A cidade que não queremos ter: mais um “brete” brota em Porto Alegre

Caros Colegas

Ontem tivemos mais uma reunião com as Autoridades de Trânsito de Porto Alegre, onde foram reafirmadas as intenções de mudar o paradigma carrocêntrico em direção a modelos de mobilidade mais humanos, incluindo entre outras coisas a bicicleta.

Entretanto, o modelo antigo onde o carro é o rei continua enraizado, pois o que vemos diariamente, especialmente para quem anda a pé, é o roubo descarado de espaço de calçadas e o desprezo com a qualidade da ifra-estrutura de acessibilidade, além de medidas questionáveis para “controle de fluxo” dos pedestres, nas figuras emblemáticas do botão para pedir licença para atravessar a rua, e das grades (bretes) que conduzem o pedestre para longe do fluxo de automóveis, supostamente para sua própria segurança, afinal a cidade está muito perigosa com esses carros todos tão velozes.

Passo diariamente pela Protásio, e muito recentemente surgiu uma nova “obra viária” que me deixou novamente muito indignado com a forma com que nossas autoridades de trânsito vem abordando os problemas de saturação das vias públicas. Na esquina da Protásio Alves com a Vicente da Fontoura, foi colocada uma grade que impede que se acesse a parada de ônibus de sentido bairro-centro a partir da esquina em frente.

Reserve doze minutos para assistir ao vídeo que registra a “cena” (ou se preferir, ignore o vídeo e continue lendo)

Quais os problemas que vejo ali (alguns deles comentados no vídeo)?

  1. Construiu-se um aparato extremamente antipático, que não resolveu o problema original;
  2. A solução, no fim das contas, gera mais perigo do que elimina;
  3. Preferiu-se investir na grade do que em faixas de segurança decentes, ou na reforma das vergonhosas estruturas de acessibilidade;
  4. Afirmou-se implicitamente à população quais modais de transporte realmente são considerados pela administração pública.

De qualquer forma, um de dois erros decorre da existência dessa obra:

  1. Se a Prefeitura quis ajudar o pedestre naquela esquina, adotou uma solução completamente equivocada;
  2. Se a Prefeitura quis melhorar as condições de fluxo motorizado, uma reforma URGENTE no pensamento das mentes que selecionam e implementam as soluções de infra-estrutura de trânsito em Porto Alegre precisa ser feita.

Pra encerrar (não sei editar vídeos direito ainda, portanto não consegui embutir na trilha sonora), mando uma musiquinha que é a trilha sonora “ideal” para o vídeo:

Admirável Gado Novo (Zé Ramalho)

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber…
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer…

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado, Êh!
Povo feliz!…

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal…
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou…

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado, Êh!
Povo feliz!…

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela…
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A Arca de Noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar

Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado, Êh!
Povo feliz!…

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27 respostas para A cidade que não queremos ter: mais um “brete” brota em Porto Alegre

  1. sergiok disse:

    Que ótimo registro, Helton!
    E o Capelari fala na reunião que os pedestres se acidentam porque são tão impridentes tanto quando os motociclistas (ao comentar sobre a informação de que 40% das mortes no transito são pedestres e 40% são motociclistas).
    É tragicômico!
    O pedestre é o animal mais prudente do trânsito porque ele não tem uma carcaça de metal protegendo ele. Os pedestres tem medo. Eles esperam e fogem dos carros mesmo quando deveriam ter prioridade. Porque sabem que o que vale aqui é a lei do mais forte.

  2. bandidartista disse:

    se quiser eu coloco o som no vídeo…

    • heltonbiker disse:

      Tranquilo, o vídeo está público, mas se quiser o original é so me contatar: heltonbiker arroba gmail ponto com (só que ficou com quase 1GB em formato .MOV)

  3. Felipe Koch disse:

    Concordo com a tua opinião Helton, o usuário de transporte público foi marginalizado nesta situação. Se resolveu a questão com o máximo de prioridade possível aos carros e o maior transtorno possível aos pedestres (cadeirante inexiste nesta travessia).
    Talvez fosse uma esquina com alto índice de atropelamentos, mas, no caso, se resolveu punindo a vítima, com o menor esforço das autoridades.
    Isso é preguiça dos responsáveis, não tem outro nome.
    São horríveis estas autoridades, assim como é horrível o pensamento que está por trás desses equipamentos. É realmente nojento.

