Lições de Arquitetura

Mais uma da série #AcordaPrefeitura:

Em entrevista a Fernanda Zaffari, no caderno Donna da Zero Hora de ontem, o arquiteto espanhol Fermín Vásquez deixa algumas “idéias no ar” para os administradores de nossa cidade:

(fonte: post de GersonLDN no fórum http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=86094282, já que no post do blog da Zero Hora a entrevista não aparece completa.)

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(…)

Estilo Próprio – E o que mais lhe agrada no projeto que você e sua equipe criaram?

Vázquez – Existem várias, normalmente nunca é uma. A primeira é a manutenção da sequência completa dos armazéns. A seguinte é o equilíbrio perfeito entre as três torres, o conjunto das três torres como um grupo que forma uma unidade no conjunto e que tem, eu acredito, uma medida justa de singularidade e racionalidade. A terceira é a conexão desde à Praça Brigadeiro Sampaio, por cima do muro, o que dá uma continuidade urbana, uma continuidade da cidade sem barreiras.

EP – Houve o tempo que pensávamos a cidade do futuro como a dos desenhos futuristas em naves espaciais. Hoje a discussão foca numa forma simples, cidades com áreas de convivência. Você concorda?

Vázquez – Absolutamente. Uma cidade para as pessoas e não para os carros. O futuro é mais sustentável. A cidade extensa, totalmente de transporte privado, não é sustentável. Ela consome quantidades enormes de recursos e os recursos são termináveis. O resultado disso é que as pessoas são menos felizes. As pessoas são mais felizes em uma cidade diversificada, onde convivem com diferentes atividades, uma cidade densa, mas com interação entre as pessoas.

EP – A arquitetura exibicionista, muito na moda no mundo árabe, é uma tendência forte e, em outros países, o foco é de uma arquitetura mais humana. Onde você se encaixa?

Vázquez – Sem dúvida nenhuma, na segunda. A primeira é o exemplo da banalização da arquitetura na busca por aparecer no Guinness – o mais alto, o maior. A singularidade por si só é um objetivo ruim na arquitetura. A singularidade pode ser resultado de uma busca inteligente, mas não um objetivo. O projeto do Cais que criamos aspira ser o melhor, ou um dos melhores, portos reincorporados a uma cidade do mundo. A vontade é fazer um projeto exemplar, mas que será resultado de muito trabalho, e não pela busca de uma singularidade formal.

EP – Qual é a marca que quer deixar ou que já deixa em seus trabalhos?

Vázquez – Tentamos não trair a sociedade, nem o cliente – que é quem nos chama para resolver um problema – nem nós mesmos. Essas são as três coisas que busco sempre. Não são raros os arquitetos que se encostam em suas próprias obras, outros que pensam que quem paga é quem diz o que tem que ser feito e outros que não levam em conta a sociedade. Nosso trabalho influencia as outras pessoas, as cidades.

EP – Você já esteve muitas vezes na Capital. Alguma área da cidade lhe agrada mais? Alguma outra gostaria de mudar?

Vázquez – Gosto de muita coisa. Uma das coisas que eu mais gostaria, depois destes anos trabalhando em Porto Alegre, é que, com o avanço do sistema de transporte público, aquela praça do Mercado Público se abrisse ao Guaíba. Naquela área, hoje, temos três barreiras: o muro, os trilhos e a estação. Algum dia, quando o transporte público e o metrô tiverem sido finalizados, e quando o uso de carros tiver sido reduzido, a praça do Mercado poderá se abrir ao Guaíba

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AAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!!!!!!!!!

 

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11 respostas para Lições de Arquitetura

  1. Fpavão disse:

    Já li que com a reforma vão construir torres de negócios e um shopping de três andares, sendo dois pra estacionamentos de carros (acho que era isso). E aquele muro que escorre água 24 horas por dia.

    E aí, não parece arquitetura de Dubai, que quer aparecer nos Guinness?

    Porto Alegre vai ser reformada pra pior.

