Qual ciclovia? Elétrica? – Mais uma vez Prefeitura prefere arriscar vida de ciclistas a retirar espaço de automóveis.

Publico aqui, na íntegra, texto de nosso amigo Marcelo Sgarbossa, originalmente publicado no blog RS Urgente. Mais uma vez fica demonstrado que Fortunati e sua turma de carrólatras preferem colocar a vida dos ciclistas em risco do que remover espaço dos automóveis.

Marcelo Sgarbossa (*)

O alerta público levantado pelo Secretário Estadual de Infraestrutura e Logístia Beto Albuquerque sobre os riscos aos ciclistas que utilizarem a futura ciclovia da Av. Ipiranga – em razão da rede elétrica de alta tensão e do gasoduto subterrâneo – levanta um debate central para o futuro da capital, e que vai muito além da questão de obrigar o município a assumir a responsabilidade pelos riscos aos ciclistas. Trata-se da concepção de ciclovia que Porto Alegre pretende implementar.

A perda de qualidade de vida na capital nos últimos anos é notória: além da poluição, a quantidade de horas perdidas dentro dos automóveis em razão dos congestionamentos tem aumentado o estresse da população e diminuído o tempo de convívio com nossas famílias. O automóvel é uma espécie de “caixa” que isola o motorista do contato real com a cidade e com as outras pessoas.

Podemos inverter esta lógica. Na Holanda, 30% das pessoas se locomovem de bici. Sorocaba “ciclou” a cidade inteira. Em Sapiranga, os congestionamentos são das bicicletas. Alguém tem uma forma melhor de tirar uma população do sedentarismo? Será que não é por aí – o investimento em prevenção – que reduziremos as filas dos hospitais e aumentaremos a qualidade de vida da população?

Desde o atropelamento coletivo na Cidade Baixa, notícia que circulou os quatro cantos do planeta, incrivelmente a quantidade de ciclistas se locomovendo pelas ruas de Porto Alegre aumentou. E nem isso foi capaz de sensibilizar os gestores municipais.

A política implementada pela atual gestão municipal é o típico caso do gestor mais preocupado em “jogar para a torcida”, o que revela a cultura do “carrocentrismo” dos habitantes do Paço Municipal. Com efeito, a ciclovia da Ipiranga está sendo construída sobre o canteiro, pois ali não vai “atrapalhar o trânsito”. A próxima ciclovia nos planos dos gestores municipais e a da Av. Sertório, provavelmente por ser larga suficiente para, de novo, não atrapalhar o transito… O Plano Diretor Cicloviário Integrado – Lei Complementar Municipal 626/2009 – que prevê a destinação de 20% das multas de trânsito para construção de ciclovias nunca foi cumprido. Enquanto isso, o Prefeito vibra com os estacionamentos subterrâneos que serão construídos e acredita que duplicar algumas ruas vai resolver os problemas – às custas, por exemplo, de cortar o Parque Marinha do Brasil ao meio. Definitivamente, estamos na contramão da história e das soluções inteligentes para as grandes cidades.

(*) Ciclista urbano e Diretor do Laboratório de Políticas Públicas e Sociais – Lappus. Mestre em Análise de Políticas Públicas – Universidade de Turim

Foto: Ricardo Giusti/PMPA

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19 respostas para Qual ciclovia? Elétrica? – Mais uma vez Prefeitura prefere arriscar vida de ciclistas a retirar espaço de automóveis.

  1. julio disse:

    Não dá pra se ter uma iniciativa boa que lá vem alguém querendo jogar um balde de água fria…é isso que o Beto Albuquerque quer. Tubulações de gás e rede elétrica estão espalhadas por TODA a cidade!!! Quando penso que a cidade dará um passo a frente, vem alguém querendo dar dois passos para trás…

  2. airesbecker disse:

    Eu acho que os engenheiros da CEEE estão preocupados com os postes e com a manutenção da rede que deve ser criteriosa.
    E estão atacando a ciclovia para não terem que se preocupar com a rede.
    A fala do Beto Albuquerque é bem clara em suas entrelinha para dizer que ele não quer é assumir a responsabilidade pela construção da ciclovia.
    Os argumentos dele contra a ciclovia não são técnicos, usa a expressão em analogia: “campo minado” e diz que não deixaria o seu filho pedalar alí.
    Ele só não diz quem coloca as minas no caminho do ciclismo e onde ele deixaria o filho andar de bicicleta.
    Acho que a prefeitura sim é tímida e carrocentrada.
    Mas este Beto Albuquerque é um aproveitador que quer faturar detonando o trabalho dos outros e prejudicando o ciclismo.

