“Uma alternativa à Massa Crítica” (traduzido de Copenhagenize.com)

Recentemente, @bikedrops tuitou sobre um post do site Copenhagenize.com. Trata-se de um artigo onde o autor reflete sobre a eficácia da Massa Crítica em obter um de seus principais objetivos: fazer com que mais pessoas deixem o carro e passem a pedalar. Obviamente, as opiniões são pessoais do autor, somente encurtei uma parte e traduzi o mais fielmente que pude.

Segue o texto

Fonte: http://www.copenhagenize.com/2007/11/critical-miss-or-critical-mass.html

====================================

“(…)

Conheçam nosso protagonista: o Sr. Motorista. Ele dirige de casa para o trabalho e vice-versa todos os dias, como sempre fez. Ouvindo à mesma estação de rádio. O mesmo caminho, com pequenas variações. Isso é o que ele faz.

Ele é um cidadão mediano em uma sociedade carrocêntrica. Como a vasta maioria, ele não é um ativista, e nunca, jamais será.

O Sr. Motorista olha pela janela do seu carro enquando se desloca pelo trânsito. O que ele pensa quando vê um ciclista inveterado, todo vestido com Lycra, ou um carinha andando em uma fixa super-especializada, passarem zunindo por ele?

O Sr. Motorista, no trânsito matinal, pode pensar “Hmm, eu poderia ir de bicicleta ao trabalho, também…”

Ele não vai, entretanto, se ver refletido naquela imagem. Ele vai ver um membro de uma sub-cultura frequentemente militante. Ele vai ver alguém que ele normalmente rotularia como um “ambientalista” [ou “esportista”, ou “ativista”, ou “alternativo”] – o que não é um rótulo positivo para muitas pessoas. Ele vai ver uma pessoa usando um uniforme não-oficial – O Sr. Motorista não tem nada em seu armário que sequer se pareça com as roupas e equipamentos do ciclista – e ele vai ver uma bicicleta completamente diferente de qualquer bicicleta que ele já tenha possuído.

Ele vai imaginar que, para poder se transportar de bicicleta, ele terá de se infiltrar em uma sub-cultura povoada por indivíduos muito diferentes dele próprio. Ele teria que investir em roupas e equipamentos. E o pior de tudo, o Sr. Motorista se veria “afirmando algo” ao andar de bicicleta.

O Sr. Motorista, como a maioria das pessoas, não quer ser um militante. Ele apenas quer viver sua vida, e não subir em um palanque e se tornar alguém afirmativo e com visibilidade. Ele sabe que o meio-ambiente é um assunto importante. Ele conhece os fatos. Mas ele é apenas um cidadão comum, e sempre será. Ele apenas pensa que andar de bicicleta seria legal, saudável e talvez mais rápido que dirigir. Mas o pensamento é rapidamente deixado de lado.

Quando o Sr. Motorista está preso no trânsito a caminho de casa por causa de algum protesto/demonstração/celebração, ele não vai estar nem um pouco mais perto de começar a pedalar. Ele na verdade vai estar o mais longe do que jamais esteve. O cidadão comum nem sempre tem muito respeito por esse tipo de ativismo. Eu gostaria que ele tivesse, mas ele não tem. Ele apenas vai ficar p*** da cara.
Agora, vamos imaginar o Sr. Motorista sentado no trânsito e olhando pela janela. Ele vê um carinha passar. Pasta amarrada ao bagageiro. Vestindo roupa social. Não voando como se quisesse bater recordes de velocidade, mas apenas pedalando moderadamente. O único equipamento é uma fita presa na perna da calça. Pedalando confortavelmente, sem desafiar o trânsito, apenas fluindo com ele. Preferivelmente (!) em faixas ou vias exclusivas para bicicletas. A bicicleta é parecida com aquela que o Sr. Motorista tem na garagem.

E então o Sr. Motorista vê uma mulher passar por ele. Em uma bela bicicleta estilo “clássico”. Sua maleta está na cestinha, que por sua vez está enfeitada com flores. Ele veste uma saia e sapatos elegantes. Ouvindo seu iPod. Em um ritmo confortável e contínuo.

