Crônica de um fim de tarde na ciclovia nova

(Parte 01 – o lado ótimo)

Hoje novamente fiz algo que está se tornando um hábito de verão: ao sair do trabalho, ao invés de ir diretamente para casa, vou dar uma passadinha na ciclovia. Assim não apenas tenho um tempo a mais de lazer ao ar livre, como também acabo podendo avaliar o uso cotidiano e frequente (ao invés de eventual e esporádico) daquele caminho.

Entrei na Avenida Ipiranga por volta das 18:30, na esquina com a Barão do Amazonas, portanto bem longe do trecho atual que começa na Azenha. Não preciso entrar em detalhes, basta dizer que o trecho entre a Barão do Amazonas e a Azenha, percorrido no meio do trânsito junto com os carros, não foi exatamente agradável, exceto se considerarmos a sensação relativamente agradável de ultrapassar centenas de automóveis nos pontos engarrafados, que são cada vez mais frequentes e mais longos naquele trecho, naquele horário.

O fato é que, ao entrar no primeiro palmo de ciclovia, depois de cruzar a diagonal da Ipiranga e Azenha numa manobra quase que evasiva entre uma e outra troca de semáforo, é como se ali se abrisse um portal para uma nova cidade, parecida com a cidade que se convencionou chamar, ironicamente, “A Cidade do Prefeito”. Ainda mais com a iluminação do final da tarde e com o ponto de vista que se tem ao pedalar no sentido bairro-centro da ciclovia (mais perto do arroio, mais longe dos carros), dá até pra dizer que a ciclovia, o reflexo do sol no piso e nos guarda-corpos, e as inúmeras copas de árvores que margeiam a pista formam uma verdadeira “mini-paisagem”, tipo aquelas fotos de blogs famosos.

Em especial por ter percorrido uma parte do trajeto na avenida junto com os carros, e outra parte pela ciclovia, posso afirmar categoricamente que, exceto se alguém estiver treinando ou extremamente apressado, a ciclovia assim como está é uma escolha mais do que óbvia para percorrer longos trechos da Ipiranga, apresentando uma “experiência do usuário” infinitamente superior à de andar junto com os carros. Em especial para as pessoas que andam com bikes alugadas, ou aquelas que têm medo de pedalar no meio dos carros por causa do trânsito, a ciclovia como está RESOLVE O PROBLEMA, naquele trecho.

(Parte 02 – o lado não tão bom)

É obvio que nem tudo são flores, e hoje pude perceber com mais obviedade que nos cruzamentos há um problema não tão perigoso quanto o “gancho” dos carros que fazem conversão, mas tão importante quanto: o do espaço da esquina, formado pela interseção da ciclovia com as calçadas das ruas transversais. Esse espaço é muito pequeno, e acaba criando algumas categorias típicas de atrito entre pedestres e ciclistas:

