A Cidade é a Rua

Publico aqui texto de José Luis Portella, publicado originalmente na Folha:

Tem ficha que não cai. De tão óbvias, certas realidades não são percebidas. Ou a gente tropeça na obviedade ou, pela falta de discussão, não enxerga o que o sentimento e a lógica nos mostra.

A cidade é a rua. Isso é tão claro!

A casa é o lar: lugar do cidadão, da família, do exercício da nossa individualidade. Habitat do núcleo familiar ou do indivíduo que escolheu estar consigo mesmo.

A rua é o lugar do coletivo. Da convivência, das relações sociais. Das necessidades do ser gregário que somos.

Claro, que, em linhas gerais. Há atividades do indivíduo nas ruas e do coletivo nas habitações, mas são exceções à regra.

Muitas vezes, precisa aparecer um técnico ou um professor como Paul Goldberger para alertar: “Numa cidade, a rua é mais importante do que os prédios” (reportagem de André Petry, “Veja” – 23/11 ).

Goldberger diz, na matéria: “A rua é uma ideia antiga que funciona perfeitamente. Não precisamos reinventá-la. Uma das razões pelas quais Nova York funciona tão bem é que a cidade se construiu voltada para a rua. É na rua que está a vida das cidades.”

Qualquer coisa que tire a pessoa das ruas empobrece a cidade. Logo, quando construímos uma cidade baseada no carro, no medo e no refúgio dos prédios, estamos negando a sua própria identidade. A cidade perde o sentido. Transforma-se em um conjunto de prédios que nos abrigam.

Além do carro e do medo, hoje patologias da grande maioria das metrópoles, há o desafio do mundo virtual que, mal usado, é uma grande falácia; um autoengano grave.

Quanto mais em contato, menos relacionamento humano. A facilidade do clique que nos coloca em qualquer lugar do mundo, dialogando com qualquer cidadão, esconde a superficialidade da interação.

Alain de Botton, filósofo e escritor suíço, explicita a fragilidade humana. Temos falhas, limites, receios, inseguranças. Precisamos de ajuda.

A ajuda vem do outro. O ser humano é, por si só, insuficiente. O relacionamento nos completa, em grande parte.

A rua é o local onde a cidade se define. Por isso, ter calçadas decentes, parques, praças limpas, ciclovias que permitem curtir a cidade em ritmo humano, mesas nas calçadas, bancos são equipamentos fundamentais. A estética é fundamental: ter uma cidade bonita.

Contudo, mais do que a estética, eles valem pela funcionalidade. Reúnem as pessoas, permitem a fruição da vida.

É só ir a uma pequena e acanhada praça, na rua Jaú, após o número 55, pouco depois da esquina com a Brigadeiro Luiz Antônio. Um simples portão dá acesso a um espaço de cerca de 85 x 40 m, tomado em parte pela invasão de edificações. Lá, junto a um mar de prédios, há vida. Alguns bem conservados brinquedos para crianças, com bancos escassos e até muito cimento, são o suficiente para os pais levarem a molecada que vive espremida nos apartamentos. Quando bate o sol, a cidade vive.

Ter uma cidade voltada para a rua, e não para os prédios, não é caro. Absolutamente ao alcance do orçamento de São Paulo. Não precisa inventar nem se endividar. Precisa fazer.
Precisa ter essa consciência. É uma decisão simples. Mas parece carecer de um estadista. Um estadista de cidades.

Ou da exigência da maioria da população. Da nossa exigência.

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