A Carrocracia semeia mortes

Há cerca de duas semanas a cidade feita pros carros deixou mais uma vida sobre o asfalto: nas proximidades da avenida Cristóvão Colombo o ciclista e amigo Cauã Coutinho sofreu uma colisão que abreviou tristemente sua vida de vinte e poucos anos.
Propomos que a Massa deste janeiro seja uma homenagem a ele, passando pelo local do “acidente” e reivindicando como sempre uma cidade onde caibam todas as cidades. Abaixo, um relato sobre o Cauã e nossa proposta de trajeto para a próxima Massa.

Cauã Vasquez Coutinho, o Negão, tinha 23 anos e muitas histórias. Tava se formando em odontologia, de viagem marcada pra fazer mochilão pela Europa no meio do ano, depois de já ter desbravado a Irlanda, o Uruguay, a Argentina, a China, a Tailândia e o coração de todos que o conheceram. O negócio dele era simples: amar o mundo e viajar – nas memórias de suas vivências, na cidade em que morava, em todos os cantos possíveis, no feitio de suas ideias e até na maionese. Um cara que não cabia em si de tanta vida, nem em nós, e que ansiava por espalhar sua compreensão do amor em qualquer lugar que estivesse, em cada peito amigo (e foram tantos…). Nessa mesma ânsia de conhecer, nesse ímpeto de desbravar foi que a vida dele excedeu os contornos do tempo pra eternizar-se em nossas memórias, ganhando corpo na existência das coisas misteriosas e perenes. Amigo, amado, dentista, agitador, futebolista, ciclista, debatedor, viajante, encantador, companheiro, ouvinte, compreensivo, gigante, de sorriso largo e coração profundo, muito mais que genial, criatura indescritível que foi. Pra nossa tristeza, teve de partir muito cedo, outra vítima da indústria do carro. Por isso hoje convocamos todos que nos leem a prestar uma última homenagem ao nosso inesquecível Negão, perfazendo com o Massa Crítica o trajeto de sua última noite até o local do acidente para lá recordarmos e celebrarmos o tempo em que esteve conosco e desejarmos que daqui pra frente ele transmita tudo de bom que aprendeu e ensinou pra gente, que como dissemos é muito simples (como ele próprio): Amar ao mundo, agora morando na alma de tudo que é infinito, bondoso e profundo. Não te esqueceremos, Cauã, tua presença conosco vai ser sempre genial!!!

Largo Zumbi, José do Patrocínio, Venâncio, Osvaldo, Protásio, Silva Só (retorno), Elevado Silva Só, Mariante, av.Goethe, Dr Timóteo, Cristóvão Colombo, Benjamim Constant, Assis Brasil, Plinio, 24 de outubro, Goethe, Mariante, Ipiranga, Lima e Silva, Largo.
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28 respostas para A Carrocracia semeia mortes

  1. Felipe X disse:

    Que merda, lamento a perda!

    Se chover é transferido?

  2. Rafael disse:

    Triste notícia

  3. Que triste, só como cristão imagino ele hoje num lugar melhor e sem mais sofrimentos, RIP.

  4. Anônimo disse:

    Certamente é muito triste ver pessoas jovens morrendo. Entretanto, segundo relatos de um primo dele que é meu amigo (prefiro não expor nomes para evitar maiores problemas), esse moço havia saído de um bar. Nesse local, ele teria consumido bebida alcoólica. Após isso, estava pedalando S/ nenhum item de segurança (capacete, retrovisor e luzes traseira/dianteira) e, em um descida, passou o sinal vermelho.
    Espero que menos mortes EVITÁVEIS aconteçam, SÓ DEPENDE DE NÓS.

  5. lobodopampa disse:

    Mesmo que venha a se comprovar tudo o que foi (anonimamente) afirmado acima;

    a ação/homenagem/protesto/whatever continua valendo, a meu ver.

    Morrem cerca de 42 MIL pessoas no Brasil anualmente, vítimas basicamente de um modelo de transporte falido e absurdo. Muitas delas são vítimas da própria imprudência? sim. Várias circunstâncias são necessárias para produzir um acidente fatal. Mas a circunstância decisiva é a ÚNICA que nunca é questionada: o próprio modelo, o próprio “direito” de não apenas ter e conduzir carro, mas tbém de destinar uma fatia gigante dos recursos públicos para fazer espaço para esses carros andarem, enquanto que a pessoa humana fica cada vez mais confinada, embretada, ameaçada, reprimida no espaço público.

    No Brasil são 42 mil. No mundo são cerca de 1,2 milhão se a memória não me falha. Isso dá mais de uma morte POR MINUTO.

