Lenta e vertiginosamente arrostando o futuro

Pra cortar com leveza a seriedade que olhar para a cidade nos exige, a história do menino no deserto com sua máquina de sonhar, do livro Campos de Carvalho, Cartas de viagem e outras crônicas, da editora José Olympio.

A DAMA NO PAQUETE

A bicicleta é um boi volátil cujo epicentro se situa sob o esfíncter anal do pedalante.

Seus caracteres principais são um caráter dúctil e amoldável, o repentino trintinar nas curvas e, para os mais aficionados, uma ânsia de levitação que os leva às vezes à mesa dos hospitais com fratura exposta. É imponderável como o vento e, à noite, sua carcaça onírica assume feições puramente maquiavélicas – o que a torna um animal ideal para longos vôos rumo ao infinito. Seu número de ordem é 6.666, e o apito do guarda o mais que consegue é fazê-la rir com os seus raios concêntricos e sua luz opalescente, tão diversos da mastodontice de um Rolls-Royce e sua fera covardia.

A bicicleta não se submete a nenhuma dieta macrobiótica e sua armadura esguia só não lembra mais o Dom Quixote porque é o próprio, a lança em riste representada pelo olho do pedalador ou seu pênis: léguas e léguas de caminho virgem a estuprar, o espadanar do sol sobre a viseira erguida, o desafio da lua a seguir-lhe os rastros, o deslumbre das estrelas. Os gregos só não foram sábios porque, ai deles, não chegaram a conhecer a bicicleta.

Aos 12 anos, pois, lá ia eu trêfego e azul pedalando que pedalando às margens do São Francisco.

Na Europa rugiam canhões, caíra Cracóvia, Varsóvia, e o menino absorto em seu vôo mal se dava conta do sexo docemente pousado no selim qual sobre um ninho – que àquela altura do mundo ainda havia a inocência e, com ou sem Hitler, o sexo mal aflorava por entre as frestas. Era-se um menino e sua bicicleta, e nada mais do que isso: a brasa dos olhos incandescendo de sonhos e o assovio na boca repleta de valsas e tangos argentinos – argênteos seria o certo. Ao lado, o São Francisco acompanhando o menino em sua alucinada corrida para a morte, surdo como um cão fiel e se escondendo para reaparecer daí a instante, a respiração opressa, um fulgor de lâmina no longo dorso cansado: ambos, menino e rio, irmanados na mesma loucura sem sexo e sem nazismo, deslizando sobre si mesmos, lenta e vertiginosamente arrostando o futuro, o minuto seguinte.

Sabeis que no domingo as coisas têm seu cheiro peculiar, a sua face, e isso era o que sentia o menino levemente montado em sua bicicleta, tão levemente que era como se a houvera esquecido em casa e vertiginasse por sua própria conta, montando apenas a sua sombra. Não sei se pelos sinos, se pelo incenso que as nuvens traziam, havia no ar essa expectativa que antecede nas gares a súbita aparição do trem, quando na curva se adivinha mais do que se antevê a maravilha que é a locomotiva apontando o seu nariz em chamas – isso nos áureos tempos em que ainda se incendiavam corações e locomotivas . De qualquer modo, o menino respirava esse clima de perfeito mistério que só um domingo azul sobre uma bicicleta, já ia dizer sobre uma locomotiva, só proporciona a loucos e poetas, a muitos de nós, em suma: de repente via-se pedalando não mais na estrada mas sobre o rio, flúvio argonauta de pé qual novo viking, o guidom transformado num belo par de chifres.

Eis senão quando, num repente, subindo o rio, irrompe qual navio-fanstasma um paquete.

Mais parecia uma baleia ou um monstro antediluviano – Leviatã o seu nome – armado até os dentes, com luzes e guirlandas multicoloridas, vogando contra a corrente e fumando o seu cachimbo. Veio vindo, vindo, eu estaquei a minha montaria à margem do grande rio e, queixo caído, fiquei vendo aquela luminária em pleno dia caminhando na minha direção, um silêncio de pesadelo apenas quebrando aqui e ali pelo marulho das águas, o vento sutil na copa das árvores.

Era um barco sinistro e álacre ao mesmo tempo, não mais uma baleia coberta de seus adereços mas um enorme esquife todo iluminado, cisne ou albatroz em cores vivas, em carne viva, ali vogando em espanto e em busca de seu caminho; e me espiando com seus olhos de esguelha, vendo o menino no deserto com sua máquina de sonhar, a roupa de marinheiro longe de qualquer mar.

Foi aí que o menino via a Dama de pé no meio do navio – junto à amurada – olhando-o no fundo dos olhos, a mão em pala para se proteger do sol; uma estatueta de Tânagra fitando-o e chamando-o em seu silêncio, deusa, musa, cornamusa, amante repentina e para sempre: imagem antes não vista nem entrevista, a não ser em sonho, primeira mulher em sua vida, mãe e irmã, vulva visão num entardecer de sangue. O navio passava lento, lento, lento – no convés aquele vulto solitário em seu halo de mistério – e, enquanto passava, o coração do menino batia descompassado, tomado de paixão e medo, sem saber ao certo o que pudesse significar tal visão e amor tamanho.

Durou um instante a aparição – a Dama e o seu entressorriso -, o tempo apenas de o menino envelhecer dez anos e voltar a pisar nos pedais com redobrada força, o sexo agora pesando no selim qual um enorme pássaro e a bicicleta mais do que nunca assumindo seu papel de Cavaleiro Andante, Cavaleiro da Triste Figura: exemplar, vingadora, terrífica e cada vez mais humana.

(Tão-me estranho tudo isso, tão-me intrínseco. Nunca estive às margens do São Francisco e já sonhei três vezes o mesmo sonho)

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Uma resposta para Lenta e vertiginosamente arrostando o futuro

  1. heltonbiker disse:

    Isso é leitura subversiva!

    Dá vontade de pedir demissão e sair a viajar de bici!

    (de novo)

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