    • favoviscardi disse:

      Eu não conheço tão bem o Beto Albuquerque mas era amigo do filho dele que faleceu e sei que quando ele fala sobre o cuidado que tem com os filhos não tá fazendo politicagem. Acho que pensarmos nessa discussão como OU politicagem OU perigo terrível por parte da rede de alta tensão e tubulação de gás é extremismo que não nos dá tempo de pensar e debater a questão.
      Pode ter alguma coisa a ver com questões políticas? Claro que pode. Tem complicações causadas pela alta tensão, rompimento de cabos em tempestades, vazamentos de gás? Pode ter sim e quem tem que nos dizer isso são os técnicos e não a especulação.
      Eu também acho muito difícil a prefeitura fazer uma ciclovia sobre uma das atuais pistas de carros, que no momento fica difícil pressionar o poder público para uma mudança de lógica (ao invés da mudança de slogan, o que não é a mesma coisa). Talvez o dia que realmente possamos comemorar será o dia que sair uma ciclovia/ciclofaixa sobre onde antes passavam carros…
      O que eu quero defender com isso é que a gente siga podendo debater esse assunto sem jogar no ventilador tão rápido. Eu não sou especialista em leucemia nem físico nem nada mas preferia pedalar sem ser embaixo de cabos de altíssima tensão ou sobre tubulação de gás, mas fazer o que né, a lógica é a do “e nem com caminhões e carros e ônibus tentando me dar totó” então nem parece tão ruim andar ali. Lá no Rio de Janeiro, não sei se por problemas de manutenção ou de construção já teve bueiro explodindo por conta de problemas em tubulação de gás e matando turista (whatafuck!). Aqui em Porto Alegre recém tão construindo tubulações, tomara que isso não aconteça por aqui também e tomara que a gente continue atrás de mais mais e mais espaço pra bicicleta.
      Boa noite pepessoal

  3. Júlio disse:

    Olha, se o argumento é evitar a circulação de pessoas embaixo da rede de ALTA TENSÃO, teriam que cercar todo o dilúvio e impedir que os pedestres transitassem por ali…risco para uns, risco para outros…na minha opinião, essa polêmica não passa de briga política…nada além disso…e, sinceramente, se a condição para a ciclovia sair for a retirada dos postes ou a “cedência” de uma das pistas da já congestionada avenida Ipiranga, podemos esperar sentados…

    • Marcelo disse:

      Sob o meu ponto de vista tem uma diferença bem grande entre tu atravessar a Ipiranga a pé, ficando apenas alguns segundos diretamente abaixo dos fios, de ficar meia hora pedalando embaixo deles, a exposição é muito maior.

    • Aldo disse:

      Mas de que pista estás falando, Júlio? Há uma pista para estacionamento ao longo de quase todo Ipiranga. Por não tiram esta?

      • Júlio disse:

        Desculpa, Aldo. Mas não levo nenhuma fé de que “cederão” uma pista da Ipiranga para a construção de uma cliclovia. Se já estão fazendo uma “gritaria” porque a construção da atual ciclovia está atrapalhando o trânsito, imagina se a prefeitura anunciar que uma das faixas da avenida servirá aos ciclistas. Vejo isso como uma possibilidade bem remota, ou melhor, impossível…desculpa, mas quando se tratá de poder público, sou muito cético…

        E Marcelo, o que tu achas que deveria ser feito? O que a prefeitura poderia fazer com essa rede de alta tensão? Acredito que se ela está ali, é porque é necessária…

      • Marcelo disse:

        Julio, eu acho que tem que se discutir a questão com pessoas que tenham conhecimento:
        – Os postes representam mesmo um perigo à população? Qual o risco de um cabo romper? Qual a distância e tempo de exposição dos fios de alta tensão que é segura?
        – É possível enterrar os cabos ou movê-los para outro lugar?
        – É possível construir a ciclovia em outro lugar, como numa das pistas da av. Ipiranga?

        Acho que precisamos de uma discussão séria e não de obras politiqueiras que só possuem fins eleitoreiros sem pensar a grande prazo, senão periga terminarem a ciclovia e ela acabar sendo interditada por apresentar riscos aos seus usuários.

      • Aldo disse:

        Também sou cético, Júlio. Mas estou chamando a atenção para algo que poucos percebem: a Ipiranga está tão ociosa na visão da própria Prefeitura que ela permite que uma pista em cada sentido seja usado como estacionamento. E quando os políticos disserem que no leito da Av. Ipiranga não há espaço para uma ciclovia, temos o dever cívico de, no mínimo, desmascará-los.

  4. Acho então que se estes postes são mesmo assim tão perigosos devem ser retirados, independentemente do ciclismo, pois tem pessoas que moram permanentemente em prédios ao longo desta via, expostos a este magnetismo que causa leucemia.

    Eu certamene vou me sentir me seguro indo por alí do que no tráfego junto com os carros.
    Mas e quem mora nesta rua, que tem janela dando direto para estes fios.

