Ignorando o Real Problema do Trânsito – Versão Porto Alegre

Há alguns dias, traduzi uma excelente postagem do site Copenhagenize.com, que inaugura a série “Ignoring the Bull” (Ignorando o Touro), que faz uma metáfora a respeito da presença do automóvel em nossa sociedade, comparando-o a um touro dentro de uma loja de porcelanas.

Na metáfora, as prateleiras das lojas são as ruas, e a porcelana delicada são as pessoas. Com a invasão das ruas das cidades pelo automóvel, ao longo do século passado, a crescente incidência de acidentes, muitos com morte, envolvendo pedestres e motorizados, criaram a necessidade de campanhas de segurança.

Até aí tudo bem, mas a crítica feita pelo Copenhagenize, e ecoada por mim e por muitos outros, é que O FOCO DO PROBLEMA, nessas campanhas, acaba sendo transferido para o não-motorizado, que se comporta de forma muito perigosa em meio aos velozes veículos que permeiam as ruas das cidades.

O texto traduzido e comentado dessa postagem, incluindo o link para o original, está em:

https://vadebici.wordpress.com/2012/02/09/atropelamentos-na-imprensa-cultura-do-medo-touro-na-loja-de-porcelanas/

O fato é que hoje, no jornal MetroPOA, o jornalista Diego Casagrande, que escreve todas as terças, apareceu com um texto que se enquadra EXATAMENTE nesse contexto de “Ignorar o Touro”. Em nenhum momento, é questionado o perigo evidente criado pela existência de máquinas velozes, enormes e pesadas circulando maciçamente, pelo seio das nossas comunidades, a poucos centímetros de centenas e milhares de pessoas. Isso é normal. O “culpado” acaba sendo considerado, muitas vezes, o pedestre, que insiste em querer honrar uma tradição de 7000 anos ao invés de uma de menos de 100. Vejamos o texto, com destaques meus:

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PEDESTRES CULPADOS

Diego Casagrande (leitor.poa@metrojornal.com.br)

Esta semana o Tribunal de Justiça confirmou sentença isentando uma empresa de ônibus
pelo atropelamento de um pedestre na av. Bento Gonçalves. O cidadão felizmente não morreu, mas alegou ter ficado com inúmeras lesões, traumatismo craniano, dores físicas
permanentes e estando impossibilitado de trabalhar. Além disso, alegou ter sofrido prejuízos de ordem psíquica. As consequências do atropelamento podem de fato ter ocorrido, mas o Judiciário considerou que a culpa era do próprio pedestre. Os desembargadores consideraram que ele atravessou o corredor velozmente fora da faixa de segurança e da sinaleira, saindo de trás de outro coletivo, o que impossibilitou que o motorista do ônibus evitasse o choque. A decisão certamente vai gerar jurisprudência.
Nesta sentença me chamou atenção o que disse o relator do caso, desembargador Luiz
Roberto Imperatore de Assis Brasil. Ele lembrou que os pedestres também têm responsabilidades, conforme prevê o Código Brasileiro de Trânsito. É óbvio? Claro que é,
mas parece que nem sempre isso é considerado pelo judiciário. E no cotidiano, basta ver a forma como os agentes de trânsito da capital (azuizinhos) se relacionam com osedestres infratores: ignorando-os. Exatamente o contrário do que preconiza a lei.
Todos os dias vejo cenas estarrecedoras protagonizadas por pedestres nas principais
vias da capital. Mães com crianças no colo se equilibrando entre carros, idosos com sacolas correndo fora da faixa de segurança nos corredores de ônibus, crianças esperando para atravessar a rua tendo descido da calçada e tirando fino dos automóveis. Essas coisas todas.

E cotidianamente pedestres são atropelados, são feridos no nosso trânsito. Confesso que estou me convencendo que em boa parte por culpa dos próprios transeuntes. Então por que a fiscalização de trânsito, muito antes de esperar tragédias e decisões judiciais, não trata de coibir os pe destres infratores notificando-os, incomodando-os também? Acho que isso geraria, com o passar do tempo, uma nova consciência que salvaria muitas vidas.