  2. Helton, a minha real esperança é que como estão consultando tantas autoridades internacionais nestes projetos do Porto comece a pegar, pelo menos por modismo idiota dos nossos administradores, alguns preceitos imprescindíveis do primeiro mundo.
    Exemplo este da praça aberto ao espelho aquático, como na praza do comércio em Lisboa que são lugares realmente privilegiados e a população curte eles sempre. Outra praza que curte o seu espelho em Lisboa é na beira em Belém ou ainda na estação de Oriente no Parque da Exposição. Todo voltado ao rio, ao mar, ao por do sol para as pessoas curtirem sem carros, só caminhando ou de bici, patins, rollers,etc. De mais. Vamos torcer que pelo menos desta vez sejam “modernosos” no sentido certo da palavra. Saúde José Antonio Martinez

  3. heltonbiker disse:

    Assim como o Fpavão e o Martinez, me equilibro entre o ceticismo e o otimismo. Marquei o post na série “Acorda Prefeitura”, porque está lá o cara, ressaltando como diferencial do seu projeto uma abordagem pró-humana e anti-carrocêntrica, sendo que nessa mesma cidade a Prefeitura continua insistindo em corroer calçadas, fagocitar pedaços de parques, rebaixar avenidas, construir viadutos, etc., aumentando cada vez mais o caudal do rio de carros.

    Mas enfim, vamos torcer. E que venham os estrangeiros, e que eles se espantem por quê não é permitido tomar banho na prainha do gasômetro, ou por quê o dilúvio fede tanto, ou por quê o velódromo está tomado pelo matagal (se é que vão conseguir enxergá-lo). E que perguntem também onde estão as bicicletas para alugar, etc.

    • Larry disse:

      Novamente, tem que vir um gringo para abrir os olhos dos oligarcas da provinciana… Fico triste que tudo que nós (os outsiders, desqualificados, aloprados, etc) falamos e lutamos tenha que sair da boca de um gringo para que a imprensa local leve a sério e divulgue.. É brabo ser da colônia.

  4. Gabriel disse:

    Para quem quiser conferir o projeto:
    http://b720.com/es/proyecto/b720_porto_alegre_brasil_es

    Estou com MUITAS dúvidas sobre esse projeto, queria escrever mais mas estou com pouco tempo.
    1º Não vi abrirem o concurso do projeto.
    2º O arquiteto diz “o projeto do Cais que criamos aspira ser o melhor, ou um dos melhores, portos reincorporados a uma cidade do mundo.”.

    Mas como assim!
    3 torres DE ESCRITÓRIOS COMPETINDO com o atual skyline da cidade (que pra mim querem dizer: “o gringo carimbou a colônia com sua escultuas”) e um SHOPPING COM ESTACIONAMENTOS na área LIVRE entre o gasômetro e o cais é o melhor que ele tem pra nos oferecer? PUTZ GRILA!

    Aí onde tem cobertura verde (“sustentabilidade” né?) é o provavel local do shopping com estacionamento.

    Bom, talvez eu tenha esbravejado muito porque esse projeto ainda tá muito obscuro ao meu ver, principalmente na parte do shopping e estacionamente, visto que o escritório nao divulgou nenhuma planta, apenas imagens bonitinhas feitas no computador..

    Tirado do site do escritório:
    “Com o objetivo de mitigar o atual DÉFCIT DE ESTACIONAMENTOS e humanizar o entorno, ambos extremos possuem, ademais, grandes espaços de estacionamento. Assim sendo, se converterão em zonas para pedestres as circulações no decorrer de mais de 2,5 quilômetros do cais, e se recuperarão o transporte público e fluvial.”

    É a velha maneira de combater a obesidade: afrouxando o cinto.
    E olha que gentil eles foram, não transformaram a beira do cais em estacionamento, UFA!

    Só pra finalizar, engraçado o arquiteto falar sobre “singularidade” com projeto como esses:

  5. Gabriel disse:

    Bom, procurei um pouco e achei:

    Ali, na área entre o cais e o gasômetro, DUAS PLANTAS de estacionamento subterrâneo ocupando toda a área. Descanse em paz Porto Alegre.
    Planta 1

    Planta 2

    enquanto isso..

  6. Luiz disse:

    é que tem arquiteto que acha bonito grandes e modernas construções. que normalmente servem aos interesses dos motoristas e dos grandes empresários. nós, desqualificados, só queremos um recanto bonito, revitalizado, humano, acessível, etc.
    é conflito direto de interesses. e nós teremos que nos mobilizar para essas coisas não acontecerem

  7. Aldo M. disse:

    Eu lembro bem de quando se podia ir do Mercado Público ao Cais dando apenas alguns passos. Agora querem nos vender algo que nos roubaram.

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