A polêmica da ciclovia

Foto: Editorial J

Questões técnicas não são suficientes para explicar a controvérsia criada pelas declarações do secretário estadual de Infraestrutura e Logística a respeito de presumíveis riscos na ciclovia em construção na Avenida Ipiranga. O senhor Beto Albuquerque surpreendeu os responsáveis pelos trabalhos e disseminou temores entre a população da Capital ao afirmar que os ciclistas circularão sob fios de alta-tensão e sobre tubulações de gás. É de se perguntar sobre a real intenção de uma advertência feita com tanto alarde quase dois meses depois de iniciadas as obras sob responsabilidade do município. Se a ameaça é de fato tão alarmante, por que o secretário só foi se manifestar agora? E, se o risco de fato existe, com a dimensão apresentada pelo secretário, por que a CEEE, que teria sido consultada pela prefeitura, não tentou impedir o início dos trabalhos?

A manifestação foi inoportuna. Insinua-se, pelo tom do alerta, que o secretário está se munindo de uma espécie de habeas político preventivo diante de eventual incidente. Anuncia-se, assim, como uma autoridade cautelosa e previdente. Só que, como observam técnicos consultados a respeito, qualquer ciclista, pedestre ou motorista – enfim, todos os que circulam, em quaisquer condições, pelas ruas da Capital estão sujeitos a acidentes com a rede elétrica ou com os dutos subterrâneos. Os riscos, com ou sem ciclovia, são os mesmos. Acidentes desse tipo são raros, e não há nada a indicar que tais eventos possam ser potencializados pela existência de ciclovias.

Porto Alegre adiou por décadas a adesão a um sistema complementar de transporte que as cidades europeias consagraram. Ciclovias contribuem para retirar carros das ruas, reduzem a poluição, civilizam as grandes cidades e inspiram mudanças de hábitos na partilha dos espaços urbanos, especialmente entre os jovens. O que se espera, no projeto da Ipiranga e de similares já anunciados, é que as obras sejam executadas dentro das normas técnicas e que as ciclovias ofereçam segurança aos seus usuários. Intervenções retóricas e alarmistas, com viés mais político do que técnico, não contribuem com a iniciativa do município.

Fonte: Zero Hora, 04/11/2011

Esse é um contraponto às críticas em relação à segurança da ciclovia da Ipiranga. O que pensam sobre isso? Que as coisas ainda funcionam em volta da politicagem é evidente, mas fica difícil opinar quando não se tem conhecimento técnico sobre fios de alta-tensão e tubulações de gás. Na mesma matéria que tem a entrevista com o deputado que postei anteriormente, um engenheiro eletricista defende que não existe perigo com nenhum deles que não exista também em muitos outros lugares das cidades (quem tiver o texto, me passe).

 

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6 respostas para A polêmica da ciclovia

  1. Melissa continuamos expostos aos embates políticos destes senhores que em nenhum momento, nenhum deles esta preocupado com nenhum de nos.

    Deu para entender?

    Esta forma de uns e de outros, de fazer política simplesmente me enoja e deixa um rescaldo de insegurança na população que escolhe eles, imenso.

    Chegam as eleições e volta a promessa de que outros serão diferentes, e nada, continuamos expostos aos embates descompromissados e inconseqüentes.

    Os Engenheiros ficam ainda num chove não molha, do tamanho de um bonde.

    Analisa a construção das frases,

    “…se trata de uma instalação antiga, de 40 anos, que nunca deu problema, mas nunca se sabe..”

    deu para entender a maldade se der merda eles podem dizer que avisaram e se não der estão de qualquer forma cobertos.

    Eu o ilustre “João ninguém” se atreve a dizer que não é a mesma coisa cair na rua um fio de alta tensão e um cabo transmissor destes.

    Os perigos são infinitamente maiores. E se agregarem que se cair, será num momento em que tenha um temporal e certamente as ruas estarão molhadas.

    E agora nos perguntamos, todos nos, os infelizes usuários dos serviços públicos, de que estão falando? que pode acontecer? falem claramente e deixem de encher lingüiça.

    Parem com a enrolação e mostrem as armas senhores, levantem os ponchos e sejam francos.

    Melissa, entendemos todos tua desilusão mas estes senhores são todos uns piores que os outros, então não podemos confiar em ninguém.

    Esta é a minha sensação. Lamento muito mesmo, mas eles conseguiram em aumentar o grupo descrente total, do que eles falam. Muitos de nos não acreditamos mais em nada vindo destes senhores.

