Bicicleta, a plebéia do trânsito – transcrição

Hoje pela manhã li com êxtase esse post, desse blog:

http://ateondedeuprairdebicicleta.com.br/bicicleta-a-plebeia-do-transito/

Não só achei incrível a similaridade do ontem e do hoje, mas também me identifiquei muito pelo fato da minha bicicleta um tanto quanto velha ser também vermelha.

Mas principalmente porque já vinha pensando em escrever o que sinto enquanto pedalo indo e voltando do trabalho. Não preciso mais. O autor do texto abaixo escreveu EXATAMENTE como me sinto.

Não acho que seja justo clonar postagens alheias, por isso vou transcrever o texto que está em uma imagem (linda, de uma revista antiga escaneada, vale a pena ver na postagem original). Assim fica mais fácil copiar trechos para referência futura.

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A PLEBÉIA DO TRÂNSITO

Milton Costa, Revista Alterosa (“Páginas Escolhidas”), dezembro de 1960

Sempre que a encontro pela manhã, encostada à parede, cuido descobrir-lhe uma expressão de tristeza no guidão descaído. Examino-lhe os pneus, ponho as presilhas e saio. O selim, agora tão velho e apodrecido pelas chuvas e pelos sóis, faz-me pensar, amiúde, em um sapo amassado. Não há manápulas. A catraca estala na corrente, entre as conexões substituídas e os elos gastos. O eixo da frente geme nas esferas. Está velha, muito velha, a minha bicicleta.

Quando a comprei, contudo, não sabia que iria servir-me tanto. De madrugada, durante o dia ou à noite, ela está sempre à minha espera, ora semi-tombada numa sarjeta, ora apoiada num poste. Gemendo e estalando, subindo ou descendo, leva-me, paciente, pelas artérias movimentadas.

Sempre tive pena dela, como tenho pena dos pobres. Na interminável hierarquia dos veículos, uma bicicleta representa a classe menos favorecida. É a plebéia do trânsito. Tem que ir constantemente junto aos meios-fios, como quem pede esmolas nas portas das casas. É perigoso dar uma guinada à esquerda; o cadilaque luxuoso que vem atrás não a respeita e não a vê. Precisa vigiar duplamente os transeuntes, que lhe passam à frente sem receio, pois ela é pequena e leve – alguns canos, duas rodas, um selim. Várias vêzes, num só quarteirão, tem que deter sua marcha, aqui para evitar a criança que atravessa calmamente a rua, ali para não ser esmagada na sarjeta pelo Mercedes Benz que lhe fecha a dianteira sem cerimônia, acolá para não ferir o cão que a persegue latindo e mordendo-lhe os pedais.

Minha bicicleta, agora, tem biografia e experiência. Pode contar muitas histórias às bicicletas neófitas que andam aèreamente pelas ruas, como baratas tontas, como meninos pobres que não temem os ricos, menosprezando os grandes ônibus e os enormes caminhões, confiando mais nos freios alheios do que na sua própria perícia.

Fala-se, no entanto, em regras de trânsito. Mão e contra-mão. Preferenciais. Sinais semafóricos. Pura ingenuidade: uma bicicleta pode ir pela direita, que mesmo assim estará sempre contra a mão. Não há, para ela, vias preferenciais. E, conquanto os semáforos indiquem verde ou amarelo, ela pode continuar esperando que os carros passem primeiro, pois a sua côr é sempre de perigo, vermelha, vermelha, bem vermelha. As bicicletas novatas obedecem aos sinais luminosos das esquinas, mas a minha é velha e já sabe “não distinguir” as côres; é a prudência daltônica peculiar às bicicletas anciãs.

