para ônibus e o trânsito melhorou.

Seul removeu uma via expressa para revitalizar o rio e criar um parque. Investiou em corredores exclusivos para ônibus e o trânsito melhorou.

Kompagnistræde em Copenhague, Dinamarca, antes e depois.

Kompagnistræde em Copenhague, Dinamarca, antes e depois.

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23 respostas para Por quê a Prefeitura de Porto Alegre insiste no atraso?

  1. Adriano disse:

    Todas cidades citadas tem metro.

    • Marcelo disse:

      Adriano,
      Isso só prova que está mais do que na hora de pararmos de investir no automóvel particular e investir em transporte coletivo.

    • Felipe X disse:

      Portland acho que só tem VLT, não?

      De qualquer maneira, isso é sinal que devemos investir em trilhos, não em asfalto. Ah, já sei, eles acordaram um dia e tinha um metrô pronto, do nada 😛

  2. lobodopampa disse:

    Não existe necessariamente um conflito entre urbanismo mais humano defendido nesse excelente post, e a eventual inexistência de metrô, ou impossibilidade econômica de ter metrô, ou de expandir o metrô existente (como em SP e no RJ) para formar redes ramificadas e capilarizadas como se vê em grandes cidades de países ricos.

    Enrique Peñalosa, palestrando no Fronteiras do Pensamento (que está longe de ser um evento ‘de esquerda’), demonstrou muito bem como um BRT de alto qualidade (que existe em Bogotá, mas que não sei se é o que teremos em PoA) substitui muito o metrô, a um custo astronomicamente menor.

    Outra opção maravilhosa são os bondes ou VLTs como está na moda chamar.

    Por razões que desconheço, o transporte urbano sobre trilhos, de superfície (VLT) não faz parte das perspectivas e debates no Brasil. Só se fala em metrô (que é inviável, em larga escala, para a nossa economia), ou em carro (=mais avenidas e rodoviarização dos centros urbanos).

    • Felipe X disse:

      …e quase ninguém fala em VLT e aeromóvel. Para mim, estes sim são o “caminho do meio”. E reduzem poluição.

      • sergiok disse:

        Não entendo porque em Porto Alegre não se coloca VLT onde vão fazer os BRTs. BRT parece uma solução de improviso. VLT é mais confortável, silencioso e menos poluente.

      • Felipe X disse:

        Seguidamente me pergunto o mesmo, Sergio. O custo no curto prazo é até maior, mas para fazer bem feito tem que gastar mais mesmo.

        Mas bem, nosso prefeito acredita que o VLT oferece obstáculos ao trânsito, não sei quais..

      • Resposta ao Sergio K: sérgio, acho o VLT melhor e nada poluente, mas acho o BRT eficiente e válido. Só acho que a questão é mais grave. Um dos princípios do sistema BRT é que os corredores desses sistema têm de ter espaço para ultrapassagem entre os ônibus. Como podemos perceber, esse espaço não está sendo feito, por exemplo, na Protásio Alves. O espaço para ultrapassagem é um dos principais fatores que tornam o BRT eficiente, do contrário vira uma fila infinda de ônibus, como é a Protásio hoje. Ao não querer tirar uma faixa dos carros a sra. Prefeitura, na prática, está apenas melhorando o chão. Nada vai mudar nem com o sedizente BRT.

      • Felipe X disse:

        Nosso BRT tem este problema, Livia, mas tem outros. Haverão ônibus metropolitanos no corredor de ônibus, a entrada não será pela esquerda, etc. É “tipo BRT”.

      • sergiok disse:

        Lívia, acho (e espero) que a idéia do BRT é oferecer uma linha única que percorre todo percurso. Dessa forma eles não precisam se ultrapassar. O onibus passaria, por exemplo, a cada 2min e as pessoas pegam o primeiro que passar e depois trocam por outra linha mais local quando chegarem no bairro (por exemplo). Assim não acumula aquele monte de ônibus um atrás do outro e nem pessoas na parada. Se não for mudar todo o sistema de linhas não faz nenhum sentido. Imagino que os ônibus metropolitanos iriam apenas até algum terminal longe do centro onde as pessoas poderiam pegar um BRT. Posso estar errado.
        As pessoas são meio relutantes a ter que trocar de ônibus mas isso torna as viagens bem mais rápidas e a espera menor.