    Saúde . José Antonio R.Martinez

  2. airesbecker disse:

    Teve um economista que ganhou o premio Nóbel por descobrir que não existe almoço grátis:
    -“There is not such a thing as a free lunch”
    Os nosso políticos aqui traduzem como: “Não há nada tão bom como um almoço grátis”.
    É que para eles é sim grátis, quem paga sempre somos nós.
    O prefeito está feliz da vida que está ganhando a ciclovia nova do Zaffari.
    O secretário de Estado não ficou feliz com o barquinho do Guaíba, que ele levou dois anos para autorizar a navegar, pois já estavam comprados os barcos desde 2009, esperando pela burrocracia, que emperrou o que pôde.
    Assim os dois faturam politicamente sem quererem qualquer compromisso.
    Eles estão acostumados é com o almoço grátis.
    Vivem de imposto, de dinheiro extorquido do povo e se alimentam ideologicamente de demagogia.

  3. Aldo disse:

    Acho que devemos debater o assunto sem levar para o lado da polêmica. Aliás, o assunto eletricidade e seus correlatos como raios ou campos eletromagnéticos suscitam reações primitivas nas pessoas. E são diversas: fascínio, medo, misticismo, excitação, etc. Então é muito fácil nos perdermos quando falamos sobre eles.

    Existem problemas prosaicos nesta solução de ciclovia, e não apenas espetaculares com ciclistas eletrocutados, com leucemia ou incinerados.

    A ciclovia naquele local terá que conviver com diversas limitações: dificuldade para instalar postes de iluminação; possibilidade de ter o tráfego interrompido para manutenção das redes elétricas ou de gás; necessidade de instalar cercas protetoras que não sejam metálicas, encarecendo a obra; necessidade de haver supervisão de engenheiros ou técnicos em eletricidade em qualquer intervenção na ciclovia, aumentando custos de manutenção; virtual impossibilidade de ampliação da sua largura; aumento do risco de morte devido a descargas atmosféricas (por precisar passar às vezes muito próximo de postes altos); risco considerável de queda nas pontes (que farão parte do trajeto) por causa dos guarda-corpos muito baixos, etc.

    O que se deve perguntar sempre é se haveria alguma forma de reduzir ou eliminar estes problemas sem causar outros ainda maiores.

    Esta ciclovia deverá trazer benefícios muito grandes também. Mas será que não se pode ter estes mesmos benefícios com menos riscos ou inconveniências? Para mim, é isto que deve ser questionado.

  4. Beto Flach disse:

    Ontem (04/11), teve um debate no Programa Polêmica sobre o assunto. Como sempre, com os sujeitos que participaram, o resultado foi puro lero-lero daqui, blá-blá-blá de lá, tendo que ouvir um monte de bobagem de pessoas não tem a menor noção sobre como é andar de bicicleta na cidade e muito menos na Ipiranga – não venham me dizer que sabe o que é andar de bicicleta em Porto Alegre quem sai num domingo de sol, do Menino Deus pra ir à Redenção, ou quem parte do Bela Vista pra ir ao Parcão… façam-me o favor!

    Quem sabe as coisas poderiam ser melhor esclarecidas com um debate sério e técnico, entre profissionais da física, da engenharia elétrica, da engenharia de trânsito, etc, sem secretários, deputados, assessores, etc., que nunca se vê usarem uma bicicleta a não ser diante das câmeras de tv em alguma data improvável do ano.

  5. Aldo M. disse:

    Esses editoriais (por sinal, apócrifos) do tabloide dos Sirotsky são particularmente muito ruins porque compõe-se basicamente de frases sem qualquer comprovação que são apresentadas como verdades absolutas. Não dá nem para chamar de opinião: é apenas “achismo” de quem contribuiria bem mais para o debate se ficasse quieto. Na minha opinião eles confundem escancaradamente o fato de serem donos do jornal com a ideia estapafúrdia de serem donos da verdade.

    Por outro lado, a página 41 da edição de 4/11/11 do mesmo tabloide traz uma reportagem (infelizmente, também apócrifa) que interessa muito a causa do ciclismo urbano: o rombo de R$ 8 bilhões anuais que os motoristas impõe ao INSS pelo pagamento de pensões às vítimas de trânsito ou de seus familiares.

    E isto é apenas uma pequena parte do imenso prejuízo que a indústria do automóvel socializa a todos os cidadãos, sejam ou não motoristas.

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