Nova Iorque Vs. Porto Alegre

Pedro Henrique Tavares perguntou ao sr. Prefeito José Fortunati:

– Prefeito, é possível integrar os bairros por meio da ciclovia? Isso será feito?

Ao que o prefeito respondeu:

– Sim, é possível e o plano existe, mas é algo para muitos anos.

De fato, o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) de Porto Alegre prevê 495km de ciclovias e este ano, a Prefeitura Municipal entregou apenas 3,5km de ciclovias e ciclofaixas (1,7km da ciclofaixa unidirecional da Avenida Icaraí e 1,8km da ciclovia da Avenida Ipiranga). Se continuarmos nesse ritmo serão preciso 141 anos para termos o PDCI na íntegra em Porto Alegre.

Mas será que é necessário tanto tempo assim? Ou é apenas uma questão de prioridades?
Li uma reportagem por aí, onde fala que a Secretária de Transportes de Nova Iorque, Janette Sadik-Khan, implementou 450km de ciclovias nos cinco anos em que esteve no cargo. Ah, mas, como disse o prefeito na mesma entrevista, “dependemos de orçamento” e certamente o orçamento de Porto Alegre é menor que o de Nova Iorque. Será que isso é desculpa?

Enquanto investe muito pouco dinheiro em ciclovias e ciclofaixas – a ciclovia da Avenida Ipiranga está sendo paga pelo Praia de Belas Shopping Center e pelo Zaffari, como contrapartida ambiental por suas intervenções na cidade – a administração municipal investe centenas de milhões de reais na construção de novos viadutos, coisa que Nova Iorque não faz. Apenas o viaduto Pinheiro Borda, em plena orla do Lago Guaíba, irá custar R$26,6 milhões. Com esta soma seria possível construir no mínimo mais 100km de ciclovias. Há também o viaduto Júlio de Castilhos, em frente à Estação Rodoviária (R$19 milhões) e mais cinco viadutos ao longo da Terceira Perimetral (total de R$194 milhões). Com todo esse dinheiro, chutando o custo do quilômetro de ciclovia lá para cima, seria possível construir quase 960km de ciclovias. Ou seja, dava para implementar todo Plano Diretor Cicloviário e ainda sobraria mais da metade do dinheiro.

Enquanto isso, em Nova Iorque, a administração municipal reduziu o número de faixas de rolamento de automóveis pela metade em plena Broadway, e transformou o espaço em calçadas, dobrando o o passeio público, e instalando mesas e cadeiras. E em Porto Alegre, sr. Vanderlei Capellari, que ocupa cargo análogo ao de Janette Sadik-Khan, afirmou antes da eleições que se tirássemos mais espaço dos automóveis o prefeito não se reelegeria. Se reelegeu, mas a que custo para a cidade?

Nenhuma grande cidade nos ditos países desenvolvidos continua investindo no automóvel enquanto solução para a mobilidade urbana. E todos os viadutos projetados em Porto Alegre têm como  único objetivo aliviar o fluxo de automóveis particulares.

A diferença óbvia está na mentalidade dos governantes. Afinal Sadik-Khan, disse o que nossos governantes jamais sonhariam em dizer: “Para mim, o mais importante de tudo é priorizar o pedestre, o ciclista e o transporte público”.

Assim tudo fica esclarecido. Pena que nossos governantes não tem colhões para dizer quais são as suas verdadeiras prioridades.

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22 respostas para Nova Iorque Vs. Porto Alegre

  1. Felipe X disse:

    Acho que não é nem falta de colhões, é que nossos prefeitos são totalmente sem visão, ou quando tem é uma visão já superada.

    • Marcelo disse:

      Felipe, olha esse vídeo:

      O Fortunati falando, parece um de nós.
      E mais, ele compareceu no Fórum Mundial da Bicicleta, em fevereiro, falou sem ser convidado na abertura da palestra do Chris Carlsson, Thiago Benicchio e Voto Livre. Fez um discursozinho bonito e foi embora sem ouvir os palestrantes!

      Ele tem o conhecimento e a visão, tem o acesso à informação. Só não tem mesmo é vergonha na cara.

      • PabloZ disse:

        É isso aí que mais me entristece, porque antes das eleições é uma coisa, depois tudo muda…

      • Ricardo disse:

        O Marcelo matou a charada aqui.Essa administração tem o discurso correto mas a prática é contrária ao discurso.É preocupante que pessoas assim ocupem cargos municipais tão importantes.

      • Ricardo disse:

        Além disso, cadê o programa de educação que o Fortunati diz que a EPTC está trabalhando?Se for apenas aquela meia dúzia de outdoor escrito “Conviver para viver melhor” é uma campanha muito insuficiente e pobre.

  2. PabloZ disse:

    O problema é que para que as informações chegarem aos ouvidos do Fortunati ou Capelari tem que passar por um monte de CCs desmiolados pagos justamente para servir como filtro (para não dizer para-choque) desses senhores.

    • Marcelo disse:

      Isso não é verdade, PabloZ. Já tivemos diversas conversas diretas com o Carrolari, onde ele demonstrou escárnio pelas nossas idéias. Também na ocasião do atropelamento coletivo da Massa Crítica, entregamos ao prefeito uma carta com exigências para garantir a segurança de ciclistas em Porto Alegre, ignorada.

      • PabloZ disse:

        Eu infelizmente nunca consegui chegar até o Fortunati ou o Capelari, sempre esbarro em CCs que defendem esses sujeitos mais do que a própria mãe.

