E pro pedestre, sobra o que?

Fortunati apresenta obra de viaduto na orla a seus “amigos” do Sicepot-RS (Sindicato da Indústria de Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplenagem).

Obras e projetos que beneficiam o fluxo de automóveis em Porto Alegre não faltam. É duplicação da Avenida Beira Rio, da Voluntários da Pátria, da Avenida Tronco, é trincheira na Anita Garibaldi e na Plínio, viaduto na orla do Guaíba, na Bento Gonçalves e na frente da Rodoviária, é estacionamento na praça Julio Mesquita, em cima do Largo Glênio Peres, garagem subterrânea embaixo da Redenção e por aí vai.

Obras que beneficiam o transporte coletivo são bem mais escassas, mas não inexistentes: o BRT e o lendário metrô.

Para bicicletas também existem algumas obras, mal feitas, ninguém discorda, mas existem: ciclovias em cima de calçadas (onde não há calçadas), com postes no meio, carros estacionados em cima e piso irregular, uma ciclovia bidirecional com trechos onde não passa mais de uma bicicleta e que zigue-zagueia ao longo da avenida Ipiranga, e uma ciclofaixa só de ida na Avenida Icaraí (quem quiser voltar tem que ir na contra-mão, que nem o prefeito).

E de obras que beneficiem o pedestre, o que há?

Existem diversos pontos críticos para a circulação de pedestres, mas desconheço qualquer obra ou projeto que vise beneficiar o fluxo e a segurança de pedestres, dar-lhes mais conforto e preferência no trânsito, conforme prevê a Lei Complementar nº434, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental (PDDUA) da cidade.

Existem ruas no centro de Porto Alegre onde o trânsito de pedestres é normalmente tão intenso (e as calçadas tão estreitas) que as pessoas vêm-se forçadas a caminhar pelo meio da rua, junto aos carros. E nestas mesmas ruas, o trânsito de carros não é tão intenso a ponto de justificar vias tão largas para os automóveis. Este é o caso de ruas como a Dr. Flores, Marechal Floriano (entre a Rua da Praia e praça XV de novembro) e da Av. Borges de Medeiros entre a esquina democrática e o Largo Glênio Peres.

Rua Marechal Floriano: pessoas arriscam-se pelo meio da rua para conseguir circular pela região.

Av. Borges de Medeiros: via larga, baixíssimo fluxo de automóveis e estacionamento de carros particulares ocupando metade da pista.

São casos óbvios onde os passeios públicos poderiam ser alargados para dar mais segurança e conforto aos transeuntes, possivelmente até com a criação de jardins e instalação de bancos para tornar a região mais agradável. Isto tudo sem afetar o fluxo de automóveis, que por ser pouco intenso, não seria afetado por um estreitamento das vias.

Mas, mesmo assim, as únicas obras que tenho conhecimento que seriam direcionadas  aos pedestres são as instalações dos infames gradis, que forçam o pedestre a fazer desvios ridículos e caminhar dezenas de metros a mais para atravessar uma rua, e às vezes não deixam espaço nem mesmo para um cadeirante ou carrinho de bebê passar. Tais obras não beneficiam o pedestre, mas prejudicam-no, para privilegiar o fluxo de automóveis – tudo para que eles não tenham que circular numa velocidade mais moderada e dar preferência a quem atravessa na faixa de segurança.

Isto tudo é uma completa inversão das leis! O PDDUA é bem claro, logo no início do capítulo que trata da mobilidade:

Art. 6º A Estratégia de Mobilidade Urbana tem como objetivo geral qualificar a circulação e o transporte urbano, proporcionando os deslocamentos na cidade e atendendo às distintas necessidades da população, através de:

I – prioridade ao transporte coletivo, aos pedestres e às bicicletas;”

Torna-se claro então que o que vêm sendo feito em Porto Alegre pela administração municipal, EPTC e demais órgãos (in)competentes é ilegal. É uma inversão das preferências. Pedestres são muitas vezes forçados a fazer caminhos mais longos, aguardar o abre-e-fecha de até cinco semáforos, enquanto gastam-se milhões de reais, dinheiro público, para construir as “obras de arte” (ironicamente é assim que chamam os viadutos), para que os automóveis possam passar por um cruzamento sem ter ao menos que esperar pelo semáforo.

No filme Wall-e, em alusão ao uso indiscrimiado do automóvel, população humana obesa não usa mais as pernas, desloca-se somente em assentos flutuantes.

O que sobra para o pedestre? Atropelamento, marginalização, insegurança, impedido de seguir pelo caminho mais curto, relevado à segundo plano o pedestre é levado à mais óbvia conclusão: sortudo é quem sai do escritório pro elevador, do elevador pro carro e do carro pra casa. E assim as calçadas vão esvaziando e tornando-se mais propícias para a ação dos criminosos, a população começa a ter problemas de saúde relacionados ao sedentarismo (Porto Alegre já lidera o ranking de sobrepeso no país).

É preciso inverter as prioridades, não apenas porque a lei diz que tem que ser assim, mas para tornar nossas cidades mais agradáveis, seguras, porque cidades caminháveis deixam as pessoas mais felizes. E todos querem ser felizes, não?

Florença, na Itália, é considerada uma das cidades mais caminháveis do mundo.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

9 respostas para E pro pedestre, sobra o que?

