Pela retomada das ruas.

Tradução: "Reduza: crianças e animais brincando"

Nunca vi uma placa de trânsito como a daí da direita aqui no Brasil e infelizmente, a cada dia que passa é mais raro encontrarmos crianças brincando livres nas ruas e calçadas de nossas cidades. Nos bairros centrais de Porto Alegre, é praticamente impossível encontrar sequer uma criança cujos pais autorizem a brincar na rua. Já nas periferias é mais comum, principalmente pelo menor fluxo de veículos motorizados.

O que isso significa? A meu ver é bem claro o trânsito intenso de automóveis motorizados torna os espaços públicos perigosos demais não só para crianças e animais, mas para pessoas de todas as idades, que muitas vezes estão arriscando suas vidas simplesmente ao atravessar uma rua. Podemos concluir então que o “direito” que uma pessoa tem de circular de automóvel põe em jogo o direito de toda a sociedade de usufruir dos espaços públicos. Porque não, o espaço público não é somente um espaço para circulação. Historicamente, os espaços públicos são espaços de lazer, convívio, de artes, de manifestações populares, de comércio E de circulação. Circulação é apenas um dos possíveis usos das ruas de nossa cidade e, em milhares de anos de civilização, foi somente no último século que as ruas passaram a ser ocupadas por automóveis.

Porém, vem crescendo constantemente a mentalidade de que as ruas são para a circulação de veículos e qualquer outra atividade que interfira no trânsito de carros está interferindo no direito de ir e vir destas pessoas. Este é um pensamento totalmente equivocado. Em primeiro lugar porque o direito fundamental de ir e vir não é o “direito de ir e vir em um automóvel”, o direito estende-se à pessoa, não ao veículo. Em segundo lugar, se uma rua está sendo utilizada por pedestres, por exemplo, e não é possível passar de carro por ali, o indivíduo tem sempre a opção de tomar uma rota alternativa ou ainda estacionar o seu carro e seguir o trajeto a pé ou por outro modal.

O resultado disto tudo é que estamos ficando cada vez com menos espaço para lazer (recentemente perdemos até um pedaço do Parque Marinha do Brasil para a duplicação da Avenida Beira-Rio), e os espaços que nos restam para nos encontrarmos com nossos amigos, para socializarmos, são locais privados, e de uma forma ou de outra temos que pagar para utilizá-los e ainda temos que seguir regras de conduta que nem sempre respeitam a liberdade dos indivíduos.

Por tudo isso, temos que resgatar os outros usos dos nossos espaços públicos, das ruas e calçadas. Seja em eventos esporádicos, como piqueniques e festas de rua, seja no dia-a-dia, usando a calçada para tomar chimarrão (uma tradição que está se extinguindo em Porto Alegre), seja para jogar uma pelada com a molecada da vizinhança. E existem várias formas de atingirmos essas metas, seja através de atos de Desobediência Civil, como o Reclaim the Streets (Retomar as Ruas – numa tradução livre), através de políticas públicas eficientes como a criação de Zonas 30 e a prioridade aos espaços peatonais, ou através de medidas individuais simples no nosso cotidiano, como colocar umas cadeiras e bancos na calçada e sentar pra conversar com os amigos.

Precisamos transformar nossas cidades em lugares mais agradáveis e lúdicos. Precisamos retomar nossa cidade.

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10 respostas para Pela retomada das ruas.

  1. Olavo Ludwig disse:

    Excelente texto Marcelo. É muito triste ver como uma parcela significativa da população não enxerga isso!

  2. Naldinho disse:

    Bem bacana, achei um vídeo:

    Sobre o Marinha: Vi uma reportagem (não lembro quem mandou) que mostrava os carros andando no Parque. total absurdo.

  3. Olavo Ludwig disse:

    Hoje pela manhã fui levar meu filho na escolinha, fui de bici com ele no reboque. Uma senhora me pergunto se a polícia deixava eu andar daquele jeito. Dá uma dor, o meu choque foi tal que fiquei sem palavras.

  4. heltonbiker disse:

    Estou lendo o livro “Traffic – Why we drive the way we do”, de Tom Vanderbilt, e um dos trechos fala exatamente sobre isso:

    “A engenharia de trânsito logo se abancou em um pedestal de autoridade, mesmo considerando que o discurso científico e aparentemente neutro e progressista dos engenheiros refletisse os desejos de apenas uma pequena parcela da sociedade. A tendência de pensar em ‘curar os problemas de trânsito’ como quem pensa na cura de uma doença rapidamente estabeleceu que o principal objetivo de uma via pública seria simplesmente mover o máximo de carros o mais rápido possível – uma idéia que obscureceu, como obscurece até hoje, as várias outras funções da via pública.”

    Excelente post, muito bem escrito!

  5. Muito bom o texto. E chama atenção pra o que a sociedade brasileira não quer ver ou não se dá conta.
    A propósito: tive quase que um “arranca rabo” em uma janta com meus primos no sábado passado por causa de choque de opiniões contrárias. Bicicleta não pode congestionar as ruas, mas carro pode. Solução deles para o congestionamento e desordens no trânsito: vias subterrâneas para os carros (que continuarão também a andar por cima) e EPTC pra massa crítica. Estão deslumbrados com o automóvel que para mim, na maioria das vezes, significa trambolho. Se for pra ter motor, escolho uma moto custom… Marco Di Martino: um carro a menos!

    Abraços!

  6. Ecilda disse:

    Estou muito contente de ver que a juventude está se organizando para propiciar um mundo melhor para sí e para todos os que respeitam a natureza e os seus semelhantes.Até para se andar na rua temos que ficar atentos para não seremos atropelados nas calçadas.Os automóveis tomaram conta de tudo.Estacionam até em cima das calçadas; para andarmos, às vezes temos que ir pelo meio da rua.Tomara que os ciclistas continuem batalhando pelo seui espaço.Com persistência farão com que esses políticos inúteis, nem que seja para ganhar mais votos, tomem providências para colocar as ciclovias em funcionamento.Achei ridículo o estacionamento para 36 bicicletas no centro!

  7. Felipe Koch disse:

    Não seria hora de fazer um post convocando para a audiência pública de quinta-feira, na Câmara Municipal?

    Abraços.

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