Como o carro mata a cidade (e as pessoas).

Resolvi aproveitar que esta é a semana do Dia Mundial Sem Carro para escrever um texto sobre como os automóveis prejudicam a cidade e dar motivos para que as pessoas deixem seu carro em casa. Afinal, os carros afetam negativamente a cidade e seus habitantes de diversas formas, afetam o ambiente, a saúde física e mental das pessoas, a segurança, a qualidade de vida, e por aí vai, de maneiras que muitas vezes a maioria das pessoas nem faz idéia.

O automóvel mata os bairros. Proprietários de carros tendem a fazer suas compras mais longe de casa, de preferência em um local de fácil estacionamento (como um shopping center), o que prejudica o comércio de bairro, causando em muitos casos o fechamento de lojas e outros estabelecimentos. O dono de um automóvel também caminha menos pela sua vizinhança. Com menos comércio de rua e menos pessoas circulando a pé, os bairros tornam-se mais perigosos.

Antigo cinema Astor, na Avenida Benjamin Constant, fechado há anos. Hoje às pessoas dão preferência a salas de cinema em shopping center.

O crescente fluxo de automóveis (e a conseqüente ausência de comércio de rua) deixa as ruas do bairro menos agradáveis de se caminhar. Atravessar a rua torna-se um desafio, principalmente para pessoas idosas e com dificuldade de locomoção, e andar a pé passa a ser algo a ser evitado. O risco de atropelamentos também faz com os pais proíbam as crianças de brincar nas ruas.

O uso prioritário do automóvel acaba por matar também o convívio entre vizinhos. As pessoas deixam de deslocar-se a pé e fazer compras no seu bairro e optam por sair de suas casas já dentro do carro, que nada mais é do que uma bolha de metal, vidro e plástico que o isola do resto da cidade. Com o carro as pessoas sentem-se mais dispostas a morar em um bairro, trabalhar em outro e fazer suas comprar ainda em outro. Isto elimina qualquer tipo de contato com os moradores e trabalhadores da região. Em uma comunidade saudável, os vizinhos se conhecem e apóiam uns aos outros, garantindo inclusive aumento da segurança do bairro. Essa falta de convívio faz com que os vizinhos deixem de se importar uns com os outros, o que afeta obviamente a segurança de toda vizinhança.

Carro na garagem, menos vida nas ruas, mais insegurança, mais grades.

Tudo isto leva a uma reação em cadeia. As pessoas evitam caminhar pela cidade pois não é agradável e seguro, optam por deslocar-se de carro, e conseqüentemente as ruas ficam mais desertas, menos agradáveis e seguras.

Carro mata pessoas. Sim, não é novidade alguma dizer isso: nossas ruas são mais perigosas graças ao trânsito de veículos automotores. Anualmente no Brasil são mais de 35.000 vítimas fatais e outros milhares de pessoas são feridas e mutiladas. Segundo a ONU, em 2006 na Guerra do Iraque morreram menos pessoas do que isso. Há quem diga que o que mata não são os automóveis, mas a imprudência. Bem, ouso dizer que se essas pessoas estivessem a pé, em uma bicicleta, ou mesmo como passageiros de um ônibus, esses números seriam muito, mas MUITO menores. Mesmo que fossem igualmente imprudentes.

Além dos óbvios custos humanos que tudo isto gera, em sofrimento e morte, temos que somar a isso os custos econômicos e sociais. Segundo o Portal do Trânsito, uma vítima de acidente de trânsito com ferimentos de média complexidade custa em média R$36.000 por mês aos cofres públicos. Todo esses recursos poderiam ser investidos em escolas, transporte coletivo ou mesmo para tratar outros doentes que hoje ficam com atendimento precário.

Poluição pode causar doenças respiratórias, câncer de pulmão, diabetes e autismo.

Essas dezenas de milhares de pessoas são apenas as vítimas de acidentes de trânsito, mas os carros também fazem vítimas de formas mais indiretas. Considere também o fato de que a poluição emitida pelos automóveis afeta gravemente a saúde de toda a sociedade. Não é preciso ser um especialista para saber que a poluição atmosférica está diretamente relacionada com as doenças respiratórias e câncer de pulmão, mas além disso, novos estudos sugerem que a poluição atmosférica do tráfego de veículos pode até mesmo estar relacionada com o surgimento de autismo e de diabetes do tipo 2.

Isso foi da poluição atmosférica. E a poluição sonora? Bem a poluição sonora do tráfego de veículos pode causar distúrbios do sono, pode afetar o sistema imunológico e o metabolismo e pode inclusive causar ataques cardíacos.

