A bicicleta e o suor.

Com dias tão quentes como os das últimas semanas, acredito que todos tenham suado, pelo menos um pouco, quer estejam trabalhando, caminhando, pedalando, ou simplesmente sentados na frente da televisão. Suar é inevitável. Suar é natural. Mas por quê o suor, então é tão indesejável?

Não sou especialista em história do suor, mas a minha intuição me leva a crer que o suor começou sendoegypt-king-small desprezado pelos reis, faraós, imperadores e demais mandantes, que por terem súditos para realizar as tarefas pesadas, não realizavam grandes esforços físicos e, portanto, suavam menos e passaram a relacionar o suor com a servidão. Suor é para quem realiza trabalhos braçais, para quem ara a terra, para quem corta uma árvore, para quem constrói uma casa, não é coisa para quem comanda um Estado.

E assim o status do suor foi decaindo ao longo dos séculos até consolidar-se como algo relativo aos trabalhadores dos empregos mais abaixo da escala social, como algo anti-higiênico (embora o suor não seja sujo nem transmita doenças), como uma maldição a ser evitada a qualquer custo, mesmo à saúde. Hoje já inventaram desodorantessweaty antitranspirantes, que bloqueiam a transpiração de pele, impedindo um processo natural de resfriamento do corpo.

Mas e onde entra a bicicleta em tudo isso? Embora já existam diversos materiais ensinando a pedalar sem suar, em dias onde a temperatura varia dos 33°C aos 40°C, não suar é impossível. Suamos até quando estamos parados à sombra. Porém a bicicleta, e seu crescente status podem mudar a situação do suor. Transformar o suor em sinônimo de saúde, de pessoas ativas, que se mexem, se exercitam em contraposição com o sedentarismo, a preguiça e o comodismo. A bicicleta e o suor são uma ameaça à ditadura do automóvel ao domínio das hierarquias enferrujadas de nossa cidade e do mundo.

Vamos abraçar a horizontalidade e vamos trabalhar juntos, de igual pra igual. Vamos nos mexer. Vamos suar. Vamos pedalar!

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20 respostas para A bicicleta e o suor.

  1. heltonbiker disse:

    Como um contraponto, que proponho construtivo, dou meu depoimento de quem convive e ao mesmo tempo luta contra o suor. Atualmente trabalho em um lugar que “me aceita” se eu chegar suado. Tenho como estacionar a bicicleta à sombra, e entro em um ambiente com ar condicionado. Mesmo assim, o calor acumulado (e não o suor acumulado) de certa forma “atrasa” o início do meu trabalho sob condições de conforto térmico, especialmente quando por alguma razão o pessoal preferiu não ligar o ar condicionado. Uma experiência prévia em um ambiente de trabalho sem ar condicionado mostrou ser praticamente inviável chegar com muito calor acumulado, pois a pessoa (eu no caso) fica suando absurdamente durante mais de meia hora, enquanto o corpo luta para se livrar de uma sobrecarga térmica usando um suor que não evapora. Nesses casos, o ventilador seria um possível substituto, mas o tempo de exposição direta (sem roupa) no verão deveria ser de pelo menos dez minutos, diria eu.

    Quanto ao aspecto biológico do suor, gostaria de destacar que a única função evolutiva dele é a regulação térmica, pois quando ele evapora a troca de calor latente causa um enorme resfriamento da pele. Incidentalmente, o suor das axilas também realiza uma “demarcação odorífera”, daí o uso de antitranspirante NAS AXILAS, mas o suor exerce uma função incontornável que é a de bombear calor para fora do corpo, desde que esse suor tenha condições de evaporar, com a pele sendo exposta ao vento, ou que o corpo tenha condições de perder calor de outra forma, por exemplo entrando em um ambiente refrigerado.

    Sou totalmente a favor de ar condicionado nesse contexto, pois por vezes chego literalmente ESCORRENDO suor no trabalho, e em dez minutos na frente do ar condicionado (na frente MESMO), já estou em equilíbrio térmico. O ar condicionado nesse caso é um fator viabilizante do transporte por bicicleta, além de ser um fator de higiene ocupacional no sentido de contribuir fisiologicamente para uma produtividade saudável.

