Bicicleta no Trânsito – Algumas perguntas sem resposta

Caros Colegas

Volta e meia escutamos, em discussões ao estilo “guerra no trânsito”, argumentos que falam que o ciclista tem que obedecer a lei, que tem muito ciclista que desobedece, que pra respeitar tem que ser respeitado, que não pode cada um andar do jeito que quer, que o ciclista não pode se comportar como pedestre, que tem que se comportar como veículo, etc.

Houve ocasião em que pensei em registrar meus deslocamentos diários, com uma câmera no capacete. Mostrei a filmagem para alguns colegas, e choveram críticas, de que eu estaria andando de forma arriscada, com inúmeras infrações (sendo que não andei de forma diferente daquela que andam diversas pessoas nos passeios noturnos dos quais participam esses mesmos colegas…).

Isso me deixou com muitas dúvidas, que se resumiriam à pergunta: “Afinal, é possível/viável/fácil/seguro ao ciclista andar PERFEITAMENTE na lei, em nosso trânsito?”. Como material para reflexão, trago as seguintes perguntas, algumas baseadas na tão sonhada lei:

Qual é a forma correta de o ciclista ultrapassar outro veículo?

O CTB obriga/recomenda (Art. 58) a andar no bordo direito. A parte da direita, tradicionalmente, é atribuída aos veículos mais lentos (Art. 29, p. 4). Isso traz embutida a suposição, geralmente válida, de que a bicicleta é um veículo mais lento do que os motorizados. Nas cidades hoje em dia, sabemos que nem sempre é assim. Então, fica a primeira pergunta: deve-se ultrapassar somente pela esquerda? É certo ultrapasar veículos em movimento? A bicicleta que está fazendo ultrapassagem tem preferência? Somente pode ser feita ultrapassagem (por definição, ocupando a pista da esquerda no caso de avenidas de duas pistas) se a bicicleta estiver ACIMA de uma certa velocidade? Como se sinaliza? O que o CTB diz (ou deveria dizer) sobre isso?

É correto/seguro NÃO andar em fila indiana quando houver outros ciclistas?

O CTB (Art. 247) considera infração DEIXAR de conduzir veículo de propulsão humana em fila única – mesmo sem ter regulamentado isso em qualquer outro artigo. Temos visto, quando há aglomeração de ciclistas (caso típico: Massa Crítica) que a forma NATURAL de as bicicletas compartilharem espaço NÃO é andando uma atrás das outras como fazem os motorizados. Não só a visibilidade – e portanto a segurança – são maiores, como também a possibilidade de evitar colisões – e portanto mais uma vez a segurança – é maior. Andando em fila única, especialmente junto a ciclistas desconhecidos, caso o ciclista que vá na frente precise desviar de qualquer coisa no solo, o ciclista imediatamente atrás não terá visibilidade nem tempo de reação suficientes.
Além disso, a fila única conta com dois pressupostos irreais: de que os ciclistas andando em fila façam parte de um mesmo grupo, e de que eles desejem andar todos à mesma velocidade. Ora, sabemos que para carros a variabilidade de velocidade pode ser regulada de forma muito mais fácil e justa, mas para bicicletas seria perigoso e injusto limitar a velocidade de todos pela velocidade do mais lento. Injusto para o mais veloz, que seria atrasado, e para o mais lento, que seria pressionado.
Assim sendo, mais essa pergunta aguarda uma resposta.

Quando o trânsito está PARADO, qual é a atitude correta para o ciclista?

Por um lado, a bicicleta é considerada solução para congestionamentos não só porque não os causa, mas também porque não é tão afetada por eles. Ao contrário dos veículos de quatro rodas, que devem permanecer dentro de faixas (e se não o fizerem, o engarrafamento fica ainda pior), a bicicleta é pequena e consegue fluir ao longo de espaços irregulares, desvencilhando-se do trânsito parado ou do gridlock.
O problema é que, teoricamente, seria proibido andar entre as faixas. Pelo que eu tenha visto, no CTB não diz nada a respeito. Alguém se habilita?

Qual é o posicionamento melhor/certo do ciclista ao parar no semáforo?

O normal seria parar atrás da faixa horizontal, que existe para garantir a visibilidade do semáforo aos motorizados através do parabrisa, bem como prover uma “zona de conforto” para o pedestre. Sabe-se que muitos pedestres utilizam essa zona para atravessar a rua em diagonal, cortando os últimos cantos da faixa de segurança, o que é um comportamento natural e bastante difícil de evitar (quem é pedestre sabe).
Assim sendo, parar atrás da linha, quando se está de bicicleta, é pedir para se incomodar, porque ocupa espaço dos carros e faz com que a retomada de velocidade, competindo com os carros e motos, seja tensa.
Em cima da linha e um pouco à frente é o território dos motoqueiros, que aceleram ainda mais intensamente quando o sinal abre, muitas vezes fazendo conversões (à direita, no pior caso) em seguida.
Sobre a faixa, nem pensar, por razões óbvias.
Eu e muitos com quem tenho conversado concordam que O MELHOR lugar para parar no semáforo é À FRENTE da faixa de segurança, sempre que não houver fluxo de pedestre sobre a faixa. Ali, tem-se a vantagem de uma dianteira sobre os motorizados, atrapalha-se pouco ou nada os pedestres (no máximo para chegar até ali, mas nunca por ficar parado ali), tem-se boa visibilidade da rua transversal, corre-se o mínimo risco.
Seria isso legal? Permitido? Recomendável? Francamente ERRADO? Opiniões?

