Ciclovias sobre a calçada

Eu já ouvi pessoalmente o diretor-presidente da EPTC, Vanderlei Cappellari, defender as ciclovias em cima da calçada em Porto Alegre alegando que na Europa muitas são assim. E é verdade que muitas ciclovias européias são sobre a calçada, mas será que estamos seguindo esse mesmo modelo, ou nem isso?

Imagens valem mais do que mil palavras:

Ciclovias sobre a calçada: uma na Alemanha e outra em Porto Alegre. Nossa, que parecidos...

Olha, não vou nem comentar sobre o capricho e o acabamento desse asfalto, nem sobre quanto dinheiro isso tirou dos nossos bolsos (todos já sabem).

Deixo claro que sou contra ciclovias sobre a calçada em Porto Alegre, pois a maioria já é estreita e a prefeitura faz pouco caso delas, dando a desculpa que o proprietário é o responsável. Fazer ciclovia no mesmo espaço do pedestre nessa cidade é no mínimo um desaforo, uma cara-de-pau, é achar que o portoalegrense é tapado o suficiente pra achar legal. Como disse um comentarista desse blog, é também achar que o ciclista é um “pedestre que caminha sentado”.

O Código de Trânsito Brasileiro diz que o ciclista deve circular pela mesma pista que os automóveis, salvo quando há uma ciclovia (Art.58). Então a prefeitura de Porto Alegre decide fazer “ciclovias” no mesmo espaço que o pedestre, obrigando o ciclista a parar de andar na pista, e assim os motoristas não precisam mais dividir a pista com aquele que segundo a lei tem a preferência. Percebem a malandragem?

É sobre a calçada, mas ao menos tem decência estética, sinalização e garante o espaço exclusivo do pedestre.

 

Nem tudo que se faz na Europa é legal. As ciclovias no mesmo nível da calçada que existem por lá, algumas se enquadram no termo “ciclocoisa”, mas muitas são melhores, como a da foto ao lado. Porém, nunca vi uma tão feia e descaracterizada quanto a nossa mais nova “ciclocoisa” de Porto Alegre. Além de ser sobre a calçada, o que mais indigna é que nem ao menos tem um acabamento, uma pintura que separe o lado do ciclista e o lado do pedestre, aquele vermelho que caracteriza o espaço do ciclista, nada, nada. Eu gostaria de entender melhor o que aconteceu durante a implementação, pois sei que a equipe técnica faz o melhor dentro do possível, dentro do que a chefia os permitem. Mas uma coisa é certa e não existe desculpa: o resultado dessa “ciclocoisa” é puro desleixo.

 

 

 

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15 respostas para Ciclovias sobre a calçada

  1. Deviam pintar toda a faixa da direita de ambos os sentidos da Ipiranga como ciclovia. Se isso acontecesse, muitas pessoas largariam de mão suas mini-fábricas de poluição para passar a usar a bike.

    • Aldo disse:

      Não há como, Matheus. Em quase toda a Ipiranga, esta faixa é reservada para estacionamento de automóveis. Preste atenção nas placas: “proibido estacionar das 16h às 20h”. Então é permitido estacionar 20h por dia! Ou seja, é bem mais permitido que proibido.
      Só se os carros estacionassem no canteiro. Mas iria ficar perigoso para os motoristas, que teriam que atravessar a avenida ou mesmo poderiam cair no riacho.

  2. Lembrando da França, eu acho que vi poucas ciclovias nas calçadas. Talvez só de vez em quando mais eu acredito que a calçada tinha sido aumentada para incluir a ciclovia. Tem que falar a verdade não era perfeito.
    Aqui na Grande Vitória, eles inventeram algo pior, o pedestre junto com a ciclovia, além disso a ciclovia tem tinta lisa para ter certeza que os ciclistas caem em caso de chuva e pouco a pouco abandonam a bicicleta. Eu, por exemplo, caí e fiquei com o joelho ruim!
    Voltando ao assunto, vai dar muito pedestre na ciclovia vai ser ruim mesmo. Ainda mais se não aumentar o tamanho das calçadas!