Estádio do San Francisco 49ers. Comparativo entre o espaço ocupado pelas pessoas (estádio) e o espaço ocupado pelos carros (estacionamento) nas cidades.

Estádio do San Francisco 49ers. Comparativo entre o espaço ocupado pelas pessoas (estádio) e o espaço ocupado pelos carros (estacionamento) nas cidades.

Carros ocupam espaço e o espaço na cidade é escasso. São Paulo, por exemplo, é uma cidade onde 80% do espaço público é ocupado com a circulação ou estacionamento de carros. Mas os automóveis atendem apenas 28% dos deslocamentos urbanos. E a demanda dos automóveis por espaço está constantemente crescendo. Toda hora estamos ouvindo falar de pessoas sendo removidas de suas casas para que uma avenida seja alargada.  Todo esse espaço, onde atualmente temos avenidas, viadutos, estacionamentos, poderia ser utilizado como passeio público, para dar mais segurança e conforto aos pedestres, por exemplo, ou ser transformado em áreas verdes com a criação de jardins, plantio de árvores, instalação de playgrounds, etc.  Na sociedade do automóvel, as ruas são das máquinas, não das pessoas.

Os carros afetam negativamente a liberdade de todos os habitantes da cidade. A indústria automotiva em seus comerciais adora vincular a propriedade de um automóvel com a liberdade individual. Mas a realidade é bem diferente. Em uma cidade onde a maior parte do espaço público é destinado ao automóvel, as pessoas perdem a sua liberdade de ir e vir sem ele. Querem exemplo mais prático do que o fato de muitas pessoas deixarem de andar de bicicleta nas grandes cidades brasileiras por terem medo de compartilhar as ruas com os carros? Pedestres também sofrem, muitas vezes são forçados a percorrer grandes distâncias por caminhos que não desejam apenas porque o planejamento urbano privilegia o fluxo de automóveis e o pedestre não tem nem a liberdade de caminhar distraidamente sob o risco de pena de morte por atropelamento.

Chimarrão em frente à calçada.

Toda cidade vira um mero lugar de passagem.Para quem está no automóvel, as ruas são apenas o espaço inconveniente entre dois pontos de interesse (a origem e o destino). As ruas deixaram de ser um local agradável para se estar e passar a ser local do mero fluxo de veículos. Todos que vivem em uma determinada área são prejudicados por pessoas que passam por ali por alguns meros segundos: o viaduto para o fluxo de veículos é mais importante que a qualidade de vida dos moradores do bairro. Até que todos os bairros tornam-se lugares onde ninguém quer estar, e os locais em que queremos estar estão cada vez mais distantes no horizonte, longe do nosso alcance. Só que quando a sociedade do automóvel chega nesse lugar, transforma-o em mais um corredor para carros e o nosso local dos sonhos vai para mais além.

Existem outros problemas que os automóveis trazem, mas ficam para uma próxima vez.

Nas cidades, carro não é solução, é problema. Existem tecnologias e transportes mais adequados, que não matam as nossas cidades, que não as transformam em grandes manchas de asfalto cobertas de fuligem, que não colocam a vida e a saúde de todos em xeque.

Informe-se. Deixe seu carro em casa. Lute por uma cidade mais humana. Uma cidade sem carros.

Pôster do Dia Mundial Sem Carro em Atlanta, nos E.U.A.

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23 respostas para Como o carro mata a cidade (e as pessoas).

  1. Felipe X disse:

    Se gastassem 10% do esforço das campanhas anti-tabagistas divulgando isso… já fazia uma diferença absurda na consciência de alguns. Poluição das cidades é o fumo passivo de todos nós.

    • Otávio disse:

      Ainda digo mais, e sempre defendo essa tese, a campanha anti-fumo só existe pois o prejuízo superou o lucro gerado pelo cigarro. No Brasil (colônia mal copiada do modelo norte americano) o que mais importa é o lucro gerado e o consumo exacerbado, e a sociedade em sua maioria vai na onda, acha que o que mais importa é o “ter”, consumir tudo o que for possível, ganhar mais e mais e mais dinheiro. E nesse anseio, a qualidade de vida fica quase em último plano. O carro só será “atacado” pelos governantes quando o prejuízo superar o lucro como aconteceu no caso do cigarro, e isso tá longe de acontecer, e talvez até lá seja tarde demais.

      • Lucas disse:

        Otávio, eu diria que os custos já superam o lucro, mas enquanto o lucro é privado e de poucos, os custos são socializados, ou externalizados.

      • Felipe X disse:

        Mas o custo do fumo também é socializado aqui… se bem que como bem foi dito acima a gente gosta é de copiar os EUA, lá o custo da saúde é privado.