  4. Olavo Ludwig disse:

    Dor no coração…amanhã eu escrevo alguma coisa, pois agora, depois desse vídeo eu realmente não me sinto em condições. Muitas vezes eu digo que tenho vontade de chorar, e tem vezes que fica realmente difícil conter as lágrimas produzidas pela tristeza e raiva misturadas!

  5. Tô de TPM, então me permitam um registro sem compostura: aquele botãozinho que não agiliza a abertura do sinal para o pedestre (e é pago para não funcionar, ou seja, alguém ganha dinheiro com uma engenhoca inútil) e que diz “pedestre, aperte o botão e aguarde”, soa o mesmo que dizer “Pedestre, enfie o dedo no cu e aguarde”. Pronto, falei.

    • Aldo disse:

      Taí uma bela frase para se fazer umas etiquetas auto-adesivas…

    • heltonbiker disse:

      Nesse caso parece que o botão não é necessário para a travessia, porque o sinal fecha de qualquer maneira, e de qualquer forma SEMPRE tem pedestre ali pois é via de alto fluxo de pedestre. Assim sendo, a engenhoca está ali ocupando o lugar de alguma infra-estrutura mais necessária (como as rampas), e provavelmente só serviu para enfiar o dinheiro no cu de alguém.

      • Gustavo disse:

        Aquele botão é para cegos. Literalmente, pelo que eu ouvi falar.
        Quando o sinal abre, ele emite um som intermitente, que vai ficando mais rápido conforme o tempo vai terminando.

  6. Aldo disse:

    Em 4min41s, há uma borboleta no asfalto.

    Como se não bastasse tudo o que foi mostrado, os pedestres são desviados do seu trajeto natural e conduzidos por um local sabidamente mais perigoso, fatal até.

    Parabéns, Helton, por criar o gênero documentário de terror!

    • heltonbiker disse:

      Todo mundo que tem acesso a filmadora digital e internet, e indignação suficiente com alguma coisa, pode e deve fazer vídeos como esse, mostrando os problemas que encontra no seu cotidiano. Não dependemos mais da mídia profissional para sermos vistos e ouvidos.

  7. Klaus disse:

    Muito bom, Helton!

    Capellari: Os pedestres são atropelados pois são imprudentes.

    Os pedestres são imprudentes ou vocês dão prioridade ao automóvel e à indústria ao invés de priorizar a vida das pessoas?

    Dinheiro para construir bretes aí tem, dinheiro para lombadas aí não tem.

    Dinheiro para dar infringir a lei tem, dinheiro para cumprir a lei não tem.

    E se uma pessoa for atropelada por ter atravessado onde sempre atravessava numa boa mas hoje tem que desviar do brete? Imprudência ou falta de interesse na vida das pessoas por parte do órgãos incompetentes?

  8. Muito interessante esse vídeo. Vendo esse vídeo de Vitória, pensei o seguinte.

    Se para construir uma cidade mais sustentável, precisa restringindo o espaço dos carros, não promovendo o uso do carro. Nesse exemplo, parece ser o contrário, pareceu ser um desincentivo ao pedestre. Como se alguém estivesse falando para o pedestre, “compra um carro, você não vai ficar atravessando 3 sinais para atravessar uma rua?”

    Foi realmente uma mudança contra os pedestre, locura!

    Queria ver um filme no mesmo cruzamento com um cadeirante tentando atravessar a mesma rua!

    Apesar disso me parece que em POA, os sinais de pedestres (e carro) demoram muito menos tempo para abrir do que em Vitória! Aqui é um inferno, preciso fazer um vídeo para mostrar isso!

    Emmanuel,
    Blog Vitória SUstentável
    http://vitoria-sustentavel.blogspot.com/

  9. Aldo disse:

    O vídeo ressalta o tempo que o pedestre é obrigado a desperdiçar para ter supostamente mais segurança.

    Mas há outro aspecto bem mais relevante e que torna aquela situação absolutamente macabra: com certeza é muito mais arriscado atravessar CINCO trechos de avenidas que apenas UM.

    Será que ninguém na Prefeitura considerou isso? É simplesmente estarrecedor! O objetivo daquela obra parecer ser apenas jogar dinheiro público fora. E isto na MELHOR das hipóteses! Mal consigo acreditar que tenham feito algo assim tão escroto.

