5 minutos.

A Massa Crítica da última sexta, foi linda, mágica, única. O que também não quer dizer que não tenha tido problemas – no começo estava um pouco desorganizada, faltavam rolhas nos cruzamentos, alguns ânimos se exaltaram, e em vários momentos criaram-se grandes buracos no meio da massa, quase dividindo-a ao meio. Porém mesmo esses pequenos deslizes, foram irrelevantes se comparados à beleza do evento.

Foto: Rossana Koch

Imaginem a Avenida Mauá, uma das mais agressivas, feias avenidas de Porto Alegre, uma das zonas mais mortas da cidade, fervilhando de vida. Por alguns breves minutos os veículos grandes, sujos, barulhentos e perigosos que geralmente dominam aquela paisagem, deram lugar a pessoas de todas as idades conversando, cantando ou simplesmente pedalando com um sorriso no rosto – a cidade já não era mais a mesma, até mesmo a região mais desprestigiada do centro da capital ficava interessante e surpreendemente bonita. O trem passando ao lado e buzinando em apoio, só colaborou para a magia do momento.

No entanto, sou obrigado a admitir, nem todos estavam se divertindo. Alguns poucos motoristas, frustrados por ficarem cinco minutos* parados vendo aquele monte de bicicletas passar, mostravam seu descontentamento buzinando ou mandando aquela turma de gente feliz ir pra casa dormir, quando não nos mandavam trabalhar (embora fossem 20h da noite de sexta-feira). Infelizmente na nossa “evoluída” sociedade é assim, quem é valorizado é o homem infeliz, escravo do trabalho e das necessidades, que, quando não está trabalhando, está se recuperando do cansaço, dormindo em casa. Se divertir está fora de cogitação, mesmo se você tiver trabalhado o dia inteiro como um porco, se você ousar se divertir à noite, você é um vagabundo (ou vagabunda).

Foto: Rossana Koch

Só que, indiferente a esses escassos protestos, aquela multidão de gente era teimosa e insistia em se divertir. Só podem ser loucas essas pessoas que acham que rua é lugar pra se conviver, pra passar bons momentos, que acham que o mundo tem carros demais, que acham que podem transformar a cidade. Mas o fato é que, pelo menos por alguns minutos, a cidade foi transformada e, infelizmente, tão logo aqueles cinco minutos terminavam e aquelas centenas de bicicletas passavam, a cidade voltava à sua tediosa, agressiva e barulhenta rotina. Mas gosto de pensar que alguma mudança permanece, mesmo que seja uma pequena semente na mente de quem viu a Massa passar: a idéia de que vida na cidade não tem que ser chata e previsível, a idéia de que esta nossa rotina anestesiante é só uma fina camada de verniz, uma pintura que já não está mais intacta e o que está embaixo dela é muito mais interessante.

* – Um conhecido cronometrou o tempo de passagem da Massa Crítica de novembro em um cruzamento que foi de aproximadamente cinco (05) minutos.

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15 respostas para 5 minutos.

  1. Klaus disse:

    Obrigado pelo lindo relato Marcelo, 🙂

  2. Olavo Ludwig disse:

    Eu adorei a massa, foi a primeira que a Liza pedalou comigo, e foi muito boa mesmo, linda e divertida, várias crianças fazendo a festa, e adultos felizes como crianças.. Aquela buzinada do trensurb foi demais, me arrepia os cabelinhos lembrar daquele momento.

  3. Olavo Ludwig disse:

    Outra coisa que lembrei, como foi rápido o recuo da massa quando precisamos dar espaço para uma ambulância passar, o socorrido teve muita sorte de ter bicicletas em sua frente e não o usual congestionamento de carros.

  4. Fabrício disse:

    … pra ver a massa passar cantando coisas de amor 🙂

  5. heltonbiker disse:

    Prova de que a Massa deixa uma semente em quem a vê passar é o aumento contínuo do número de participantes. Cada vez mais as pessoas vêem aquilo e se identificam com algo que elas querem para elas. Daí para pegar ou arranjar sua bicicleta e vir na próxima última sexta-feira, é um passo!

  6. heltonbiker disse:

    Ah, sugestão para uma outra medição:
    Contar quantos ciclistas passam durante a massa, e qual é a extensão que ela ocupa;
    Contar quantos carros passam, em média, em uma avenida (ou na mesma avenida), e qual a extensão ocupada por esses carros (lembrando que carros em movimento ocupam três vezes mais espaço que carros parados).
    Assim, daria pra concluir que “a Massa tipicamente move X pessoas por minuto, enquanto o transporte indivitual motorizado move Y pessoas por minuto”.

    • Fabrício disse:

      gente, alguém ajuda o helton com essa medição, esse assunto ta picando faz tempo. Quem se habilita? Eu não vou estar aqui na massa de dezembro porque cai bem entre ano novo e natal =/

  7. chops disse:

    Seguinte, gurizada não sabia o que fazer na massa. Não sabiam o que era rolha. Deixaram passar carro no meio da gurizada em 3 ocasiões. Vi uma pessoa, que fazia parta da massa crítica, parar por duas vezes a massa para deixar pedestres passar.
    Precisamos a voltar a distribuir os panfletos explicando o básico sobre MC que teve no início do ano. Se alguém se propor a fazer, passe a conta para que a gente possa depositar a grana para tirar o xerox.

    • Melissa disse:

      Na Salgado Filho eu pedi pras pessoas pararem pra um casal de pedestres passarem (o sinal estava aberto pra eles). Não vejo problema, pois é uma interrupção muito rápida e que não compromete a unidade da Massa Crítica, além de serem pedestres e não carros.

    • Fabrício disse:

      Sou a favor dessa retomada do básico da Massa. Quanto aos pedestres, concordo com a Melissa, à passagem deles não compromete nem separa a massa, ainda é muuuuuito bem vista porque tomamos o espaço de veículos maiores que nós (carros), protegemos a passagem dos menores que nós (pedestres) e não bloqueamos as faixas de transporte público (corredores de ônibus). É isso?

      Quanto aos problemas de rolha, vi que uma gurizada alucinada tava correndo lá na frente no começo, tentei orientar eles algumas vezes para que entendessem que quando saíam muito rápido assim e não ajudavam com rolhas faziam com que carros entrassem e comprometessem a segurança e o clima da massa. Acho que isso aconteceu mais no começo, até chegarmos no viaduto da borges, depois parou. Foi isso? Acho importante não cairmos de pau na gurizada que não tem noção e sim valorizar essa energia deles pra que possam fazer da massa uma coisa melhor sim e acho que sorrisos, conversa e esses panfletos que o chops sugeriu ajudariam 🙂

      inté

      • Klaus disse:

        É muita responsabilidade parar a massa para algum caminhante passar. Quem vem de bike atrás não entende a situação, esta completamente por fora, nem imagina essa possibilidade e por fim é provável um atropelamento de um caminhante por um integrante da massa. É tanta responsabilidade abrir esse buraco na massa que é algo irrensonsável de se fazer. A segurança de todos deve vir sempre em primeiro lugar mesmo antes de qualquer idealismo seja qual for. Abrir um buraco na massa e abrir um alto prescendente para um atropelamento não me é legal.

  8. umeboshi1.@wordpress.com disse:

    Será que fui só eu quem viu, os altíssimos postes de luz no final do túnel apagados, tanto na ida como na volta, total breu! Oque eu achei lindo foi olhar de cima do alto do túnel os fogos lá embaixo, eles pareciam ser para nós! Será que em dezembro vamos ter uma grande adesão igual a deste mês?

  9. Melissa disse:

    Gostei do teu relato, Marcelo 😉

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