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Vou comentar cada trecho destacado:

  • “os pedestres também têm responsabilidades, conforme prevê o Código Brasileiro de Trânsito. É óbvio? Claro que é” – Sem dúvida. Todos temos responsabilidades no trânsito. Antes de mais nada, e para que fique claro, ninguém está propondo (ao menos não eu, aqui) que os pedestres, o ciclistas, não têm nenhuma responsabilidade no trânsito. Mas eu estaria propondo que A MAIOR responsabilidade com certeza não é deles, pois não é deles o maior potencial destrutivo;
  • no cotidiano, bastaver a forma como os agentes de trânsito da capital (azuizinhos) se relacionam com os pedestres infratores: ignorando-os. Exatamente o contrário do que preconiza a lei.” O Código de Trânsito está recheado de infrações de automotores, infrações essas somente “cometíveis” por pessoas que foram autorizadas a dirigir após a realização de treinamento específico (CNH). Pois essas infrações, com intenso potencial destrutivo, como sabemos são sistematicamente ignoradas por esses mesmos fiscais de trânsito. Portanto, seria injusto mencionar uns sem mencionar outros, especialmente considerando o grande potencial destrutivo das infrações cometidas por condutores motorizados;
  • “…cenas estarrecedorasMães com crianças no colo se equilibrando entre carros, idosos com sacolascorrendo fora da faixa de segurança nos corredores de ônibus, crianças esperando paraatravessar a rua tendo descido da calçada e tirando fino dos automóveis. Essas coisastodas.” Aqui se configura de forma exemplar a inversão do foco sobre o problema, que gerou a expressão “Ignorando o Touro”. Nessa visão, é um absurdo que tanta porcelana delicada fique perto de um touro tão arredio. A porcelana exposta passa ser o problema, e não a própria presença de um TOURO em um local onde ele nem deveria estar, em primeiro lugar. Se mães com crianças no colo são obrigadas (porque não acredito que façam isso por espírito de aventura), obrigadas e se equilibrar entre uma metralhadora de carros, ONDE ESTÁ O PROBLEMA? Se idosos com sacolas têm que fazer Cooper para conseguir pegar um ônibus que só passa a cada meia hora, e para isso teriam de cruzar, às vezes, mais de cinco pistas de tráfego para chegar à parada, ONDE ESTÁ O PROBLEMA? Se AS CRIANÇASFICAM TIRANDO FININHO DOS CARROS!!!!!! (pelo amor de Deus…) ONDE, pergunto, está o problema?
  • “estou me convencendo… acho… uma nova consciência…” Esse é outro ponto. A distorção acaba causando uma normose, a pessoa acaba achando mesmo que os pedestres são culpados, que a segurança é embrulhar a porcelana e guardá-la em caixas. A nova consciência diz “Pedestre, perdeste. As ruas são, de fato, dos carros. Você é um intruso em sua cidade, para passar, peça permissão apertando aqui.”
  • por que a fiscalização de trânsito, muito antes de esperar tragédias e decisões judiciais, não trata de coibir os pe destres infratores notificando-os, incomodando-os também?” Por fim, a solução mágica: repressão pela autoridade. Vou citar Darcy Ribeiro (peço aos leitores que sejam generosos ao adaptar o contexto): “Os 
exemplos
 de 
conflitos
 continuados 
se 
multiplicam (…).
 O
 que
 têm
 de
 comum
 e
 mais
 relevante
 é
 a
 insistência
 dos
 oprimidos
 em
 abrir
 e 
reabrir
 as 
lutas 
para 
fugir
 do 
destino 
que
 lhes 
é
 prescrito; 
e,
 de outro
 lado,
 a
 unanimidade
 da
 classe
 dominante
 que
 compõe
 e
 controla
 um
 parlamento
 servil,
 cuja
 função
 é
 manter
 a
 institucionalidade
 em
 que
 se
 baseia
 o 
latifúndio. 
Tudo 
isso 
garantido 
pela 
pronta
 ação 
repressora
 de 
um
 corpo
 nacional
 das
 forças
 armadas
 que
 se
 prestava,
 ontem,
 ao
 papel
 de
 perseguidor
 de 
escravos,
 como 
capitães
 do 
mato,
 e
 se 
presta,
 hoje,
 à
 função
 de
 pau‐mandado 
de 
uma 
minoria 
infecunda
 contra
 todos
 os 
brasileiros.