    Emmanuel,
    Blog Vitória Sustentável
    http://vitoria-sustentavel.blogspot.com/

  3. lobodopampa disse:

    Nem tudo o que se faz na Europa (ou no chamado 1º mundo, para ampliar ainda mais) é legal, e nem tudo o que fazem lá e que é legal necessariamente nos serve, ou, se serve, é viável/possível.

    Acho muito importante esse ponto. É muito importante, é fundamental, a gente se informar, estudar, ver como “se fazem” as coisas em lugares onde existe maior experiência e conhecimento. Mas isso é só o começo, acho que aí precisamos recriar, encontrar nossas soluções e nossos próprios caminhos. Não é necessário reinventar a roda, mas em cada lugar as rodas rodam de um jeito um pouquinho diferente. Claro que isso não é desculpa para não estudar/se informar.

    Um comentário sobre a 1ª imagem:

    Se fosse em Porto Alegre, e configurada exatamente da mesma maneira que aparece ali, provavelmente o cicista não estaria na ciclovia. E possivelmente alguns pedestres/corredores/passeadores de cachorro estariam.

    Educação é a MAIOR diferença.

    O nosso ponto forte é que somos culturalmente mais flexíveis – mas só é ponto forte se conseguirmos tirar proveito disso (sem prejudicar os outros).

    Pra terminar: o piso da ciclovia não é de asfalto.

    • Melissa disse:

      “Se fosse em Porto Alegre, e configurada exatamente da mesma maneira que aparece ali, provavelmente o cicista não estaria na ciclovia. E possivelmente alguns pedestres/corredores/passeadores de cachorro estariam.”

      É verdade, mas o fato de não terem nem sinalizado essa separação é uma das coisas que deixa essa ciclocoisa pior do que esse exemplo europeu. Deve ser porque, segundo o Cappellari, o ciclista e o pedestre devem compartilhar do mesmo espaço… ou seja, isso não merece o nome ciclovia nem aqui nem na China.

      • lobodopampa disse:

        Sim, é claro. Apenas me referi à diferença fundamental de comportamento, neste momento desconsiderei a comparação com a ciclocoisa que é de fato o assunto principal do post.

  4. Felix disse:

    Qual é o problema de fazer ciclovia nas calçadas? Por que funcionaria na Alemanha mas não aqui? As duas fotos que escolheste comparam maçãs e laranjas. Nem toda calçada na Alemanha é larga, nem toda calçada no Brasil é estreita.

    E o argumento de que logo vai ter gente passeando com seu cachorro, por favor! Tá quase parecendo o motorista de carro xingando o ciclista que tá ali no seu caminho. Pô, tô indo pro trabalho, atrasado, e esse cara aí de bike trancando minha rua! Pô, to eu aí, atrasado indo pro trabalho, e esse aposentado com seu cachorrinho trancando minha ciclovia!

    Ciclista é mais ligeiro que pedestre, mas não quer dizer que pode apostar corrida na ciclovia, nem na ciclofaixa.

    Felix

    • Melissa disse:

      O problema é que em Porto Alegre o pedestre já é desvalorizado e as calçadas já são ruins e estreitas (podem existir algumas exceções), diferente de outros países mais inteligentes em relação ao espaço urbano. E se queremos uma cidade melhor, menos violenta e tudo mais, faz mais sentido utilizar uma faixa da pista só para ciclistas do que diminuir o pouco espaço do pedestre para os mesmos.

      A tua comparação “carro versus bicicleta” e “bicicleta versus pedestre” não faz sentido. Em primeiro lugar porque a pista não é do carro, a bicicleta tem preferência por lei, então o motorista não pode ter essa postura. No caso do pedestre sobre a ciclovia, ele realmente estaria fazendo uma infração, pois uma ciclovia é exclusiva de ciclistas. Mas é claro que no caso da ciclocoisa da Restinga o pedestre não está fazendo nada de errado em estar ali, pois não há um espaço destinado a ele.

      O meu objetivo principal desse post foi mostrar que até uma ciclovia sobre a calçada (ainda que fosse melhor ser na pista) poderia ser algo decente, mas nem isso se prestaram a fazer.

