Ciclovia da Avenida Ipiranga é inútil para pequenos trajetos.

Nesta última segunda-feira, tive que pedalar por um trajeto que incluía a Avenida Ipiranga, bem a quadra onde a ciclovia já está finalizada, entre as avenidas Azenha e Érico Veríssimo, parando em uma bicicletaria no meio do caminho. “Bom,” pensei, “vou estrear a ciclovia da Ipiranga!” Certo? Errado!

Como a ciclovia é sobre o canteiro central da avenida, com o fluxo intenso de carros de um lado e o arroio Dilúvio do outro, e ainda literalmente cercada pelo guarda-corpo, o acesso a ela só pode ser feito onde há faixas de segurança ou semáforo. Desta forma eu teria que ingressar na ciclovia pela esquina da avenida Azenha e só poderia sair dela no semáforo para pedestres em frente à Zero Hora ou então na avenida Érico Veríssimo. O problema é que a bicicletaria que eu iria parar em meu trajeto ficava entre esses dois pontos. O que fazer então?

A primeira possível solução seria entrar na ciclovia e esperar que em frente ao meu destino não houvesse guarda-corpo, mas mesmo assim, para sair da ciclovia e chegar na calçada eu teria que atravessar a avenida Ipiranga onde não há semáforo ou faixa de segurança, arriscando assim a minha vida e eu teria que repetir a travessia para retornar à ciclovia e continuar o meu percurso.

Trajeto utilizando a ciclovia, teria que atravessar a Ipiranga duas vezes, sem semáforo ou faixa de pedestres.

Outra possível solução seria eu seguir o fluxo junto aos automóveis, procedendo pela Ipiranga até o cruzamento com a avenida Érico Veríssimo, fazendo o retorno pela Ipiranga e continuando pela via com os carros até a bicicletaria. Mas esta solução também tem dois problemas: eu teria que literalmente andar em círculos, o que aumentaria o meu trajeto consideravelmente, além de ser uma infração de trânsito, pois segundo o Código de Trânsito Brasileiro, nas vias onde há ciclovia, o ciclista é obrigado a utilizá-la.

A terceira solução que consegui vislumbrar, e foi a que adotei, foi subir na calçada no cruzamento da Ipiranga com a Azenha e pedalar em velocidade reduzida até o meu destino final. Mas mesmo assim não é a solução ideal, pois fui forçado (mesmo que com respeito)a usar o espaço do pedestre em uma via onde há ciclovia. Isto é um absurdo.

Pedalando pela calçada, a opção mais direta e fácil.

A ciclovia da Ipiranga não é prática então para trajetos curtos, talvez ela vá ser útil e uma opção segura para quem vai realizar grandes trajetos, como por exemplo ir até a PUC. Mas será? Já consigo imaginar outros problemas que vão surgir para quem quiser entrar ou sair da ciclovia. Como vão fazer os usuários da ciclovia que quiserem sair da ciclovia em frente à própria PUC? Pois ali não há semáforos próximos e o único jeito de atravessar a via é pela passarela que não tem acesso aos taludes do Dilúvio. Como proceder então para quem quiser acessar a universidade ou até mesmo o Hospital São Lucas, do outro lado da avenida?

O objetivo número um de qualquer ciclovia deveria ser facilitar a circulação de bicicletas. A ciclovia da Ipiranga não cumpre o seu papel mais básico. A solução óbvia para este problema seria a implementação das ciclovias na via, junto ao passeio público. Para isso, porém, seria preciso retirar espaço dos automóveis e, embora esta seja a solução correta, nossos governantes preferem fazer obras mal-feitas e inúteis a correr o risco de não se reeleger.

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8 respostas para Ciclovia da Avenida Ipiranga é inútil para pequenos trajetos.