    O que parece ocorrer, entretanto, é que na grande maioria dos lugares, o que felizmente e incidentalmente não é meu caso, ocorre um ciclo vicioso em que é necessário usar uma roupa inadequada ao clima quente (calça, camisa, terno), os prédios não são construídos para ter uma refrigeração natural, as pessoas acabam ligando o ar no máximo, acabam preferindo andar de carro, e coletivamente isso gera uma dupla poluição térmica: dos motores dos carros, e dos motores dos ar-condicionados residenciais e veiculares, além da absorção e reflexão de calor pelas superfícies artificiais (fachadas, asfalto), criando ilhas térmicas que fecham o ciclo do calor.

    Acredito que futuramente, sem grandes “investimentos”, seria possível trafegar de bicicleta no mais infernal dos fornos, e chegar ao trabalho encontrando um ambiente refrigerado de forma mais eficiente, com um “dress-code” mais racional e ventilado, e um gasto total de energia muito menor que o de hoje.

    • Marcelo disse:

      Eu sou contra ar-condicionado. Gosto mesmo é do bom e velho ventilador. Cinco minutos embaixo de um forte ventilador com um copo d’água são suficientes para me secar e restaurar.

    • Felipe X disse:

      Entendo teu ponto e concordo. Eu por acaso estou trabalhando num lugar onde há vestiário com chuveiro então é tranquilo para mim ir pedalando.

      Mas invariavelmente, o “dress code” de alguns lugares não ajuda em nada. E o brasileiro, no geral, dá muita importância para aparência, então…

  2. artur elias disse:

    A mais refinada função “evolutiva” do suor é:

    – proporcionar uma desculpa perfeita, não obstante esfarrapada e irracional,
    para não andar a pé nem de bicicleta, com finalidade outra
    que não seja fazer exercício, bem fardado, e depois ir direto para a ducha.

    😉

    • Felipe X disse:

      Bah, tinhas que ver estes dias um magrão no blog do portoimagem falando que acha um horror atravessar a rua entre o Iguatemi e o Bourbon Country por causa do sol. Sim, do sol e não da chuva. Tem gente perdendo o contato com o mundo externo mesmo.

  3. artur elias disse:

    Claro, se o vivente tem múltiplos locais de trabalho ao longo de CADA dia, e precisa estar 100% engomadinho em todos os eles, o suor deixa de ser uma desculpa esfarrapada, e passa a ser uma desculpa razoável.

    Todos os outros, que vão trabalhar de manhã (quando nunca é tão quente assim) e voltam no final do dia (quando vão pra casa e não há nenhum problema em chegar suado), realmente precisam uma desculpa melhor.

    O que não é difícil de achar, como sabemos.

    Pra quem é mais chegado em solução do que em problema:

    descobri já há algum tempo que basta fazer 2 coisas – que não leva um minuto –
    e ninguém nota que você suou (caso isso fosse um problema):

    1) lavar o rosto
    2) trocar a camiseta (ou camisa, botar gravata se for o caso, etc)

    Pronto. O nêgo fica com uma aparência tão limpa quanto os sedentários, e ao mesmo tempo inexplicavelmente mais saudável.

  4. Tenho ouvido e lido tantas teorias de pessoas, que não pedalam porque está muito quente, ou muito frio ou ainda porque chove ou até porque não chove, que vejo com bastante alegria quando um de nos, que pedala, fala disto. Observo que quanto pior é meu condicionamento físico mais suo e quanto melhor estou condicionado, menos as diferenças térmicas me afetam. Isto não quer dizer que não suo, que dizer exatamente que suo menos. Agora acredito que uma coisa precisamos saber e manter, se trata de uma boa hidratação; precisamos tomar muita água ou líquidos, nestes dias em que a umidade está baixa e também colocar frequentemente colírios nos olhos, para evitar que a falta de umidade termine afetando os nossos olhos, que ficam muito expostos pelo uso da bicicleta.