    Ora, é o próprio secretário que está admitindo que estes fios são muito perigosos.
    Como ele disse: esta rua é um campo minado!!!

  5. Aldo disse:

    Para começar, esses postes são horríveis e só isso já é motivo para pensar em retirá-los em algum momento. Mas, para isso, a Prefeitura precisa pressionar a CEEE a fazer uma rede subterrânea.
    Só porque a alternativa de pedalar sob fios de alta-tensão seja pretensamente mais segura que no meio dos carros, não é motivo para eu me conformar com esta solução esdrúxula que estão nos enfiando goela abaixo.
    Proponho esperar a conclusão do primeiro trecho para que todos possam ver o que vai sair e mandar fotos para ciclistas de outras partes do mundo. Decerto vão imaginar que, com os motoristas daqui, os ciclistas agora irão voar para dentro de um riacho. Quando eu viajar, vou dizer que sou de Sapiranga. Pega melhor.

  6. Marcelo, parabéns tu estas trazendo a tona uma discussão que parece sim ser técnica. Logicamente hoje, como se diz na minha terra “….corro com o cavalo do comissário…” ou seja, estou em vantagem porque li os pareceres técnicos na Zero Hora. Acredito que sim correremos muito risco até porque um dos argumentos está escrito hoje no jornal, “…esta obra de mais de 40 anos nunca deu problema, mas pode dar…” que tal, já tem 40 anos a instalação desta rede, quer dizer pode dar problema e quanto mais velha mais pode dar problema. Entenda bem, problema, ou seja por exemplo cair um deste condutores e eletrocutar todo a sua volta em um raio bem extenso. Tanto assim que pedem que os “guard rails” sejam de fibra e não de metal; ou seja, podem cair os cabos de ata tensão. Não se trata de baixa tensão nem de alta tensão de rua são cabos condutores bem potentes.
    Eu uso a Ipiranga todos os dias e para mi seria bem interessante esta obra mas considerando o que foi aventado continuarei a transitar por onde eu transito, esqueçam de mi na Ipiranga numa faixa abaixo destes condutores elétricos.
    Se alguém quer colocar em julgamento o Beto Albuquerque se ele é político ou não, acho muito, mas muito ruim porque do outro lado tem uma turma que já demonstrou a que vieram.
    Eles têm demonstrado, nas reuniões e nas atitudes, que não são sérios, porque pessoas sérias prometem e tomam atitudes e eles têm feito o possível para emperrar toda e qualquer obra de ciclismo, paga pela prefeitura até com verba garantida em lei para isto. Desculpem mas politicamente não confio muito mais na turma da Prefeitura. Lamento.
    Mas caro Marcelo parabéns com certeza nossa luta continua e tem muitos outros caminhos na Ipiranga, para os ciclistas, pena que não tenhamos técnicos nos, para os apontar. Salvo melhor opinião. Saúde José Antonio R.Martinez

    • airesbecker disse:

      Este Beto Albuquerque é secretário de infraestrutura do governo do estado.
      O que ele tem a oferecer??
      Tem alguma proposta de ciclovia??
      Não!!
      Ele só está contra o que está sendo feito.
      Ele quer é impedir a ciclovia que está sendo feita, não está oferecendo nada em troca, não entendo por que alguem possa estar apoiando ele aqui??
      Só se for por cabresto da sigla!!

  7. Melissa disse:

    Eu não sei o que falar sobre isso, não entendo nada sobre fios de alta tensão e tubulações de gás. Apenas sempre defenderei que essa ciclovia devia ser na pista, e espero que com o aumento do uso da bicicleta, isso aconteça um dia, e que a antiga ciclovia vire um passeio ou algo do tipo.

    • Aldo disse:

      Gostei da tua forma prática de encarar esta questão.

    • Júlio disse:

      Melissa, sou favorável a construção da ciclovia do jeito que está, mesmo com todos os problemas já debatidos por aqui: a localização não é das melhores (fica ao lado do maior esgoto a céu aberto de Poa), o ciclista terá que fazer zigue-zagues no trajeto, ficará abaixo de cabos de alta tensão (que até agora ninguém falou sobre os reais prejuízos disso…sei que antenas de celulares são, comprovadamente, maléficas às pessoas), etc…

      Mas acredito que este primeiro grande incentivo ao transporte alternativo vai abrir caminho para outras propostas que, com o tempo, podem ser aperfeiçoadas com base nas já existentes. Prevejo muita gente utilizando a ciclovia na Ipiranga tão logo ela esteja concluída, o que irá incentivar outras pessoas a adotarem a bicicleta como meio de transporte e surpreenderá os nossos “representantes”. Arrisco a dizer que utilizar a bicicleta como meio de transporte se tornará “moda” em pouco tempo.

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