  • O ciclista que está parado na ciclovia enquanto o sinal da Ipiranga está fechado, acaba ficando exatamente sobre a extremidade da faixa de pedestres, que nesse momento estão realizando a travessia, sendo necessário que um fique desviando / dando licença pro outro. Esse é um caso em que o ciclista pode utilizar o que tenho chamado de “personal-bike-box” (ficar à frente da faixa de pedestres, na faixa da esquerda da Ipiranga e portanto fora da ciclovia, como forma de evitar que, ao abrir o sinal, o carro tenha de aguardar que o ciclista entre na ciclovia do outro lado antes de realizar a conversão). Essa manobra, entretanto, nem sempre é viável, porque o próprio espaço de manobra é reduzido. Uma alternativa seria fazer um “personal-bike-box”sobre a ciclovia, mas antes da faixa de segurança, mas a experiência até agora sugere que fazer isso tornaria o tempo de espera para o ciclista praticamente intolerável. Vale lembrar que passa UM MONTE DE GENTE caminhando por essas calçadas transversais, e essa situação de “acotovelamento” nas esquinas é a regra, não a exceção);
  • O ciclista que vem vindo pela ciclovia enquanto o sinal da Ipiranga está aberto (estando portanto aberto para ele próprio ciclista), acaba encontrando pedestres que estão esperando para atravessar, nas extremidades da faixa de segurança e portanto SOBRE o trajeto da ciclovia. Isso cria um terrível desconforto/constrangimento, pelo menos para mim, que por exemplo hoje mais de uma vez tive que vir vindo encarando o pedestre com aquela cara tipo “olha só, né, vou ter que passar, e você está no meu caminho, tipo assim… dá um lado”. É foda porque o cara TAMBÉM não tem espaço, já que tanto ele pedestre quanto eu ciclista estamos em desvantagem de espaço por ter ficado com o que sobrou na margem da rua.
  • Outra situação que se repetiu mais de uma vez é no momento em que fecha o semáforo da Ipiranga, e os carros das transversais ainda não começaram a andar. Nesse momento, tanto o pedestre que está cruzando a faixa recém-liberada quando o ciclista que está pegando o finzinho da rua transversal livre para cruzar a transversal acabam confluindo e chegam ao mesmo ponto (a esquina) ao mesmo tempo, criando uma situação em que não se sabe quem acelera e passa logo ou quem reduz e espera. O problema é pior porque para o pedestre, aquela é a hora de andar, já que o sinal finalmente fechou e ele PODE enfim atravessar. E para o ciclista, tipicamente frear a bicicleta para ficar esperando acaba tendo um custo energético maior, e ele tende a evitar essa manobra o máximo possível, às vezes preferindo acelerar e passar na frente, o que é ainda mais problemático nessa situação que envolve pedestres.

Mais comentários sobre impressões do que a ciclovia tem de bom e de ruim podem ser vistas neste vídeo-narração que gravei algumas semanas atrás.

ATUALIZAÇÃO:

A imagem a seguir, retirada do Jornal MetroPoa do mesmo dia, casualmente mostra de forma muito ilustrativa essa interseção entre calçada e ciclovia:

 

(Parte 03 – o “inevitável” conflito)

Para terminar “bem” o passeio, obviamente tinha que dar algum estresse. Estresse entre eu e um senhor que estava praticando corrida na ciclovia. Estresse onde tanto um como outro tiveram sua parcela de culpa, um pouco por intransigência, um pouco por desconhecimento, um pouco por dúvida. Mas um estresse que considero emblemático, não apenas por ser representativo dos mesmos estresses que enfrentamos no trânsito, seja de carro, de bicicleta ou a pé, mas também por ser bastante representativo dos tipos de problemas que os ciclistas terão de se acostumar a enfrentar nos primeiros tempos, ou talvez até para sempre nesta e em futuras ciclovias.

Na esquina da Ipiranga com a Érico Veríssimo, já na volta (sentido centro-bairro, bem em frente ao Ecoposto), fiz meu “personal-bike-box” à frente da faixa de pedestres, na pista da esquerda. Um senhor que vinha pela ciclovia praticando corrida a pé chegou e ficou correndo no mesmo lugar (sobre a ciclovia), aguardando a travessia. Antes que todos os carros que vinham pela Érico terminassem de passar, ele já foi atravessando, praticamente se “jogou” na frente de um carro, ele e o motorista ainda trocaram reclamações entre si. Quando o semáforo abriu para mim, acelerei o que deu para tentar chegar antes dele à outra ponta da ciclovia, mas ele chegou na frente.

O fato é que ali há um estrangulamento por causa de árvores e postes. Acabei desviando por cima da grama, e ao passar ao lado dele toquei a campainha da bike (trim-trim!!), fazendo a ultrapassagem no último momento, desviando do poste.

O cara falou “ô, ô, devagar, devagar”, e eu virei e disse “aqui não é lugar para correr a pé”. Ele respondeu “Háh, mas era só o que faltava, achar que eu vou parar de correr aqui…” (ou algo muito parecido com isso). Enquanto eu me afastava, reduzi a velocidade para “conversar” mais um pouco e disse, meio gritando “cara, se tu correr aqui tu só vai te incomodar, porque vão passar um monte de ciclistas te tirando fininho e mandando tu sair”, e ele “ah, véi, vai, vai-te embora, vai” e eu “então tá, tchau!” e fui.

