A grama do vizinho é mais verde

Quem me conhece sabe que procuro estar sempre estudando e me aprofundando nos temas que me interessam mais; e que no ambiente cicloativista chego ao ponto de fazer uma certa apologia do estudo e do “informar-se bem” como forma de contrabalançar as imensas lacunas que existem sobre a cultura da bicicleta no sentido mais amplo – inclusive e muito especialmente dentro da comunidade ciclística.

Boa parte da informação e saber que sinto faltar a mim e ao nosso meio em geral só encontro, infelizmente, em fontes e idiomas estrangeiros. Faço o possível e um pouco mais para compartilhar tudo o que me parece relevante, no que a Rede se revela uma ferramenta extraordinária.

Existe muita idealização a respeito do chamado “mundo desenvolvido” ou 1º mundo, de maneira geral e muito em particular no meio ciclístico. Não conhecendo a fundo a realidade de países, regiões, comunidades longínquas, é fácil cair em conclusões apressadas, a partir de fontes superficiais (um videozinho aqui, uma historieta ali). Essa idealização é possivelmente alimentada por um certo complexo de inferioridade terceiromundista.

Recentemente tivemos um rico debate na seção de comentários onde foram mencionadas diferenças de “sotaque” no trânsito, virtudes e defeitos factuais e imaginados de alguns povos, especulações e dados reais sobre acidentes & fatalidades, e expectativas diversas a respeito do rigor (ou falta de) na aplicação da lei.

Mencionei este verbete Wikipedia que fornece números talvez surpeendentes.

No Brasil morrem 19,9 pessoas por 100.000 habitantes/ano, ou 70,9 por 100.000 veículos/ano em acidentes de trânsito. Pior que Argentina e Chile, mas um pouco melhor que o México, e muito melhor do que a quase totalidade dos países africanos, África do Sul inclusive. Melhor do que o Oriente Médio e que boa parte da Ásia.

Na China são 16,5 por 100.000 pessoas/ano, mas 445 (!!!) por 100.000 carros/ano.

No Japão são 3,85 por 100.000 pessoas/ano – melhor que a média dos países mais desenvolvidos da Europa.

Nos EUA morrem 12,3. É melhor que o Brasil, mas está MUITO longe da Europa (não apenas da Europa central e setenrional): Alemanha (4,5), Itália (8,7), Holanda (4,1), Espanha (6,9), Suécia (2,9 !!!), só para citar alguns.

O Uruguai está quase empatado com os EUA, parabéns hermanos da Banda Oriental!

Em números absolutos, o número de mortes no trânsito no Brasil é (corretamente) comparado às perdas causada pelas guerras: mais de 37.000/ano. Nos EUA a mortandade não é tão menor assim: mais de 33.000 pessoas/ano.

A diferença em segurança no trânsito entre o Japão e os EUA é maior do que entre os EUA e o Brasil.

Então, do ponto de vista japonês ou sueco, os EUA fazem parte do 3º mundo, no que diz respeito aos perigos das ruas e estradas.

Abundam relatos, em fóruns e páginas internacionais de ciclismo, de acidentes com óbito nos EUA nos quais o motorista se saiu com apenas uma multa, ou nem isso. A desculpa clássica “não vi o ciclista”, objeto de debates sarcásticos nos fóruns, é analisada com muita propriedade neste artigo da revista/portal Bicycling.

Por outro lado: os EUA têm um cicloativismo extremamente forte (pudera, eles precisam!), organizado e aparentemente bastante eficaz, que poderia servir de inspiração (guardadas as diferenças econômicas, culturais e outras) para nós brasileiros.

Hay que informar-se, sem virar xenófilo jamás. 😉

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Sobre lobodopampa

Falar de si mesmo é contraproducente. Ah: lobodopampa e artur elias são a mesma pessoa (eu acho).
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5 respostas para A grama do vizinho é mais verde

  1. Caro Guará, por favor nos informa a origem destas estatísticas ou indicadores. Que novidade !!
    Saúde

  2. Jose Antonio Martinez disse:

    Caro Guará a estatística e da WHO uma instituição muito seria estou buscando no sítio deles a estatística . Saude

  3. Aldo M. disse:

    Há muitas conclusões que se pode tirar destas estatísticas. Por exemplo: os carros/motoristas brasileiros e, sinto dizer, também os uruguaios são várias vezes mais mortais que os americanos. Sorte a nossa não termos tantos carros quanto os americanos. Mas isto infelizmente está mudando em consequência da atual política de incentivo a compra de automóveis que o governo brasileiro vem fazendo.

    • artur elias disse:

      Não são os carros (nem a qualidade deles) em si.

      Tem um capítulo sobre isso tbém no “Trânsito – Por que Dirigimos Assim”.

      Em todos os países emergentes (que quando eu era criança se chamavam “sub-desenvolvidos”, depois passaram a ser chamados “em desenvolvimento”) o processo de motorização individual da sociedade é acompanhado por essa curva trágica. Quanto menos carros por pessoa, mais gente morre por carro. Talvez tenha um pouco a ver com a qualidade dos carros e das estradas; e muito a ver com a imperícia, falta de educação.

      Por isso o índice por carro da China, que está num ritmo frenético de motorização, é tão horroroso.

      Se não me engano existe uma relação entre renda per capita e esse número tbém.

      O mais interessante é a relação que – especula-se – existe entre corrupção e trânsito.

      Países com níveis de desenvolvimento e motorização semelhantes, e até cultura semelhante, têm números do trânsito (fatalidades inclusive) diferentes, em função de terem índices de aderência às leis (de trânsito inclusive) diferentes. Isso porque, onde há mais corrupção, as pessoas confiam menos nos governos e cumprem menos as leis.

      http://www.carloslivraria.com.br/por-que-dirigimos-assim.html

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