A Sociedade Atropelada.

Ontem, uns amigos e eu fomos a passeio, de automóvel, até a cidade de Três Coroas. A estrada RS-115 passa praticamente no meio de cidades como Taquara e Igrejinha e por ser estreita, sinuosa e possuir intento trânsito de pedestres e ciclistas nos acostamentos a velocidade máxima permitida na maior parte do trecho entre Três Coroas e Taquara é de 60km/h. Entretanto, são raros os motoristas que respeitam esse limite. A maior prova disso é a forma agressiva com que os motoristas que respeitam a sinalização e conduzem de forma defensiva são tratados.

Estávamos voltando de Três Coroas para Porto Alegre a uma média de 50, 55km/h numa zona onde a máxima era 60km/h, ou seja, estávamos quase na velocidade máxima permitida na via. Como a ultrapassagem é proibida em quase toda extensão da via,  poucos minutos depois de sair de Três Coroas, já havia uma dezena de carros enfileirados atrás do nosso. Passaram-se mais alguns minutos e os motoristas começaram a perder a paciência e buzinar para manifestar a sua frustração. Até o momento em que  os motoristas impacientes começaram a nos ultrapassar pelo acostamento, pela nossa direita, com as buzinas soando continuamente. Alguns, mais exaltados, até mesmo enfiaram suas cabeças pela janela do carro e proferiram pérolas como: “Vai tomar no cu, filho-da-puta!” ou simplesmente nos mostravam seus dedos médios. A seguir, em uma reta, mesmo com a faixa dupla, indicando a proibição da ultrapassagem, os poucos motoristas que tinham ficado atrás de nós, começaram a nos ultrapassar e um deles, assim que terminou a ultrapassagem, pisou fundo no freio, nos forçando a frear também, para evitar uma colisão.

Por que tanta impaciência? Por que tanta agressividade? O que deixa as pessoas tão agressivas quando, dentro de seu carro, encontram um “obstáculo” no seu caminho alguém que não está se movendo na velocidade que eles gostariam que estivesse? O que leva essas pessoas a crer que têm o direito de agredir pessoas que elas desconhecem? De forçar os outros a andar na velocidade que eles acham a correta mesmo que isso coloque a vida de terceiros em risco?

Os valores comunitários, a compaixão, a solidariedade e a empatia estão em baixa. Vivemos em uma sociedade que recompensa o egoísmo, a indiferença e a pressa, onde os mais lentos e menos “eficientes” são descartados ou atropelados. Somos subordinados a um Estado que nos proíbe de tomar a iniciativa, de criar o mundo que nós queremos, nos alienando, nos impedindo de ver que o mundo é o resultado de nossas ações.

Pesquisas recentes apontam que apenas 30% dos brasileiros confiam nos seus vizinhos. Este é o retrato de uma comunidade despedaçada, retalhada, na qual o indivíduo não consegue se identificar nem mesmo com seus semelhantes, com quem vive no mesmo prédio, na mesma rua, as pessoas com as quais ele vai ter que conviver diariamente. E isto em parte se deve ao automóvel, que permite que as pessoas trabalhem a 20km de onde moram, e façam suas compras a 15km dali sem caminhar nem mesmo por um minuto na calçada. Sai do apartamento entra no elevador, sai do elevador entra no carro, sai do carro entra no elevador, sai do elevador entra no escritório.

E essa desintegração das comunidades é diretamente proporcional ao nível econômico do bairro. Nos bairros mais “nobres”, grades, cercas elétricas e portões automatizados separam os moradores uns dos outros, enquanto nos bairros mais pobres as pessoas ainda são “forçadas” a sair de casa a pé, conhecendo assim os seus vizinhos e tendo uma vida comunitária, existe vida na rua.

Temos uma completa inversão de valores onde os mais ricos têm a vida comunitária mais pobre e os mais pobres almejam ter justamente aquilo que t0rna a vida dos mais privilegiados mais miserável: uma vida cercada por grades e vidro fumê, onde as pessoas vivem isoladas umas das outras por paredes e medo.

Quando não temos paredes ao nosso redor, vemos as pessoas pelo que elas realmente são: pessoas. Por outro lado, quando estamos isolados destas mesmas pessoas, seja por grades e cercas elétricas, por metal e vidro temperado ou simplesmente por medo generalizado, temos a tendência a enxergá-las como obstáculos e até mesmo como uma ameaça em potencial.

Por terem cada vez menos contato físico e pessoal entre si, as pessoas passam a ter menos empatia umas pelas outras. É o mesmo motivo que permite que as pessoas travem guerras e cometam crueldades uns com os outros: o desconhecimento, a falta de identificação com o outro, a falta de um diálogo que permita uma compreensão do outro. Assim como a linguagem é uma barreira que impede um cidadão afegão de explicar a um soldado invasor norte-americano que ele não vai lhe fazer mal, a ausência total de contato visual e comunicação entre dois motoristas impede um diálogo.  Não existe possibilidade nenhuma de um motorista que vai atrás de outro dizer: “Amigo, estou com pressa, preciso ir mais rápido” e de o motorista da frente dizer: “Sinto muito amigo, já estou na velocidade máxima permitida e não há espaço nem condições para você me ultrapassar com segurança”.

E assim, para o motorista frustrado, aquele carro na sua frente não contém uma pessoa como ele, ele é simplesmente um obstáculo inanimado, uma coisa contra a qual ele não tem nenhum receio em descarregar a sua raiva.

E desta forma caminhamos em passos largos em ruma a uma sociedade cada vez mais pulverizada, doente. As últimas comunidades estão acabando, dando espaço para estacionamentos, como no bairro Cristal; para a duplicação de avenidas, como no caso da Avenida Tronco; ampliação de aeroportos, como na remoção da Vila Dique, e assim por diante. Tudo para permitir que as pessoas vão mais longe, mais rápido e com maior freqüência dentro de suas cápsulas de egoísmo. E aos poucos a cidade vai morrendo, nos forçando a ir cada vez mais longe para encontrarmos algo interessante, algo rico, o que exigirá avenidas ainda mais largas e estacionamentos maiores.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para A Sociedade Atropelada.

  1. Com a internet piorando ainda mais esta proximidade sem a necessidade de contato pessoal, temos que pensar muito nisto, saúde e parabéns gostei mesmo das tuas palavras Marcelo

  2. Hélder Quadros disse:

    Sempre excelente…

  3. M disse:

    ótima reflexão, parabéns marcelo.

  4. marcelosgarbossa disse:

    muito legal Marcelo! parabéns, e que tuas palavras cheguem onde tem que chegar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s