    Eu acho que isso é um escândalo, que convencionamos chamar de “normalidade” ou contingência.

    Eu acho que vale uma Massa, um minuto de silêncio, uma bicicleta branca. Pelo menos.

  6. Jm disse:

    Concordo com o lobodopampa. Estranhei o fato também de que isso não foi noticiado em absolutamente lugar ALGUM, o que sinceramente me preocupa.

    • Guilherme disse:

      É, realmente é estranho. E não sei por qual razão. Outros casos recentes de acidentes fatais envolvendo bicicletas foram muito divulgados pela mídia dominante. E desta vez não consegui achar nenhuma referência no Google que levasse à informação do quê e como aconteceu. De qualquer forma, a homenagem ao Cauã com certeza é válida, mesmo se ele estava embriagado e passou o sinal vermelho. É mais uma morte causada por este modelo ultrapassado de transporte que estamos sujeitos a conviver.

      • Adriano disse:

        “É mais uma morte causada por este modelo ultrapassado de transporte que estamos sujeitos a conviver.”

        Me desculpa, mas não foi culpa do “carro”. O moço que foi imprudente ao pedalar após consumir álcool, à noite, sem a devida sinalização e equipamento de segurança. Fora ter passado um sinal VERMELHO.

        É uma tragédia que poderia ter sido facilmente evitada, e isso não tem nada a ver com automóveis.

      • lobodopampa disse:

        Temos opiniões diferentes, o que é bom.

        Pra mim, tem TUDO a ver com o carro.

        Mas só consigo ver isso porque estou levando em consideração o fato que esse óbito é um dos 42 mil que ocorrem anualmente no Brasil.

        É o saldo sangrento deste “modelo ultrapassado de transporte que estamos sujeitos a conviver” – condicionados a ACEITAR como ‘normal’.

      • Adriano disse:

        Lobo,

        Estando alcoolizado, se for confirmada essa versão, ele poderia ter batido sozinho até em uma árvore e se machucado da mesma maneira. Ou perdido o equilíbrio em batido a cabeça em outro local.

        Veja bem, é uma visão muito simplista por essa fatalidade na conta dos “42 mil que morrem anualmente” e deixar de olhar o outro lado, inclusive o não uso de equipamentos de segurança. O pai do menino disse à ZH que se ele estivesse de capacete, poderia ter sobrevivido.

        Acho que é um bom momento para reflexão sobre o uso correto de equipamentos de segurança e respeito a sinalização, em prol da segurança de todos.

      • lobodopampa disse:

        Estamos falando de coisas diferentes.

        “Se” ele estivesse de capacete, talvez não tivesse morrido.

        Mas “se” ele estivesse de carro, talvez MAIS pessoas tivessem morrido.

        Este é o contexto maior ao qual me refiro.

        Não é apologia da imprudência nem descuido com a própria segurança.

        Não é tentativa de culpar individualmente o motorista (obviamente).

        E ele está sim na conta dos 42 mil. Por causa – conditio sina qua non – do carro, e tbém por causa da imprudência.

        (Se, e somente se, as informações espalhadas em caráter boato forem acuradas)

  7. andre gomide disse:

    EU FIQUEI SABENDO ONTEM POR INTERMÉDIO DE UMA VIZINHA QUE É AMIGA DOS PAIS DELE. CASUALMENTE PROCUREI POR DOIS DIAS E NÃO ENCONTREI NOTÍCIA NA NET…QUE ESTRANHO.

  8. Pablo disse:

    Os grandes meios de comunicação tentam esconder algumas notícias e super valorizar outras, mas se bem divulgado nas redes eles se dobram e divulgam. Agora é a força da notícias divulgada pelas redes que está pautando as redações.

  9. lobodopampa disse:

    “Bicicletada da última sexta-feira do mês. Para muitos o inesperado: homenagem a Cauã Coutinho, ciclista morto em janeiro. As circunstâncias não muito divulgadas. A família, discreta. Conversei brevemente com a irmã dele. Pareceu ainda anestesiada pela dor. A violência de máquinas de toneladas em alta velocidade, ainda aceita pela sociedade. Amanhã serei eu, você. O inevitável. Tão previsível. Os anúncios publicitários gritam: fabricamos violência, você a emprega. Não somos culpados do crime premeditado. Dormimos com a consciência limpa dos cúmplices. RIP Cauã.”

