Cidades para pessoas e marketing eleitoral

Copiado do blog Bike is Beautiful.

Em época de eleições municipais, uma das grandes bandeiras dos candidatos tem sido a de “criar uma cidade para as pessoas”. Consagrada no livro Cities for People, do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, e divulgada no Brasil pelo projeto homônimo da jornalista Natália Garcia, a expressão tem sido apropriada indiscriminadamente por partidos e coligações muitas vezes sem o mínimo conhecimento da proposta original. Na edição de 16/9 do jornal Zero Hora, a professora Maria de Nazareth Agra Hassen esclarece a expressão e põe os candidatos numa situação bem menos confortável.

 

Cidades para pessoas, por Maria de Nazareth Agra Hassen*

É característica do discurso vazio a apropriação de conceitos que causem impacto positivo, mesmo que o restante do discurso e principalmente a prática não guardem relação com as atrativas locuções. A noção de cidade para as pessoas tem se disseminado como posição política e visão de mundo em várias cidades, ainda que nossos políticos, que recentemente passaram a utilizá-la, incorram em contradição ao aliar a ideia de cidade para pessoas com noções incompatíveis com o conceito. Como exemplo, temos as propostas de mobilidade urbana, que em nada se aproximam do conceito original, utilizado e praticado por Jan Gehl em cidades como Copenhagen, Melbourne, Estocolmo, Nova York.

O conceito de pessoa aqui se opõe a máquina, a capital, a lucro, a desenvolvimento e a progresso. Não há pessoa no centro de uma lógica do capital e do progresso. Há pessoa na lógica da educação, do encontro, da solidariedade e do compartilhamento. Nenhum candidato fala em decrescimento econômico, por exemplo. E são conceitos associados pessoa e decrescimento. Não se faz política para as pessoas juntamente com desenvolvimento econômico, porque vão a direções opostas.

Uma cidade para pessoas promoveria estreitamento de avenidas, não alargamento. Uma cidade para pessoas privilegiaria aqueles que se deslocam a propulsão humana, como o pedestre e o portador de necessidades especiais, depois o ciclista e só depois os veículos motorizados, privilegiando o transporte público, confortável e pontual. As ciclovias e ciclofaixas não são segregadas das ruas e avenidas, mas subtraem uma pista antes destinada a veículos motorizados. Uma cidade para pessoas teria tempo de semáforo para o pedestre atendendo a sua necessidade e não à do fluxo do trânsito. Aqueles que vêm usando o conceito deveriam ler o livro Cities for People (Island Press, 2010), do famoso arquiteto Jan Gehl. Na publicação ainda não traduzida ou publicada em língua portuguesa, Gehl sustenta, entre outras teses, que uma cidade para pessoas não tem edifícios altos, pois o contato com a vida da cidade só se pode obter até o quinto andar, e que a questão da densidade se resolve com projetos arquitetônicos orientados por uma ideia humanista. O conceito não se resume a retirar os carros das ruas e diminuir a altura das edificações.

Uma cidade para pessoas teria políticas de transformar terrenos baldios em praças públicas, iluminadas e com equipamento para crianças e adultos. Uma cidade para pessoas alargaria as calçadas e levaria segurança às ruas para que as pessoas não precisassem se gradear, roubando espaços de calçadas, e pudessem colocar suas cadeiras na rua e conviver com os vizinhos, substituindo o lazer baseado em consumo pelo lazer baseado em trocas sociais. Uma cidade para pessoas, ao proibir edifícios altos, investiria na convivência, base da realização humana mais plena. Uma cidade para pessoas investiria na prevenção à saúde e não apenas no tratamento. Uma cidade para pessoas incentivaria os artistas de rua, investiria na sua formação e nas suas condições de trabalho. Uma cidade para pessoas acolheria suas crianças e adolescentes e criaria condições para que toda criança fosse aceita com suas características e história de vida, e, portanto, os abrigos municipais não se localizariam apenas nas periferias. Uma cidade para pessoas coibiria as descargas abertas dos carros poluidores, multá-los-ia e os apreenderia. Uma cidade para pessoas incentivaria o plantio de árvores e flores, não os coibiria. Uma cidade para pessoas não asfaltaria ruas em vilas populares sem lhes garantir espaço para as calçadas e para as praças, onde as crianças pudessem brincar e jogar. Uma cidade para pessoas teria aulas de trânsito na escola em que as crianças aprenderiam a se deslocar de bicicleta ou a pé, conhecendo seu bairro e os demais. Uma cidade para pessoas institui as zonas 30 (regiões, em geral bairros em que a velocidade máxima é 30 km/h) e veda o trânsito de automotores em ruas em todos os bairros nos finais de semana.

Uma cidade para pessoas enfrenta desafios, cria inimigos nas esferas do poder econômico, inverte a lógica da necrópole, instaura a humanidade e recompõe a vida em espaço público aberto. Uma cidade para pessoas elimina outdoors e outras formas de enfeamento e estímulo ao consumo. Uma cidade para pessoas incentiva a diminuição da produção de lixo, orienta sobre a separação e sobre a criação de compostagem em escolas, casas e apartamentos, institui hortas comunitárias em todos os bairros.

As pessoas não precisam ser cuidadas, elas têm que se sentir incluídas no cuidar. Uma cidade para pessoas facilita a vida do cidadão e retira o poder do burocrata. Uma cidade para pessoas distribui o poder e garante que as pessoas tenham nas ruas a extensão das suas casas e não um parêntese entre espaços vitais.

