O Pateta, o trânsito e algum mal entendido

Costumo dizer que pedalo desde que me conheço por gente. Nas ruas, propriamente, há uns vinte anos. Ainda moleque, pedalei da zona sul até a casa de uma tia no IAPI com meu primo. Minha primeira “grande distância” de bicicleta. A partir daí descobri que é possível percorrer toda a cidade de bicicleta. E é o que eu venho fazendo desde lá. Em alguns períodos da vida mais, em outros menos. Nos últimos anos, sempre.

Nesses vinte anos, a frota de automóveis aumentou muito, todos sabemos. Eu teria receio de andar nas ruas se estivesse começando hoje. O trânsito é hostil, veloz e quase nada gentil.

Mas, e o Pateta? Muitos conhecem aquele famoso vídeo da Disney em que o Pateta é cordial, mas quando entra num carro se transforma numa fera. Já vi pessoas envolvidas na luta por um trânsito mais humano usarem esse vídeo como alerta para motoristas. Boas intenções, claro. Mas, no império das boas intenções, às vezes faltam boas razões. Será mesmo que uma pessoa se transforma ao entrar em um carro? A pessoa que é gentil no seu dia a dia, que não fura a fila, não leva vantagem sempre que pode, que se preocupa realmente com o próximo, vira uma besta fera no carro?

Basta você andar no centro da cidade para perceber que há centenas de pequenos esbarrões, disputas por espaço. E se essas mesmas pessoas estivessem de carro, uma armadura de centenas de quilos protegendo? É o que vemos no dia a dia, disputa por espaço, falta de gentileza, arrogância. Tudo isso a 60, 80, 100 quilômetros por hora. Então a questão aqui é: o carro potencializa os baixos instintos de parte das pessoas. Elas não se transformam ao entrar no carro. Elas já são assim. É como uma pessoa violenta receber porte de arma.

Entra nessa mistura uma boa dose de covardia. Certas pessoas não cometeriam barbaridades a pé, frente a frente, olho no olho, mas cometem dirigindo, porque estão protegidas pela sua armadura, exercendo o que pensam ser um direito de ir e vir, e não é. É apenas uma concessão para dirigir um veículo. Que pode, e deveria em muitos casos, ser cassada.

Então, se você é uma boa pessoa, se se preocupa não só com sua vida, mas com a vida dos outros, que ajudam a fazer o mundo no qual você vive, você não vira fera ao dirigir um carro. Já se você é um pateta, talvez vire.

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10 respostas para O Pateta, o trânsito e algum mal entendido

  1. Aldo M. disse:

    Muito boa a sacada, Ayres. Penso que é exatamente a mesma situação das armas de fogo: potencializar os baixos instintos. Eu acredito que, muitas vezes quando uma pessoa mata outra com uma arma, ela talvez não quisesse ir tão longe. Mas a arma potencializa sua intenção.

    Então, um pequeno movimento com o dedo indicador ou, no caso do carro, deixar de frear ou desviar leva a consequências desproporcionalmente maiores que o gesto.

    E a indústria do automóvel, perversamente, ilude o motorista não fazendo-o perceber que está manuseando uma arma perigosíssima, engatilhada e apontada para outras pessoas a maior parte do tempo.

    Talvez, à medida que aumentem as punições, alguns motoristas mudem de atitude. Soube que o Código Penal está sendo ajustado para se adaptar aos tratados internacionais assinados pelo Brasil. Em especial, está se tipificando atos de terrorismo, incluindo crimes dolosos ou culposos no trânsito. Com a perspectiva de uma condenação por terrorismo, muitos motoristas certamente iriam pensar duas vezes antes de ameaçar ou atropelar ciclistas.

    • phrayres disse:

      Aldo, nessa semana que passou o STF definiu que dirigir bêbado, independente de causar “acidente”, é crime. Já é um avanço. Estamos longe, muito longe do respeito à vida. Mas cada vez eu penso mais no pedestre, acuado, esperando sua chance de atravessar uma via. Paro o trânsito nas faixas de segurança, atravesso a bicicleta na faixa para que as pessoas atravessem com segurança. Se algum motorista não entende o que estou fazendo, aponto a faixa de segurança para ele. Passou da hora de sermos protagonistas da nossa vida, e não esperar do “poder público”. Abraços.

      • Aldo M. disse:

        Os mortais automóveis dividiram as cidades em quarteirões-ilhas. E ainda chamam isto de direito de ir e vir, quando é exatamente o oposto.

  2. airesbecker disse:

    Não foi acidente!
    Foi TERRORISMO!
    Pois envolveu um atentado contra uma coletividade movida por um ideal.

    • Aldo M. disse:

      Desde o primeiro instante, eu interpretei o ocorrido como um atentado terrorista, mas muitas pessoas tem resistência em aceitar que isto que tenha acontecido aqui, afinal terrorismo é coisa do Oriente Médio, Estados Unidos ou qualquer outro lugar, menos aqui..
      Mas nem lei para terrorismo o Brasil tem, e ocorrências no trânsito aqui sempre são tratadas como acidente. Alguém já ouviu falar em “atentado de trânsito”? Tirar fino de ciclista de propósito é passível de multa apenas, o que é absurdo. Eu comparo com dar um tiro que passe muito próximo de alguém. E a punição por ameaçar abertamente um ciclista com um carro é simplesmente a suspensão da carteira. É como se quem ameaçasse outro com uma pistola tivesse apenas o porte de arma suspenso.