  5. Fernanda disse:

    Eu concordo com o lobodopampa: infelizmente não existe essa cultura em POA, para não dizer coisa pior… Acabei de ler no blog portoimagem sobre as reformas das calçadas em poa… Tão no mesmo nível de mediocricidade… Incrível! Deve ser realmente difícil fazer algo bem feito por aqui… Em Poa, que fique claro, não no Brasil…

  6. Felipe Koch disse:

    Mudando o foco para coisas boas: a prova de que com vontade de ir para uma direção a criatividade humana não tem limites. Ônibus escolar para levar suas crianças:

  7. Felipe Koch disse:

    Chuva, vento, frio, posição incômoda, desequilibrio, subidas, vício em carros.
    Todos os obstáculos superados por este aqui:

    http://faircompanies.com/videos/view/velomobile-no-gas-burns-calories-secure-like-a-car/

  8. Régulo Franquine Ferrari disse:

    Melissa, a obra da Restinga não terminou, não foi feito acabamento e nem a pintura. E estou cansado de explicar que na João Antônio da Silveira não tiramos espaço dos pedestres, pois é impossível o único acesso da Restinga ter apenas uma faixa de circulação. O que havia lá não era uma calçada, é um espaço reservado para alargamento viário. Mas pra quem não quer entender, não há explicação suficiente. Ninguém reclama que não tem calçada, reclamam que a ciclovia está sobre a calçada, que os pedestres estão na ciclovia…

    Engraçado que na Europa podem fazer ciclovia com blocos de concreto, aqui na Diário todo mundo só bateu em nós. Depois, os que são contra ciclovias dizem que nós não sabemos fazer e que os ciclistas não gostam das ciclovias.

    • Melissa disse:

      Oi Régulo,

      Sei que ela não terminou, mas ela vai ser finalizada em outubro, não? Não consigo imaginar como nesse pouco tempo conseguiriam fazer ela ficar aceitável.

      Não entendi bem o que argumentaste sobre essa calçada que não é calçada, essa ciclovia que não é bem ciclovia, pois segundo o Cappellari, o pedestre e o ciclista devem dividi-la (e uma ciclovia é um espaço exclusivo pra bicicletas). Se aquilo é um espaço pra alargamento viário, onde é a calçada? Entende que isso está muito confuso? Eu quero entender, mas tá difícil.

      Sei que não podem deixar uma pista apenas para os automóveis nessa avenida, mas certamente dava pra fazer um espaço legal, com divisão da ciclovia e da calçada, sem tirar uma faixa da pista. O exemplo europeu que eu mostrei de blocos de concreto não é ótimo, eu apenas quis mostrar que mesmo sendo feito desse jeito, pode ficar visualmente aceitável e respeitando o espaço do pedestre (que não é o caso daqui).

      Se os ciclistas “não gostam das ciclovias”, deve ser porque estão ruins, e queremos que elas sejam boas, por isso esse envolvimento todo. É por desejar uma cidade melhor, querer que as ruas sejam menos violentas, eu não ganho um centavo com isso. Não leve pro lado pessoal, mas eu não posso aplaudir uma obra dessas. Visite outros blogs com notícias de Porto Alegre, que nem são de ciclistas, e olhe os comentários das pessoas: http://portoimagem.wordpress.com/2011/09/05/%E2%80%9Cciclovia-da-restinga-esta-mais-para-calcadovia%E2%80%9D-critica-vereador/ Pelo jeito, não é só quem anda de bicicleta que não gostou.

      De qualquer forma, isso é um assunto que tá ganhando cada vez mais força (não só) em Porto Alegre, e cada vez mais gente quer infraestrutura para bicicletas. Como isso é novo onde vivemos, é inevitável que vai haver desentendimentos. Falta mais comunicação entre a prefeitura e a população.

      Eu sugiro que criem um espaço de informações sobre o Plano Cicloviário, pode ser um site, blog, o que seja na internet que seja atualizado. Ali pode conter o que está acontecendo atualmente, que obras estão sendo feitas, que projetos estão sendo desenvolvidos, o porque de tal obra ser assim, etc. A comunicação é a chave para as coisas darem certo, e hoje se pode fazer isso de uma forma muito simples e de graça. Um exemplo: http://mejorenbici.buenosaires.gob.ar/

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