  3. heltonbiker disse:

    O que mais me deixou com pena, ontem na audiência, foi o depoimento de três supostos “representantes do povo”: um estudante, um carinha do Orçamento Participativo, e um motociclista profissional. Coincidentemente ou não, todos começaram o discurso dizendo que adoram árvores, mas que o trabalhador que passa horas no ônibus, o estudante que passa horas no ônibus, e o motociclista que corre risco de vida no trânsito, PRECISAM de melhorias no trânsito.
    Independente de o discurso deles ser ou não “sincero”, essa questão da duplicação da Edvaldo, por ser de cunho altamente técnico (engenharia de trânsito), acaba ficando na dependência do “aval de especialistas”. O cara que depende de ônibus ouve da prefeitura, na figura de um especialista, que “a duplicação é necessária para estruturar o corredor Centro-Sul”, e ele vai fazer o que?, vai acreditar que aquela é A solução para O problema dele!
    O que ninguém parece ter se dado conta é que o projeto da EPTC, apresentado pela Eng. Carla, mostra claramente o corredor de ônibus passando pela Padre Cacique. Sinceramente, isso muito me tranquilizou (saber que há um corredor de BRT paralelo à Edvaldo), mas isso é uma coisa INDEPENDENTE da transformação da orla em uma estrada. A rodoviarização da orla atenderá unicamente a veículos particulares, tornando o trânsito e as filas de ônibus no centro ainda maiores, e não contribuindo em absolutamente nada para o motoqueiro que se arrisca no trânsito, o estudante que anda de ônibus, e o trabalhador que anda de ônibus.

    • Exato, Helton. Não tinha um único ônibus no filmezinho da eptc passando pela Edvaldo. Cara, aquele estudante de filosofia me deu náuseas. Se fosse de engenharia, eu acharia “natural” a preocupação dele no “escoamento”. Mas, um outro detalhe me chamou muito a atenção: percebeste que depois de dizer que “adoram árvores”, todos, sem exceção, levantavam o tom de voz? Profissionais do discurso…

  4. Ricardo disse:

    As pessoas que apoiam esse tipo de projeto de rodoviarização são aquelas que nunca se deslocam a pé ou de bicicleta na cidade.É aquela galera que nunca reserva um tempo pra contemplar os lugares da cidade numa caminhada.Esse povo só circula dentro de SUV de 175 mil reais,isolado dentro da cápsula com vidros pretos e não raro blindada.Não estão nem um pouco interessados com o que acontece ou deixa de acontecer na sua cidade;só estão interessados em chegar do ponto A até o ponto B o mais depressa possível.Bando de egoístas alienados!

  5. Pablo disse:

    Que legal que fica o VLT com aquele gramado em baixo. Algo impossível de se fazer com um ônibus.

  6. O mais engraçado é ver que, na orla, Porto Alegre já está bem próxima da foto de Portland atual, e o projeto da prefeitura é deixá-la como Portland da década de 60… Não é só parar no tempo, é voltar no tempo.

  7. Pingback: Ministério das Cidades defende bicicleta e transporte público | Vá de Bici

  8. Lucas disse:

    Aqui vai exemplos de Bordeaux, que transformou a área portuária num presente à cidade. Eu andava de bike e caminhava todos os dias quando morei lá, mesmo no inverno e dias nublados, as pessoas curtiam aquele lugar como uma extensão das suas casas…
    Um dos entrevistados diz “agora podemos dizer que vivemos aqui, antes não”.

    http://videos.tf1.fr/jt-20h/les-quais-de-bordeaux-ont-fait-peau-neuve-4421186.html
    http://www.33-bordeaux.com/jardin-des-lumieres.htm

  9. joão Werlang disse:

    Ao egoísta, ególatra, o dinheiro coça a mão toda -e a sociedade é irritante, estressante: a inépcia no poder. É um inescrupuloso ou é um analfabeto funcional tipo TOP?

  10. Fernando disse:

    Algumas destas fotos são montagens ou transformaram a rua sem mexer nos carros que estavam passando (naquela foto da Nova Zelandia). A das margens do Sena também dá para perceber ser falsa.

    • Marcelo disse:

      Fernando, tanto as fotos de Auckland como de Paris são de projetos em andamento que mostram como ficará o local quando completarem as obras. É óbvio que é uma montagem, um render, como a prefeitura de Porto Alegre faz para mostrar como vão ficar os viadutos que está construindo.

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