Cidade das bicicletas por Juremir Machado da Silva

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO SCALETSKY

Crédito: ARTE PEDRO SCALETSKY

Dos 10 aos 17 anos de idade, em Livramento, meu meio de transporte foi a bicicleta. Era saudável, divertido, dava grande autonomia e não poluía, embora eu não soubesse disso, nem os santanenses tivessem preocupação com ar puro. Sonho em ir para a PUCRS e para a Rádio Guaíba de metrô e de bicicleta. No primeiro caso, pegaria o trem na estação HPS e desceria na estação PUCRS e na estação Praça da Alfândega. No segundo, pedalaria na grande planície da minha casa até a universidade, da Ramiro Barcelos até a Ipiranga, e, ao longo da sinuosa avenida, até a PUCRS, ou por Osvaldo Aranha, túnel e Mauá até o Centro. Nos dias de chuva ou de muito cansaço, colocaria a bicicleta no metrô e me sentiria realizado. Imagino empresas e instituições em geral com duchas para os ciclistas chegando suados ao trabalho nos verões.

Sou fã desse pessoal do Massa Crítica. Enxergam perto e longe. O futuro das cidades pertencerá às bicicletas e ao metrô subterrâneo. Cidades como Porto Alegre e São Paulo precisam imitar Paris e ter linhas de metrô em todas as direções. O carro individual é um meio de transporte anacrônico. Em sociedades cada vez mais sedentárias, populosas e engarrafadas, a bicicleta é, ao mesmo tempo, academia de ginástica, meio de transporte, instrumento de lazer e fator de defesa do meio ambiente. Imagino as ruas do futuro tomadas por bicicletas e com uma só pista para carros. Não muito distante dos nossos dias, o uso do automóvel por uma única pessoa em horários comerciais será proibido. O carro é meio individualista e egoísta. Teremos carros cada vez mais velozes parados nos intermináveis engarrafamentos. Esse modelo está falido.

O Brasil de JK em diante acreditou que a modernidade era a rodovia, o automóvel, a gasolina e a mesa de fórmica. Desmantelou a rede ferroviária. A Europa, que não tem medo de ser tradicional, nunca renegou bondes, metrôs e trens de pequena, média e grande velocidade. Os ciclistas parecem enxames em vários grandes cidades dessa Europa velha e chata, cheia de museus e de parques onde as pessoas fazem uma coisa antiquada que por aqui é considerada, por muitos, como mico: piquenique. Porto Alegre está vivendo o derradeiro conflito entre motoristas arrogantes e ciclistas em busca de espaço. Assim como os plantadores de fumo, esses exportadores de doenças, terão de descobrir novas culturas, os governos terão de incentivar novos empreendimentos. Atrair montadoras de carros será coisa do passado. Governantes ousados tentarão criar grandes museus. Esperem para ver.

Porto Alegre tem tudo para se transformar na cidade das bicicletas, salvo na subida da Lucas de Oliveira, onde sugiro que instale um teleférico. Tem gente que quase perdeu o uso das pernas: desce de elevador até a garagem, dirige até o estacionamento do trabalho, onde pega o elevador até o escritório. Vive no ar-condicionado. Acossado por médicos, doenças e barriga, caminha no mesmo lugar, na esteira. A bicicleta vem reconquistando terreno como esporte e lazer. Precisa ser meio de transporte. É só uma questão de mentalidade.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

Fonte: Correio do Povo

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17 respostas para Cidade das bicicletas por Juremir Machado da Silva

  1. Jeferson disse:

    Parabéns ao Juremir! Dando aula de civilidade ao tosco pau mandado Humberto Trezzi.

  2. Marcelo disse:

    Gente inteligente e de mente aberta é outra coisa.

  3. Sergio disse:

    Bravo Juremir! Parabéns, é de mentes inteligentes e despoluídas como a sua que nossa Porto Alegre necessita. Viva as bikes, abaixo a cultura carrocêntrica.

  4. Aldo M. disse:

    Uma visão lúcida e direta do destino da bicicleta em nossa cidade, sem “mas” nem “poréns”. Com certeza, um marco na abordagem do ciclismo urbano na grande imprensa gaúcha. Parabéns, Juremir!