Então, nós ousamos supor, o Sr. Motorista pensaria: “Eu não me importaria de ir de bicicleta ao trabalho. São apenas alguns quilômetros. Aquele cara se parece comigo. E aquela mulher faz parecer tão fácil…”
O Sr. Motorista iria instantaneamente se ver seu próprio reflexo naqueles ciclistas. Ele perceberia que, para pedalar para o trabalho, ele teria apenas que tirar sua bicicleta da garagem e amarrar a perna da sua calça com uma fita. Em bem menos tempo do que o necessário para ir de carro, ele estaria pronto para pedalar.

Ele não teria de “fazer uma afirmação”. Ele apenas seria mais um ciclista a caminho do trabalho. Ele se mesclaria. Ele sentiria que está fazendo algo bom para si e para o planeta. Sem ter que subir em uma caixa de madeira para isso.

Aqui está o impasse. Todos aqueles que são tão envolvidos em aumentar o número de ciclistas em áreas urbanas entendem como o cidadão médio pensa. Então, ajudem o cidadão comum a participar. Não o excluam salientando as diferenças entre vocês e ele. Nós estamos nisso juntos.

Ativistas são os primeiros a sair às ruas, e é bom que seja assim, mas é o Cidadão Comum e seus amigos que vão acabar salvando o planeta, se tiverem a chance.

E quando o uso de bicicletas aumenta, os acidentes com bicicletas diminuem, e as cidades não terão escolha a não ser investir em infra-estrutura ciclística. Se ela for construída, os usuários aparecerão.

Faça parecer simples, e a jornada em direção a uma cultura ciclística vai ser simples, também.

Esse é o nosso ponto de vista”

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40 respostas para “Uma alternativa à Massa Crítica” (traduzido de Copenhagenize.com)

  1. Eu achei a reflexão bem interessante, concordo em vários pontos. Eu costumo usar roupa ciclista de lycra mas já comecei a tentar parecer menos esportista. Quando a gente se parece muito diferente do cidadão médio, não ativista, passivo, a probabilidade de levar seu pensamento além do esse cara é um maluco, um ambientalista, um esportista é baixíssima. Não ajuda a multiplicar ciclistas. Eu usava o caminho comum dos ciclistas que evitava os bairros mas recentemente, descobri uma rota que passa por dentro de um bairro chique, a Praia do Canto. Lá as ruas são mais largas do que o normal na cidade de Vitória deixando a possibilidade de trafegar sem ter muitos problemas com os carros. Assim apareço mais na frente dos moradores, motorista desse bairro, eles descobrem os ciclistas que evitam andar na calçada. Não andam na contra-mão. Tem iluminação forte na bicicleta a noite. De vez em quando ocupa a pista. Eles podem reparar que atravesso o bairro num tempo parecido com os carros…
    Eu realmente não sou muito apresentável, é meu ponto fraco mas preciso andar 2x24km por dia. A razão principal é que aqui a temperatura é muito alta em Vitória e precisamos nos proteger contra essas altas temperatura e os raios do sol. Eu uso uma roupas especialmente molhada. A evaporação da água faz com estou me sentindo quase na Holanda! Eu precisaria de uma roupa especializada como essa: http://verd.in/dyj9

    Eu acho que a bicicleta elétrica precisa ser normalizada no Brasil e adotar o modelo europeu que corresponde a uma bicicleta híbrida na verdade. Sempre deve pedalar para o motor funcionar, é excelente para a saúde e você não esquenta muito mesmo de baixo do sol capixaba se você estiver bem equipado. A realidade de Vitória não é a mesma do que em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre ou Bogotá. Bogotá por exemplo tem uma temperatura perfeita para andar de bicicleta, eu li, 20 graus ao longo do ano todo!

  2. airesbecker disse:

    1º Infraestrutura adequada.
    2º Ciclismo casual.
    3º Ciclismo lento.
    = Ciclismo para todos!!

    • lobodopampa disse:

      Isso é muito bacana – para quem esse estilo de condução for viável.

      Quem faz trajetos médios/grandes, digamos, entre 10 e 30 km por dia, não pode se dar ao luxo de pedalar lentamente.

      Para que a bicicleta possa competir com o automóvel em trajetos que não sejam bem curtos, é preciso pedalar de forma eficiente e saber conduzir de forma veicular.

      Não há outra maneira.