    • heltonbiker disse:

      Aliás, no primeiro trecho de travessia o pedestre já tem que desviar de carros que convertem à esquerda. Se é pra ter uma faixa pra fugir de carros, então que colocassem uma no lugar daquela grade, pros carros o efeito seria o mesmo, mas para o pedestre seria infinitamente melhor.

  10. sergiok disse:

    O objetivo da obra é evitar fazer com que os motoristas tenham que reduzir ou parar em mais um semáforo ou faixa de segurança. O fluxo dos veículos automotores acima de tudo.
    Os pedestres vão continuar atravessando ali e se forem atropelados os motoristas vão poder colocar a culpa neles.

    • Marcelo disse:

      Tinha era que botar uma grade pros carros não passarem por cima dos pedestres que atravessam a rua. Sim ia bloquer a rua, mas bloquear o tráfego de pedestres pode e o de carro não?

  11. Atilio disse:

    Se os índices de atropelamento em Porto Alegre estão na ordem da barbárie, a primeira coisa em que a autoridade de trânsito deveria pensar é na SUA responsabildiade sobre isso.

  12. MARLY disse:

    Eu conheço bem este cruzamento/esquina e sempre critiquei a má pintura das faixas no chão, que ali se tem que atravessar como se fosse uma competição, mas pior ainda eu acho – é tu vir de bike da Avenida Nilópolis e pegar a Vicente para descer até a Ipiranga. Digo isso porque lá atrás tu vem pela mão da direita, mas se tu for entrar à esquerda pode ter certeza de que os carros vão te prensar como um sanduiche, e ae? Quando tenho que pegar esta rua faço várias mudanças de lado depois que fico esperando o sinal. Não só para os pedestres e usuários do transporte, como para este meu exemplo que dei, do que enfrento quando passo ali de bike regularmente!
    Quanto a quem foi que assinou colocarem todas essas grades na volta creio que deva ter sido através do que a EPTC chama de fluxo de pessoas atravessando ali, pois eu já solicitei uma sinaleira de pedestres na Avenida Ipiranga, num local que fica antes da sinaleira da rua Barão do Amazonas (3 quadras antes, bem de frente a uma ponte pequena que chega no Georges pastel/Petisqueira) e eles negaram na ocasião alegando que ali nem tinha fluxo suficiente para colocar sinaleira. Agora já tem. Acredito até que colocaram depois de morrer gente ali, ou crianças que vem para as escolas que são umas quantas que tem na região. Agora outro ponto cruel é na Ipiranga perto dos bombeiros passando o posto que tem a Panvel (na ipiranga mesmo). Por ali tem uma praça que tu atravessando sai de frente ao Xis Moita que é ao lado da praça do ciclista – que eu nunca vi a placa e disseram que o nome é praça do ciclista!) Pois bem, a noite esta praça é tri escura, algumas árvores adentram a via e quando se chega na sinaleira que também dá de frente a esta passagem para o outro lado da ipiranga, que chamo de pontezinha, ali ninguém te respeita, tu estando de bike principalmente. Já liguei na EPTC reclamando e é a mesma guerrilha para não ser lançado e espremido no meia da avenida pelos carros que vem a milhão nesta ruazinha que vem lá de cima e se chama Princesa Isabel! Ufa, acho que só eu mesma vejo tantos absurdos acontecendo, mas são coisas da vida! Como diria a Rita….que a gente não sabe se vai ou se fica aaaaaaaaa

  13. Pingback: Ignorando o Real Problema do Trânsito – Versão Porto Alegre | Vá de Bici

  14. Rudah Azevedo disse:

    Bah, desci hoje a perimetral desde o buraco da protásio até a assis brasil, estão colocando horrores desses guarda corpos nas duas laterais do corredor de ônibus, enfeiando mais ainda nossa cidade, complicando a vida dos pedestres e, horror, é apenas mais um projeto mega roubador de dinheiro dos cofres públicos, algo de podre ocorre em nossa câmara de vereadores, até quando o povo de porto alegre vai aceitar como ovelhas esse jugo dos ladrões…

  15. rogerio disse:

    O tempo para percorrer o trajeto recomendado é de três minutos, enquanto pelo irregular de poucos segundos. Um homem de jaqueta laranja atravessa duas vezes (ida e volta) na transposição proibida para pedestres, porque faz sentido na cabeça de um pedestre, ainda mais porque sempre houve permissão para se atravessar naquela faixa.

  16. Pingback: E pro pedestre, sobra o que? | Vá de Bici

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