Bicicleta e as Pequenas Coisas

Como se já não bastassem as “surpresas” que a Protásio Alves me oferece quase que diariamente no trânsito, hoje me senti “abençoado”, mas devido a uma situação um tanto trágica.

Vinha eu descendo a milhão, sentido bairro-centro, na hora do almoço, quando vi sobre o asfalto um pardalzinho se debatendo, mancando, sem conseguir voar. Pensei “puta, merda…” e segui, para logo em seguida frear e voltar rapidamente pela calçada, para tomar a óbvia e urgente providência de tentar salvar o bicho.

Cheguei nele e, milagrosamente, ainda estava lá do mesmo jeito, com o bico aberto e respirando muito rápido (também, o bicho estava em cima do asfalto, literalmente “fritando” no sol…). Peguei ele sem dificuldade, e felizmente não havia sangue. Acho que a pata estava machucada. Delicadamente, coloquei dentro da pochete de ferramentas que sempre levo comigo, deixando uma fresta para entrar vento, e me mandei lomba abaixo, pedalando rápido porém suavemente.

Já vim logo pensando em levá-lo a alguma veterinária. Levei na Águia (Fernandes Vieira quase esquina Osvaldo Aranha). A senhora lá me disse que eles não atendem animal silvestre, eu deveria levar no Mini-Zoo da Redenção, que tem veterinário. Lá fui eu, e o rapaz lá me explicou que o veterinário só viria no dia seguinte a partir da uma e meia. Resolvi, então, ir para casa e deixar o bicho do menos-pior jeito possível até o dia seguinte.

Ao chegar em casa, abri a pochete para mostrar o passarinho pra minha esposa, e a primeira coisa que ele fez foi sair voando com vontade, dar dois giros na minha área coberta, e pousar de novo, cansado, no chão. VIVA! Se o mais difícil, que era voar, ele conseguia…

Botei ele de novo na pochete, e fui rapidamente para a Redenção. Pelo sacolejar dentro da pochete, dava pra ver que ele já estava mais “avivado”. Fui direto ao bebedouro do Recanto Oriental, que está entupido e portanto deixa um monte de poças d’água no chão. Larguei o pardal ali, e ele imediatamente voou para o galho de um eucalipto a quase três metros de altura, onde se acomodou meio com dificuldade e ficou lá equilibradinho, ofegante, mas na sombra, em meio a seu ambiente natural, e com água de sobra por perto.

Aí eu fui para casa almoçar.

E aí então a gente se pergunta: MAS O QUE É QUE ESSA M… DE SALVAR PASSARINHO TEM A VER COM BICICLETA!?

Minhas reflexões a respeito:

  • Apesar de morarmos em uma selva de pedra, A VIDA!
  • Se eu estivesse de carro, talvez nem tivesse visto o bicho, muito menos teria tido tempo de voltar para buscá-lo;
  • Se eu estivesse a pé ou de ônibus, não teria como transportar o bicho tão rapidamente, nem tão confortavelmente;
  • Se não houvesse área verde por perto (no caso, a Redenção), não teria onde deixar o bicho, depois de “reavivado”, para que ele pudesse seguir a vida com um mínimo de viabilidade.

Conclusões:

  • Sempre é decepcionante, para quem conhece as maravilhas da bicicleta, ver como ela continua sendo um veículo marginalizado em nossa sociedade. Embora a cidade só tenha a ganhar quanto mais e mais pessoas se locomovam de bicicleta, um veículo que as mantêm conectadas com a própria cidade – suas belezas e suas agruras – como nenhum outro, continua-se roubando espaço público para entregar aos insaciáveis automotores. Automotores que, por sua vez, contribuem para tornar o espaço urbano progressivamente mais inóspito e mais hostil à vida;
  • Embora Porto Alegre até que tenha bastantes parques, um sinal vermelho acende em minha cabeça a cada pedaço que lhes é subtraído em favor dos automotores. A amputação que fizeram no Velódromo do Marinha é o exemplo mais famoso e mais grotesco. O estacionamento subterrâneo do Ramiro Souto me dá calafrios. Nesse sentido, sou do princípio que devemos ser como a Finlândia, que manteve uma cobrança cerrada pela qualidade do ensino público, mesmo depois que o país já era líder mundial em qualidade de ensino há anos. Temos muitos parques? Ótimo. Melhor seria se tivéssemos muitos mais. Temos poucas e/ou estreitas avenidas? Ótimo. Melhor vai ser quando forem transformadas em calçadões/trilhos-de-bonde, de preferência fartamente arborizados;
  • Por fim, mesmo tendo “perdido” tempo e atrasado o almoço em casa, e mesmo que eventualmente o passarinho acabe “voltando para o meio da rua”, tenho a certeza de ter feito a coisa certa.