Devo reconhecer que não era necessário ter ultrapassado o cara de forma meio agressiva, ainda mais tocando de propósito a campainha com o objetivo de dar uma assustada. Mas gostaria de relembrar alguns poréns, que fundamentaram em nível subconsciente esse comportamento questionável da minha parte:

  • Finalmente temos uma ciclovia que se encaixa nos critérios de ciclovia de TRANSPORTE, ou seja, uma ciclovia que serve ao modal “bicicleta” de transporte. Aquela não foi feita para ser, e não é, uma ciclovia voltada para o lazer, embora evidentemente possa ser usada para tal. É uma ciclovia para deslocamentos, que cada vez mais receberá um fluxo constante de ciclistas que não estão ali em ritmo de passeio, e que vão precisar de espaço;
  • O projeto da ciclovia, revisado pela engenheira Lisandra Limas, da EPTC, com quem pude conversar longamente a respeito diversas vezes, foi orientado pelas normas da AASHTO, que assim como outras normas de outros países recomendam uma velocidade de projeto de 30km por hora (ou seja, a ciclovia deve nominalmente comportar essa velocidade, mesmo considerando que somente 15% dos usuários costuma ter velocidade de cruzeiro maior do que 22km por hora, ainda segundo a AASHTO). Por uma questão de SEGURANÇA, não é adequado que seja uma via compartilhada. É por isso que a própria Lisandra foi enfática ao afirmar que a ciclovia, sinalizada de vermelho, é EXCLUSIVA para o uso de bicicletas (exceto, óbvio, nas interseções);

Obviamente é muito cedo para esperar que velhos hábitos desapareçam, e que novos hábitos surjam de forma idealizada em tempo recorde, mas aquele praticante de corrida, assim como muitos outros estava e ainda está convicto de que tem todo o direito de estar ali. Eles estão acostumados que seja assim na Ciclovia do Barra, e em toda a orla do Guaíba, e muitos correm de forma bastante cara-de-pau pelo meio da rua, na contramão, e estão cagando pro lance. Aliás, da mesma forma que outros usuários de ruas e calçadas, incluindo muito bem incluídos os ciclistas, dão uma “flexibilizada” nas leis e nas normas, em sua própria conveniência.

(Epílogo)

Não diria, como têm dito vários colegas ciclistas, que a ciclovia é “inutilizável” por causa disso. Também não acho que se deva exigir que todos os pedestres desapareçam para sempre de cima da sagrada superfície da ciclovia. A ciclovia faz parte da cidade, e ela vai evidentemente apresentar o mesmo tipo de problemas que são típicos de todo o resto da cidade. Se os cantinhos da ciclovia são confortáveis, é evidente que o morador de rua vai dormir ali. Se ela é lisinha e espaçosa, enquanto a calçada do outro lado da rua é superpovoada e irregular, é ÓBVIO que as pessoas vão gostar de passar caminhando por ali. É ÓBVIO que a mãe com seu carrinho de bebê vai passar por ali, ao invés de quase derrubar a criança do carrinho passando por cima de crateras e degraus na calçada do outro lado. E é ÓBVIO que os cadeirantes vão acabar passando ali, e dar graças a Deus que a bendita ciclovia existe, para que ele possa deslizar em sua cadeira ao menos naquele pedacinho da cidade.

Acho que esses não são o problema. O problema é quando as pessoas agem com egoísmo, o que é muito comum e às vezes acaba sendo o natural em cidades grandes. Considero egoísmo vir de bicicleta pela ciclovia e oprimir indiscriminadamente pedestres que estejam passando por ela, mas considero também egoísmo que os pedestres simplesmente desconsiderem que aquilo é uma ciclovia, e se utilizem dela como se estivessem sozinhos no mundo, como é o caso de gente que passa ali com cachorro, ou que anda exatamente no meio, e que nem se dá ao trabalho de dar uma olhadinha de vez enquanto para ver se “por acaso” está vindo alguém de bicicleta.

