Atropelamentos na Imprensa / Cultura do Medo / Touro na Loja de Porcelanas

Ontem, notícia. Hoje, notícia. Infelizmente, às vezes temos esta situação já familiar:

No caso da morte do menino Gustavo, chegamos a uma dicotomia extrema: o menino de apenas seis anos estava de bicicleta, aparentemente desacompanhado, em uma movimentada e espremida avenida com alto volume de tráfego.

Não faltou quem argumentasse que o menino não deveria estar ali, que o motorista não poderia ser culpado (e acho que talvez não possa mesmo), que avenida não é lugar de criança/ciclista/pedestre/cerumano…

E extrapolando, que tem que colocar guarda-corpo em todas as avenidas e construir passarelas, que isso é inevitável, que todo progresso tem um custo, que acidentes acontecem, etc.

Uma interessante reflexão pode ser lida no site Copenhagenize.com. Traduzo/transcrevo os principais pontos, abaixo:

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[há algum tempo] percebo que a maioria das campanhas de “segurança” no trânsito parecem focar em tudo menos o “touro na loja de porcelana” – o automóvel. É uma tendência global, que deriva da aparentemente irreversível presença de automóveis e caminhões. Acho curioso que tão poucas campanhas de fato coloquem o foco firmemente na raiz do problema: as grandes, pesadas, perigosas máquinas que zunem em nossas ruas, e as pessoas que parecem ter dificuldade em controlá-las.

De alguma forma, um touro entrou na “loja de porcelana” social. Todos nós já nos demos conta que não há previsão de que ele vá embora. Toda a frágil porcelana nas prateleiras está sendo atingida e esmagada pelo touro recorrentemente.

Parece ridículo que ninguém esteja falando do TOURO. Ao invés disso, há uma constante conversa sobre embrulhar toda a porcelana em plástico-bolha, e uma constante lamúria sobre como é perigoso mesmo CONSIDERAR colocar tão frágil porcelana nas prateleiras da loja, agora que há um touro arredio “escoiceando” ali dentro.

Enquanto isso, o touro dá uma “cagada” no meio do corredor, derruba outra prateleira. Crash, blam, bum!

Aqui vai uma idéia radical: se não há como remover o touro da loja, que tal amarrá-lo a um canto para restringir seu espaço? Castrá-lo e acalmá-lo? Se necessário, plantar uma graminha onde ele possa pastar, longe da porcelana?

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É importante que jamais nos conformemos com a tentação de pensar que uma criança de bicicleta é algo perigoso. Que um idoso que não enxerga direito, caminhando na rua, é algo perigoso. Quem um ciclista lento, com um equilíbrio sub-ideal, seja um “fator de risco” no trânsito.

Pessoas dirigem como se estivessem na sala de casa, vendo televisão. E isso porque não há quem as ensine, quem as alerte, e quem as controle.

Imprensa (algumas vezes, não sempre) repete um senso comum forjado por um modelo carrocêntrico que tem o amparo de uma indústria bilionária, cujo compromisso com o bem-estar das comunidades é nenhum.

Mas o pior é que o GOVERNO apóia esse modelo, e desvia recursos financeiros públicos e polpudos para uma engenharia de tráfego que não considera nenhum requisito de bem-estar social em seus modelos, e que além de não conseguir resolver o problema a que se propõe, ainda causa um sem-número de outros terríveis problemas, usando como justificativa argumentos altamente questionáveis.

Argumentos esses baseados na cultura do medo, dos custos inevitáveis do progresso, na falsa associação entre desenvolvimento econômico (de alguns) e bem estar social, etc.

Como vi no FaceBook muita gente comentando: começaram a morrer as crianças. Debaixo das nossas barbas. É simplesmente IMPOSSÍVEL (talvez ainda mais para nós ciclistas, que sentimos na pele a “coisa como ela é” ao andarmos por nossas belas avenidas) simplesmente olhar e dizer “Pois é, que coisa…”. Não fazer nada, depois desse tipo de coisa, não é mais uma opção a considerar.

Amanhã nos vemos lá. De preto.

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9 respostas para Atropelamentos na Imprensa / Cultura do Medo / Touro na Loja de Porcelanas

  1. Fernando Pavão disse:

    Se o progresso tem um custo, estamos progredindo pra direção errada então!

  2. Aldo M. disse:

    A Prefeitura de Porto Alegre parece mesmo ter a INTENÇÃO de promover a barbárie no trânsito quando permite velocidades de 60 km/h em pleno Centro Histórico. Vou dar dois exemplos inacreditáveis que eu próprio fotografei

    60 km/h sob a Passarela da Rodoviária de Porto Alegre

    Em frente à Estação Rodoviária, e com a passarela para pedestres interditada!

    60 km/h ao lado do Mercado Público de porto Alegre

    Entre o Mercado Público Municipal e a estação mais movimentada do Trensurb.

    Além disso, placas de 60km/h em locais onde transitam milhares de pessoas diariamente servem também para aterrorizar, com razão, qualquer pedestre ou ciclista.

  3. joseantonioreimunde disse:

    ..impecável teu post meu caro Helton, lamentavelmente verdadeiro ao extremo, acho que isto dia a dia, me deixa mais revoltado e com mais pavio curto… esta é a nossa péssima e lamentável realidade. Olha todo os componentes, criança de seis anos, morre a mãe, fica com a tia, continua estudando, pai trabalhador, saudável, tem atividade, usa bicicleta, qual o componente errado de toda esta mistura? Nada, só uma miserável avenida no meio do lugar onde as crianças brincam. PELO AMOR DE DEUS, TROQUEM A AVENIDA E PRESERVEM AS CRIANÇAS, QUE SÃO O NOSSO FUTURO… nenhum progresso vale nada com este custo tão elevado.. que os Deuses perdoe nossa sociedade, por este progresso inaceitável…Saúde a todos

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  5. Rafael Zart disse:

    Brilhante postagem. A passagem “É importante que jamais nos conformemos com a tentação de pensar que uma criança de bicicleta é algo perigoso” traduz o que penso e que é muito difícil de colocar em prática. Inverti o modal de transporte e dirigi bastante as duas últimas semanas e, com a percepção já alterada em função da biciclieta, o que eu vejo É UMA SOCIEDADE IRRESPONSÁVEL e AMENDRONTADA:
    – Ande a 60 km/h nas AUTO-PISTAS-DE-CORRIDA CAPELLARIANAS e, mesmo no auge de sua irresponsabilidade ao volante, seja ultrapassado SEM DEIXAR RASTROS em ambas as faixas por lotações e ônibus. ÔNIBUS. MAIS DE 60, 70… 80 KM/H!
    – As faixas e pedestres são respeitadas em pouquíssimos casos e PERCEBO que apenas no bairro que o motorista mora. Se tu para, o de trás sai e passa. As pessoas NÃO CONFIAM na faixa de pedestres…
    – Os pedestres são SERES TENSOS. Eles não reagem bem e DESCONFIAM quando lhes é dada a preferência. Perceba ao sair de uma AUTOBAHN PORTENSE e dobrar uma esquina para dentro do bairro, os pedestrem, que estiverem atravessando PARAM IMEDIATAMENTE ao perceber o carro E a reação ao lhe ser dada a preferência? Olhar ao fundo para ver se ainda resta perigo e… atravessar correndo, numa mistura de MEDO e CONSTRANGIMENTO por estar ali.

  6. Pingback: Ignorando o Real Problema do Trânsito – Versão Porto Alegre | Vá de Bici

  7. Pingback: “Ignorando o Touro” – Versão Band | Vá de Bici

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