  3. Felipe Koch disse:

    Achei interessante o artigo. Só acho que uma coisa não exclui a outra.
    O ativismo tem o seu papel.
    Já que foi tocado no ponto, e querendo somar a outras alternativas colocadas neste blog ( como a difusão em massas menores proposta pela Melissa), creio que as Massas poderiam ser temáticas, em sentido político.
    Sei que algumas foram temáticas em um sentido divertido.
    Mas creio que o ativismo se perca aí. E vira mais um passeio ciclistico, como outros que a cidade tem.
    Ativismo tem um sentido político ( ainda que apartidário ), prático e objetivo.
    Talvez deixar mais específico estes objetivos faça a visibilidade ( e o sentido ) aumentar para quem vê a Massa passar.
    Mas, realmente, circular de bicicleta no cotidiano é tão, ou até mais, importante.
    E vantajoso, mesmo egoisticamente.

  4. Eu acho a primeira parte do texto bem valiosa como reflexão também, Helton. 🙂
    E acho que o ativismo é, sim, necessário, principalmente no tocante a fazer pressão sobre um poder estabelecido que tem peso maior num país como o Brasil.
    Mas acho que simplesmente pedalar na sua “roupa” (entendido que roupa não é só a indumentária, mas em seu papel mais comum do dia a dia) estimula que o cidadão adote O EXEMPLO, coisa que governo nenhum em nossa cidade ou país consegue. Ao ver que o exemplo funciona, pq não experimentar?
    Comigo funcionou – mesmo sabendo que a própria Massa Crítica motivou muita gente a pedalar – Meu processo foi assim: cansada de pegar o T3 lotado, lembrei que na Europa muita gente ia de bicicleta ao trabalho. Lembrei também que as coisas não eram tão diferentes entre nós e eles. Tirando uma boa dose de civilidade cotidiana, temos tudo o que eles têm. Comprei uma bicicleta, um capacete e fui pedalar. O exemplo me pareceu eficiente. Mas a Massa Crítica me deu a sensação de irmanamento, de não pedalar sozinha. De ver que muita gente acredita, planeja e experimenta uma realidade “fora da bolha”. No mais, aludindo à primeira parte do texto, tenho repulsa às manifestações agressivas e excludentes que acontecem, por vezes, nas bicicletadas, e tenho nojinho da “brigada da testosterona”. Acho coisa de guri mimado.

    • heltonbiker disse:

      A primeira parte do texto, que a Lívia se refere, e que foi cortada por mim, refere-se a um questionamento, por parte do autor do post, a respeito do tom meio agressivo com que a bicicletada / massa-crítica acontece em vários lugares, levando a um pensamento do tipo “Nós e Eles”, meio que desmerecendo quem não anda de bicicleta, etc.

  5. Olavo Ludwig disse:

    No Verão é maravilhoso camisa de ciclismo, no inverno também, mas ai por baixo da roupa que pode ser normal, aquela bermuda grudada nunca me agradou, gosto de calção de poliamida que é um calção normal na aparência, calça até tenho pedalado de jeans de vez em quando.

    Agora a reclinada eu não vou deixar de usar nunca, ai azar do Sr. Motorista!

    Ah…99,99% dos Srs e Sras motoristas que conheço tem é medo de andar de bici no trânsito, pelo menos é a primeira desculpa, depois vem o suor ( que pra muita gente é uma desculpa até que razoável, eu sei por mim que suo muito, e mesmo quando ando devagar eu suo) mas como a gente tá cansado de saber todas as desculpas tem uma solução, depende da vontade do cidadão.

  6. Marcelo Sgarbossa disse:

    “Governo e feijão, só com pressão”… Esta frase não é minha, mas de uma líder comunitária.

    Vejam: não tem nenhum juízo moral nisso: a capacidade de resolver as demandas que chegam no governo é sempre menor do que sua capacidade para resolvê-las. Qual demanda será atendida primeiro? Aquela que fizer mais pressão…

    Ou seja, para que políticas públicas ocorram, o ativismo tem que existir. Existiriam direitos trabalhistas sem a luta dos sindicatos?

    Digo isso pois, de regra, o poder político é insensível a outra forma comunicação que não a pressão e o contrangimento público.

    E nesse sentido, me parece que nos falta uma “agenda” de mobilização e ações.

