Chuva, pedal e… livros!


Mais uma seqüência de dias chuvosos e frios – combinação que dificulta a vida do ciclista urbano, mesmo os relativamente “durões”.

Nesses dias – quando não resta dúvida que vai chover, ou continuar chovendo, e fazer frio – recorro ao automóvel, às caronas, ao táxi, e ao transporte coletivo (o que for mais conveniente para cada situação).

Em casa, tem-se a sensação de estar pouco a pouco regredindo ao estágio anfíbio da escala evolutiva. Para alguém habituado ao transporte ativo e ao exercício físico, a sensação de letargia causa estranheza, e o efeito psicológico negativo pode ser relativamente sério para aqueles com dificuldades de humor.

Nessas horas, um rolo de treino pode ser o melhor amigo do ciclista.

Este acessório simples transforma uma bicicleta comum em bicicleta estacionária. Torna-se possível pedalar vigorosamente sem sair do conforto de uma sala seca e protegida. Para aquecer o corpo não há coisa mais eficiente: sem sair do lugar, o ciclista fica sem o ‘sistema de refrigeração natural’. Significa que depois de uns poucos minutos de esforço moderado, você não sente mais frio nenhum. Logo mais você começa a eliminar camadas de roupa, e termina só de camiseta. Maravilhoso para a circulação e para o ânimo.

Pedalar no rolo, entretanto, é uma atividade potencialmente enfadonha, que de resto pouco se assemelha a andar de bicicleta. Se o ciclista está seguindo um programa de treinamento, contendo intervalos e educativos técnicos, a coisa fica mais focada e interessante. Mas se é só um “pedalzinho estático”, só pra não enferrujar nem virar sapo, pode ser bem chato.

Recentemente encontrei uma maneira de tornar o tempo no rolo mais agradável: descobri que posso pedalar e ler simultaneamente.

Nessa situação, nada melhor do que escolher livros sobre bicicleta!

Com um pouco de esforço mental, até consigo manter a cadência desejada sem me distrair da leitura.

[ Cadência é talvez o aspecto mais fundamental da técnica ciclística. É crucial tanto para o desempenho como para a saúde a longo prazo, especialmente no que diz respeito aos joelhos. Mede-se em número de rotações do eixo central (pedaladas completas) por minuto. Recomenda-se uma cadência média na faixa de 80 a 100 rpm. ]

Recentemente tenho me dedicado a aumentar minha modesta ciclo-biblioteca. A foto a mostra quase inteira. Dos títulos que aparecem ali, alguns foram adquiridos recentemente, através da Amazon. Infelizmente, apenas um está em português – Diários de Bicicleta, do David Byrne.

Um deles não é na verdade um livro sobre bicicleta:

Traffic – Why We Drive The Way We Do (and What It Says About you), ou seja, Trânsito – Por Que Nós Dirigimos da Maneira Que O Fazemos (e o que isso diz a seu respeito), de Tom Vanderbilt.

Entretanto, talvez seja um dos livros mais reveladores e informativos para todos aqueles que se interessam em tentar entender o trânsito urbano. Ciclistas incluídos. Agradeço ao Helton pela dica.

Acabo de descobrir que este best-seller já foi traduzido e publicado em português, o que me faz sentir um pouco burro por tê-lo importado: Por Que Dirigimos Assim – E O Que Isso Diz Sobre Nós .

Tirando esse, dois outros títulos têm me mantido muito ocupado, mesmo quando não estou pedalando no rolo: Pedaling Revolution do jornalista Jeff Mapes, e Effective Cycling, o grande clássico de John Forester.

Na verdade, esses 3 títulos são tão interessantes, tão relevantes para as questões do ciclismo urbano, que não consegui me decidir por um só; estou lendo todos os 3, alternadamente.

Pedaling Revolution – How Cyclists are Changing American Cities (Uma Revolução Pedalando: Como os Ciclistas Estão Mudando Cidades nos EUA) conta a história recente do cicloativismo na América do Norte – desde um ponto de vista pró-bicicleta, mas bastante equânime. Equanimidade que muitas vezes falta a nós cicloativistas. É uma leitura leve, agradável, e inspiradora. Quer saber toda a história do conflito entre a Massa Crítica e a polícia de NY? Detalhes do jogo político na disputa por verbas federais para a construção de ciclovias? Como surgiram as organizações de ciclistas nos EUA? Quer conhecer alguns personagens, grandes e pequenos, dessa história? Ficar sabendo algumas fofocas tbém? Observar semelhanças e diferenças entre EUA e Brasil, no que diz respeito ao papel e o potencial da bicicleta?  Recuperar o otimismo? Não deixe de ler.

