O caso da esquina problemática (continuação) e a cidade que QUEREMOS ter

Caros Colegas

Estava eu aqui, ainda rebelde com o tema do post anterior, quando fui olhar no Google Maps e me espantei de ver que existia até recentemente uma BELA FAIXA DE SEGURANÇA onde agora tem as grades. O que é espantoso é que, durante a filmagem que fiz, não se vê nem sinal de tinta, nem no asfalto nem no corredor de ônibus. A imagem do Google Earth equivalente é de 2009:

Uma imagem mais recente, mas com menor qualidade, também pode ser vista no Google Earth (mas não no Maps), mostrando que até pelo menos Fevereiro de 2010, as faixas ainda estavam em plena atividade, e agora contavam também com a caixa anti-gridlock (para não trancar o cruzamento, o que nem sempre tem funcionado):

Me dei o trabalho de fazer três desenhos, a título de análise descompromissada. Fica a sugestão a quem for engenheiro ou arquiteto para opinar a respeito, mas me parece que a Prefeitura teria outras opções para “resolver o problema” daquela esquina.

Primeiro, um esquema de como era antes, segundo o Google. Em preto, as muretas, e em azul as calçadas que fazem parte das paradas de ônibus. Perceba que quem vem descendo a Vicente para subir a Protásio pode aproveitar o recuo da mureta para fazer a tangência exatamente sobre a faixa de pedestre, estando teoricamente na vez da preferência do pedestre:

Segue o esquema de como é hoje, tendo sido removida meia faixa de segurança e colocadas duas grades anti-pedestre, em vermelho, convidando definitivamente o motorista a passar esmerilhando na curva. Repare também que a primeira travessia que o pedestre tem – para substituir a que não existe mais – deve ocorrer quando o sinal da Protásio está aberto, mas os carros que vêm da Protásio no sentido centro-bairro ainda podem fazer a conversão à direita na Vicente, então o pedestre continua em risco (aliás, como sempre estreve nessa faixa específica):

Por fim, segue uma sugestão com pouco ou nenhum embasamento técnico da minha parte, mas que faz todo o sentido considerando a experiência de pedestre, de ciclista, de motorista e de estudioso informal das questões de mobilidade.

Nessa proposta, ao invés de colocar grade, a faixa é recuada, a mureta é encurtada, e próximo ao centro do cruzamento é colocada uma separação física (em vermelho) para que os carros sejam obrigados a fazer a curva em uma velocidade compatível com uma zona de intensa circulação de pedestre E que é acesso a uma parada de ônibus. A fim de orientar corretamente o pedestre, um semáforo de pedestre (mostrado na caixa em verde) deveria também ser instalado, sem botão de acionamento já que deveria ser sincronizado com os outros semáforos.

Gostaria muito de saber o que os amigos acham a respeito.

Também gostaria de continuar minha sugestão implícita já mencionada no post anterior, de descobrir qual a explicação e a motivação que os responsáveis pela obra têm a apresentar para nós.

Acho que já acabou o tempo em que a população engolia quieta as modificações em seu espaço, e acho que mesmo as decisões técnicas podem e devem ser questionadas por qualquer cidadão.

Isso é usabilidade, é fatores humanos, é acessibilidade e é design universal, e qualquer manual decente de qualquer uma dessas disciplinas é categórico ao afirmar que somente o usuário conhece plenamente suas necessidades, e somente o usuário tem condições de testar e atestar a qualidade de soluções propostas por técnicos, cientistas, políticos, engenheiros, designers, programadores ou o que for.

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10 respostas para O caso da esquina problemática (continuação) e a cidade que QUEREMOS ter

  1. Gustavo disse:

    Sim, tua sugestão parece muito mais lógica…

    Mas eu acho que o problema é que em teoria não é permitido que tu fique parado do lado das muretas. Talvez algum dia, a muito tempo atrás era proibida a conversão a direita naquele ponto, o que fazia com que a travessia do ponto de ônibus até a calçada fosse feita num pé só, como é feito do outro lado da rua.