  1. Concordo com tudo que você escreveu, exeto com a parte “… segundo o Código de Trânsito Brasileiro, nas vias onde há ciclovia, o ciclista é obrigado a utilizá-la.” Na verdade o CTB diz:

    Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

    Repare na parte “ou quando não for possível a utilização destes” no meu entender este é um caso que se encaixa nesta situação, assim sendo você poderia utilizar a pista de rolamento, porém acredito que seria ainda mais perigoso do que de costume ficar entre os carros existindo uma ciclovia pois provavelmente as “finas educativas” seriam ainda maiores.

  2. Rafael Zart disse:

    Excelente post. Minha opinião é a mesma. Não é uma obra prática, é feia, cara e, mesmo quando pronta, vai na contra mão da excência da bicicleta: leveza, objetividade, simplicidade. Hoje li com tristeza o fato ocorrido com o Eduardo Macedo, fruto da negligência do estado tanto em manter a estrutura viária em níveis básicos quanto em prover espaços adequados para diferentes veículos (Deixo de fora a parte de educação do cidadão-motorista pois o máximo que vi foi meia dúzia de outdoors em pontos nobres da cidade). No trabalho, um colega narrou que foi fechado rente ao cordão. Na volta pra casa, um ônibus zuniu meu ouvido fazendo gelar a espinha. Por isso, sou a favor de APENAS isolar o ciclista pois considero que mudar os hábitos para que seja possível uma convivência pacífica, em curto prazo, é utopia. Peço APENAS uma faixa de 1 metro que seja, pintada que seja, sem tachões que seja, algo simples, respeitoso, que tira o espaço de 1 carro (1 pessoa) e ali coloca 4 bicicletas (4 pessoas). Finalmente, que MOSTRE a principal caracterítica da bicicleta: APENAS ser inteligente. Desculpe se saí do tema, mas fica o desabafo. E uma imagem: http://assets.inhabitat.com/wp-content/blogs.dir/2/files/2011/04/ppw-support2-537×357.jpg

  3. Olavo Ludwig disse:

    Eu espero logo após a eleição vir aqui e fazer uma postagem com o título: ” Apesar de tudo Fortunati não se reelege” Explicando como ele não fez uma ciclofaixa de 1,8m na Loureiro para se reeleger, como ele não retirou estacionamento nas ruas, como ele construiu uma porcaria de ciclofaixa na Icaraí, uma porcaria de ciclocalçada na Restinga e por ai vai…

  4. dailor disse:

    Taí um exemplo de informação técnica prestada pelo próprio usuário da obra que o prefeito não aceita ouvir e ainda qualifica como oportunista e eleitoreira. Tivesse de fato ouvido a população, poderia até ganhar alguns votos de ciclistas (o meu não, por n outros motivos).

    Ótima observação sobre a PUC, Marcelo. No DISCURSO é muito usado o acesso à PUC que a ciclovia deveria proporcionar, mas se na prática não tiver sido pensado nada a respeito, aí sim teremos uso demagógico e eleitoreiro da obra (o que será que consta no projeto?).

    E afora a interpretação legal que o Rafael faz (não sei bem como funciona esse “não for possível”), concordo que poderá parecer uma afronta a alguns motoristas um cara pedalar junto com os carros quando há ciclovia no canteiro.

    • Marcelo disse:

      É, mas eu provavelmente não consegui utilizar a ciclovia por ser um “pseudociclista” talvez só ciclistas de verdade como o senhor Fortunati, que não anda de bicicleta em Porto Alegre porque tem medo, saibam como utilizar a ciclovia em um caso desses.

  5. Fernando Pavão disse:

    Já passei pela mesma situação. Estava indo nessa bicicletaria, mas na rua e não na calçada. Acabei tomando uma buzinada e me mandaram pedalar na ciclovia…

  6. Aldo M. disse:

    Há um contra-exemplo de ciclovia em um livro americano de 1995 que se parece muito com esse projeto da ciclo-calçada da Ipiranga

  7. Pingback: Novo trecho da ciclovia da Av. Ipiranga ficará pronto até dia 30. | Vá de Bici

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