    As reuniões na EPTC são importantes, mas já está claro que estamos diante de um problema político (cultura carrocêntrica da atual gestão municipal), e não técnico.

    E se o problema é político, temos que contrapor com política (leia-se, ganhando apoio na sociedade para que os gestores entendam que há outra forma de pensar a cidade).

    – vamos fazer aquela campanha de adesivação dos carros para mostrar que há muitos motoristas que concordam com uma cidade mais humana e com menos carros?
    – vamos fazer a Massa Crítica protestar na frente da Prefeitura, EPTC;
    – vamos protestar na frente da Carris para pedir mais respeito dos motoristas de ônibus (e que eles também sejam respeitados pelas empresas na sua carga horária de trabalho);
    – vamos sensibilizar os jornalistas para entenderem que queremos uma POA melhor;
    – vamos barrar as obras dos estacionamentos subterrâneos?
    – vamos ocupar o Glenio Peres durante a Massa?

    Abraços!

    marcelo sgarbossa

    • Marcelo disse:

      O problema de jogar o jogo político é que gastamos muita energia para influenciar os políticos a fazer o que queremos, quando podíamos estar gastando ela para fazer algo concreto.

      “- vamos fazer aquela campanha de adesivação dos carros para mostrar que há muitos motoristas que concordam com uma cidade mais humana e com menos carros?”

      Demorou! Tem que orçar os adesivos e fazermos uma vaquinha.

      “- vamos fazer a Massa Crítica protestar na frente da Prefeitura, EPTC;”

      Podemos sugerir. Temos que fazer uma sugestão de trajeto e propor lá no dia da próxima massa.

      “- vamos barrar as obras dos estacionamentos subterrâneos?”

      Vamos! Como?

      “- vamos ocupar o Glenio Peres durante a Massa?”

      Temos que ter cuidado para não invadir o espaço do pedestre enquanto ciclistas. Mas também é uma idéia. Poderíamos elaborar um trajeto para a MAssa com várias paradas.

      • favoviscardi disse:

        To dentro dessa vaquinha!
        Quanto à discussão extremamente válida de uma postura ativista ou da postura de criar identificação dos motoristas, acho que os dois valem. Eu me uni à massa pela postura ativista, estava parado em uma sacada e quando vi vocês passarem entendi que queria fazer parte disso, mas concordo que para alcançar o grande público só com outra proposta mais integradora. Infelizmente um encontro das bicicletas universais do reino de deus teria um impacto monstruosamente grande na cidade =/

      • airesbecker disse:

        Os usuários poderão pagar o custo dos adesivos, não precisa ser doação, dá para colocar a venda em vários pontos, como lojas de ciclismo e outros centros de apoio.

      • favoviscardi disse:

        legal, pra quando tão pensando os adesivos?

    • Aldo disse:

      Vamos! Concordo com cada uma das sugestões. Mas talvez os mais puristas não concordem em mudar o formato da Massa Crítica, que é essencialmente um passeio. Mas porque não experimentar?
      A tua frase “ganhando apoio na sociedade para que os gestores entendam que há outra forma de pensar a cidade” resume de forma belíssima qual deve ser o objetivo das nossas ações.

  7. Aldo disse:

    A tradução do texto está excelente, mas omitiu uma parte importante e acabou dando a impressão que o autor é contra o ativismo da forma como é feito na Massa Crítica.
    Na verdade o autor inicia afirmando: “Embora não sejamos ativistas de bandeiras em punho, achamos que o ativismo é fantástico.” E acrescenta: “Apenas sentimos necessidade de bancarmos o advogado do diabo com relação ao Movimento Massa Crítica.”

    • heltonbiker disse:

      Tens razão, a parte omitida faz com que a tradução perca um pouco do contexto. Incluí apenas a parte que tinha a ver com essa reflexão, que acho válida, o que não significa de modo algum que não ache válida a parte inicial do texto.

  8. Marcelo disse:

    Pra mim a Massa Crítica é muito mais do que uma tentativa de divulgar a bicicleta como meio de transporte. É ocupação e transformação do espaço urbano para melhor através da ação direta. É trazer aventura e o imprevisto de volta às nossas vidas. A Massa Crítica uniu uma comunidade de pessoas que têm objetivos em comum e que agora estão unindo suas forças para construir uma cidade e um mundo melhor. E além disso eu não tenho dúvida alguma que, em Porto Alegre, a Massa Crítica está servindo muito bem também a função de divulgar e defender a bicicleta como meio de transporte.

