O caso da esquina problemática – epílogo

O colega Aires Becker, em comentário ao meu post anterior, escreveu coisas tão pertinentes que me senti obrigado a fazer um novo (e, imagino, último) post sobre esse assunto, a fim de estimular a reflexão mais global sobre o tema. Segue transcrição direta do que ele escreveu:

“Esta modificação provavelmente foi relacionada com a abertura do trecho unindo o fluxo da Quintino Bocaiuva com a Vicente da Fontoura a partir da esquina com a Casimiro de Abreu.
Eu observo que estas cercas são relativamente raras no resto da cidade mas estão frequentes alí em três quadras da Protásio Alves, desta esquina em direção ao centro.
Temos no caso certamente um antagonismo ideológico bem complexo, onde se coloca a prioridade da circulação dos automóveis e a segurança dos pedestres.
Temos que os pedestres em nosso tráfego não são puníveis com um sistem de multas como os motoristas e o comportamento deles é restrito pela educação no respeito aos sinais de trânsito e pela noção de risco, quando estes elementos falham os pedestres se colocam em situações de perigo.
São comuns os casos de atropelamentos de pedestres que entram em momentos e locais inadequados, como faixas rápidas e cruzamentos perigosos.
Há uma idéia de que a circulação dos carros deve ser comprometida para a circulação dos pedestres mas sempre, mesmo assim, de qualquer forma é preciso ainda, que seja cuidada a segurança dos pedestres, aí é o ponto, se estas cercas estão sendo desrespeitadas e estão colocando os pedestres em risco então elas estão inadequadas.
E ai qual a solução para que não haja perigo de vida?
A medida vacún do brete não pode ser complementada com relhos e guizos, talvez dando choques elétricos nos pedestres eles iriam para o lado correto!!!
Certamente que a colocação destas cercas deveria levar em conta a existência de uma alternativa fácil de transposição, para que as pessoas não se coloquem presas no meio da faixa de tráfego.
Agora acho que estas questões devem levar em conta o planejamento integral da circulação da cidade, pensando não apenas o tráfego, pois aí fica difícil solucionar, não haverá espaço nem dinheiro suficiente.”

Co-comentários:

  • Foi mencionado que essas cercas são raras em outras partes da cidade, mas abundam ao longo do corredor da Protásio, especificamente no trecho entre a Lucas de Oliveira e a Fernandes Vieira. Me parece que o que caracteriza esse trecho é o alto volume de pedestres em uma avenida super-saturada E que contém um corredor de ônibus. Sempre haverá conflito ali, porque os carros tentarão correr o mais que podem, muito próximos uns dos outros, porque o espaço é escasso. E os pedestres vão continuar atravessando fora da faixa, porque é óbvio nesse caso: quem pega ônibus não tem tempo a perder, senão o ônibus passa e é mais um tempão esperando. E é MUITA GENTE! Eu sei porque passo por ali todos os dias, seja de bici, seja de ônibus, e mesmo de bici é complicado conviver com tanto fluxo de pedestre em tão pouco espaço.
  • Foi mencionado que o pedestre é atropelado quando se põe em situações de perigo em meio a vias de alto fluxo e alta velocidade. Concordo, mas apresento um contraponto: ser pedestre não é perigoso, DIRIGIR é que é perigoso. Quem está de carro tem uma arma na mão. É importante não perder isso de vista, afinal estamos em uma cidade com alta densidade populacional, não na beira da estrada.
  • Foi mencionado que, mesmo que se deva primordialmente a preferência ao pedestre, mesmo assim é importante a infra-estrutura física de segurança. Mas o que nem todos percebem (incluindo engenheiros e técnicos), é que a segurança não é garantida pelo equipamento, mas pelas motivações das pessoas, e nesse sentido, via de regra, as medidas de “suposta segurança” vêm sistematicamente fracassando, tanto do ponto de vista do automóvel, que se vê convidado a correr cada vez mais ao ver seu caminho exclusivo separado do resto do mundo pelas grades (transformação de ruas em vias expressas) quanto do ponto de vista do pedestre, que ignora e despreza, por opção ou necessidade, as ditas grades, continuando a cruzar em local proibido, mas agora com condições de segurança muito piores, como temos sistematicamente visto acontecer nos lugares onde se tenta impor essa segregação.

Não posso deixar de recomendar, ENFATICAMENTE, a leitura do livro Por Que Dirigimos Assim, de Tom Vanderbilt, que fala longamente desses assuntos, e em especial como medidas que aparentemente deveriam aumentar a segurança acabam sendo neutralizados pela alteração da sensação de risco/benefício, tanto do motorista quanto do pedestre.