  3. Klaus disse:

    Que legal a reflexão que o texto propõe, valeu 🙂

    Depois que eu me dei conta que eu nem ninguém tem controle sobre qualquer veículo que seja eu deixei de andar de carro justamente por respeito ao próximo pois simplesmente iniciar o ciclo de explosões que fazem mover o automóvel se tornou, para mim, uma falta de consideração com a vida dos outros já que eu tenho pernas e posso ir caminhando ou de bicicleta e inclusive carregar o que for nem que eu precise usar o reboque.

    Pessoas legais que se importam com os outros também atropelam outras pessoas legais mesmo que os patetas sejam os maiores protagonistas no carnaval de atropelamentos que dura o ano inteiro no mundo todo.

    Dentro da minha visão de que todas pessoas são iguais, que todos somos irmãos indiferente de sexo, raça ou espécie eu vejo bem a diferença entre quem ao menos escuta com carinho e reflete sobre as questões de direitos dos outros e outras pessoas que não querem nem saber e um dos motivos que gostei do texto é que fez me dar conta desta relação, que existem as pessoas que estão legais e as que estão patetas mas como em outro texto escrito pelo Helton, o mundo muda quando o cidadão comum muda e muitos ainda estão patetas. Digo estão pois não faz sentido para mim uma pessoa ser algo, um grande amigo me passou um ensinamento de que tão somente podemos estar pois somos uma metarmorfose constante.

    • heltonbiker disse:

      Eu também deixei de andar de carro, mas principalmente deixei de andar de moto, porque percebi que um motor à mercê do impulso humano é uma tentação à qual não devo estar exposto, e acredito que muita gente com alta tolerância ao risco, inclusive o risco alheio, também não deveria estar exposta.
      Pra piorar a situação, o carro é um instrumento alienante tão eficiente, já que habilmente projetado para ser assim, que até mesmo um monge corre o risco de matar sem querer e apesar de toda a cautela e precaução.
      Se todas as pessoas que hoje são seduzidas pela indústria, pelo governo e pela sociedade começassem a olhar para seus automóveis com a “reverência” devida a uma tonelada de lata motorizada que passa zunindo em meio a outras pessoas, provavelmente pensariam duas vezes antes de usá-lo, e se comportariam com o triplo de cautela quando escolhessem usá-lo.
      Exatamente ao contrário do que vemos acontecer diariamente em nossas ruas e avenidas, como todos sabemos.

    • phrayres disse:

      Concordo, Klaus, anotada a errata ao texto =) Nós “estamos” alguma coisa em algum momento. Senão, nada nunca mudaria e não adiantaria discutir nada.

  4. Eu queria muito entender o Pateta, mas não tão somente o Pateta do carro, eu queria sim entender todos os Patetas do trânsito, que não são poucos. Não e só o assassino que circula e mata pessoas é também o outro, que pelas suas atitude inconsequentes morre e deixa sua famílias no desespero.
    Falo de motoristas de veículos de duas rodas que morrem cada dia em maior quantidade.
    Falo por exemplo, dos Patetas com maiúscula que na sexta feira circulavam, de bicicleta, pela Avenida Diário de Notícias as 9 da noite sem iluminação nenhuma e que nem usavam capacete.
    Falo dos idiotas que na noite de sábado faziam corrida de motos num trecho da BR 290.
    Queria sinceramente saber o que pensa realmente um indivíduo que participa de um passeio ou até de um protesto de bicicleta e nem usa os elementos indispensáveis de proteção exigidos por lei.
    Será que ele pensa que a Lei está acima dele.
    Será que ele pensa que não tem obrigação nenhuma de cumprir a Lei.
    Não adianta continuar atacando só os motoristas de carros, já que entre nos também tem Patetas, que dirigem veículos menos assassinos que carros, mas não menos agressivos à vida humana.
    Conheço muitos destes Patetas, de duas rodas.
    Sei que o que estou colocando no post pode significar uma agressão para muitos, que certamente costumam circular sem os equipamentos mínimos de segurança requeridos para pilotar uma bicicleta, mas vejam que isto é um atentado tão cruel à vida quanto o que se comete contra outros num carro, caminhão ou ônibus ao dirigir sem os mínimos reparos e cuidados necessários. Em menor proporção, porque so agride a própria vida mas tão agressivo quanto.
    O que devemos sim como ciclistas conscientes é transmitir a todos, nosso amor à vida humana, este tem que ser o diferencial.
    Devemos parar de tentar corrigir os outros quando estamos cometendo erros tão graves quanto os que estes cometem.
    Vejo todos os dias na rua ciclistas arriscando a sua própria vida, sem necessidade, e que estão infringindo regras de trânsito.
    Por este motivo acho que o PATETA é uma síndrome complexa, não facilmente explicável, ela tem componentes que estão na nossa formação, sim gente, na formação de todos nos. Vamos pensar nisto.
    No fundo em qualquer um de nos mora um Pateta potencial.
    Saúde. José A.R.Martinez

    • Aldo M. disse:

      Existe um enorme descaso com a vida humana em geral no Brasil. Um exemplo bem recente é o da ciclovia sob uma linha de transmissão de energia (power lines) aqui em Porto Alegre. Mesmo que o risco fosse muito pequeno, por que corrê-lo? Outro exemplo da minha área (sou eng. eletricista) é o novo padrão de tomadas brasileiro. As pessoas reclamam da inconveniência pela mudança do padrão; a maioria preferiria continuar correndo riscos com tomadas sem aterramento (terceiro pino), já banidas há décadas nos outros países.

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