  2. airesbecker disse:

    O que será que gera mais fumaça o tabaco ou os carros?

  3. Pablo disse:

    Estava pensando em uma coisa… com o uso do transporte coletivo, caminhada ou bicicleta, melhora-se a convivência entre as pessoas pode tem como resultado a redução de muitos distúrbios de ordem psicológica como depressão, ansiedade, esquizofrenia… afinal muitos desses distúrbios tem causa na solidão.

  4. Lucas disse:

    Talvez o pessoal não tenha percebido ainda a gravidade do problema que é a poluição gerada pelos automóveis.

    Procurem no Google com as palavras poluição ambiental automóveis e fiquem chocados.

    Retirei esse trecho de um artigo que li no Ecodebate.
    “A partícula de fuligem penetra no pulmão causando o processo inflamatório. Em São Paulo se morre mais de poluição do que de acidente de trânsito. Em média, 90% das emissões são causadas pelos veículos e isso acontece em quase todas as grandes cidades do Brasil”, afirma Saldiva.

    • Aldo M. disse:

      Pior que a poluição causada pelos automóveis, é a causada pelos ônibus a diesel (às vésperas da implantação de um sistema BRT em Porto Alegre, esta é uma lembrança inconveniente para donos de empresas de transporte que só visam lucro).
      A solução, que deveria estar sendo proposta, é com ônibus movidos a gás natural (a exemplo dos táxis) ou eletricidade. Em vez disto, continuaremos a cheirar fumaça de óleo diesel.
      Talvez um pouco menos, pois felizmente a REFAP está sendo modernizada (ao custo de 1,5 bilhões de reais) para fornecer diesel com menor teor de enxofre.

      • Felipe X disse:

        Não entra na minha cabeça que sequer estudam usar trolebus nesses BRT’s… mas daí alguem na EPTC ia ter que pensar né.

      • Aldo M. disse:

        A questão é bem simples: a solução com ônibus a diesel é a mais barata (do ponto de vista dos donos das empresas de transporte), possibilitando maiores lucros.

  5. Aldo M. disse:

    O transporte urbano por automóvel é um grande embuste. A sua maior “justificativa”, uma suposta rapidez de deslocamento, é falsa: a velocidade média de um carro nas cidades é de meros 20 km/h (mas quase ninguém sabe disto). A “solução” para este problema é ocultá-lo e iludir as pessoas com carros potentes e avenidas para altas velocidades.

    O transporte coletivo, porém, costuma ser ainda mais lento. Os passageiros perdem muito tempo para se deslocar até as paradas e aguardar a chegada dos ônibus.

    Mas, mesmo com muitos automóveis nas ruas, ainda seria possível resgatar em grande parte a vida das cidades. O segredo é a redução da velocidade máxima do transporte automotor e do espaço ocupado por ele. Isto melhoraria muito a mobilidade dos pedestres e ciclistas, além de fazer despencar o número de mortos e feridos no trânsito.

    Existem, porém, alguns mitos que estão impedindo a adoção de uma política de redução da velocidade, digamos de 60 km/h para 40 km/h nas grandes avenidas, bem como da largura das pistas.

    Um deles é que aumentaria o tempo de deslocamento. Na verdade, como os automóveis passam a maior parte do tempo parados nos semáforos, é quase indiferente poder atingir 40 km/h ou 60 km/h de velocidade máxima. Na maioria das vezes, dirigir a uma maior velocidade só faz chegar-se mais rápido à próxima fila de semáforo.

    Outro mito é que reduziria o fluxo de automóveis, aumentando os congestionamentos. A verdade é que o fluxo de uma via INDEPENDE da velocidade dos veículos. A razão é bem simples: os motoristas precisam guardar uma “distância” de três segundos do veículo à frente. Com isso, a distância em metros entre um carro e outro aumenta com o aumento da velocidade. Ou seja, não adianta correr mais para dar mais fluidez ao tráfego: o fluxo por faixa de trânsito sempre estará limitado a um carro a cada três segundos. Dito de outra forma, são 20 carros a cada minuto, QUANDO O SINAL ESTÁ ABERTO. Em média, portanto, nem se chega a 10 carros por minuto.

    No final de tudo, percebe-se que as opções naturais de transporte a pé, de bicicleta e mesmo de transporte coletivo são sabotadas pelo grande número de automóveis circulado em altas velocidades pelas ruas e avenidas.

    Qual a solução? Infelizmente, a imediata, para alegria da indústria do automóvel, é usar o carro nos deslocamentos. A definitiva, porém, é limitar o espaço urbano que os automóveis ocupam e as velocidades perigosas com que se deslocam.