    => Pedro Ayres via FB

    • Adriano disse:

      “— O importante é alertar para o uso do capacete. O corpo do meu filho estava inteiro, mas ele teve morte cerebral. Com o capacete, talvez estivesse vivo — diz o pai, participante do Massa Crítica por influência de Cauã.”

      • Marcelo disse:

        Mais importante que usar o capacete é saber como evitar acidentes. O capacete talvez te ajude numa queda, mas certamente o melhor é não cair. Isso vale ainda mais para motoristas, que tem a obrigação de proteger os mais frágeis do trânsito.

  10. Aldo M. disse:

    O agente desta morte absurda foi um motorista que conduzia um automóvel em velocidade comprovadamente letal. É o que eu facilmente deduzo das poucas descrições que li aqui, mesmo dos que acham justa a pena-de-morte para ciclistas que bebem ou cruzem o sinal vermelho.

    E é isto que precisa mudar nesta cidade onde o endeusado “fluxo do trânsito”, na verdade o prazer insano de pilotar automóveis pelas ruas, tem prioridade sobre a vida humana.

    Nem é preciso ir a Europa para buscar bons exemplos. Estive em Santa Rosa quinta-feira e observei que os carros lá circulam bem devagar. Surpreendi-me com crianças de menos de 10 anos atravessarem a rua tomando sorvete e sem olhar para os lados. À noite, há ciclistas de BMX e skatistas ocupando as ruas sem serem ameaçados e muitas pessoas carregam cadeiras de praia para a praça principal. Nas ruas centrais, os carros passeiam a menos de 20 km/h, sempre prontos a parar para ceder passagem.
    Por que Porto Alegre, onde a velocidade média dos carros que entopem as ruas acaba sendo menor que 20 km/h, não poderia se transformar também em uma cidade das pessoas? Só precisa que as pessoas revisem seus conceitos contaminados pelo carro-centrismo

  11. Fabio Neves disse:

    Apesar de as circunstâncias não serem, até o momento, totalmente esclarecedoras, acredito que a vida em sociedade requer direitos e deveres. Muitas vezes corremos perigo por falta de planejamento e falta de instrução adequada aos condutores de veículos. Por outro lado, é muito comum vermos ciclistas (ou bicicleteiros, como preferirem) andando na contramão, pedalando de maneira ofensiva, sem luzes traseiras e, finalmente, sem capacete. Falo por experiência própria, pois já me acidentei (o culpado foi o motorista do carro) e nesse acidente dei uma baita batida de cabeça no chão. CAPACETE SALVA VIDAS. Além dos direitos, vamos cumprir com NOSSOS DEVERES se quisermos ser respeitados.

    • Marcelo disse:

      Beleza, Fábio, mas em primeiro lugar, usar capacete não é dever, é opção.

      Em segundo lugar respeitar o ciclista e dar preferência a ele é lei e não depende do que o ciclista faz ou deixa de fazer. A infração de uma lei por parte de quem está numa bicicleta, não dá ao motorista o direito colocar a vida do ciclista em risco. O respeito vem antes dos deveres, afinal, já nascemos com nossos direitos e os deveres só aparecem mais tarde.

      • Fabio Neves disse:

        Infelizmente, Marcelo, por diversas questões “históricas-socio-culturais-e-o-escambau” que não cabem mencionar, aqui no Brasil existem diversas leis que simplesmente “não pegam”. Eu não creio que seja muito inteligente da parte de um adulto Brasileiro, que conhece essa realidade desde que nasceu, OPTAR por não utilizar capacete e depois alegar esse seu direito de escolha depois de ser o próximo concorrente a uma ghost bike. A vida vale muito mais.
        E quanto aos que andam na contramão? e quanto aos que não sinalizam conversões? E quanto aos que ultrapassam pela direita? E quantos aos sobem e descem a calçada o tempo todo? E quanto aos que se exaltam e brigam com motoristas, mesmo sabendo que são “o lado mais fraco da corda”?
        Minha preocupação se dá pelo fato de que um acidente envolvendo bicicleta é muito mais perigoso ao condutor do que um envolvendo automóvel.

        CAPACETE SALVA VIDAS, ESTANDO NA LEI OU NÃO.

      • Marcelo disse:

        Fábio,
        Primeiro, uma alimentação saudável também salva vidas, mas não vamos forçar as pessoas a comer o que achamos certo, não é mesmo? Cada um tem a liberdade de fazer o que acha ser melhor para si, desde que isto não prejudique os outros.

        Segundo, três fatos: a) países que obrigam a utilização do capacete experenciam uma redução do número de ciclistas b)cidades onde há mais bicicletas nas ruas, são mais seguras para pedalar c)nas cidades e países onde a bicicleta é utilizada massivamente como meio de transporte, o uso do capacete não é obrigatório.