Mais que isso, o livro trata longamente de um fenômeno que se aplica como uma luva ao caso dos bretes da Protásio Alves: a engenharia de trânsito, como disciplina aplicada, surgiu nos Estados Unidos no pós-guerra como um manual de construção de freeways. Somente há muito pouco tempo é que se começou a considerar a presença de humanos não como ruído ou interferência que deve ser removida, mas como um elemento participante no sistema. Sem dúvida parece haver muitos engenheiros contando o fluxo veicular em seus modelos computadorizados, e dispostos a remover todos os gargalos que se apresentem, sejam faixas ou calçadas, sem considerar que assim convidam explicitamente legiões cada vez maiores de automóveis particulares às ruas, em um círculo vicioso sem fim.

Em oposição a esse Mundo do Trânsito, devemos lutar para que o espaço público das nossas cidades seja regido pelo Mundo das Pessoas, onde o carro é um elemento incidental e não necessariamente bem-vindo (ou no mínimo não incondicionalmente bem-vindo). Onde as regras de circulação são regras que valem para pessoas, que circulam em uma cidade, e que são necessariamente complexas e diversas, ao invés de regras feitas para veículos, que circulam em malhas viárias, regras necessariamente reducionistas e impessoais.

Esse assunto daria muito pano para manga, e fica estranho ficar falando de pedestre em um blog chamado “Vá de Bici”. Mas para mim, que ando de bicicleta, que vejo diretamente o sufoco dos pedestres, e que também sou sufocado por motorizados, importam essas coisas. E além disso, o problema de quem anda de bicicleta não é só um problema de ciclista, ou um problema de bicicleta, é um problema de mobilidade, de uso do espaço público, e principalmente do tipo de cidade que queremos para nós e nossos filhos, dos passos que devemos seguir para que essa cidade exista, e da distância (infelizmente ainda longa) que separa esses passos daqueles que nossas queridas otoridades vêm dando ultimamente.

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11 respostas para O caso da esquina problemática – epílogo

  1. airesbecker disse:

    Tudo bem Helton!
    Sobre a pertinência das coisas que escrevi agradeço o elogio, se não foi ironia, mas acho que fui equilibrado na minha posição, ou ao menos tentei ser.
    Como colocaste o tópico anterior com indagações tentei pensar sobre o assunto.
    Respostas há várias possíveis, dentro das diferenças de concepções podemos imaginar uma série delas, não querendo dizer que sejam corretas: principalmente a tese da irresponsabilidade dos pedestres (?!) e a necessidade de funcionamento eficiente do trânsito da cidade (?!).
    Acho de fato que há um erro de avaliação na implementação destas cercas em que concordo contigo.
    Esta via da Protásio Alves é uma rua absolutamente estrangulada.
    Eu passo por ali de bicicleta freqüentemente e é muito difícil e inseguro.
    Observei hoje melhor e vi que até a Osvaldo Aranha está cheio destas cercas.
    Eu também dirijo e naturalmente também caminho.
    Como tento sempre ser o mais cuidadoso possível observo que está mais difícil e conflituado cada vez a relação do trânsito, mesmo que a maioria das pessoas seja consciente.
    A questão das faixas de segurança próximas a cruzamentos com a campanha da prefeitura para que com um sinal de mão os carros dêem preferência aos pedestres é um problema, pois o pedestre não pode saber com certeza se o carro vai parar, se o motorista está atento e se o outro veículo que vêm atrás também vai parar, o motorista que quer parar para o pedestre também fica inseguro com os outros veículos que vêm atrás.
    Para os ciclistas estas cercas também são muito ruins pois são um obstáculo a mais junto aos carros que não deixam espaço adequado para a bicicleta na via de rodagem.
    Eu sou contra estas cercas.
    Também sou contra que, uma vez existindo a norma pública, as pessoas atravessem as ruas em qualquer lugar, por uma questão de segurança.
    Acho que devemos ter uma instância pública para debater estes temas.
    Nesta linha acho muito bom a abertura que estamos tendo na EPTC para tratar de algumas questões.
    E acho por fim que tens toda a razão em vincular questões de trânsito que envolvem os pedestres além dos ciclistas pois são relacionadas.
    Abraço.

    • heltonbiker disse:

      Não foi ironia, não, pelo contrário. Os meus co-comentários não foram contraponto, foram um desdobramento, um prolongamento dos mesmos pontos que tu colocou. Em especial, acho que é nesses pontos que está a raiz do problema: na filosofia da coisa, e não nos detalhes de implementação de faixas ou grades.

      • airesbecker disse:

        Então obrigado e abraço!
        Sendo que mesmo que fosse ironia o abraço seria igual!!
        Pois temos que ser iguais em nossas diferenças!!
        Temos que marcar um passeio junto com os filhos nas tandens!!
        Em ruas seguras!!!!

  2. airesbecker disse:

    Só para completar:
    Imagina o ciclista que for batido por um veículo automotor junto a uma cerca destas em vez de cair para a calçada ele fica preso e é jogado de volta para a faixa de rodagem onde é atropelado!!

  3. Aldo disse:

    A cada faixa de veículos que o pedestre cruza, ele joga na roleta da vida. E há uma resignação nisso, afinal é preciso se deslocar para sobreviver.