    • Aldo disse:

      Notem que o texto original é de 2007. Até lá, as Massas Críticas americanas, em especial a de Nova Iorque, pareciam estar dando “murro em ponta de faca”. Foi justamente nos últimos quatro anos que Nova Iorque implantou as centenas de ciclofaixas e ciclovias que existem hoje. Talvez agora o autor do texto reconsiderasse algumas de suas sugestões.

  9. Pedro Ayres disse:

    O que eu mais ouço de quem não pedala é que “é perigoso”, e não “eu não quero fazer parte dessa cultura”. É preciso contextualizar as coisas. Em alguns lugares da Europa as ruas são mais estreitas, mais calmas. Nós estamos mais inclinados à cultura norte-americana de avenidas rápidas, e isso assusta muita gente.

    Quanto a quem pedala apenas no dia da massa crítica, acho válido como experimentação. Essa pessoa está começando a sentir as ruas, em um ambiente em que ela se sente acolhida e segura.

    Agora partindo para o relato pessoal: a bicicleta é meu veículo realmente, já tive moto e não tenho mais. Pedalo quase todos os dias, moro longe da área central e frequento muitas avenidas que nem de longe passam pelas discussões da EPTC. Nunca usei roupas de lycra, nem me senti mais ou menos aceito por isso. A questão é respeito, respeito e respeito.

    Abraços.

  10. lobodopampa disse:

    O texto me parece ponderado e muito válido.

    Apenas como contraponto, gostaria de observar que essa página (Copenhagenize) tem como principal paradigma – como o póprio nome já diz – afirmar o modelo urbano e comportamental dinamarquês e exportá-lo para o mundo todo – meio que desconsiderando o tamanho das cidades, o contexto local/social/cultural etc. É uma página útil com muita coisa interessante, mas tbém tem bastante marketing nacionalista, às vezes eles dão uma forçadinha.

    Dito isso, gostei de ver a quantidade de idéias construtivas que surgiu aqui nos comentários, a a partir do estímulo proporcionado pelo texto.

    • heltonbiker disse:

      Em especial, quando o autor do texto menciona um carinha de terno, uma senhora de sapatos elegantes com a bolsa em uma cestinha florida, me parece realmente uma forçação de barra, ou no mínimo uma situação artificialmente colorida e de difícil transposição para nosso país tropical, nem tão rico, e de relevo acidentado.

  11. lobodopampa disse:

    Tem um aspecto da “nossa” MC que eu acho no mínimo esquisito – e até agora nunca tive coragem de expressar, porque… bem, sabe como é.

    Aquele troço de ficar todo mundo deitado no chão.

    A última vez que presenciei isso, ficamos (eu e mais alguns) em pé, meio de lado para não parecer uma “dissidência”, segurando a bicicleta, esperando aquele estranho ritual terminar.

    Perguntei para um vivente que estava perto e que é um habituê da MC assim como eu, como ele entendia aquilo. Ele disse que não entendia.

    Fica a reflexão: se a mensagem é tão codificada que mesmo alguns dos cicloativistas mais engajados não entendem, não sabem qual é a mensagem, qual é a probabilidade do Sr. Motorista entender a msg e sentir alguma vontade de mudar agum conceito/escolha/comportamento?

  12. airesbecker disse:

    Tenho visto muitos ciclistas ultimamente em Porto Alegre, cada dia mais, de quase todos os estilos.
    Digo quase, o que ainda falta:
    – crianças e adolescentes de classe média, principalmente meninas, ainda têm uma parcepção de risco, ou estão superprotegidos pelas famílias, pois não são seguros para andar no trânsito.
    – profissionais de nível superior, ainda não romperam o paradigma de status do carro, com excessão para uns poucos com perfil alternativo.
    – pessoas de meia idade ou idosos, perderam o momento de mudança, alguns usaram a bicicleta a décadas atrás, mas só vão voltar quando for uma cultura dominante.
    Quem mais usa jovens em maioria homens, trabalhadores e estudantes.
    O movimento ativista está correto e o resultado está acontecendo, as ruas estão cada mais presentes com ciclistas em vários estilos.
    Com um mínimo de estrutura definida o público vai certo aumentar muito rapidamente.