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10 respostas para Bicicleta e as Pequenas Coisas

  1. airesbecker disse:

    Achei graça da segunda tirinha.
    Eu conhecia um comunista algumas décadas a atrás que contava orgulhoso o sucesso que a China tinha tido para exterminar os pardais, eram uma das cinco pragas de Mao.
    Os pardais são uma das principais causas de extinção de espécies nativas, como o tico-tico que está desaparecendo substituído pelo pardal, que é invasor.
    Estas certezas mudam com os anos.
    Hoje quando o progresso chega não é mais como se esperava.
    É sempre relativo.
    Odeio certezas.
    No caso o certo sem dúvida foi salvar o pardal.

    • heltonbiker disse:

      Há poucos dias, se questionou se a bicicletagem jardinária deveria plantar esta ou aquela espécie de árvore, por ser exótica.
      Acho que, dadas as circunstâncias, os ecossistemas estão se globalizando, e o equilíbrio, se e quando houver, será um novo equilíbrio, e não um (velho) reequilíbrio.
      Também já me perguntei: mas o homem não faz parte da natureza? Suas obras também não são naturais?
      E aos ecólogos preocupados em congelar os ambientes, longe de tudo e de todos, não caberia pensar se não estão “artificializando” o estancamento de uma sucessão ecológica que ocorre e sempre ocorreu, continuamente?
      Não defendo nenhum dos pontos de vista (acho que o ser humano em alguns aspectos se comporta como praga, e sua atividade é tão disruptiva que não há ecossistema que consiga absorvê-la não-traumaticamente).
      Mas, entre mortos e feridos, pode ser que um dia o “pogresso” comece a “andar pra trás”, e alguma ou outra espécie que ficou acuada tenha um alívio para melhor se expressar biologicamente de novo…

      • airesbecker disse:

        Uma questão bastante controversa são os índios isolados.
        Tem gente que é a favor de conservar eles na situação original para manter ao máximo a originalidade da cultura deles sem influência externa.
        Esta é a linha que hoje predomina na FUNAI e nos antropologos.
        Porém imagina se é correto manter pessoas isoladas sem oportunidade de receber informações do resto da humanidade, vivendo na idade da pedra e pleno século XXI, ainda mais que são pessoas que têm um histórico de violência e vivem uma situação de antagonismo com o resto do mundo, pois as únicas pessoas que entraram em contato com eles foram invasores agressivos, eles nunca tiveram contato com pessoas que pudessem ser amistosas.
        São pessoas que vivem amedrontadas sofrendo ataques em extrema violência e quem poderia ajudar e proteger acha que é melhor não entrar em contato, por questões de pureza cultural.
        Resta saber se este interesse cultural não é acadêmico dos próprios antropólogos que visam manter os chamados “índios bravos” como objetos de estudo em uma espécie de museu a céu aberto, num tipo de parque pré-histórico.
        O paradoxo é definir o que é artificial e o que seria natural nesta questão.

      • airesbecker disse:

        Plantar a rigor não é natural.

  2. Diego Alves disse:

    “Apesar de morarmos em uma selva de pedra, a vida ” Muita vida.

  3. Naldinho disse:

    Parabéns pelo artigo, muito bom.
    Nesse domingo estava pedalando pela BR-116 de São Leopoldo até Picada Café. Em Morro Reuter, vi uma aranha saindo da pista e indo em direção ao mato.
    Quem passa de carro, além de perder a oportunidade de apreciar as “pequenas coisas” da natureza com mais detalhe, por vezes acaba atropelando muitos desses animais. Era grande o número de animais atropelados.

    • heltonbiker disse:

      Bah, andando pelas estradas afora, o cara acaba vendo mais biodiversidade que indo no zoológico. Já vi vários tipos de cobra e lagarto, aves de todas as cores, roedores, graxaim, tartaruga, gambá, tatu, até tamanduá. Pena que sempre estropiados. Tipo, o cara passa trinta vezes de carro no mesmo lugar e nunca vê nada. Passa uma, de bike, e vê trinta!
      Uma vez, vinha pela serra catarinense dirigindo, à noite. Subitamente (subitamente MESMO), algum felino de médio porte (parecia jaguatirica) saltou na frente do carro, atravessando a estrada. Sem muito que fazer, não freei nem desviei, e ouvi o bicho rolando por baixo do carro. Não ficou marca nenhuma, nem de pelo nem de sangue. Mas que deve ter se machucado, deve. Tem como evitar? Só não andando de carro, diria eu…

  4. Leonardo Mendes disse:

    Gostei muito do texto, parabéns pela atitude.
    abraços

  5. Klaus disse:

    Alegria Alegria, 🙂

    Uma atitude heróica na selva do individualismo!!

    😀

  6. Beto Flach disse:

    Que tri, Helton! Te admiro, velho. Parabéns!

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