    Eu por vezes já me vi parado ali do lado da mureta, com o trânsito aberto no sentido dos ônibus. Eles passam rente a ti, muito rente. Só tem espaço pra uma pessoa ali.

    Mas levando em conta essa tua ideia, caso implantada poderia ser sugerido um delay de ~5 segundos com as duas sinaleiras fechadas, permitindo a passagem tranquila dos pedestres do ponto de ônibus até a calçada, e naquela faixa, que como tu mostrou no outro vídeo, sempre tem fluxo de carros (a faixa mais ao sul ali)

  2. O que você fala é justamente uma crítica ao modelo de decisões tecnocráticas no qual as decisões são deixadas nas mãos de especialistas. Isso é ligado a visão positivista que é bem difundida no Brasil como podemos perceber na bandeira brasileira, por exemplo.

    Atualmente, existe na educação uma tendência forte em repensar esse visão tecnocrática, que também é o espelho da educação com o professor que “manda” em tudo e o aluno que recebe passivamente e transformar a sala de aula em algo mais democrático onde se pode formar um cidadão mais ativo como você!

    Que coisa fantástica poder ver a evolução temporal das imagens do google!

    Emmanuel,
    Blog Vitória Sustentável
    Blog Vitória SUstentável

  3. Aldo disse:

    Acho que consegui deduzir qual o objetivo desta estranha obra da Prefeitura.

    Ela melhorou muito o fluxo dos carros no sentido norte-sul. Isto porque os carros que vem do norte podem agora converter a leste com velocidade. Antes, eles eram obrigados a uma curva em cotovelo que comprometia muito o fluxo dos carros que seguiam em frente no sentido sul.

    A tua sugestão, Helton, de colocar aquela separação física em vermelho, faria retornar à situação anterior em que havia um imenso congestionamento no sentido norte-sul.

    Uma vez passei incríveis 40 minutos para andar um 500 metros vindo do norte nessa rua. De carro, lógico. Acho até que foi a experiência definitiva que me convenceu da falência do automóvel como meio de transporte eficaz em Porto Alegre. Lembro que minha filha estava cansada de esperar que eu a buscasse no colégio. Se eu pudesse abandonar o carro e ir a pé, levaria menos de cinco minutos para chegar até ela.

    Então, a “solução” da Prefeitura não deve ter considerado em nada o ponto de vista do pedestre. Aquela faixa de segurança foi eliminada por ser um estorvo ao fluxo dos automóveis.

    A solução evidente para dar maior segurança aos pedestres e ainda preservar o grande fluxo de automóveis seria proibir todas as conversões naquela esquina. Os técnicos da Prefeitura deveriam trabalhar nela.

    Uma solução transitória, priorizando ainda o automóvel mas sem ignorar o pedestre, seria criar um tempo curto de sinaleira para pedestres a cada mudança de sinal para os carros, como sugerido pelo Gustavo.

    Além disso, recolocar-se-ia a faixa-de-segurança (sugestão do Helton), que foi apagada, porém ainda mais distante da esquina para permitir que os carros que vem do norte possam continuar a converter à leste liberando a pista dos seguem em frente na direção sul. Esta nova faixa-de-segurança afastada da esquina cortaria parte da mureta de separação do corredor de ônibus.

    Uma consequência indesejável seria a redução do tamanho da parada de ônibus, que talvez precisasse ser extendida na sua extremidade leste.

    O trajeto dos pedestres até a parada aumentaria um pouco em relação ao seu trajeto natural, mas seria muito menor do que é agora. Além disso, reduziria drasticamente o tempo e principalmente o risco, por evitar múltiplas travessias.

    O maior erro da obra foi o de ter desrespeitado completamente as prioridades entre os modais de transporte. Em vez de priorizar a integridade física e as necessidades de deslocamento do pedestre, este foi colocado último lugar. Uma vergonha.

