Besteiras por aí.

É extremamente irritante ler as besteiras e desinformações que são publicadas em jornais de grande circulação. E o pior é saber que estes jornais formam a opinião de muitos leitores ingênuos, que acreditam que se algo está impresso em um jornal de importância é porque é verdade.

Na Zero Hora de ontem (sábado 14/01/2012) foi publicada a seguinte nota, pequena mas cheia de imprecisões, meias-verdades e desinformação:

Sociologia das bicicletas (ZH 14/01/12 – Informe Especial)

Um detalhe pouco conhecido sobre a Massa Crítica, movimento em defesa da bicicleta que tem provocado polêmica na Capital, com seus passeios que travam o trânsito de automóveis: grande parte dos participantes utiliza bikes de roda fixa, nas quais não se pode parar de pedalar enquanto em movimento. Ao redor do mundo, o uso das “fixies” está associado a uma postura de contestação, desafio ao perigo e questionamento das leis.

Em primeiro lugar, dizer que a Massa Crítica “trava” o trânsito de automóveis mostra claramente a tentativa do autor de causar polêmica e criminalizar um movimento social legítimo, pois, afinal, os carros não são impedidos de transitar durante o evento. Fazendo o que chamam de “rolhagem” os participantes da Massa Crítica apenas tentam impedir que veículos motorizados entrem no meio do grupo durante a sua passagem em um cruzamento, o que constituiria uma infração gravíssima (artigo 213 do CTB). Poder-se-ia dizer, inclusive, que a Massa Crítica é um agente facilitador de trânsito, pois além de incentivar o uso da bicicleta – veículo que não polui e não causa congestionamentos – durante a pedalada o trânsito (fluxo) de pessoas é maior do que durante o trânsito intenso de automóveis (veja o excelente post Massa Estatística para mais informações).

Em segundo lugar, dizer que “grande parte dos participantes utiliza bikes de roda fixa” é uma informação dúbia, uma meia-verdade, uma quase mentira, uma especulação na melhor das hipóteses. O que é “grande parte”?  Se em uma Massa Crítica tem 500 participantes, quantos deles vão em bicicletas de roda fixa? Eu chutaria que no máximo 50 (acho que é menos) o que corresponde a menos de 10% dos participantes. Isso é “grande parte”?

Em terceiro lugar e um dos maiores absurdos publicados na nota, vem a frase: “Ao redor do mundo, o uso das “fixies” está associado a uma postura de contestação, desafio ao perigo e questionamento das leis.” De onde vêm essa informação? Eu convivo com pessoas que usam bicicletas de roda fixa e não vejo nenhuma relação entre um e o outro. Conheço pessoas que usam bicicletas de roda fixa por serem simples, de baixa manutenção, pelo fato de ser uma bicicleta com um visual mais limpo, sem cabos e fios, pela sua leveza e por permitir uma integração maior entre o ciclista e o seu veículo (pedalar seria quase como caminhar). Alguns dizem inclusive que é mais segura, por dar ao ciclista mais controle nas pedaladas.

Parece óbvio que a intenção da nota é associar à Massa Crítica qualidades como “comportamento perigoso” e “questionamento das leis” talvez numa tentativa de assustar o pacato cidadão e afastá-los desses “ciclistas subversivos que ameaçam a ordem pública”, difundindo o medo da mudança, medo do novo, marginalizando assim pessoas que lutam e constroem com suas ações uma cidade mais humana, pessoas que querem uma cidade melhor para todos, uma cidade com qualidade de vida.

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21 respostas para Besteiras por aí.

  1. artur elias disse:

    Descobri recentemente que muitas das bicis que parecem fixas rodando por aí têm roda livre, sendo portanto “apenas” single speed (marcha única).

    Não que isso seja importante.

    É triste ver desinformação possivelmente dolosa ou no mínimo incompetende/irresponsável.

    Mas em algum momento precisamos deixar isso pra lá (sob pena de viver num estado permanene de ira e frustração); não há como controlar o comportamento dos outros. Já não é fácil controlar a si mesmo.

  2. Aldo M. disse:

    Eu uso uma bicicleta branca. Pouca gente sabe, mas ao redor do mundo as bicicletas brancas servem para indicar que um ciclista morreu. E no entanto ele se move, como prova o Galileu.

  3. Jose Antonio Martinez disse:

    O Jornalista Itamar Melo intrrino, consegue ser pior que o titular da coluna, Túlio Millman que publica todo o que chega na mesa dele sem discernimento algum até porque ara isto se requer um mínimo de inteligência. Mas de qualquer jeito com besteiras ou sem elas, com inteligência ou sem e bonito de ver a imprensa livre se expressando e nos aqui fazendo no exercício da liberdade a depuração do que e bom e o que e lixo . Eu por exemplo sou assinante deste jornal e faz muito mas muito tempo que nao leio essa coluna pelas burrices de seu titular, veja como e a vida eu fico sabendo destas besteiras aqui, neste blog inteligente. A burrice nao prospera assim como a mentira. Saúde

  4. Aldo M. disse:

    Que escândalo! Os ciclistas da Massa Crítica usam bicicletas de transmissão fixa! Era essa a prova que o Ministério Público precisava para condenar esses arruaceiros fora-da-lei!