  13. Beto Flach disse:

    Que ótimo este debate! Mais algumas ideias em UM parágrafo (pensar é grátis e fácil!): a prefeitura poderia adesivar carros oficiais (educação, saúde, gabinete, etc. – parece que há terceirizados) com adesivos de respeito ao pedestre e ao ciclista (ao invés de respeito à faixa…); o Estado poderia fazer o mesmo; as viaturas da BM poderiam adesivar também (não seria um “tiro no pé”?); as auto-escolas poderiam ser obrigadas pela concessão a adesivar os veículos e fornecer adesivos aos alunos; as concessionárias de pedágio poderiam ser obrigadas a colocar placas nas rodovias e praças e entregar adesivos na semana da bicicleta; as empresas de telecomunicações são obrigadas a veicular campanhas sociais (calhau) – por que não sobre respeito a pedestres e ciclistas (?); Os out-doors, pelo que sei, também são “concedidos” e as empresas poderiam ser obrigados a veicular campanha de trânsito seguro por algum período do ano (sou contrário aos out-doors, mas estão aí…); na BR 116 em Canoas e outros locais há painéis eletrônicos com mensagens bestas como “cidade do futuro” e poderiam colocar algo mais producente como “respeito ao ciclista”; a prefeitura está pensando em investir no embelezamento dos taludes do Esgoto Dilúvio (ao invés de despoluí-lo e recuperar o Arroio…) com grafitagem, e poderiam incluir, então, no mínimo, intercaladamente, mensagens de respeito ao ciclista, 1,5m etc.; sei que não deve existir, mas se algum deputado não tem ideia do que propor em termos de lei, poderia elaborar PL que obrigasse as empresas de cerveja – que sempre incentivam consumo da bebida na transmissão de jogos de futebol – a colocarem em igual tempo de duração alguma mensagem de respeito ao pedestre e ciclista! As igrejas poderiam incluir o tema do respeito aos ciclistas na agenda de temas de relevância social que, eventualmente, abordam; As empresas que exploram os estacionamentos (aeroporto, shoppings, etc.,) poderiam escrever “respeite o ciclista” naqueles braços mecânicos que, enquanto levantam, ficam diante dos olhos atentos dos Srs. Motoristas (haha!). A CEEE poderia colocar uma frase ou slogan nas faturas de luz elétrica; O Banrisul poderia colocar uma mensagem automática de respeito aos ciclistas nos extratos (somente aqueles com saldo $ positivo!!!). Os CFCs poderiam ser obrigados a ter um número “x” de horas com o instrutor e instruinte andando de bici (mesmo na Intercap!) pra ter conotação prática falar do respeito aos ciclistas (no caso dos ônibus, os pretendentes deveriam andar na Ipiranga ou na Loureiro sentido Gasômetro-Ufrgs); O Google poderia colocar “respeite o ciclista” em sua tela de entrada (aliás, as esferas públicas TODAS poderiam colocar algo como popup, no mínimo, na semana da bicicleta, em seus sites oficiais… bem, antes que eu me empolgue e comece a escrever muito, vou parar. Senão este UM parágrafo ficaria muito extenso… um ciclo-abraço.