Effective Cycling é um calhamaço de 600 páginas que resume a obra da vida de John Forester. Ciclista, engenheiro, planejador urbano, ciclo-educador, e pesquisador norte-americano de origem britânica, Forester é uma figura central na história do ciclismo urbano. Cunhou termos importantes como “ciclismo veicular” e ficou conhecido por ser um furioso opositor da implementação de infra-estrutura cicloviária (!), bem como um defensor mais furioso ainda de direitos e deveres iguais para todos os condutores de veículos – motorizados ou não. Simpatia nunca foi o seu forte. Pode-se não gostar dele, mas rejeitar suas idéias e contribuições, antes de as haver compreendido perfeitamente, é burrice.

Do calhamaço, a seção mais relevante, por sua originalidade, abrangência, e consistência, é o capítulo intitulado “The Cycling Environment” – que tem 135 páginas! Essa seção inclui, entre outras coisas, os fundamentos e porquês da legislação de trânsito; um resumo e interpretação de dados de algumas pesquisas sérias a respeito de acidentes envolvendo ciclistas; e o mais extenso e completo conjunto de estratégias e ensinamentos para trafegar com segurança no trânsito que se tem notícia.  O resto do livro trata de tópicos ciclísticos que hoje podem ser encontrados – inclusive de forma mais atualizada – em muitos outros livros e mesmo na Rede.

Incontáveis ciclistas dentro e fora dos EUA reportaram o impacto positivo das técnicas e estratégias do “ciclismo veicular” de Forester em suas vidas. Muitos afirmam que esse saber lhes salvou a vida.

Amanhã já não chove.

Ao contrário do que costuma acontecer, desta vez volto às ruas com pernas um pouco mais fortes do que antes desses dias molhados. E um pouco menos ignorante a respeito de vários aspectos do ciclismo e do trânsito urbano.

Esta postagem é uma revisão do texto publicado no  Pés pra Cima! em 22 vii 2011.

———

Pós-escrito:

Ontem, após aquela tensa super-reunião, Olavo e eu ficamos conversando até cerca de 1 da manhã em uma loja de conveniência onde tínhamos entrado apenas para pegar algum alimento e uma bebida quente. Ao contrário do esperado, a chuva que já caía desde o entardecer aumentou em intensidade – bem como o frio. Não houve jeito, tive que ir pedalando pra casa – cerca de 10 km. Na bicicletinha dobrável que ainda não tem paralamas.

A luz dos postes refletia lindamente na cortina de incontáveis pingos que caía sobre a cidade deserta. Uma pequena parte dessa água, catapultada pelo pneu traseiro, vinha se alojar nos meus fundilhos e pernas abaixo. Eu estava ficando todo molhado, embarrado, mas estava quentinho (camadas de baixo bem escolhidas).

E estava feliz.

Anúncios

Sobre lobodopampa

Falar de si mesmo é contraproducente. Ah: lobodopampa e artur elias são a mesma pessoa (eu acho).
Esse post foi publicado em livros, pedalada e marcado , . Guardar link permanente.

6 respostas para Chuva, pedal e… livros!

  1. Olavo Ludwig disse:

    Eu também estava ensopado com dor no cóxi devido a pequena queda que tive ao deslocar-me para a reunião, mas muito feliz, uma pedalada gostosa na chuva, sem barulho e fumaça de carros. Eu também estava feliz! Valeu Artur

  2. Klaus disse:

    Eu a d o r o pedalar na chuva, independência ou independência,

    Viver ou viver, todos os dias, 😀

    Abração!!

  3. Gente, como eu gostaria de acompanhar este impulso maluco, mas a saúde não ajuda e tenho que evitar troca de temperatura, segundo os médicos.
    Algumas semanas atrás, tentei e não deu muito certo, tive algumas seqüelas do meu impulso quase juvenil; mas aqui entre nos que nenhum filho ou neto saiba, curti de mais; impulsionado por uma historia do Klaus.
    Mas ainda vou na chuva, de novo, como fazia quando ainda era jovem.
    Os relatos de vocês são fora de série e só me fazem tentar novas fronteiras, que estavam esquecidas na memória.
    Chego a sentir o clima na loja, tomando uma coisa quente para seguir viagem. Parabéns Olavo e Arthur vocês fazem a diferença acontecer.

  4. artur elias disse:

    De chuva já vi que vocês gostam.

    De pedal, já sabia.

    Mas e de livros, será que alguém aí tbém gosta?

    😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s