O automóvel é o grande vilão do desenvolvimento sustentável

Artigo de Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA, do Instituto de Relações Internacionais da USP e pesquisador do CNPq e da Fapesp. Publicado hoje na Folha.

Retirado de: http://diariogauche.blogspot.com/2011/12/o-automovel-e-o-grande-vilao-do.html

Mobilidade versus carrocentrismo

Ampliar espaços de circulação para automóveis individuais é enxugar gelo, como já bem perceberam os responsáveis pelas mais dinâmicas cidades.

Automóveis individuais e combustíveis fósseis são as marcas mais emblemáticas da cultura, da sociedade e da economia do século 20.

A conquista da mobilidade é um ganho extraordinário, e sua influência exprime-se no próprio desenho das cidades. Entre 1950 e 1960, nada menos que 20 milhões de pessoas passaram a viver nos subúrbios norte-americanos, movendo-se diariamente para o trabalho em carros particulares. Há hoje mais de 1 bilhão de veículos motorizados. Seiscentos milhões são automóveis.

A produção global é de 70 milhões de unidades anuais e tende a crescer. Uma grande empresa petrolífera afirma em suas peças publicitárias: precisamos nos preparar, em 2020, para um mundo com mais de 2 bilhões de veículos.

O realismo dessa previsão não a faz menos sinistra. O automóvel particular, ícone da mobilidade durante dois terços do século 20, tornou-se hoje o seu avesso.

O desenvolvimento sustentável exige uma ação firme para evitar o horizonte sombrio do trânsito paralisado por três razões básicas.

Em primeiro lugar, o automóvel individual com base no motor a combustão interna é de uma ineficiência impressionante. Ele pesa 20 vezes a carga que transporta, ocupa um espaço imenso e seu motor desperdiça entre 65% e 80% da energia que consome.

É a unidade entre duas eras em extinção: a do petróleo e a do ferro. Pior: a inovação que domina o setor até hoje consiste muito mais em aumentar a potência, a velocidade e o peso dos carros do que em reduzir seu consumo de combustíveis.

Em 1990, um automóvel fazia de zero a cem quilômetros em 14,5 segundos, em média. Hoje, leva nove segundos; em alguns casos, quatro.

O consumo só diminuiu ali onde os governos impuseram metas nesta direção: na Europa e no Japão.

Foi preciso esperar a crise de 2008 para que essas metas, pela primeira vez, chegassem aos EUA. Deborah Gordon e Daniel Sperling, em “Two Billion Cars” (Oxford University Press), mostram que se trata de um dos menos inovadores segmentos da indústria contemporânea: inova no que não interessa (velocidade, potência e peso) e resiste ao que é necessário (economia de combustíveis e de materiais).

Em segundo lugar, o planejamento urbano acaba sendo norteado pela monocultura carrocentrista. Ampliar os espaços de circulação dos automóveis individuais é enxugar gelo, como já perceberam os responsáveis pelas mais dinâmicas cidades contemporâneas.

A consequência é que qualquer estratégia de crescimento econômico apoiada na instalação de mais e mais fábricas de automóveis e na expectativa de que se abram avenidas tentando dar-lhes fluidez é incompatível com cidades humanizadas e com uma economia sustentável. É acelerar em direção ao uso privado do espaço público, rumo certo, talvez, para o crescimento, mas não para o bem-estar.

Não se trata – terceiro ponto – de suprimir o automóvel individual, e sim de estimular a massificação de seu uso partilhado. Oferecer de maneira ágil e barata carros para quem não quer ter carro já é um negócio próspero em diversos países desenvolvidos, e os meios da economia da informação em rede permitem que este seja um caminho para dissociar a mobilidade da propriedade de um veículo individual.

Eficiência no uso de materiais e de energia, oferta real de alternativas de locomoção e estímulo ao uso partilhado do que até aqui foi estritamente individual são os caminhos para sustentabilidade nos transportes. A distância com relação às prioridades dos setores público e privado no Brasil não poderia ser maior.


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9 respostas para O automóvel é o grande vilão do desenvolvimento sustentável

    • Aldo M. disse:

      E, simultaneamente, o governo está pensando seriamente em elevar o IPI das bicicletas. A desculpa é a de proteger a indústria nacional, já que o IPI incide nas bikes importadas e não incide nas fabricadas em Manaus (claro que, com isto, deixariam todas as fábricas fora de Manaus sobretaxadas). Mais um assunto azedo para um post.

  1. heltonbiker disse:

    Valia um post, mas estou com preguiça:

    http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smgae/default.php?p_secao=59

    Dêem uma boa lida nos vindouros avanços tentaculares do modelo carrocêntrico em Porto Alegre.
    A boa notícia? Pedalar nos engarrafamentos é bem mais seguro do que no trânsito fluido.
    Mais asfalto = mais engarrafamentos; Mais viadutos = mais engarrafamentos; nesse caso, em que menos não é mais, mais é MAIS!

    • Aldo M. disse:

      Só que, muitas vezes os carros ocupam literalmente toda a rua. Nestas situações, qualquer ciclofaixa, mesmo bem estreita, ajudaria. Só não dá para reivindicar ciclofaixas estreitas porque seriam muito perigosas quando o trânsito não estiver congestionado.

  2. Aldo M. disse:

    O desperdício de energia de um automóvel é imenso. Um ciclista desenvolve em média 100W de potência, uma bicicleta elétrica tem um motor de 250 W e um carro 1.0 tem 50.000W, o equivalente a 500 ciclistas médios! O carro pesa 20 vezes mais que seu ocupante, e o motor rende apenas 80%. Logo, o rendimento teórico máximo, isso se não houvesse o para-e-arranca das cidades, seria de apenas 1% ! É definitivamente uma máquina de baixíssima tecnologia e ainda piorada para reduzir custos de fabricação. Por isto ele precisa de uma casca para esconder sua mecânica horrível.

  3. Olavo Ludwig disse:

    Quando se abastece um carro com R$100,00 em média, apenas R$1,00 é utilizado para o transporte da pessoa, os outros R$99,00 são jogados fora em ineficiência energética e para o transporte do próprio carro.
    Observar isso e não pensar que esta alternativa de transporte é absurda só pode ser coisa de gente muito burra ou gente que ganha muito dinheiro com isso.
    Atenção, não estou dizendo aqui que o carro é inútil, que não tem suas vantagens ou que não seja necessário em algumas situações(devido principalmente a forma como é a estrutura da cidade) o que estou dizendo é que é uma alternativa de transporte absurda ao observar apenas uma questão, se observarmos várias outras(mortos, feridos, poluição etc), essa alternativa torna-se, além de absurda, insana!

    • Aldo M. disse:

      Em uma bicicleta elétrica, se gasta apenas 5 centavos com eletricidade para fazer 15 km. E isso que a energia elétrica é uma forma nobre de energia, inerentemente mais cara que os combustíveis fósseis.
      Já para fazer o mesmo trajeto de automóvel se gasta uns 5 Reais, cerca de 100 vezes mais.
      E se for de bicicleta comum, além de não gastar os 5 centavos, poupa-se o gasto e o tempo na academia. Se bem que de carro também se poupa, mas de viver.

  4. Jonas Bertucci disse:

    Muito bom artigo! Alguns dados me lembraram este vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=nnfbDQb5_m0

    Como se mostra no vídeo no exemplo de Brasília, nas capitais brasileiras, a proporção de carros, em relação ao total de veículos é ainda muito maior.

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