  14. Meus amigos que troca bonita de conhecimentos e opiniões.
    Eu sinceramente quando estive na Holanda e observei a naturalidade no uso da bicicleta, pensei; será que não estamos criando no Brasil um monstro, com roupas diferentes, bicicletas diferentes, capacetes, etc.? Será que não estamos deixando de pensar no “exemplo a ser seguido?”
    Outros dias, falando com um amigo, ele me comentou, “..realmente eu acho que nunca poderei ir trabalhar de bici, tenho audiências, sou advogado, preciso manter a aparência, e a bicicleta é um meio de transporte mais informal, …para quem não tem uma atividade tão exigente assim…. “
    Que tal?
    Sentiram, o senhor Motorista?
    Se nosso exemplo fosse mais perto do cidadão comum certamente, seriamos algo a ser copiado.
    Entendo inclusive os amigos que se posicionaram contra esta forma de pensar, até porque eu sou um que pedalo, 40 kms por dia e desta forma é difícil dizer: “va devagar, para não suar, usa roupas normais e tenta sempre dar o exemplo”
    Mas dentro de todo ainda acho que da para tentar sair da zona de conforto, que nossa condição de ciclistas nos confere, aquela de poder usar sempre tênis, calças esportivas ou calções, levando sempre na mochila várias camisas ou camisetas, toalha e até sabonete.
    Sei que ficar acomodados, não podemos.
    Nos precisamos, como ativistas, estarmos sempre em mutação.
    Esta é a essência do ativismo.
    Vejam o que estou falando, na minha rua muitos dos meus vizinhos e em particular este amigo que fez o comentário acima, já compraram bicicleta ou tiraram elas das garagens e começaram a usar.
    Quer dizer o meu exemplo está sendo motivador, mas não tanto como para as pessoas irem trabalhar de bicicleta, que é o que todos gostaríamos que acontecesse.
    Eu sinceramente acredito que da para mudar um pouco, deixando um a informalidade de lado e tentando ir alem, dando o exemplo de ir trabalhar e mostrando para o “senhor motorista” que tem sim como ir trabalhar de bicicleta, sem excentricidades.
    Eu acredito que cada dia com mais treinamento, podemos chegar facilmente a não suar e desta forma poderíamos ir trabalhar de forma mais lenta, usando roupas normais, inclusive aquela terrível calça social. Confesso que vou tentar. Vou até ter que colocar guarda barros na minha bicicleta, que não tem.
    Por outro lado hoje saiu um artigo na Zero Hora que acho interessante dar a máxima divulgação: “A sibutramina e os congestionamentos”, por Christine Tessele Nodari Engenheira de transportes e professora do laboratório de sistemas de transportes da Ufrgs, que faz uma referencia muito positiva ao uso da bicicleta para ir trabalhar, de uma forma extremamente normal, que até me chamou a atenção.
    Por favor, olhem que é bem interessante a forma como ela se refere a ir trabalhar, pelo menos uma vez na semana, de bicicleta.Saúde. José Antonio Reimunde Martinez

    • Aldo disse:

      Muito bom o artigo da Eng. Christine Tessele Nodari, Martinez.

      Como contraponto a ele, na página anterior, o editorial do tabloide dos Sirotsky reproduz o discurso dos fabricantes de armas de fogo americanos (NRA) que afirmam que o que mata não é a arma mas a pessoa.

      Os editores conseguem a proeza de enumerar os “elementos formadores das tragédias” no trânsito, segundo eles: velocidade, ingestão de bebida alcoólica por motoristas (quanto rodeio para citar a bebida, que eles tanto anunciam!), desrespeito às regras, imprudência, imperícia e impunidade. Entretanto, convenientemente omitem o único que é comum a todas elas: o automóvel. Este só é citado quando apontam que o que mata é um componente(?) desses veículos: o condutor. Como se o condutor, sem o automóvel, pudesse matar alguém no trânsito.

      Na mesma edição do tabloide, há dezenas de páginas com anúncios de automóveis, o que provavelmente explique o melindre em apontá-lo como causa das tragédias de trânsito.

      • heltonbiker disse:

        Independente de achar ou não o tablóide bom, acho que nesse ponto eles têm razão, com certeza: o que mata é a pessoa. Se todos dirigissem direitinho, não haveria tantos problemas, e nossa história recente mostra que jovens irresponsáveis e narcisísticos, alcoolizados ao volante de carrões, são capazes das piores barbaridades.
        Devemos concordar, porém, que embora o perigo do álcool já esteja muito bem documentado, o perigo do automóvel, perigo esse que de fato existe e é semelhante ao do álcool (aparentemente inofensivo, altera a perspectiva da pessoa, desperta impulsos reprimidos, etc), desse perigo não se fala tanto. Enquanto o álcool e o cigarro têm propagandas proibidas ou muito reguladas, os veículos continuam apostando na vaidade e no narcisismo como MOTIVAÇÃO para a compra exatamente do tipo de veículo que tem maior potencial destrutivo – leia-se carrões cheios de cavalos.

      • Olavo Ludwig disse:

        Quem tem carro tem que saber o que significa “quantidade de movimento = massa x velocidade”. Até andando a 5km/h um carro pode matar!