    O vídeo mostra que o pedestre, para fazer a travessia hoje, precisa cruzar 14 faixas de automóveis e ônibus. Antes da remoção deliberada da faixa-de-segurança e implantação dos bretes, ele precisava cruzar apenas quatro.

    Para mim, este é o ponto crucial: ninguém, por motivo algum, tem o direito de dispor assim da vida dos outros. E essa obra, que deve ter melhorado o fluxo dos carros, o fez obrigando os pedestres a rodar mais vezes a roleta da vida a cada vez que forem tomar um ônibus.

  4. Klaus disse:

    Muito bem escrito Aldo, concordo contigo totalmente.

    É fácil demais descobrir diversas alternativas que melhorariam a segurança do pedestre porém os técnicos escolheram o que melhoraria o fluxo dos carros.

    Lamentável que o órgão que era para proteger as pessoas sirva na prática para manter o fluxo dos carros. Lamentável, muita pobreza de espírito em pessoas que deveriam ser nobres.

    • Aldo disse:

      A responsabilidade por essa obra não é só dos técnicos. Há todo um sistema que exige foco no automóvel sem disponibilizar os recursos para tal. Joga-se então o problema todo para os técnicos que precisam garantir seus empregos e portanto evitarão confrontos com os superiores por medo serem vistos como insubordinados. O resultado acaba sendo muitas vezes obras como essa.

      Mas a forma mais simples de quebrar esse ciclo vicioso, infelizmente, é jogar toda a responsabilidade para os pobres técnicos, como está se fazendo neste caso. Eu defendo que seja feito isso através de críticas pertinentes, fornecendo-lhes assim argumentos que eles possam usar junto aos superiores para rever soluções. Ou então simplesmente pressionando-os apontando falhas nas suas soluções para motivá-los a corrigi-las sob pena de terem que responder por elas. Mas sempre com cuidado, porque é triste ver quando técnicos acabam levando a culpa enquanto escapam livres os verdadeiros responsáveis, em geral políticos, lobistas, empreiteiros ou simplesmente seus superiores. Não é preciso dizer, mas estes só assumem a responsabilidade e os louros quando as coisas dão certo, caso em que os verdadeiros protagonistas, os técnicos, quase nunca são citados.

      Por tudo isto, eu atribuo a responsabilidade de qualquer obra sempre ao órgão, empresa ou governo, e não aos técnicos apenas. Sabemos que vai sobrar para eles, então não precisamos ajudar que os demais escapem tão facilmente.

  5. airesbecker disse:

    Estive rapidamente algo sobre o Orçamento Participativo de Porto Alegre.
    Observem que a prioridade é habitação.
    Ou seja a cidade deve ainda crescer mais.
    http://www2.portoalegre.rs.gov.br/op/default.php?p_secao=59
    Sendo que transporte e circulação, assim como mobilidade e acessibilidade, cultura, esporte e lazer; áreas de laser, não tiveram qualquer ponto como prioridade!!!
    Parece que as necessidades de nosso povo estão ainda mais básicas do que pensamos.
    E vejam que em relação à temática de transporte e circulação a prioridade é:
    A) Pavimentação de Estradas
    B) Duplicação e Alargamento de Vias
    C) Programa de Mobilidade e Organização do Espaço Urbano – Abertura de Vias e Rótulas
    D) Qualificação de Terminais e Parada Segura
    E) Segurança Viária
    http://www2.portoalegre.rs.gov.br/op/default.php?p_secao=26

    • heltonbiker disse:

      Olhando por esse ponto, dá pra pensar duas coisas:
      1) Um bom motivo para não perder tempo;
      2) Um bom motivo para, por isso mesmo, participar (para tentar mudar alguma coisa).

      Estou em dúvida se tenho tanta empolgação assim, mas citando um velho ditado, “os padres são mais úteis nos bordéis do que nas igrejas”.

    • Aldo disse:

      Eu tenho senso mais aguçado que a média em questões de segurança. As pessoas em geral não sabem avaliar riscos e tendem por isso a negligenciá-los. Todos sabem por experiência que vão se embarrar em uma rua não pavimentada quando chove. Mas os que atravessam a rua nunca passaram pela experiência de morrer. Então não dá para deixar as pessoas decidirem questões assim de uma forma tão simplista.

      Outra questão é a de que as pessoas ainda não conhecem ciclovias. Como irão reivindicar, então? Por isso a urgência por ciclofaixas e ciclovias quem promovam o deslocamento diário de bicicleta. Isto mudará a perspectiva da mobilidade urbana e talvez o anseio desenfreado por alargamento de vias. Eu quero dizer que estamos no caminho certo, e devemos manter o foco nesta luta. Nosso papel no Orçamento Participativo seria o de tentar qualificar este debate, mas isto pode também diluir nossos esforços de lutar por algo mais imediato, o que prejudicaria todo o projeto.

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