  3. Júlio disse:

    Belo texto, Marcelo. Terás muito trabalho pela frente. Espero que consigas mudar a mentalidade de nossos gestores.

  4. Aldo M. disse:

    A Prefeitura está atendendo aos interesses de empreiteiros, incorporadores imobiliários, grandes comerciantes, etc. Isto não é novidade, mas nunca estes grupos se sentiram tão à vontade como agora.
    Já os cidadãos, não são sequer ouvidos. Nunca o Fortunati procurou estabelecer diálogo com pedestres e ciclistas, o que ele tem obrigação de fazer. Isto não é favor algum. Ainda temos um Conselho Municipal de Transportes que exclui deliberadamente pedestres e ciclistas, estando por isto completamente à margem da Lei Federal do Estatuto das Cidades.
    É claro que ele sabe disto, e evita qualquer diálogo porque será confrontado e não terá repostas razoáveis para dar. A única maneira que vejo para abrir diálogo é despejar denúncias ao Ministério Público das incontáveis irregularidades que esta administração vem fazendo a olhos vistos. Talvez quando começarem a sentir ameaça de alguma punição, resolvam reconsiderar esta forma de governar de costas para o povo.

  5. Geron disse:

    O problema não é só do Fortunatti. Em recente declaração o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, disse que primeiro seria necessário mudar a estrutura viária da Cidade para depois pensar em ciclovias. Realmente não parece ser muito inteligente nem que viajou para o exterior várias vezes, pois cidades como Paris, Londres e Nova Iorque fizeram centenas de quilômetros de ciclovias e ciclofaixas sem modificar quase nada do que já existia. Equanto isso seus eleitores continuam sendo atropelados pelas ruas da cidade.

  6. Adriano disse:

    Construíram em Porto Alegre tantos quilometros de metrô quanto NY e nem fiquei sabendo então.

  7. heltonbiker disse:

    “Nenhuma grande cidade nos ditos países desenvolvidos continua investindo no automóvel enquanto solução para a mobilidade urbana.”
    Vale lembrar que NENHUMA peça publicitária da recente da indústria automobilística oferece o automóvel como ferramenta de mobilidade urbana…

  8. Felipe Koch disse:

    Realmente, como o Aldo falou, a prefeitura e a EPTC não tem culhões de dizer quais são suas verdadeiras prioridades porque suas prioridades não são nem a mobilidade por automóveis, nem por transporte público nem mesmo qualquer outra modalidade de mobilidade urbana.
    Suas prioridades são a mobilidade política, atráves do financiamento de empreiteras. São meros capatazes de obra, e quanto mais caras melhores.
    Vergonha alheia de quem elege esses bandidos.

  9. cris disse:

    Ótima publicação Marcelo, é isso que defendo em meu trabalho. Luto por isso, mas a visão dos gestores é a fluidez. Sendo que, se tirarmos uma faixa e “entregarmos” ao ciclista e ao pedestre essa fluidez existiria. Mas colocar isso na cabeça dos gestores e da população que apenas utiliza o carro é muito difícil. – Esse vídeo ensina um pouco

  10. PabloZ disse:

    off topic: CQC aborda ciclovias e o problema do 1,5m em SP

  11. Bagual disse:

    É isso aí. É uma questão de prioridade. E a prioridade do momento é meia dúzia de viadutos superfaturados, e não 1000km de ciclovias. Chegamos no ponto em que voltar pra casa a pé do serviço às 18:00 não é mais saudável, tamanha a poluição do ar nesse horário.

  12. Danielle disse:

    Ótimo texto, Marcelo, suscinto e objetivo. É triste ver que, com tanto recurso disponível através dos programas do PAC e da Copa, Porto Alegre está investindo quase exclusivamente em obras viárias que estimulam o uso do automóvel…E não é preciso nem ir muito longe para encontrar outras cidades que já se deram conta que isso não é solução. Rio e em BH, por exemplo, a maioria dos recursos está sendo usada em transporte público.

  13. Silvia s disse:

    A Prefeitura e a EPTC são uma merda, n investem em transporte público, n têm uma visão de mobilidade urbana integradora e só querem saber de faturar e ganhar votos? Tem a questão dos recursos e toda a estrutura da adm pública e os nossos queridos cc’s? Sim, por óbvio. Mas gente, acredito que vocês são mais inteligentes do que tentar argumentar comparando PORTO ALEGRE com NOVA IORQUE ou amsterdam, copenhague, tóquio. Não se desvalorizem fazendo isso, pq comparar é a arma dos fracos e pobres em informação. Nova iorque possui um sistema exemplar de transporte público (e hj em dia celebra as consequencias disso, começar em 1868 tem suas vantagens), querer comparar as duas cidades em 2012 sem levar em consideração toda a história (tb política e de transformação social) das duas é….ingênuo. Briguem, lutem e mostrem dados claros e indiscutíveis. Usar outras cidades como exemplo e insipiração é válido e necessário, mas manter os pés no chão também.

    • Marcelo disse:

      Sílvia, acho que a questão é bem simples.

      Porto Alegre nunca vai ter um sistema de transporte público de qualidade enquanto ficar gastando a maior parte do seu orçamento em viadutos e em obras que privilegiam o automóvel particular. NY tem um sistema exemplar de transporte público porque em determinado momento da sua história investiu nisso. POA continua não investindo até hoje. É sobre isso que estamos falando, sobre prioridades, sobre onde estão sendo feitos os investimentos hoje em dia.

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