        Tire suas próprias conclusões.

        Abs.

      • lobodopampa disse:

        É fácil perceber a boa intenção em tuas palavras, Fábio, e consigo concordar com boa parte delas.

        Peço um pouco de calma para reanalisar alguns julgamentos talvez apressados:

        “E quanto aos que andam na contramão? e quanto aos que não sinalizam conversões? E quanto aos que ultrapassam pela direita? E quantos (…) (etc)”

        A resposta é simples: eles NÃO SABEM que essas “estratégias” são ineficazes e perigosas, por um motivo igualmente simples: NINGUÉM ENSINA. É obrigação do Poder Público nos 3 níveis fornecer Educação para o Trânsito desde a pré-escola até a universidade – e aí seria o momento/lugar para aprender essas coisas – onde você já viu isso acontecer?

        Já o motorista TEM OBRIGAÇÃO de conhecer profundamente o CTB, tem obrigação de respeitar a vida INDEPENDENTEMENTE do grau de prudência do pedestre/ciclista que ele encontra pelo caminho – ele estuda, presta prova, e recebe o privilégio de conduzir uma máquina tão conveniente quanto mortífera. Não se pode comparar motorista com ciclista e pedestre.

        “E quanto aos que se exaltam e brigam com motoristas, mesmo sabendo que são “o lado mais fraco da corda”?”

        Na boa, aí eu acho que o motorista é que tende a se dar mal, porque pra brigar tem que sair do carro, e geralmente o mais sedentário leva a pior…

        Brincadeirinha.

        Eu uso capacete, mas não quero OBRIGAR ninguém a usar, e acho absurdo essa discussão sobre capacete servir como uma espécie de imputação de culpa. Aí não dá.

      • Fabio Neves disse:

        Marcelo, me refiro que capacete salva vidas em situações agudas/pontuais. Hoje eu posso me entupir de big mac, mas eu ainda terei chance de no dia seguinte começar uma dieta. Será que todas as pessoas que sofreram acidentes fatais terão outra chance de pedalar de capacete para tentar evitar o pior?
        Achei muito interessante os fatos que tu trouxeste (que, apesar de não ter fonte, não estou pondo em cheque a veracidade). Isso só enriquece o conteúdo do blog como um todo.

        lobodopampa: Eu não sei quanto a ti, mas eu tenho CNH e posso dizer por mim que o motorista sai da auto-escola com um conhecimento pífio de trânsito. O que importa é “não errar os piscas” e “acertar a baliza”. Nosso ensino em trânsito ainda engatinha se compararmos com qualquer outro país desenvolvido.

        Não estou delegando culpa ao ciclista que não usa capacete, só bato o pé em dizer que acho uma burrice não usá-lo tendo em vista a realidade do trânsito/tráfego em POA (pedalo desde Jul/2007 e acredito que já está muito melhor, mas ainda estamos longe do ideal). Por outro lado, também acho absurdo culpar o carro por ter “semeado a morte” de um ciclista a noite, em um cruzamento, sem nenhum equipamento de segurança (luzes, capacete, etc….).
        Acidentes sempre ocorrerão. Um dia pode ser qualquer um de nós, e quanto mais protegidos estivermos, melhor. PS:Desculpem-me o post longo, mas não consegui responder separadamente.

      • Marcelo disse:

        Talvez em situações particulares ele salve vidas. Mas eu particularmente sou da opinião de que se todo ciclista utilizar capacete, quem não pedala, vai ter uma sensação de que andar de bicicleta na cidade é perigoso, e isso vai diminuir a quantidade de possíveis ciclistas. E menos ciclistas nas ruas faz com que seja mais perigoso pedalar.

  12. Beto Flach disse:

    A propósito, será que o Cauã faleceu no local ou, posteriormente, no hospital? Pois, na maior parte das vezes, se foi este o caso, esta barbaridade nem entra nas estatísticas pois o ciclista “saiu do local do atropelamento com vida”. Alguém tem informação sobre isso?
    Abraço.
    (muito emocionante a Massa ter ido até lá)

  13. Mayara disse:

    Acho que uma tragédia como essa deve servir para levarmos algumas lições. Não se trata de culpabiliza-lo e muito menos “achar justa a pena-de-morte para ciclistas que bebem ou cruzem o sinal vermelho”. Mas podemos repensar se é uma boa pegar a bici depois de beber álcool, sem capacete… Se vidas podem ser salvas, então acho que informações como essas devem ser divulgadas sim.

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