Eu costumo “furar” sinais fechados e também pedalar por cima da calçada. Mas em ambas as situações, é necessário a convicção de estar agindo de forma atípica. Nesses casos, presto extrema atenção para não causar transtorno para as outras pessoas, e tenho certeza de que tenho tido bons resultados, não sempre, mas em geral sim, e exerço vigilância constante nesse sentido. Acredito que os pedestres vão continuar usando a ciclovia da Ipiranga, e no caso das mães com carrinho e cadeirantes acho até que eles DEVEM usar a ciclovia, porque as calçadas em Porto Alegre são simplesmente PODRES em sua imensa maioria (quem discorda pegue um patinete desses com rodinhas bem pequenas e vá dá um rolé pelas calçadas por aí, pra ver…). Por outro lado, acho que deverá haver uma tendência de que os pedestres ACABEM SE DANDO CONTA de que aquilo ali é uma ciclovia, onde a qualquer momento pode vir um ciclista a mais de 20 por hora, sem aviso prévio, e esse ciclista não vai querer frear, e em geral não vai frear mesmo, e depois dele virá outro, e mais outro.

Também acho que será necessário, como já foi discutido com a Engenheira Lisandra, colocar uma SINALIZAÇÃO ORIENTADORA oficial, na ciclovia, informando às pessoas sobre a forma correta e incorreta de utilizar a via. Uma sugestão seria uma placa com os seguintes dizeres:

“CICLOVIA – USO EXCLUSIVO POR BICICLETAS”

Caro usuário

Esta ciclovia faz parte da Rede Cicloviária de Porto Alegre, servindo ao modal de transporte por bicicleta, conforme o Plano Diretor Cicloviário lei tal número tal.

Não é [permitida|recomendada] a circulação de pedestres, exceto nos cruzamentos sinalizados.

Ao circular, permaneça sempre do lado direito, e facilite a ultrapassagem quando for necessário.”

Outra coisa que acho EXTREMAMENTE FUNDAMENTAL e até óbvia é pintar os trechos de interseção com faixa de segurança e outras passarelas COM ALGUMA OUTRA COR, preferencialmente o verde, como era o Caminho dos Parques: nele, quando a ciclofaixa cruzava a rua, era pintada de verde para alertar ao ciclista que ali a preferência não era mais dele.

Enquanto isso, independente de haver alguns problemas e limitações, pretendo continuar usando e recomendando a ciclovia, pois só assim será possível criar a “cultura cicloviária” em nossa cidade.

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23 respostas para Crônica de um fim de tarde na ciclovia nova

  1. Júlio disse:

    Eu já comentei isso em outros posts: a ciclovia da Ipiranga pode não ser uma maravilha (está debaixo de cabos de alta tensão, tem um esgoto a céu aberto ao lado, é muito estreita, obriga o ciclista a mudar de lado várias vezes, etc), mas é um começo para uma cidade que não tinha nada parecido. Eu não tenho dúvidas de que ela agilizará o deslocamento de quem utiliza a Ipiranga e que haverá MUITO movimento na ciclovia, a ponto de chamar a atenção de nossos gestores, da opinião pública e da sociedade como um todo. Acredito que este projeto é um ponto de partida (tosco, mas é) e que muitos outros virão.

    O ruim é que muitas pessoas estão utilizando a ciclovia para outras finalidades, como passear com seus cachorros, correr, etc (isso demonstra que faltam espaços de lazer na cidade para as pessoas). Acho que a EPTC deve fiscalizar e fazer uma campanha para alertar essas pessoas que a ciclovia é de uso EXCLUSIVO das magrelas.

