Trânsito Perfeito

Caros Amigos

Escrevo porque hoje foi mais um dia de trânsito perfeito durante minha volta do trabalho para casa, de bicicleta, entre os bairros Petrópolis e Bom Fim:

Digo perfeito porque, além do clima um pouco mais ameno do que os calorões que têm feito, os engarrafamentos estavam muito maiores do que de costume.

Ao sair da Av. Taquara, desço a Carazinho (tenho preferido evitar a descida da Protásio entre a Amélia Telles e a Vicente da Fontoura, devido ao excesso de velocidade, tanto meu quanto dos outros veículos).

Pois peguei a descida da Carazinho, com alguns buracos recentemente remendados, e para minha surpresa a fila para o semáforo estava três vezes maior que de costume. Um Corsa branco ainda ficou perigosamente -para mim- trocando de pista, buscando em um último ímpeto tomar o seu lugar o mais à frente possível na inevitável e longa fila. Graças à velocidade reduzida, pude olhar para o motorista e, não muito simpaticamente, dizer “E aí, vamo se decidir?”.

Graças à bicicleta, com seu guidão tão livre, pude sem aflição me esgueirar entre ônibus, carros parados e carros estacionados. Ao tocar o telefone – era minha esposa – pude ir para cima da calçada do Supermercado Nacional sem ameaçar a integridade e a paz de ninguém (pois ali a calçada é larga e tinha pouco movimento de pedestres), e me aproximar do semáforo sem pressa.

Quando o semáforo abriu, e peguei à esquerda na Av. Nilópolis, outra surpresa: filas e mais filas de veículos motorizados na quadra da Praça da Encol (onde normalmente o trânsito flui até demais). Que maravilha… pude passar por ali com infinitamente menos perigo de morrer do que de costume.

E assim pude ir por toda a Nilópolis, entre os carros para os quais já era indiferente o sinal estar verde ou vermelho. O mau “aproveitamento” do espaço, provocado por carros que ficavam parados entre uma pista e outra (sem terem conseguido concluir uma troca de pista), acabava criando enormes espaços vazios, os quais eu desfrutava com alegria. É a pressa alimentando a lentidão, em um ciclo muito curioso que se repete cotidianamente e só tende a crescer. Melhor para quem pedala.

Após o cruzamento com a Vicente da Fontoura, aí sim a pista fica ampla e espaçosa, pois o gridlock daquela esquina, ainda mais àquele horário, funciona como um eficientíssimo gargalo de trânsito.

Mas a fluidez automotora não dura muito. Em frente aos colégios Rio Branco e Israelita, a partir daonde a Protásio conta com uma prodigiosa circulação de pedestres e com uma das piores “sarjetas” para ciclistas da região central de Porto Alegre, os contínuos micro-atritos provocados por embarques/desembarques de táxi e lotação, a interferência significativa dos ônibus enormes que têm circulado fora do corredor de ônibus (os  “Seletivos”, da EVEL e da Transcal) e, claro, a sanha de trocar de faixa à menor dúvida, que segue criando enormes espaços vazios e mantendo a velocidade média lá embaixo, felizmente permitem que andar de bicicleta NO MEIO DA RUA, como faço sempre que é viável, acabe sendo algo natural e tranqüilo.

Chegando no complexo de esquinas formado pela Ramiro Barcelos, Protásio Alves, Venâncio Aires e Filipe Camarão, pude confirmar mais uma vez minha teoria de que ali sempre é o lugar onde mais vejo ciclistas passando. Havia pelo menos quatro, cada um indo para um lado diferente. Curioso é que eles sempre estão com roupas e bicicletas normais, ou seja, não saíram para andar de bicicleta, mas sim para ir de bicicleta a algum lugar, fazer alguma outra coisa.

Ali, também, um fiscal da EPTC apitava compulsivamente para manter o fluxo que vinha da Ramiro Barcelos.
Isso eu acho estranho, e acontece seguidamente: Um complexo de esquinas, cheias de semáforos perfeitamente claros: no verde, vá. No vermelho, pare. Por que será necessário que, e ainda por cima TODOS OS DIAS, no dado cruzamento, no dado horário, vai lá um fiscal de trânsito (que por estar lá, não está em outro lugar, fazendo alguma outra coisa), pra ficar guiando o rio de carros como se este fosse uma boiada… Mais uma curiosidade do nosso trânsito.

O trecho final, depois de tantas surpresas agradáveis, já nem lembro mais. Vim pedalando no mesmo ritmo confortável, em um trânsito que, a contra-gosto, tinha que manter a mesma velocidade média de um passeio de bicicleta.

