Deu no Tabaré

Editorial da quarta edição do Jornal Tabaré

Charge por Rafael Corrêa

A rua paralítica das seis da tarde é um espetáculo que a cidade nos obriga a contemplar, como uma condena remetida do além, como uma ditadura de ditadores invisíveis. O trânsito lento, estéril e fumacento que este Porto Alegre aprendeu a imitar, com a benção estúpida e suicida de tantos governantes, crendo com inocência adolescente que o progresso veste gris e que a sinfonia da cidade é feita a buzinaços, esse trânsito que de trânsito tem pouco, que impõe aos cidadãos velocidades médias de 10 km por hora, inclusive àqueles que por opção ou por falta dela elegem outros meios de transporte, esse show cotidiano já nos cansou – ou deveria! – os ouvidos, os olhos e os pulmões.

Pelos sinuosos caminhos que compõem nossa metrópole, multiplicam-se heroicos equilibristas de duas rodas, que ao empunhar seus guidões subvertem a inexata lógica que escolhe perigosos caixotes de lata ao invés da salutar brisa de um ar puro que brinda o passo flutuante das bicicletas. Essa legião pacifista sobrevive diariamente ao peso de uma estrondosa manada de motores, pequenas fábricas de poluição tão benquistas por publicitários, petroleiros e economistas. Um atropelamento coletivo foi preciso para que resurgissem promessas sólidas como algodão-doce a respeito de um ambiente não hostil aos ciclistas.

Mas já faz tempo que aprendemos a sacrificar a cidade sobre o altar do Deus-carro, mutilando sem lástima nem memória árvores, calçadas, praças, espaços de convívio, enfim. Vejam o Parque Marinha agora atorado ao meio, decepado em nome de uma duplicação viária que em uma década estará obsoleta, sem que uma voz sequer tenha podido se levantar com a devida força! Lamentem o asfalto esburacado ou não que cobre o paralelepípedo intacto de outros tempos, impedindo que a água encontre seu caminho primitivo e puro. Chorem ou insultem pela cidade perdida, pelos direitos pisoteados e pelo silêncio que costuma cobrir toda essa bosta. Chorem e insultem e façam diferente.

O Tabaré é uma publicação independente e mensal aqui de Porto Alegre. O transporte e o jornalismo alternativo pedalam juntos.

Hoje tem o pré-lançamento da edição #4, no Tutti Giorni, aquele aconchegante boteco na escadaria da Borges, das 19h em diante.

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8 respostas para Deu no Tabaré

  1. Melissa disse:

    O Jornal Tabaré é ma-ra! Parabéns pelo texto!

  2. artur elias disse:

    Pior que não vai precisar uma década para aquela chaga no Marinha ficar esgotada.

    Aquela outra via nova, que liga a Ipiranga à Aureliano, ainda não foi aberta e já está entupida de carros – estacionados!

  3. Marcelo Sgarbossa disse:

    Tche, que lindo este texto!

    Não tem jeito: militância (que parece uma coisa ultrapassada) é necessária.

    Quando você diz no texto que não levantou nenhuma voz, me dá uma dor muito grande em constatar que, depois do atropelamento (ou seja, da abertura de uma grande janela de oportunidade) já se passaram mais de 6 meses e quase nada se fez.
    Me parece ter sido um equívoco ter colocado nossa energia nas reuniões com a EPTC e ter deixado de lado a mobilização que resulta em sensibilizar a tomada de decisão do poder político (e assim ajudar os técnicos da EPTC a fazer a coisa sair do papel).

    abraços

    marcelo sgarbossa

  4. Olavo Ludwig disse:

    “Um atropelamento coletivo foi preciso para que ressurgissem promessas sólidas como algodão-doce a respeito de um ambiente não hostil aos ciclistas.”

    Essa parte é de chorar!

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