Pensamento de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa
Portugal
1888 // 1935
Poeta
O Homem é um Animal Irracional
1. O homem é um animal irracional, exactamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, o homem é um animal irracional complexo. É esta a conclusão que nos leva a psicologia científica, no seu estado actual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, é que dirige e impera, no homem como no animal. A consciência, a razão, o raciocínio são meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe são inferiores.

2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada.

3. A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja o domínio do instinto por meio de instinto reputado superior. Esse instinto é o instinto estético. Toda a verdadeira política e toda a verdadeira vida social superior é uma simples questão de senso estético, ou de bom gosto.


4. A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe. As épocas maiores da humanidade são aquelas em que sobressaem os criadores de arte, mas não se sabe como se realizam essas épocas, porque ninguém sabe como se produzem homens de génio.

5. Toda a vida e história da humanidade é uma coisa, no fundo, inteiramente fútil, não se percebe para que há, e só se percebe que tem que haver.

6. A plebe só pode compreender a civilização material. Julgar que ter automóvel é ser feliz é o sinal distintivo do plebeu.

O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.

Fernando Pessoa, in ‘Reflexões Sobre o Homem – Textos de 1926-1928’

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17 respostas para Pensamento de Fernando Pessoa

  1. Olavo Ludwig disse:

    Fiquei por um instante tentando decidir se estou mais para louco ou idiota! Desisti!!!

  2. Jeferson disse:

    O Pessoa é um grande poeta, as Odes do Ricardo Reis emocionam qualquer um que tenha um pouquinho de sangue nas veias e o Alberto Caeiro pode talvez ser mestre também para muitos de nós ciclistas (ao contrário do Alvaro de Campos, nosso antípoda). Bernardo Soares, com sua prosa meditada, é uma delícia de ler (mil vezes já me ocrreu que ele escreve como se estivesse pedalando devagarinho). Mas, para ser franco, quando o Pessoa se metia a generalizar sobre a humanidade e dar diagnósticos sociais, ele se perdia completamente (messianismo, regressões fantasiosas, saudosismo). Criadores de arte, apreciadores de arte e plebe: um sutil elogio da aristocracia para si mesma. Acho perigoso a gente aderir a esse tipo de reflexão sem maiores distanciamentos e ponderações.

    • Ninguem falou em arte clássica! E a popular não conta? Acho que existe arte em todas as classes. Entendo justamento o cortrário, que ele quis dizer que a verdadeira divisão de classes é a artística e não a social.

      • Klaus disse:

        A arte esta em todos lugares, em toda folha de árvore que se move ao vento e em toda borboleta que sai do casulo, etc. Nem só arte clássica nem só arte popular, a arte esta em todos lados, só depende do observador perceber as belezas do mundo.

        A divisão seguindo a linha de pensamento de Fernando Pessoa porém segundo minha imaginação se daria entre as pessoas que já sabem que são artistas e as que ainda não sabem visto que para mim todos somos artistas só que algumas pessoas não sabem disso, 🙂

  3. Melissa disse:

    Klaus, o texto é bonito, mas esse é um blog sobre bicicleta! Não acho que é um assunto para se postar aqui.

    • Aldo M. disse:

      Às vezes é preciso se distanciar do objeto para podermos enxergá-lo melhor e até compreendermos como ele se insere no ambiente que o cerca. O texto sem dúvida é instigante e já traz a ideia do carro como um objeto de consumo que prescinde da deficiência crítica do comprador. Ou seja, quem o compra deve ser um tanto estúpido.

    • Marcelo disse:

      Também acho que os posts desse blog tem que estar diretamente relacionados com bicicleta ou no mínimo com mobilidade.

      Abs.

      • Klaus disse:

        Respeito a opinião de vocês.

        Não concordo.

        Beijos

      • Melissa disse:

        Então temos um problema. Postar assuntos que não tenham uma relação direta com o assunto do blog “Vá de Bici” faz perder o foco. Até tem uma frase em que fala da posse de um automóvel, mas na realidade é um texto mais sobre aspectos gerais da psicologia humana. Relações indiretas, todas as coisas tem entre si. Mas não é por isso que eu vou usar esse blog pra falar da minha filosofia de vida vegana, por exemplo. Se estamos unidos aqui pela bicicleta, defender outros hábitos de vida só vai restringir o público e afastar a maioria que entrou aqui procurando material sobre bicicleta e mobilidade.

  4. Klaus disse:

    Melissa, o texto não é nem bonito nem feio, ele é muito profundo no extraordinário entendimento do próprio Fernando Pessoa sobre a realidade segundo a visão dele.

    Todo texto leva ao último pensamento de Fernando Pessoa sobre a falta de tato dos “plebeus” sobre o que é a vida e o amor o que ainda leva muitas pessoas a acreditarem que necessitam de um carro para serem felizes.

    Eu pessoalmente admiro muito o que eu entendo dos pensamentos de Fernando Pessoa porém acredito ser importante destacar, como escrevi esses dias, que as pessoas não são isso ou aquilo, elas no máximo podem estar de uma maneira e outra. Tenho convicção que mesmo o mais fútil dos seres humanos, se vier a conhecer pessoas que o tratem com carinho e que mostrem a ele que o diferente é possível e pode ser interessante, mesmo este “plebeu dos plebeus” pode adquirir sensibilidade para a arte e um dia se tornar uma pessoa feliz.

  5. Diego Alves disse:

    Também acho que o blog não é o local adequado para o texto.

  6. Aldo M. disse:

    O texto pontua, no contexto deste blog, que a questão da mobilidade não é um assunto tão objetivo e técnico quanto aparenta ser. Para se resgatar a mobilidade das pessoas, é necessário pelo menos limitar severamente a circulação de automóveis nas ruas ou mesmo suprimi-la. E o que impede que isto aconteça é mesmo a irracionalidade do ser humano que, imerso no seu mundo de sonhos, fez de uma máquina um de seus principais fetiches. E isso é um problemão que não pode ser subestimado quando se discute mobilidade e a utilização democrática dos espaços urbanos.

    Por tudo isto, discordo em absoluto da rotulação simplória de “fora de tópico” que alguns deram o texto do Klaus.

  7. Se tivermos sorte de nos mantermos longe de maiores incidentes lamentáveis!
    Devemos manter espaço para discussões filosóficas que amparem as nossas escolhas ou que nos reforçem como indivíduos.
    Uma vez que estas discussões reforçam o ciclismo como resultado.

  8. Klaus disse:

    Melissa, em nenhum momento ha qualquer menção à direitos de pessoas de outras espécies, nenhum! Ha uma hiper sensibilidade quanto ao assunto, só isso.

    Como vamos solucionar a problemática de se poder um dia andar de bicicleta ou melhor ainda, a pé e em paz não mais em meio a uma absurda violência que assola toda sociedade sem entender o cerne do problema que é o ser humano? Fernando Pessoa dá a visão dele sobre a problemática ser humano e a partir dela podemos imaginar soluções. Posso fazer desenhos para explicar a correlação com nossos problemas como ciclistas e caminhantes para cada um dos pensamentos de Fernando Pessoa.

    Nós não vamos conseguir mudar muita coisa nos limitando somente a posts que jogam merda e mais merda no ventilador, é mais que necessário filosofarmos sobre questões mais abrangentes, termos uma visão holística de nossos problemas. Como focalizar tanto, racionalizar tanto se estamos tratando de um ser muito mais emotivo, sensitivo do que racional se é que somos seres racionais?

    Todos nossos problemas são muito simples mas essa simplicidade só é possível de enxergar de longe, sem usar tanto a lente macro.

    etc.

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