  5. Larry Witt disse:

    “Atrair montadoras de carros será coisa do passado. Governantes ousados tentarão criar grandes museus.”

    Essa frase é uma revolução social.
    Tá mais do que na hora de encarar nossas mazelas de frente, com responsabilidade, e deixar de fugir dos problemas como crianças bobas. É hora de evoluir, cuidar do que é nosso (família, amigos, casa, rua, bairro, país, mundo, universo…), olhar para nossa história, aprender e garantir um futuro melhor para as próximas gerações. Chega de sermos idiotas e irresponsáveis. Chega de tapar o sol com a peneira com medidas paliativas para não tocam na verdadeira causa de tudo – as imensas desigualdades desse país.

    Cansei desses pensamentos médios que rondam nossa #classe média sofre, do tipo:

    Escolas públicas estão sucateadas > coloquei meu filho na particular.
    O SUS tem filas > contratei um plano de saúde particular.
    Transporte público é precário > vou me esforçar para comprar um carro só pra mim.
    Trânsito está engarrafado > vamos duplicar as ruas.
    Muitos roubos de carros > contratei um seguro para o meu carro.
    Arrombamento de casas > Fiz da minha casa um bunker seguro.
    Meu salário é baixo > Trabalho em dobro e não tiro férias.
    Tenho medo de deixar meus filho andar nas ruas > Levo ele sempre de carro para brincar no shopping.
    TV aberta é uma droga > Contratei uma paga.
    TV paga é cara > Fiz um enjambre pirata.
    Internet é cara > Vou dividir ela com meu vizinho.
    Minha rua tem barulho e poluição > Me mudei para mais longe.
    Imposto é muito caro > vou dar um jeitinho de sonegar
    Praças estão inseguras > vamos cerca-las.
    Estacionar na rua é perigoso > colocarei num estacionamento pago.

    …. etc.

    Vamos continuar resolvendo nossos problemas com ” jeitinhos”, empurrando eles para os outros ou para as próximas gerações ATÉ QUANDO!?

    Brasileiro se acha muito malandro, mas esquece que para cada malandro existe uma pilha de trouxas. Se todo Brasileiro é malandro – onde estão os seus trouxas? olhe no seu espelho…

  6. Olavo Ludwig disse:

    Para completar é bom rever esta reportagem:

  7. Beto Flach disse:

    Achei ótimo este artigo. Parabéns ao Juremir pela simplicidade e perspicácia. Estas características andam juntas tal qual o movimento de dois pedais, a impulsionar a coragem adiante.

    Quanto às montadoras, lembrei que em 1998, protestando, aos fundos da GM em Gravataí, donde tivemos que fugir da repressão da polícia do então governdador, discordávamos do discurso governamental televisivo de que o empreendimento atrairia 15.000 empregos diretos e mais de 100.000 indiretos (isso foi usado em campanha!) e do cheque de R$ 256.000.000 entregue à multinacional. Hoje, se alguém disser que a GM proporciona 10.000 empregos (DIRETOS + INDIRETOS JUNTOS), passará por louco.

    A luta pela mudança, aqui nesta capital está muito dura (e até, de certa forma, inglória) e exige foco, persistência e resiliência, aliadas à capacidade de mais e mais pessoas se agregarem para transformar a realidade por mais e mais caminhos. Logo mais, serão tantas as sementes a germinar que não haverá outra alternativa que não a criação de um grande jardim!

    Em frente.

  8. Fernando Filho disse:

    Gostaria de ver o Juremir pedalando na Massa!

  9. Pingback: Juremir Machado da Silva - Correio do Povo | O portal de notícias dos gaúchos

  10. giovani arigony irigaray disse:

    e isso mesmo conterraneo,parabens .

  11. Aldo M. disse:

    Na página do Juremir do site do Correio do Povo, a publicidade, em vez de automóveis, é de um fabricante de bicicletas dobráveis. Outro bom sinal de mudança.

  12. MVKN disse:

    Vou tentar ainda essa semana subir a Lucas só pra ver se é possível.

  13. Pingback: Parece que, hoj… | Vá de Bici

  14. Lilian Chaudon disse:

    Parabéns pelo artigo!! Seu sonho é meu tb.

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