  5. heltonbiker disse:

    Um detalhe pouco conhecido sobre a Massa Apocalíptica, movimento em defesa do automóvel que tem provocado polêmica no STF, com seus engarrafamentos que travam o trânsito de todo mundo: grande parte dos participantes utiliza automóveis esportivos de alta potência, nas quais não se pode resistir à tentação, induzida pelo fabricante, de acelerar ao máximo. Ao redor do mundo, o uso desses “muscle cars” está associado a uma postura de infração às leis, direção sob o efeito de álcool e diversos casos de atropelamentos e acidentes com invalidez permanente e desagregação familiar.

    (isso pra nem mencionar os SUVs: seriam eles os “free-riders pula-pulas”?)

  6. heltonbiker disse:

    Mas agora, eu tenho bike-fixa e ando com ela pra lá e para cá. Quero acreditar que não foi puramente devido à moda da proliferação da fixa que fiz essa escolha (foi motivada por razões de cunho técnico-esportivo, treinamento, etc.). Mas, evidentemente, ando sempre com o radar ligado para achar os fixeiros na rua. Considerando o total de ciclistas que rodam por aí, os fixeiros são a imensa MINORIA. Pra não dizer que volta e meia encontro os mesmos, que são o pessoal da Pedal Express.
    Por outro lado, na Massa Crítica tem muito mais. Ali, ao invés de serem 0,5%, são 3%, huhauahauha. Tipo, uma pequena porcentagem de um grande grupo é uma grande quantidade, né.
    Tá, mas e o que é que isso prova mesmo?

    • Aldo M. disse:

      Não sei bem o que isto significa, mas ultimamente fico babando quando vejo uma fixa.Mas tem que ser uma de verdade. Na Massa Critica tá assim de marchas-únicas disfarçadas de fixas. Será que isto não pode comprometer a autenticidade do Movimento?

  7. Daniel disse:

    Fuck the system!

  8. Diego Alves disse:

    Na minha casa, a Zero Hora (doada pelo vizinho) é usada como privada do Gato. Bom destino para o jornal, né.

  9. Melissa disse:

    Tá, e a minha bicicleta de freio torpedo é uma contestação ao quê?
    Ou esse “jornalista” especialista em bicicletas olhou pra ela e achou que era um fixa?

  10. Jornalista tem que ser livre até para fazer este tipo de besteiras e os Diretores dele o que vão fazer e aumentar ainda mais a rivalidade.
    Esqueçam ele, vamos nos dedicar a procurar e convencer caras que nem o Juremir a Lívia, etc.
    A luta contra um jornalista sempre demonstra falta de maturidade, ele tem que ser livre; se ele erra, ele um dia arruma; se não arruma a vida se encarrega, mas ele tem que ser livre.
    A Direção de nenhuma empresa jornalística participa de orientação ou pauta que não seja a dela mesma e a dela, está mais para impostos, ministros da economia, fábricas de celulose, etc.
    Então não adianta sonhar com conspiração.
    Se alguém comprar uma briga contra um jornalista é porque não tem razão quem tem razão nem da bola para o que ele fala, até porque logo, logo ele ficará com cara de babaca e perderá a credibilidade.
    Melissa ele não acreditou ele sabe que é uma fixa e desconfiou na hora quando te viu com uma camera, filmando a Massa, porque tu não eres uma jornalista com carteirinha e documentar um evento para depois falar dele pode ser exercicio ilegal da profissão de jornalista. Saúde

  11. r. disse:

    por favor! “uma postura de contestação, desafio ao perigo e questionamento das leis” é o maior elogio que pode haver nessa cidade sem o mínimo respeito ao que não é majoritário! e acho que o elogio é exagerado: a massa não merece. especialmente por se ofender com isso.

  12. Aldo M. disse:

    As “acusações” do jornalista são, antes de tudo, reducionistas e românticas. Enfim, muito bobas. Ele nem sabe o que escreveu, ou melhor copiou da Wikipedia. Analisar essas besteiras é perda de tempo.

  13. f.t. disse:

    imagino que na massa crítica as pessoas, como eu, se ofendam sim. com muitas coisas. com a má utilização da cidade, unilateral, que privilegia o fluxo de automóveis a qualquer outra forma de transporte (não temos metrô ativo em porto alegre, o aeromóvel está lá parado desde sempre, sem que façamos caso, não temos ciclovias, os pedestres são sempre prejudicados, etc). que se ofendam com o desrespeito e a violência dos motoristas, que abusam da sua condição de estar num carro, utilizando-o como arma, como meio de constrangimento e coerção daqueles que estão em uma situação de maior vulnerabilidade. que se ofendam com a desinformação e – mais do que isso – com a forma mal intencionada com que algumas vozes na imprensa tratam o evento. que, para alguns lá pode sim ser só um passeio na última sexta do mês, mas para vários outros – estou crrto disso – é uma forma de protestar por uma outra forma de viver e circular na cidade.

  14. Moo disse:

    “Ao redor do mundo, o uso das “fixies” está associado a uma postura de contestação, desafio ao perigo e questionamento das leis.”….Pfffffff! O cara inventou um frase para causar algum impacto no pessoal que não é simpatizante das bikes. Bicicleta é bicicleta em qualquer lugar e de qualquer jeito! Sendo bem honesta, eu nem sabia que existia essa historia de roda fixa ou não, embora eu ande de bike…vou começar a reparar mais quando eu estiver pedalando.

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