  1. heltonbiker disse:

    Pois é…
    Enquanto isso, na Cidade da Copa, a rua Andrade Neves, em pleno centraço lotado de pedestres, dizem que será feita uma “intervenção” para melhorar a circulação (de automotores, é claro), que custará algum espaço a ser REMOVIDO da atual calçada;
    O Globo Repórter da última sexta-feira, de forma praticamente sarcástica (apesar de se manter no contexto da saúde, sem vinculá-lo ao do urbanismo/mobilidade), afirmou de forma escandalosamente clara, com fundamentação científica, que os danos de saúde pública provocados pelos automotores são ENORMES, o que aliás não é novidade. Quem paga essa conta?;
    Otoridades de trânsito, em total descompasso com a política (teórica) de desincentivo ao uso do automóvel particular previsto pelo Governo Federal na Política Nacional de Mobilidade Urbana Sustentável, afirmam que se está investindo fortemente na “qualificação do fluxo (motorizado)” e que a possibilidade de pedágio urbano está “totalmente descartada”;
    As próprias paradas de ônibus da Terceira Perimetral são acusadas pela imprensa (Diogo Casagrande, no Jornal MetroPOA) de servirem de abrigo a moradores de rua. Será que é porque estão “abandonadas” pelas pessoas que tomam ônibus? Será que é porque têm acessibilidade limitada, e não resolvem o problema de mobilidade da população que usa ônibus?

    Afinal, o clima de “pedestre, perdeste!” seria parte do plano da Indústria Automobilística (e do seu cúmplice implícito, o governo) no sentido não só de “convidar” o cidadão a usar, sempre mais, seu cada vez mais novo automóvel em largas avenidas que conduzem a cada vez mais generosos espaços públicos e gratuitos de estacionamento, mas também de “espantar” os pedestres das ruas, fazendo com que calçadas pareçam inúteis, praticamente um espaço desperdiçado? Com que vizinhanças cada vez mais degradadas sejam obstáculo menor à sanha dos construtores de viadutos, rótulas e trincheiras?

    Coisas a se pensar…

  2. Pablo disse:

    A imagem da Marechal Floriano diz tudo! Como é possível essa quantidade de pessoas circularem por duas calçadas de 2m cada uma, sendo que nessas calçadas ainda há telefones públicos e postes atrapalhando o percurso? É lógico que o pedestre vai para a rua, não há calçada suficiente!

  3. dailor disse:

    O que gosto no centro é que o fluxo de pedestres é tão grande que algumas sinaleiras são totalmente ignoradas e os carros simplesmente não tem vez. Mas claro, a óbvia desproporção entre espaço disponível e espaço ocupado pelos pedestre chega a ser ridículo e perigoso.

    A Lei de Mobilidade Urbana é outra que não vai pegar enquanto não for regulamentada pelo estado ou algum corajoso município. Ela tá lá sozinha num mar de políticas públicas de incentivo ao transporte individual motorizado. É uma lei que reflete uma necessidade, mas não uma vontade.

  4. disse:

    e a EPTC está dificultando ainda mais a vida dos pedestres APAGANDO faixas de segurança. um bom exemplo é a esquina da ipiranga com a silva só, onde não há faixa para atravessar direto na frente do Mc Donald´s, a pessoa tem que atravessar QUATRO, EU DISSE QUATRO ruas e fazer o “retorno” pra chegar ali. e como não tem faixa onde pode atravessar direto, os carros se sentem mais do que autorizados a quase atropelar quem ousa atravessar ali! e não são poucas pessoas… sem contar a cacaca que eles fizeram bem na frente da sede deles, ali na aureliano, onde simplesmente mudaram a faixa de lugar, e encheram de grades pras pessoas não poderem atravessar onde era permitido antes. colocaram uma sinaleira que nunca abre pro pedestre, e de noite a faixa FICA NO PONTO MAIS ESCURO DA QUADRA, passem ali e pasmem!!!

  5. disse:

    e eu sigo acreditando que a solução mais simples pro nosso trânsito seria todxs xs agentes públicos precisarem se locomover de qualquer forma MENOS de carro. aí eu queria ver! hahahahahaha

  6. lendo os comentários, lembrei das propagandas na televisão sobre transportes: somente de carros, com IPI zero, ou seja lá o que for, nem mais propaganda da Caloi vemos mais na teve: “Ei ei Não esqueça da minha Caloi!” Ou propaganda da Monark, mostrando as MTB que produziam.

    A política de compre seu carro já impera em nosso país, quanto a nós ciclistas e pedestres, temos que continuar lutando pelo nosso espaço.

    Quanto as ruas do centro de Porto Alegre: eu nem sabia que tinham calçadas.

  7. Felipe X disse:

    Inclusive estão tirando a calçada de uma das poucas ruas do centro que ainda tem calçada decente.

    Os gradis são ridículos, para mim parece um curral humano.

  8. Parabéns pela matéria. É realmente triste o descaso pelo espaço público. O Viaduto na orla é feio e tecnicamente ruim…parece falta de visão dos planejadores envolvidos por uma solução melhor. E pior, travestido de boas intenções pelo poder público. Pô Fortunati e equipe, qualé?

  9. Roger kller disse:

    Passo pelo entroncamento da Protásio com a Vicente, é um absurdo aquele brete. Foi feito para privilegiar os carros, quando deveria ser o inverso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s