  5. Pablo disse:

    Legal o texto. Duas colocações.
    1. Uma vez que se economiza energia com a bicicleta, a quantidade de suor para o mesmo trajeto em relação a ir a pé e bem menor. Além disso pedalando sempre tem uma brisa.

    2. Quando a temperatura é maior que 36 C, se sente mais calor de bermuda de camiseta do que de calça e camisa de manga comprida de tecido fino. Isso porque precisamos proteger o corpo do calor externo. Funciona mesmo, mas chama a atenção das pessoas aqui no Brasil.

    • Ricardo disse:

      Qual a fonte para essa segunda colocação?

      • Pablo disse:

        As duas, de certa forma, foram por experiência própria. Em relação à primeira, sabe-se que com a bicicleta, quando não é só subida, é entre 4 e 5 vezes mais eficiente. Enquanto a pé com um certo preparo físico se consegue caminhar uns 40km por dia, de bicicleta se faz uns 120km. O trajeto que eu faço hoje de 3,5km de bicicleta me deixa muito mais exausto e suado quando faço a pé.

        O segundo item foi em uma viagem. Após passar muito calor e observar as pessoas de calça e camisa de manga comprida perguntei o motivo e me explicaram. Relutei no começo e por fim experimentei e realmente, melhora muito! Acima de 40 graus me sentia até bastante confortável. Cabe salientar que, apesar de ser próximo ao mar era um clima bastante seco e isso ajuda a regulação da temperatura.

  6. Legal Pablo vou experimentar, ja tinha ouvido isto na Holanda mas não dei muita bola, até porque la calor é algo perto de 20 graus que para nos é frio então a intensidade é diferente mas acho que vou mesmo experimentar meio estilo Tuareg, para ver que bixo da. Se virem um árabe meio moribundo na Beira do Rio sou eu. Abraço

  7. Júlio disse:

    Com as altas temperaturas dos últimos dias, a minha tática de ir bem devagar ao trabalho pela manhã para não suar muito, não tem funcionado. Para a minha sorte, a empresa onde trabalho possui chuveiro e armários para guardar pertences, o que resolve o meu problema. Mas, de qualquer forma, não posso ir “no gás”, pois mesmo tomando banho, ainda fico algum tempo literalmente vertendo suor.

  8. lobodopampa disse:

    Segunda-feira, 17 dez, temperatura por volta de 30º ou mais (chutando) boa parte do dia:

    2 ensaios de orquestra, 1 reunião, 50 quilômetros pedalados, 3 aplicações de filtro solar.

    Se um quarentão careta meio barrigudo e pai de família consegue, imagina um jovem descolado e magrinho.

  9. Fabio Neves disse:

    Dica mais simples e efetiva de todas: Tenha consigo uma camiseta reserva em sua mochila/bolsa, etc… Outra dica (ESSA FUNCIONA MUITO BEM): com as temperaturas atuais de POA, tu suarás DE QUALQUER MANEIRA, independente de ter realizado atividade física.

  10. Compartilhei algumas ideias para driblar o calor num artigo do meu blog para acabar com o mito do se tiver calor terá que suar. Não é verdade. Basta fazer sua roupa suar para você. Usei muito tempo uma casaco com capuz encharcado de água que colocava em cima de uma camisa sintética preta. Essa camisa não muda de cor quando está molhada. Aqui em Vitória dava para andar 30 minutos geladinho mesmo de manhã cedo.
    Na chegada no trabalho basta tirar o casaco e começar a trabalhar. Infelizmente meu percurso é de 23 km e nas condições que temos aqui, preciso de um pouco mais de uma hora para chegar no trabalho. Procurei maneiras mais avançadas para limitar o suor. Está tudo nesse artigo:
    http://vitoria-sustentavel.blogspot.com.br/2012/08/para-andar-de-bike-o-calor-nao-e-um.html

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