    E por falar em EPTC, na quinta-feira (23/11), voltando do trabalho de bike, quase fui abalroado por um azulzinho INSANO de moto na própria ciclovia!!! Eles estavam fazendo a escolta de um caminhão do exército (até hoje não entendo por que ninguém pode ultrapassar um comboio do exército ou por que os seus veículos devem ser escoltados e todo trânsito interrompido para que eles passem…) e o “agente de trânsito” aproveitou a ciclovia para ganhar tempo e avançar até o próximo cruzamento, trancando-o com a sua moto para que o caminhão passasse. Pena que nem me liguei em anotar a placa ou pegar o nome do azulzinho.

    • heltonbiker disse:

      Belo comentário, Júlio, apenas gostaria de dar minha opinião específica de que, ao contrário da ciclovia do Barra, e em especial da pseudo-ciclocoisa da Restinga, essa ciclovia da Ipiranga NÃO FICOU TÃO TOSCA! Em geral, andar ali é muito bom, muito melhor do que levam a crer a maioria dos comentários especulativos de vários colegas ciclistas a respeito. Já devo ter passado por ela umas oito vezes, e cada vez que passo mais eu gosto e menos dificuldades eu vejo. Assim sendo, reforço o convite: Amigos Pedalantes, vão lá pedalar e Vejam a Ciclovia com seus Próprios Olhos!!

  2. Aldo M. disse:

    Muito legais tuas considerações, Helton. Só não concordo que aquilo seja uma ciclovia, por mais que se esteja vestida com uma. Quem quiser pesquisar no Street View do Google Maps poderá ver que o talude tinha até um calçamento de lajes (e ainda tem, onde não há ciclovia, como em frente ao palácio da Polícia). Onde não há calçamento, há trilhas demonstrando que o espaço é usada por pedestres e corredores ha bastante tempo.
    Mas o principal é que não há nenhum outro espaço destinado oficialmente para os pedestres. Logo, aquele é um espaço compartilhado entre pedestres e ciclistas.
    Boa parte desta confusão decorre da forma fragmentada que a prefeitura utiliza par elaborar seus “projetos” viários. Não se pode falar separadamente em projeto de calçadas, ciclovias e ruas. Isto simplesmente não existe, são apenas croquis. Um projeto deve considerar a via como um todo, prevendo a circulação dos diversos modais. Neste sentido, não há um verdadeiro projeto viário para a Ipiranga que contemple a circulação de bicicletas.
    Além disso, um projeto não é apenas um desenho. É preciso especificar parâmetros: velocidade máxima, velocidade média, fluxo máximo, tempo médio de espera nas sinaleiras, etc Só assim saberemos o que se pretendeu fazer. Será que esta “ciclovia” irá comportar o fluxo de ciclistas quando toda a rede cicloviária estiver concluída? Se não comportar, precisará ser refeita, desperdiçando dinheiro público. E com certeza será, pois já existem conflitos demais pela falta de espaço.

    • heltonbiker disse:

      Aldo, concordo parcialmente :o)
      Concordo que os pedestres já usavam o talude, mesmo aquilo ali não sendo via pública, pelos mesmos motivos de sempre: o pedestre, como humano se transportando em sua condição locomotora ancestral, tende a ser alheio ao que lhe é imposto por qualquer regulamento ou administração viária, como confirmam as trilhas atravessando gramados em parques, os saltos sobre tapumes em rodovias expressas, e todas as outras medidas tomadas naturalmente por aqueles que procuram o caminho mais natural para se locomover, mesmo que isso seja errado e perigoso. Em qualquer lugar, enquanto a calçada for pior que a ciclovia, as pessoas vão caminhar na ciclovia, a surpresa seria se acontecesse o contrário. O mesmo acontece nas rampas de cadeirantes nos semáforos: as pessoas SEMPRE preferem caminhar por elas do que transpor o degrau do cordão, simplesmente porque é melhor! O correto seria se TODA a extensão da extremidade das faixas de pedestres fosse uma rampa, que nem houvesse meio-fio ali. Mas seria hipócrita exigir um padrão de planejamento e acabamento idealístico somente na ciclovia, quando literalmente todo o resto da cidade é feito aos trancos e barrancos. Acho que nesse contexto de improviso, a ciclovia dessa vez até que ficou muito boa, é certamente muito melhor do que as outras que temos na cidade, de longe!
      Agora, discordo que esse projeto, mesmo que fique rapidamente obsoleto, tenha sido um desperdício de dinheiro. Terá sido, isso sim, um belo de um precedente, e uma enorme rachadura no dique de demandas reprimidas, por onde muitos neo-cidadãos-ciclistas hão de se infiltrar.