Muitas vêzes, muitas vêzes mesmo, a plebéia percebe que o FNM vem contra a mão, vem em cima dela, vai parar à porta de algum armazém para descarregar, pois de fato é muito trabalhoso, para um caminhão tão grande, fazer um “balão” na esquina próxima. Não há, então, saída para ela, senão a calçada. Ir para a frente, para o suicídio? Desviar para a esquerda? Parar? Pode bem ser que venha, atrás dela, no momento, um coletivo monstruoso. Escondida pelo FNM, prestes a surgir, é capaz de estar uma “perua” traiçoeira. Neste ínterim, enquanto a bicicleta se debate em dúvidas, o motorista do FNM, refestelado na boléia, sossegado como um animal bem alimentado, livre de riscos e incertezas, contempla o mundo com otimismo e pachôrra, como um burguês fazendo a sesta na varanda envidraçada de sua casa.

Minha bicicleta sabe que tem que se acautelar contra tudo e contra todos. Ninguém a acata. Ninguém lhe foge. Pesados veículos e fogosos semoventes passar-lhe-iam em cima se ela não saísse da frente. As motocicletas lançam-lhe insultos e ameaças no ronco dos motores. Lambretas sussuram presunções. Tudo e todos parecem querer seu fim. Um buraco na rua pode quebrar-lhe raios ou entortar-lhe um aro. Se, para seu dono conversar com alguém, ela está na calçada, os guardas a enxotam, furibundos, alegando que ela atrapalha os pedestres. Na rua, perturba o trânsito, a velocidade dos esganados de riqueza ou dos “play-boys”, a pressa das ambulâncias e da rádio-patrulha. Por que, afinal, inventaram as bicicletas?

Apesar de tudo, gosto de minha bicicleta. Velha e frágil, gemendo ou estalando, é um veículo individual e me permite, não obstante todos os impecilhos, estar comigo mesmo, sòzinho com as minhas saudades e as minhas esperanças. Posso estar sòzinho, sim, que ninguém quer ir sentado no cano, quase todos têm mêdo de cair de costas na rua…

Na grande árvore genealógica dos veículos, entre os automóveis de alta linhagem e os carros de anilina nobreza e linhas aerodinâmicas, a bicicleta é a plebéia, a plebéia do trânsito. Há, para elas, luzes vermelhas em todos os cantos, mas subsiste, conduzindo os operários ou os escolares, como uma engrenagem indispensável do progresso.

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10 respostas para Bicicleta, a plebéia do trânsito – transcrição

  1. Helton, cumpadre

    Muito obrigado pela referência e meus parabéns pelo animo de transcrever o texto completo!

    Quando li pela primeira vez fui tomado pelo mesmo sentimento, e claro, como amante das bicicletas sabia que tinha que compartilhá-lo com o máximo de pessoas possível. Sua transcrição e divulgação só ajuda nesse processo! Apesar de todas as mazelas, as dificuldades do trânsito, as bikes vieram pra ficar. É como gosto de dizer: as bicicletas são há mais de 150 anos o veículo mais moderno do planeta!

    Um grande abraço e parabéns pelo blog!

    André

    • Maravilhoso o texto. Um achado poético por aqui… Muita lucidez do autor mesmo… Hoje, em Porto Alegre, os envolvidos são de outros modelos, mas os papéis continuam os mesmos, e interpretados da mesma forma… Contudo, estamos talvez piores, em função do aumento descomunal do número de veículos e da densidade nas vias, inegavelmente superiores aos daquela época…
      Coragem, paciência, sabedoria e intuição a todos!

  2. Marcus Brito disse:

    Belo texto, mas é desencorajador ver como nada mudou em 52 anos.