    • heltonbiker disse:

      Lembrando que não houve mudança estrutural para os carros, somente as grades. Assim sendo, a velocidade com que os carros fazem a conversão continua a mesma, e portanto os engarrafamentos de que fala devem ter sido causados por outro motivo. Além disso, continuam havendo engarrafamentos ali no fim da tarde.
      Mais além disso, a faixa aparentemente não foi removida, ela simplesmente não existia mais porque foi desgastada pelo tráfego, assim como acontece parcialmente em todas as faixas daquele cruzamento, e totalmente em várias faixas pela cidade inteira.

      • Foi só para tirar os pedestre mesmo! Absurdidade só!

      • Aldo disse:

        Houve sim mudança para os carros: a faixa-de-segurança, que foi deliberadamente removida, inibia que quase todos os motoristas invadissem aquele espaço, obrigando-os a uma curva mais fechada que reduzia a sua velocidade . Eu lembro de ter assistido a isso inúmeras vezes quando tentava entender o porque daqueles congestionamentos.

        Este era um gargalo da faixa da esquerda da Vicente. O que me revolta é que há um gargalo na faixa direita bem mais fácil de resolver, mas que permaneceu intocado: o estacionamento de veículos. Ele é permitido para carga-e-descarga durante todo o dia logo após o cruzamento com a Protásio. E no meio da quadra, após a agência bancária, é expressamente permitido para qualquer veículo e em qualquer horário. Conferi isso hoje, pois as placas infelizmente não aparecem no vídeo.

        Então, pode-se perfeitamente concluir que, neste caso, o direito de estacionar foi priorizado em relação ao da integridade física do pedestre. Isto é nojento e intolerável.

  4. airesbecker disse:

    Esta modificação provavelmente foi relacionada com a abertura do trecho unindo o fluxo da Quintino Bocaiuva com a Vicente da Fontoura a partir da esquina com a Casimiro de Abreu.
    Eu observo que estas cercas são relativamente raras no resto da cidade mas estão frequentes alí em três quadras da Protásio Alves, desta esquina em direção ao centro.
    Temos no caso certamente um antagonismo ideológico bem complexo, onde se coloca a prioridade da circulação dos automóveis e a segurança dos pedestres.
    Temos que os pedestres em nosso tráfego não são puníveis com um sistem de multas como os motoristas e o comportamento deles é restrito pela educação no respeito aos sinais de trânsito e pela noção de risco, quando estes elementos falham os pedestres se colocam em situações de perigo.
    São comuns os casos de atropelamentos de pedestres que entram em momentos e locais inadequados, como faixas rápidas e cruzamentos perigosos.
    Há uma idéia de que a circulação dos carros deve ser comprometida para a circulação dos pedestres mas sempre, mesmo assim, de qualquer forma é preciso ainda, que seja cuidada a segurança dos pedestres, aí é o ponto, se estas cercas estão sendo desrespeitadas e estão colocando os pedestres em risco então elas estão inadequadas.
    E ai qual a solução para que não haja perigo de vida?
    A medida vacún do brete não pode ser complementada com relhos e guizos, talvez dando choques elétricos nos pedestres eles iriam para o lado correto!!!
    Certamente que a colocação destas cercas deveria levar em conta a existência de uma alternativa fácil de transposição, para que as pessoas não se coloquem presas no meio da faixa de tráfego.
    Agora acho que estas questões devem levar em conta o planejamento integral da circulação da cidade, pensando não apenas o tráfego, pois aí fica difícil solucionar, não haverá espaço nem dinheiro suficiente.

  5. Talvez era ruim, porque era mal feito mas no vídeo ele atravessa e quase nenhum carro está chegando! Então tem uma possibilidade de isso funcionar bem com a faixa de pedestre retirada.

  6. Olavo Ludwig disse:

    Muito bom Helton, é isso ai! Se a prioridade fosse o pedestre, a coisa seria feita como no teu último desenho, mas como já estamos cansados de saber não é! O melhor mesmo é que proibir aquela conversão a esquerda de uma vez e fazer o carro dar uma volta na quadra para pegar a Protásio no sentido centro-bairro.

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