      • Aldo M. disse:

        Helton, continuo defendendo o uso daquele espaço por pedestres. Anos atrás, foi feito inclusive calçamento sobre o talude pelo menos até a Barão do Amazonas para quem o utiliza (ainda hoje!) para caminhadas e corridas.
        Sai até no jornal, na época em que foi construído. Não lembro quem o financiou, se foi a Prefeitura ou não? Uma pesquisa poderia revelar que ele é oficial, pois pelo menos foi autorizado pela Prefeitura. Isto provaria de uma vez por todas que o espaço está sendo roubado dos pedestres.
        Ontem mesmo vi um senhor, que havia perdido uma perna, deslocando-se de muletas nas imediações da Vicente da Fontoura sobre as lajes do calçamento. .Depois que retirarem as lajes e ocuparem todo o talude com a ciclovia, irão expulsar os deficientes também?
        Deram aos ciclistas um espaço que as pessoas utilizam em vez de tirarem o dos carros estacionados. Eu não vou me prestar ao papel de apoiar esta atitude e disputá-lo com os pedestres. Sempre que passo por ali de bicicleta, ajo como um intruso e respeito a preferência deles, inclusive os que levam os cachorros para passear, um uso tradicional dos taludes.
        Quem pedala em velocidades um pouco maiores, continua preferindo o leito da via. A ciclovia acabará ficando para os iniciantes e para uso de lazer, o que tem muitos méritos.
        O que não pode acontecer é a Prefeitura retirar as placas de “ciclistas” ao longo da Ipiranga, o que daria uma mensagem de proibição de pedalar na via onde houver a ciclovia. Temos que ficar atentos e demandar que a Prefeitura não faça isto após a inauguração do novo trecho.

      • Aldo M. disse:

        https://maps.google.com/maps?q=mapa+porto+alegre+menino+deus&ll=-30.0467,-51.198018&spn=0.000342,0.000431&hnear=Menino+Deus,+Porto+Alegre+-+Rio+Grande+do+Sul,+Brasil&t=h&layer=c&cbll=-30.046651,-51.198058&panoid=ncf6PVTrzKpjXDhhR-UB3Q&cbp=12,12.93,,0,7.09&z=21
        Este é o local onde vi ontem um deficiente físico caminhando de muletas na calçada que existe sobre o talude da Ipiranga, mas que será retirada com a construção da ciclovia.

      • Aldo M. disse:

        E aqui é a calçada no talude próximo à AMRIGS, junto a uma ponte para pedestres

  3. PabloZ disse:

    1. O senhor que estava correndo se sentiu ofendido porque sabia que estava no lugar inadequado, se estivesse em qualquer outro lugar o “triiiiim” seria interpretado como “estou passando mais rápido que você, cuidado”.

    2. Demandamos espaço ao ar livre NO MEIO DA CIDADE para atividades de esporte e lazer, não só em praças.

  4. Gostei muito, como sempre, da tua analise ; ela é sempre completa e cheia de elementos provatórios das tuas reflexões; também acredito que nela esta refletida toda a perícia da área técnica da EPTC e particularmente da Eng. Lisandra. Agira eu tenho um problema meu caro Helton, eu sou obrigado a usa-lá quatro vezes ai dia e preciso agilidade, não que eu seja Husein Bolt das bicicletas, mas eu não posso ficar nos detalhes porque a viagem e ao trabalho e não eventual ou de recreação, então en fim não posso ficar negociando com corredor de rua impertinente nem com pedestre, preciso ir embora NAO TENHO tempo então vou ter que continuar ou pela rua junto aos carros ou por caminhos alternativos. Eu não to tendo sorte e assegurada ciclovia ciclochata das minhas viagens ao trabalho diariamente é de lascar, saúde a todos