    • Marcelo disse:

      As coisas regrediram em 52 anos, acredito que a situação para ciclistas no Brasil piorou. Vai melhorar a partir de agora. 🙂

    • Olavo Ludwig disse:

      Ao ler o texto, e sendo um apreciador das viagens no tempo, fiquei me imaginando pedalando por aquelas ruas, e senti medo, bem diferente do que sindo pedalando nas ruas de hoje, lá parecia que estaria sempre encurralado, aqui não sinto isso
      A maioria dos motoristas enxergam e respeitam quem está de bicicleta, já a impressão que o texto passa é que naquela época ninguém respeitava, mesmo que isto não seja verdade.
      É interessante notar como uma análise negativa dos fatos sempre se sobrepõe, com peso, às coisas positivas.
      Por fim, eu acredito que deveria ser mais seguro andar de bicicleta nas ruas em 1960, e realmente o trânsito piorou muito de lá pra cá. Mas de certa forma já esta melhorando.

      • heltonbiker disse:

        Eu não sei se o problema é comigo, com meu horário, com meus trajetos, ou com a frequência com que sempre passo pelos mesmos lugares, mas a sensação que tenho, alguns dias, é que andar de bicicleta em nossas avenidas tem algo em comum com fazer roleta russa.

      • Olavo Ludwig disse:

        Helton, deve ser um misto de tudo, mas definitivamente há trajetos muito mais tenso que outros, por exemplo: Agora que moro na Bento, prefiro mil vezes ir até o Menino Deus fazendo uma volta maior, pegando São Luis, Ipiranga e Érico, do que Bento Princesa Isabel e Azenha. Não tem comparação os trajetos.

      • airesbecker disse:

        Náo acho que as atitudes dos motoristas tenha piorado com o tempo.
        Sim o trânsito ficou mais pesado mas a atitude, a consciência evoluiu positivamente.
        Ora esta era a época dos muscle cars, aqui tinhamos os Maverick, os Dodges, os Galaxies, carros de grande potência e motoristas sem menor noção.
        Eram comuns os pegas e as corridas nas ruas.
        Ninguém usava cinto de segurança.
        As crianças andavam soltas no banco da frente.
        Se jogava lixo pela janela dos carros sem constrangimento.
        E todo mundo fumava o tempo todo.
        A caça era um esporte popular era comum passar na estrada com caminhonetes cheias de animais abatidos amarrados do lado de fora.
        Acho que houve muitas mudanças positivas.

  3. lobodopampa disse:

    É roleta russa sim –

    mas só pra quem

    pedala distraidamente,
    não sinaliza, não se comunica,
    não se posiciona conforme seu destino e velocidade,
    não utiliza as convenções do trânsito (a seu favor e a favor dos outros ao mesmo tempo),
    e não desenvolve intuição para lidar com as incontáveis exceções às regras
    e situações imprevisíveis.

    Não consigo imaginar que alguém com a experiência do Helton esteja nessa situação.

    Tenho certeza que com um rápido re-exame da situação ele encontrará respostas e soluções.

    • heltonbiker disse:

      Já conversamos sobre isso outras vezes, tu defendendo que o ciclista tem condições de criar a própria segurança no trânsito que temos em Porto Alegre e pedalar por aí rotineiramente sem que isso fosse uma fonte de angústia interminável, e eu falava que o trânsito de Porto Alegre já passou desse ponto, e que por mais competência, bom-senso, etc., já não é mais possível usar a bicicleta todos os dias como transporte e GARANTIR a própria segurança e/ou conforto psíquico indefinidamente.

      Hoje tenho convicção de que o estado mental de quem está sobre a bicicleta tem papel fundamental no nível de conforto psíquico, e provavelmente no de segurança também. Acredito que meu maior problema seja o trajeto, pois não tenho como escapar da Protásio Alves entre a Santa Cecília e a Garibaldi (pior trecho do meu deslocamento), nem dos horários (que são sempre de pico) e nem da frequência (quatro vezes por dia, pois venho almoçar em casa quase sempre).

      Como consolo, posso (isso sim) GARANTIR que estou constantemente re-examinando a situação, re-exame esse que está sendo nada rápido e muito meticuloso, e está bastante difícil encontrar respostas ou soluções. Mas eu vou continuar.

      Obrigado por comentar!

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