A avenida virou um parque

Parece que, hoje, a batalha pela orientação da estruturação da cidade de Porto Alegre, pela própria cultura urbana da cidade, está sendo travada por imagens. Não digo necessariamente imagens concretas, como fotografias ou vídeos, mas em imagens de ideias, do que é correto, do que é melhor, do que é mais inteligente ou mais efetivo. Os jornais tem publicado uma série de matérias falando sobre o uso de bicicletas na cidade, sobre as questões do trânsito e sobre a Massa Crítica em específico.

O que vemos é que as imagens criadas tem muitas sombras, muitas tonalidades exageradas, muito desfocamento. Chegam a me inspirar a ter a opinião de que o que rege o jornalismo porto-alegrense não é a busca por informação, a crítica saudável, a discussão de questões cruciais; é a polêmica. Não é a toa: parece que a polêmica vende. E também torna tudo mais fácil: cega as pessoas na fantasia (na imagem) de que questões complexas como essas tem lados, e um lado portanto deve ser o mais certo; o outro, então, só pode ser composto por mal-intencionados, marginais, ingênuos ou desinformados.

O bom é que, no meio da polêmica, também podemos ver (mesmo que a própria polêmica o esconda) muita troca de opiniões, construção de ideias feita mais coletivamente, maturidade e maturações, problematizações e visibilizações. E acredito que as incongruências comecem a ficar cada vez mais claros, quem sabe em algum momento nos movendo para além das polêmicas e finalmente para composições que nos permitam criar uma cidade voltada para as pessoas, e não para os carros e os lucros que geram – fica cada vez mais evidente, afinal, que os carros, do jeito que se quer pô-los em uso atualmente, não tem ajudado ninguém, nem quem os dirige.

Enfim, entre as matérias publicadas, vemos algumas maravilhas. A coluna escrita por Juremir Machado da Silva no Correio do Povo é exemplo de opinião bem localizada, corajosa por ir na contra-corrente que o prório jornal tantas vezes assume, não apenas no que defende, mas na maneira equilibrada e generosa que o faz.

Hoje, no Caderno Nosso Mundo Sustentável, a Zero Hora publicou matéria importada do New York Times, assinada por Michael Kimmelman, cujo título é “A avenida virou um parque”. Fala em especial sobre a criação do Parque Madrid Río, na capital espanhola.

O mais interessante sobre o Madrid Río é que foi construído por sobre uma avenida marginal que cruzava o centro da cidade, separando bairros e o contato com o Rio Manzanares. A opção da Prefeitura já havia sido de enterrar a marginal antes mesmo de haver um projeto quanto ao que fazer no espaço. A concorrência pública foi aberta, e entre propostas de renomados arquitetos para a construção de luxuosos prédios e centros comerciais, o parque foi a escolha feita.

A matéria cita vários exemplos semelhantes de espaços públicos criados onde antes havia marginais que separavam a cidade, como São Francisco, Seoul, Milwaukee e Boston.

O que me impressiona nisso e me cativa como estratégias fantásticas adotadas tanto por figuras políticas quanto por pessoas de interesse comercial não é seu estrangeirismo. Não é acreditar que “lá fora é melhor’. Mas sim sua funcionalidade, sua efetividade na criação de espaços urbanos de reunião de pessoas. Formas de utilizar a cidade que integrem, que melhorem a qualidade de vida, que ajudem nas maneiras que as pessoas desfrutam a urbe.

Enquanto isso, em Porto Alegre, avenidas são duplicads, marginais são criadas, largos públicos são transformados em estacionamentos e a Câmara de Vereadores aprova projetos de lei que tornam ilegais quaisquer manifestações populares nesses espaços – exceto, é claro, as dos partidos políticos.

Até quando será preciso ir nessa direção até que fique evidente que ela só nos leva para um beco sem saída – que nós mesmos construimos?

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6 respostas para A avenida virou um parque

  1. heltonbiker disse:

    Alguém tem o texto ou o link???

  2. airesbecker disse:

    16 de janeiro de 2012 | N° 16949
    EXEMPLO DE MADRI
    A avenida virou um parque
    Com mais de nove quilômetros de comprimento, Parque Madrid Río recupera área esquecida da capital espanhola ao reagrupar bairros antes separados por uma marginal e revitalizar o Rio Manzanares
    Mesmo em uma tarde fresca de dezembro, os idosos, rodeados pela fumaça do cigarro, leem seus jornais, sentados ao redor de mesas de xadrez sob grandes pinheiros. Ali perto, uma jovem estica sua corda entre os troncos de duas amoreiras e caminha sobre a corda bamba.

    Atrás dela, criancinhas hipnotizadas observam o movimento da água de uma pequena fonte oval, enquanto ciclistas pedalam sobre as pontes de concreto que lembram canoas viradas, ou sobre as elegantes pontes de aço que se dividem sobre o rio com vista para o palácio real na colina.

    O parque, chamado de Madrid Río, já está praticamente pronto. Com mais de nove quilômetros de comprimento, ele revigora uma área que já esteve quase abandonada no centro da capital espanhola. Sua criação, em apenas quatro anos, cobre uma complexa rede de túneis cavados para enterrar uma marginal encravada no centro da cidade e ajuda a revitalizar um grande trecho do Rio Manzanares, reunindo novamente bairros antes rasgados pela marginal.