    • heltonbiker disse:

      É exatamente o que eu penso, ciclivia de transporte é para ter duas filas de ciclistas passando o tempo todo, um para cada lado, a 25 por hora. Mesmo nos melhores trechos, ela é relativamente estreita para esse regime de uso (ou seja, não cumpre sequer o que a AASHTO recomenda). Acredito que os pedestres vão acabar percebendo que ali é um ambiente não-convidativo, mas é possível que rapidamente os próprios ciclistas acabem se complicando por causa disso. Independente de qualquer coisa, históricamente cada ciclocoisa já feita em nossa cidade foi “corrigida” no projeto seguinte: o regime eventual da ciclofaixa Caminho dos Parques já foi desconsiderado para projetos futuros, o piso de tijolinhos da ciclovia do Barra já foi desconsiderado também, e talvez as dimensões atuais da ciclovia da Ipiranga possam vir a ser consideradas inviáveis para um regime de uso intenso.

      • Aldo M. disse:

        Numa avenida como a Ipiranga, que tem três ou quatro faixas para veículos automotores por sentido, deve haver ciclovias unidirecionais com largura suficiente para permitir ultrapassagens. Na Holanda é assim. Não é possível que, com tanto espaço para os carros, não sobre um mínimo para fazer uma ciclovia decente. Eu classificaria a ciclovia da Ipiranga como uma sabotagem do poder público ao transporte não motorizado.

  5. Odeio corretor ortográfico
    Errata:
    Agira – Agora
    ai dia – ao dia
    e assegurada – é a segunda

    peço desculpas pelos erros involuntários

  6. Olavo Ludwig disse:

    Muito boa análise, e ótimos comentários, e destaco o do Martinez, para quem esta com pressa de chegar em algum lugar não vale a pena entrar na ciclovia, mas se o cara tá com o horário tranquilo é claro que vale a pena.
    Ah, tomei a liberdade de colocar para lixeira um comentário que continha um palavrão e um incentivo à violência.
    E por fim não poderia deixar passar, com certeza cadeirantes vão gostar da ciclovia, normal, e essa administração fez inclusive propaganda mostrando como um cadeirante estava feliz usando a ciclovia da Restinga, vídeo feito por um ciclista jornalista comprado pelo Fortunati, que inclusive tem nome de um modelo de bicicleta antiga.

  7. lobodopampa disse:

    Excelente análise, imparcial, desapaixonada e pragmática como só o Helton sabe fazer.

    Só tem um jeito de desencorajar os caras-de-pau a corromper as ciclovias e ciclocoisas para usos não-adequados e não-aceitáveis.

    É USAR as ciclovias.

    Como parte dos ciclistas – por diversos motivos, mais ou menos justificáveis – se recusa a usar, e a quantidade de corredores de rua no momento é maior (é o esporte da moda, no momento), os poucos ciclistas que usam são submetidos a desconfortos, constrangimentos, e até ameaças.

    Mas há uma boa notícia:

    o sistema de bicis de aluguel. Desconfio que esteja aí a alavanca que poderá começar a mudar esse panorama. O aumento de pedalantes na região central, de orla, e nas ciclo-coisas tende a criar uma “repressão civilizada” a esses comportamentos egóicos sem-noção.

    Mal posso esperar que criem um ponto de bicis de aluguel nas imediações da ciclovia da Diário e outro em Ipanema.

  8. Aldo M. disse:

    Só lamento esse conflito anunciado entre ciclistas e pedestres na nova ciclovia enquanto o Fortunati passeia pela avenida com seu SUV.

  9. Felipe X disse:

    Este conflito com os pedestres é existente tanto nas ciclovias quanto nas ciclofaixas. Tenho diversas críticas a ciclofaixa da Icaraí (unidirecional, alguns estacionamentos perto das esquinas deviam ser removidos, etc) mas não vejo justificativa para o pessoal usar ela como pista de corrida. Mas usam, e muito!