    Parece bem simples. Aliás, É muito simples! É necessário, porém, que as pessoas se libertem dos falsos conceitos martelados há décadas pela indústria automobilísta e comecem perguntando a si mesmas: que tipo de cidade queremos construir e deixar para nossos filhos?

  6. Aldo M. disse:

    Considerando que o automóvel mata o comércio local, não deixa de ser intrigante que justamente os grandes shopping e supermercados estejam projetando e construindo ciclovias em Porto Alegre.

    • Marcelo disse:

      Aldo, correção, os projetos não são realizados pelas empresas mas por arquitetos contratados pela prefeitura. A prefeitura fornece o projeto e a empresa é OBRIGADA por lei a realizar a obra conforme os padrões estabelecidos pela prefeitura. Eles não estão fazendo como acham certo ou porque acham certo. Estão fazendo porque são obrigados e estão fazendo como a prefeitura manda eles fazer.

      Qualquer problema no projeto é culpa da administração municipal e dos técnicos que para ela trabalham.

      • Aldo M. disse:

        Marcelo,
        Deveria ser exatamente como descreveste, mas desconfio que não é bem assim que está acontecendo. No caso da Ipiranga, a ACPA solicitou cópia do projeto à Prefeitura, mas este era bem simplificado e nem nome do projetista tinha. A Prefeitura fez um ante-projeto que, na prática, apenas indica que a ciclovia não pode tirar espaço dos carros. Atendendo a este “princípio”, vale quase tudo.
        Um projeto deve incluir, além dos desenhos dimensionais e especificação dos materiais, suas premissas, considerações e justificativas das soluções escolhidas em um memorial. Se a Prefeitura até agora não apresentou o projeto completo é porque ele simplesmente nem existe.
        Se existisse, já deveria ter aparecido pelo menos o nome do projetista.

      • Marcelo disse:

        Oi Aldo,

        Quem elaborou o projeto da ciclovia da Avenida Ipiranga foi o Antônio Miranda, que inclusive se manifestou num post do site Poabikers:

        http://www.poabikers.com.br/?p=661

        Onde ele diz inclusive que a EPTC não está seguindo o projeto original.

      • Aldo M. disse:

        Obrigado pela informação, Marcelo. Eu havia perdido de ler esse excelente post do PoABikers, fundamental para entender melhor o que está se passando no caso da ciclovia da Ipiranga, principalmente pela resposta do projetista.
        Note-se que o Miranda é autor do projeto básico, que não tem compromisso com a observância de normas como o projeto executivo. O projeto básico serve, porém, para fazer a contratação da obra, já que permite realizar seu orçamento.
        Neste caso, que é bastante comum, o projeto executivo está sendo elaborado pelos engenheiros da construtora. Então, DEVE EXISTIR um engenheiro que assinou o projeto executivo da ciclovia da Ipiranga. É e este que devemos botar contra a parede para justificar, do ponto de vista técnico, suas soluções.
        Uma lástima que esta ciclovia não esteja sendo financiada, por exemplo, pelo Banco Mundial, que cobraria um projeto executivo coerente. Mas não, são dois grandes incorporadores que só estão nessa pela liberação da construção de absurdas 4700 vagas de estacionamento em shopping centers (só para comparar, no atual complexo do World Trade Center de Nova Iorque, estão previstas apenas 500 vagas de estacionamento).

    • Felipe X disse:

      Os shoppings proíbem andar de bicicleta nas pistas asfaltadas de seus estacionamentos. Ao menos o barrashopping faz isso.

      • Aldo M. disse:

        Será que não é porque o seguro que contrataram não cobre acidentes com bicicletas? O Mac Donald’s também não permite bicicletas no drive thru por conta disto.

      • Felipe X disse:

        Talvez, mas o que poderia custar isso?

      • Aldo M. disse:

        Shoppings são áreas privadas, embora com acesso público. Nunca estudei o assunto, mas tenho a impressão que os proprietários desses empreendimentos abusam de seu direito de propriedade ao suprimir direitos básicos dos cidadãos. Notem que eles nem se dão ao trabalho de justificar por que é proibido andar de bicicleta. Apenas é, e pronto. Quem não gostar, que vá a outro lugar. Aliás, ESTA é a solução definitiva para este problema e todos os outros criados pelos grandes comerciantes nas cidades!

  7. PinhaFixa disse:

    Eu imagino o porque que eles proibem trafegar de bicicleta pelo Shopping. Nós aqui, acho que somente iriamos pedalando até o bicicletário. Eu imagino algum moleque de Freeride, daqueles bem educados que conhecemos, solto no asfalto perfeito e cheio de obstáculos otimos para se dar aéreo!

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