    Em todo o mundo, vias marginais estão sendo demolidas, e a margem dos rios, recuperada. Após décadas priorizando carros, as cidades estão sendo repensadas, dando lugar a novos espaços públicos.

    Um exemplo famoso é o do terremoto ocorrido em São Francisco em 1989, que ajudou a cidade a superar décadas de ideias fixas. A marginal do Embarcadero foi demolida, reconectando a cidade com a belíssima margem do rio.

    Em Seoul, a remoção de um grande trecho de marginal revitalizou o Rio Gaecheon, abrindo espaço para os oito quilômetros da área de recreação conhecida como Cheonggyecheon.

    Em Milwaukee, a demolição do complexo viário de Park East liberou uma gigantesca área urbana para o desenvolvimento de parques e áreas residenciais.

    Já em Boston, ainda que a intenção inicial não fosse a de requalificar a cidade, até mesmo o fiasco do Big Dig, um complexo de túneis que enterrou as vias elevadas no centro da cidade e que se arrastou por mais de 30 anos, transformou a cidade em um lugar melhor para se viver.

    Seguindo o sucesso da renovação de Barcelona, uma cidade pioneira em inovações urbanas, o audacioso projeto do Madrid Río lembra o legado do plano urbanístico de Nova York, que comemorou 200 anos em 2011. Isso porque o parque faz parte de um amplo processo de transformação, que inclui a construção de dezenas de estações de trem e metrô para ligar bairros distantes, de difícil acesso e quase sempre pobres, na periferia de Madri.

    Quando caminhava para o parque, cruzei com a fisioterapeuta Marisa Alvarez. Ela contou que, antes do metrô, gastava quase uma hora e meia no trânsito entre o bairro de Mostoles, um subúrbio no sudoeste da cidade, e o centro de Madri. Agora são só 45 minutos. O metrô transformou o seu dia a dia, afirmou.

    – É como se tivéssemos novos pulmões – disse Pilar Lopez, supervisora do projeto que implementou o parque, para descrever como a novidade também mudou sua vida.

    Aos 73 anos, ela contou que vive há mais de meio século em um conjunto habitacional nas redondezas, sofrendo com a fumaça e o barulho da marginal.

    – Quando a marginal ainda passava por aqui, eu ficava sentada assistindo à TV o dia todo – ela contou. – Agora eu me sinto saudável novamente: caminho por horas pelo parque com meus amigos.

    Marginal foi enterrada antes de existir qualquer projeto

    O parque ainda não está pronto. Um trecho da marginal precisa ser enterrado, e o estádio de futebol tem de ser demolido. O lugar todo tem um clima árido, com ares um pouco duros. O que era de se esperar, já que Alberto Ruiz-Gallardon, o prefeito populista e conservador da cidade (e que acaba de ser nomeado ministro da Justiça na Espanha), ordenou que a marginal fosse enterrada antes que houvesse qualquer projeto para um parque no local.

    Somente muitos anos após o início da construção dos túneis, em 2003, e com os inevitáveis protestos causados pelos problemas de trânsito, é que a cidade organizou uma concorrência. Diversos arquitetos famosos propuseram a construção de prédios chamativos.

    Mas o grupo ganhador é formado por arquitetos de Madri, liderados por Gines Garrido, que se uniram ao holandês Adriaan Geuze e sua famosa empresa de urbanismo e paisagismo, a West 8.

    Eles não idealizaram novos monumentos caros e demorados, mas uma série modesta de novas pontes e a reforma de alguns monumentos históricos entre diversas áreas verdes. O parque deveria ser informal, simples e prático. Mais americano do que europeu, em certos aspectos. Cheio de playgrounds, campinhos de futebol e ciclovias.

    E, o mais importante, ele seria construído em etapas. Todos os meses uma nova parte poderia ser inaugurada. Naturalmente, o prefeito queria aparecer ao lado de eleitores sorridentes em frente às câmeras para inaugurar a primeira seção do parque antes de sua reeleição, em 2007. E ele conseguiu. A reclamação pública sobre o trânsito gradualmente deu lugar aos elogios à nova área verde.

    MICHAEL KIMMELMAN | THE NEW YORK TIMES

  3. heltonbiker disse:

    Também sobre a onda de remoção de vias expressas, o excelente vídeo, QUE TEM LEGENDAS EM PORTUGUÊS:

    http://www.streetfilms.org/mba-highway-removal/

    …que faz parte da série “Moving Beyond the Automobile”. Vale muito a pena assistir TODOS, com chuvas de exemplos, com ênfase em casos Norte-Americanos.

    • Larry Witt disse:

      Fantástico os exemplos desse vídeo!!
      Fico pensando nas entradas de POA. Aquela zona da Rodoviária, Mauá e etc,que era para ser um cartão postal e está virado em LIXO!

  4. Sem querer criar polêmica, so por desconhecimento, desde o palacio real o que se vê é o Parque de los Moros de la não me lembro de ver algum outro parque. Procurei ele no Google maps e não achei. Alguem sabe para que lado de Madri ele fica?

    • Mel Ferrari disse:

      José, ele percorre 9km da orla do Rio Manzanares. Quando morei em Madrid em 2010 as obras já haviam começado, podia ver do meu apartamento que ficava perto de Puente de Toledo. Acredito que as imagens do Google maps ainda não estão atualizadas.
      Esse link fala mais sobre o projeto: http://www.esmadrid.com/es/madridrio (está em espanhol)

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