    Estes dias eu estava pedalando ali (no sentido correto) e um senhor estava dando sua corrida ali PELA CONTRAMÃO e parou para xingar um cara que saiu do posto de gasolina e não viu ele correndo na pista.

    Acho que o caso é emblemático, não temos educação de trânsito sequer para entender que um motorista não tem obrigação de olhar para a contramão antes de entrar na rua. Mas a EPTC não faz campanha de educação, então vai ser difícil mudar.

    • lobodopampa disse:

      O dever de educar para o trânsito não é exclusivamente da EPTC. É de todos os governos em nível federal, estadual e municipal. Ou seja, isso é assunto para Ministério e Secretarias de Educação p.ex. A EPTC até faz alguma coisa, mas mas ela simplesmente não tem tamanho (mesmo que tivesse vontade política) de fazer esse trabalho. Estamos falando de educação de base, de atender TODAS as pessoas, quer dizer TODAS as crianças da rede pública e particular de ensino.

      • andré gomide disse:

        Ouso discordar do nobre colega….a EPTC não faz nada em relação ao trânsito de POA, inclusive briga para não direcionar verbas das multas que serviriam para entre outras coisas educação no trânsito. A prefeitura poderia dar o exemplo e não faz isso.
        Acho que é a primeira vez que discordo de ti…rsrsrsrsr

      • lobodopampa disse:

        Não chega a ser uma discordância, André.

        Eu concordo que a Prefeitura como um todo faz praticamente nada pela educação para o trânsito. A EPTC porém faz alguma coisa, através do seu departamento de educação – que é compreensivelmente pequeno. Você faz bem em lembrar a insistência da EPTC em se recusar a cumprir a lei que a obriga a reinvestir $ de multas tbém em educação; creio porém que se ela voltar atrás e decidir cumprir a lei, atuará em nível de campanha publicitária (que é o que ela tem estrutura para fazer).

        Isso não é Educação, é tapa-furo.

        Educação se faz na escola. Educação tem que ser universal, ou seja, pra todo mundo. Portanto transcende em muito as possibilidades de uma EPTC. A EPTC
        (se tivesse vontade política) poderia no máximo ser uma parceira da Secretaria de Educação, junto com DETRAN, ONGS, Associações, sei lá mais quem, assessorando a implementação de um grande programa de – aí sim – Educação para o Trânsito.

        O Estado e a União tbém devem fazer a sua parte, isso não é uma obrigação exclusiva das Prefeituras.

      • Felipe X disse:

        Não chego a discordar de ti, mas o detran sim – e não a EPTC – virou maquininha de fazer dinheiro há tempo, e não espero muito do governo federal. Eles estão mais ocupados em vender bastante carro para fingir que a crise não existe. No final, quem realmente atende as pessoas é quem está mais perto , ou seja, a prefeitura.

  10. Aldo M. disse:

    Fui dar outra volta na ciclovia da Ipiranga e saí de lá muito frustrado. Agora com os semáforos para ciclistas funcionando, deu para sentir que a ciclovia ficou inviável para transporte. Serve apenas para lazer, onde é possível fazer longas conversas com os outros ciclistas enquanto se aguarda um eternidade até o sinal abrir.
    Pedalar a 30 km/h desviando torres de transmissão, árvores, ciclistas atrás destes obstáculos, é quase suicídio. E mesmo não tem nenhuma serventia, pois se passa a maior parte do tempo parado nos semáforos.
    Que espécie de contrapartida ambiental é essa que permite construir milhares de vagas de estacionamento em troca de uma ciclovia que comporta um fluxo tão baixo de ciclistas? Proponho questionar a Prefeitura a respeito da capacidade de fluxo da ciclovia e, de posse desses dados, encaminhar denúncia ao Ministério Público por desrespeito à Lei do Plano Cicloviário e desperdício de recursos pelo subdimensionamento da ciclovia.

  11. Fernando Pavão disse:

    Acho que a massa crítica devia dar uma passada lá.

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