”

Aguarda-se discussões. Lembrando que o MetroPOA publica generosamente as cartas dos leitores.

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11 respostas para Ignorando o Real Problema do Trânsito – Versão Porto Alegre

  1. Aldo M. disse:

    A que ponto chega o carro-centrismo, para inverter a realidade e afirmar que as crianças é que “tiram fino” dos carros!
    Para cometer um Ato Falho destes, a pessoa deve imaginar, sem se dar conta, que está dentro de uma redoma, imóvel no centro do Universo, enquanto assiste pela “tela de vidro” crianças e postes vindo em sua direção e tirando finos. Surreal!
    Acho que nós, na condição de motoristas, nos transformamos em pouco mais que fiéis de uma religião, a do Deus Automóvel.

  2. Eugenio, OFS disse:

    Paz e bem!

    Gostaria de receber as atualização via reader,
    mas não localizei onde assinar RSS ou Atom ou similar.

  3. heltonbiker disse:

    Na falta de outros espíritos críticos (inclusive do meu, que não escrevi para o jornal), um leitor manda a seguinte carta:

    “Quero parabenizar o colunista Diego casagrande pelo texto publicado na coluna de ontem (28/2). O desrespeito de muitos pedestres às leis de trånsito é solenemente ignorada pelos azuizinhos, que descaradamente fazem vista grossa, da mesma forma que o fazem com relação aos motociclistas que trafegam entre os carros, quando deveriam ocupar o espaço de um veículo maior. A fiscalização no trånsito de Porto Alegre é precária.”

  4. Pingback: “Ignorando o Touro” – Versão Band | Vá de Bici

  5. Olavo Ludwig disse:

    Helton, manda esta tua postagem para o jornal! Urgente! Por favor!

    • andre gomide disse:

      urgente mesmo colega

      • heltonbiker disse:

        Felizmente, um leitor assim o fez. Concordo integralmente:

        “Gostaria de expressar pesar pela falta de conhecimento do funcionamento do trânsito em Porto Alegre pelo jornalista Diego Casagrande em artigo que cita os pedestres como culpados por parte dos atropelamentos (edição de 28 de fevereiro). O jornalista nunca deve ter experimentado a vulnerabilidade dos pedestres em meio aos carros, assim como a dificuldade para atravessar a rua em Porto Alegre. Os semáforos de
        pedestres ficam abertos poucos segundos para os transeuntes e longos minutos para os automóveis, um reflexo da prioridade dada ao trânsito motorizado em nossa cidade. Para um idoso, o simples ato de atravessar a rua é um martírio. Para comprovar, poderia o jornalista tentar atravessar a Protásio Alves na altura da Giordano Bruno por
        volta das 18h. Quem não consegue alcançar o outro lado fica preso em um canteiro de um metro de largura com ônibus passando dos dois lados. Confesso que muitas vezes achava os pedestres imprudentes, colocando-se na beira da rua, mas basta sair um pouco de nossas máquinas para entender a dificuldade de se caminhar em Porto Alegre. O artigo é mais uma justificativa para nossa violência no trânsito ao colocar a culpa na vítima e presta um péssimo serviço a quem pertence à cidade: as pessoas.

        Daniel Fontana Pedrollo – Porto Alegre/RS”

  6. a cidade nao tem passarelas.e o que falta.assim como na av.azenha.nao so zebrinhas e semaforos

  7. e uma vergonha pintar zebrinhas e mais barato do que fazer passarelas.os pedestres que se virem no meios das maquinas de uma grande cidade

  8. as autoridades somente instruem os motoristas e nao os pedestres. a educaçao tem que partir dos dois lados

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