Mas pra ser perfeito, perfeito mesmo, duas coisas faltavam acontecer:

  • As pessoas que voltam cansadas do trabalho, de ônibus, não deveriam ser obrigadas a ficarem torrando no sol antes de entrarem, atrasadas, em um ônibus caro, cheio e desconfortável;
  • As pessoas que moram nas ilhas do Delta do Rio dos Carros não deveriam ter que aguentar a fumaça, o barulho e o calor produzido pelos veículos.

Mas quem sabe um dia todos os carros sejam elétricos e todas as avenidas tenham corredor de ônibus…

 

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10 respostas para Trânsito Perfeito

  1. Marcelo disse:

    Às vezes eu me sinto possuidor de um conhecimento revolucionário, incrível e quero compartilhar isso com as pessoas, mas parece que elas não assimilam: ir de bicicleta é mais rápido, divertido, fácil e inteligente.

    • Aldo M. disse:

      Então tu dizes a elas que andar de carro é mais lento, aborrecido, difícil e burro? 🙂 E ainda quer que elas assimilem? Uma coisa de cada vez! Se demonstrares apenas que é mais lento, talvez baste. Pergunte se, de carro, elas levam menos de cinco minutos para cada quilômetro que rodam. Se levarem mais, de bicicleta com certeza é mais rápido.

  2. Muito didático o teu texto, Helton. Diverti-me A VALER.

  3. Bruno disse:

    Pedalar no engarrafamento é o que há!

  4. Legal Helton gostei mesmo, tu es o perfeito cronista da nossa época e posso assegurar que ontem senti a mesma coisa, já que o trânsito estava também trancado para a zona sul e da gosto ver como as pessoas enlouquecem atrás de uma idéia que não tem mais como funcionar. Carro já era. Abraços e saúde a todos José Antonio R. Martinez

  5. Aldo M. disse:

    Os motoristas não tem a menor noção de quão lento é andar de carro numa cidade repleta de semáforos.

    Perguntem-lhes a que velocidade média trafegam. Fiz isto para um engenheiro, meu colega, e ele repondeu: “60 km/h”. Fiz uma cara de cético, e ele corrigiu:”50 km/h”. Perguntei então qual a distância do seu trajeto e quanto tempo ele levava: “5km. Em condições exepcionalmente boas, levo 15 min”. Calculei de cabeça e repliquei que sua velocidade média, em condições ideias, era de 20 km/h. Aí ele lembrou que uma lenta biclicleta a motor conseguia acompanhá-lo de carro facilmente. Disse-lhe que uma bicicleta comum, pedalada por um sedentário, faz fácil 15 km/h de velocidade média, mais rápido que os 10 km/h de automóvel em qualquer congestionamentozinho. Aí ele lembrou das subidas, onde a bicicleta perde para os carros, tentando ganhar a discussão. Ou seja, ficou assustado com a possibilidade de ter sido enganado por ter comprado um carro com objetivo de deslocar mais rápidamente. Se um engenheiro, e considero este meu colega um bom engenheiro, se equivoca em uma situação tão simples, só imagino os demais que usam carro e não vivem fazendo cálculos como nós.

    Acho que esta é uma abordagem interessante para balançar os conceitos dos entusiastas dos automóveis. Afinal, eles dizem valorizar o baixo tempo de deslocamento de carro em relação a outros modais “menos eficientes”.

    Para fazer uma conta rápida, considerem 12km/h a velocidade média de uma bicicleta. Tão lento que quase não demanda esforço para pedalar (em Paris, se considera que a velocidade média de uma bicicleta é de 24km/h, o dobro disto). Pois a 12km/h, se faz 1 km a cada 5 minutos. Por exemplo, se a pessoa faz um trajeto de 4 km, deve levar uns 20 minutos de bicicleta. Se ela conseguir fazer este trajeto de carro mais rapidamente, que vá de carro então. Mas muitos certamente levam mais tempo que isto de carro ou de ônibus, e deveriam considerar seriamente a hipótese de ir de bicicleta. Isto se quiserem ir mais rápido.

    • heltonbiker disse:

      Supondo que muitas pessoas deixam seu carro em um estacionamento mensal, tem que contar também o tempo de sair de casa, ir até o estacionamento, tirar o carro do estacionamento, deixar o carro no estacionamento de destino, etc., e refazer tudo isso na volta. Isso conta como tempo de trajeto, e é algo que na bicicleta é zero, já que é um transporte, na maioria das vezes, de porta a porta.

      • Aldo M. disse:

        E o percurso de bicicleta quase sempre é menor que a de carro. Por isso, para fazer um cálculo mais preciso da velocidade média de deslocamento, é melhor medir a distância em linha reta no Google Earth entre o ponto de partida e de destino.

  6. Aldo M. disse:

    Eu cheguei a ver e andar quando era criança: Já houve ônibus elétricos em Porto Alegre, além de mais de 150 bondes também elétricos. E hoje a gente sonha com um futuro de veículos movidos a eletricidade…

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