    • Felipe Koch disse:

      Martinez, muitas vezes suamos por que tentamos manter uma velocidade mínima para acompanhar o ritmo dos demais veículos, uma vez que os motoristas não se adaptam sequer aos limites legais e aos da racionalidade no uso de seus veículos, que dirá aos outros agentes do trânsito: ciclistas e pedestres.
      Avenidas em pleno centro da cidade com velocidade de 60km/h, nenhuma ficalização quanto o respeito ao pedestre e ao cilclista, ausência de zonas 30 e nenhuma educação cicloviária fazem de pedalar uma aventura, e é nesse ritmo louco que pedalamos para nossos compromissos.
      Ou quando temos congestionamentos temos que andar no ritmo de tartaruga dos carros, pois além do completo descaso da prefeitura na implantação de malha cicloviária, a maioria dos motoristas é incapaz de ceder um metro de pista.
      Ficam aguardando uma brecha para avançar 20cm inúteis. É tragicômico.

      • heltonbiker disse:

        Recentemente passei a ir trabalhar, de vez em quando, em uma bicicleta mais leve, mais veloz e com guidão mais estreito. Meu estresse com o trânsito diminuiu muito, pois passo sempre voando, até mais que os motoqueiros, e não há engarrafamento que eu não passe com o guidão estreito.
        Entretanto, se pedalar já é uma aventura em nossa cidade, voar desse jeito é praticamente pedir pra se matar. Isso não é vida pra ninguém, e ninguém deveria ter que preferir substituir um risco pelo outro, como tenho feito.
        No meu entender, somente a malha viária vai tornar possível a bicicleta como um meio de transporte realmente democrático (viável para todos independentemente de preparo físico, disposição para micro-conflitos por espaço, e tolerância ao risco).

      • Aldo disse:

        Cansa também ter que toda hora parar a bicicleta porque os carros param de qualquer jeito e muitas vezes não deixam espaço nem para uma bicicleta com guidão estreito como a da minha dobrável. E esse para-e-arranca no meio dos congestionamentos é algo insano para um ciclista. Um projeto cicloviário minimamente decente deve evitar que isto aconteça. Mas aqui em Porto Alegre, a Prefeitura não cogita sequer fazer simples ciclofaixas para possibilitar um mínimo de fluidez para o tráfego de bicicletas.

        Falando nisso, o Marcelo Sgarbossa foi citado no encarte do Menino Deus do tabloide dos Sirotsky por defender uma ciclofaixa na Getúlio Vargas. Também defendo, e por mim pode até manter a maior parte dos estacionamentos de automóveis. Só demarquem 1,5m para os ciclistas que está resolvido.

  15. airesbecker disse:

    Incrível, que de todos os projetos cicloviários de Porto Alegre, dentro dos tais 40Km que para um ano por vir estão planejados, não se retira 10cm (dez centimetros) das vias rodoviárias automotivas, nem onde sobra largura, pois facilmente se vê nas ruas que em várias vias há espaço disponível para ciclofaixas. É a grande mentira da prioridade múltipla, de que todos os modais são prioritários, no discurso do prefeito, na verdade óbvia a prioridade é o automóvel, em segundo os ônibus, em terceiro o metrô (que ainda nem existe). O ciclismo está relegado a espaços ociosos e alternativos, a barranca da Ipiranga, a beira do Rio, o muro do Aeroporto na Sertório, a Restinga onde não havia calçada. Quero ver um político com glândulas, pode ser até ovários para não ser machista, de coragem para tirar 1,5 metro de rua ou algumas vagas de estacionamento públicas que o governo empresta de graças para uso privado e espalhar as ciclovias por todos os bairros da cidade.

  16. Tulio disse:

    Gostei muito do tema, por apresentar um ponto de vista realista e desvenciliado de sectarismos. Eu pedalo desde os 5 anos de idade (39 na cara…), praticamente diariamente. seja por esporte (mais raramente hje em dia), seja por deslocamento – e, no entanto, repudio qualquer tipo de “ativismo’ em torno da bicicleta, pelos motivos que o autor do artigo muito bem expôs. Ou os cidadãos usuários de bicicletas começam a se demonstrar pessoas “ordinárias” (no sentido contrário de se demonstrar “especial” ou diferente…), ou qualquer esforço deste “ativismo’ será em vão.

    abr

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