Uma vez conhecido o compromisso com a cidade para pessoas, algum candidato ainda se habilita?

*DOUTORA EM EDUCAÇÃO/UFRGS

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5 respostas para Cidades para pessoas e marketing eleitoral

  1. Fabian disse:

    A idéia de que andar de carro é sinônimo de riqueza, e andar de onibus é sinônimo de pobreza, está profundamente implementada na mente da maioria das pessoas. É uma cultura que exige tempo e paciência para mudar. Os políticos sabem disso e vão pelo mais fácil, prometem para o povo que eles vão vai sair dos ônibus para andar de carro, enquanto era para ser o contrário.

  2. André Alves disse:

    Espero que muita gente leia esta matéria da Nazareth, de muiota mas muita valia mesmo. Vou aproveitar este espaço e fazer uma comentário que já havia feito com o João na última Massa Critica. Bem sabemos que infelizmente as coisas aqui no Brasil e em especial no nosso estado costumam ser demoradas devido a burocracia (que pra mim não é isso e sim puro interesse: Onde vale mais????) Com certeza vamos levar anos e anos esperando por ciclovias, ciclofaixas, etc,etc onde na realidade tudo isso já existe e só não é bem dividido. É facil, sim, é muito fácil, basta ter pulso firme e boa intenção, somente isso, mas é claroq ue nossos governantes não tem nem uma coisa nem outra.
    Isso apenas para que entendam onde quero chegar (me desculpem os que não concordarem, talvez seja um pouco radical). Teremos a copa do mundo dentro de pouco tempo, muitas coisas prometidas, obras, saúde(como e alguém fosse vir ao Brasil se tratar, quem precisa de saúde mora aqui e não será durante a copa que fará uso deste serviço), segurança (claro, SEGURANÇA!!! imaginem só os gringos sendo assaltados aqui no Brasil, que propaganda negativa, mas com traficantes com certeza se terá acerto, podem acreditar) e por fim o que mais nos interessa e acredito que quando na boa não funciona, NA FORÇA TEM QUE FUNCIONAR: Acredito que podemos conseguir muita coisa, mas muita mesmo se começarmos agora uma campanha “E X I G I N D O ” !!!!!!!! Isso mesmo, EXIGINDO ciclofaixas, ciclovias e tudo que é nosso por direito. Como??? Fazemos de tudo e nada até agora, que tal durante a copa fazermos a Massa Critica 2 horas antes dos jogos (JOGOS DA COPA DO MUNDO GENTE, JOGOS DA FIFA) mas por coincidência esta Massa Crítica terá o mesmo trajeto das seleções que jogarão no dia!!!!!!!! Parece radical, meio louco mas acredito que se começarmos a espalhar isso( a nìvel Brasil) com a intenção de mostrar o verdadeiro Brasil ao mundo inteiro e não o Brasil que os governantes querem apresentar (com 400m de ciclovia) com mais duas estações de trem e o pior, um pequeno trensinho que levará do aeroporto até a estação do metro todos os turistas, rsrsrsrsr, é pra rir mesmo. Deixo aqui minha pergunta: O que vocês acham que um reporter vai querer mostrar na tv ( para o mundo todo) tudo que foi preparado para a copa ou MOSTRAR PARA O MUNDO TODO O PORQUE DOS JOGOS DA COPA DO MUNDO NO BRASIL SÃO TODOS ATRAZADOS!!!!!!!! Imagina se os nossos governantes querem passar por isso? Acham que pagaram por este mico? Mais uma vez peço desculpas as pessoas que não estão de acordo pelo radicalismo, mas tenho comigo uma coisa, NA VIDA TUDO É UMA QUESTÃO DE AÇÃO E REAÇÃO, portanto esta é uma reação e não uma ação. VAMOS ESPALHAR, VAMOS FAZER A CAMPANHA DA MASSA CRÍTICA DURANTE A COPA , VAMOS MOSTRAR A VERDADEIRA CARA DO BRASIL( CARA DOS GOVERNANTES) ACREDITO QUE NOSSA ATITUDE PODE SER MUITO VALIOSA. Se tiver calçada, ciclovia, ciclofaixa, nada disso vai acontecer.

    S OU A F A V O R D A M A S S A D U R A N T E A C O P A E V O C Ê S ?????????

    • airesbecker disse:

      Mas é claro que sim!! Por que não, temos que receber os turistas com que de melhor temos a oferecer em nossa cidade, cada um mostra o que gosta: o Fortunatti vai mostrar o viaduto na orla do Guaíba, interferindo na paisagem, a free way dentro do Parque Marinha, o desfile de trincheiras e viadutos na terceira perimetral e nossos símbolos máximos de riqueza, progresso e desenvolvimento: Tucsons, Captivas e etc…

  3. Ricardo disse:

    Acabei de salvar o texto para o meu computador.Excelente!

  4. Luís Carlos disse:

    Ainda é preferivel o politíco que se apropria ” de conceitos que causem impacto positivo” do que o militar que nos arranca os trilhos de trens e bondes (e ainda foram aplaudidos e reverenciados por muita gente boa e “letrada” da zona sul). Precisamos estar, abertos a todas as discussões com quer que seja, principalmente com os politicos e vencer essa vergonhosa segregação cultural e geografica que os cariocas insistem em dissimular. “O conhecimento que não nos leva além de nós mesmos, nos torna mediocres, elitistas, distantes e desconectados,
    é bem pior do que a ignorância “

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