 

Acredito que possa haver mais perguntas nessa linha de raciocínio. A moral da história é que, não só o nosso CTB não contempla integralmente a bicicleta, deixando ambíguo se as regras que valem para “os veículos” se referem somente a veículos típicos (quatro rodas motorizados), deixando de fora as exceções (motocicletas, ciclomotores, tração humana e tração animal), e deixando em branco muitas situações típicas/naturais do deslocamento por bicicleta. Mais que isso, o nosso CTB traz embutida a uma visão rodoviária, em que a rua é pensada e tratada como uma estrada, todos os deslocamentos (incluindo os do pedestre) devem ser regulamentados, e que a bicicleta “por definição” é um veículo mais lento, que deve andar no bordo da pista em fila única para não atrapalhar muito, ou de preferência na ciclovia quando e se houver.

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30 respostas para Bicicleta no Trânsito – Algumas perguntas sem resposta

  1. Fernando disse:

    Helton, compartilho contigo a mesma angústia de descumprir algumas regras ao andar de bicicleta. No entanto, estas regras não foram feitas recentemente, nem por alguém que entenda (quero dizer um ciclista que tenha formação na área de engenharia de tráfego). Eu me comporto sendo o mais visível e o mais inerte possível para o restante do fluxo de veículos. Quando estou mais rápido que os automóveis ando na esquerda e entre eles. Nas sinaleiras paro a frente da faixa de pedestres (é sem dúvida o modo menos tenso), e sempre que tenho oportunidade passo com segurança no vermelho (assim como qualquer pedestre faz!). Minha conclusão é que vivemos em um país em que muitas leis são criadas para não serem cumpridas, já que ou são burras ou não são fiscalizadas, e o pior, o próprio governo não as obedece (plano cicloviário, manutenção das calçadas dos prédios públicos, habite-se do prédio da SMOV, e muitos outros bichos mais).

  2. Eduardo disse:

    Helton, durante as transmissões da Vuelta a España 2011, no canal RTVE-ES, nos comerciais eram transmitidos partes desse vídeo que achei agora no Youtube, pelo governo espanhol. O vídeo é, no mínimo, FANTÁSTICO! O governo brasileiro, prefeitura de POA,etc… deveriam simplesmente traduzir e colocar na televisão. O exemplo espanhol deve ser seguido urgentemente.
    Parabéns Gobierno de Espana-Minist.Del Interior-Dirección General del Tráfico!

    Me apunto a moverme en bici

    Teaser bicis

    “…porque si nos respetamos, hay sitio para todos.”

  3. Felipe Koch disse:

    Vou relatar o pouco que aprendi sobre o último ano no qual assumi a bicicleta como mais um veículo de transporte, talvez o principal, entre TP e carro:

    Helton, o art. 58 fala sobre “bordos” da pista e não sobre “bordo direito”. Utilizo os dois bordos, conforme a segurança da via e minhas intenções de deslocamento
    . Já foi discutido neste blog sobre o conceito de “bordos da pista” como sendo diferente de bordo da faixa de rolamento. Concordo. Constatei, na prática, que as situações de risco (basicamente “finas” em alta velocidade e “fechamentos”) diminuíram drasticamente quando eu me posicionei de modo a ocupar toda uma faixa de rolamento.
    Minha regra é: mais de uma faixa de rolamento tenho permissão legal de usar uma faixa inteira. E, além, verifiquei que quanto maior a velocidade permitida (e/ou praticada) na via, mais seguro eu estarei se me posicionar mais ainda quase junto a faixa seguinte. Ou seja: se estou na faixa de direita e a velocidade é 60 km/h me posiciono mais à esquerda da faixa, obrigando o motorista a realmente mudar de faixa para me ultrapassar. Talvez isso ocorra pq em vias de maior velocidade as faixas são mais largas e se vc se posicionar no meio da faixa o motorista ainda tem espaço para te ultrapassar de modo homicida utilizando a sua faixa.
    Em ruas estreitas em que os carros tem que me espremer contra os estacionados para ultrapassar tb ocupo a via toda e quando vejo um buraco de 2 ou mais carros no estacionamento ou nas esquinas dou lado para que me ultrapassem, em ruas de uma faixa um pouco mais larga é possível liberar a via, se a velocidade for baixa, mas se vejo no espelho e/ou ouço um carro em alta velocidade e uma distância ainda grande me “faço de louco” e entro no meio da pista por alguns instantes (o suficiente para o veículo me ver e baixar a velocidade) e logo depois dou lado para ele me ultrapassar em uma velocidade muito mais razoável.
    Essa tem sido as minhas regras de ouro que aumentaram MUITO minha segurança no trânsito, depois de ter escapado com muita sorte de alguns atropelamentos em alta velocidade por estar no bordo da faixa ao invés do bordo da pista ou mesmo ocupando a pista toda.
    Segurança em primeiro lugar, depois o questionamento se é uma possível infração que nem penalidade regulamentada têm.
    Primeiro o direito à vida e à ir e vir e depois regulamentos tendenciosos e omissos com alguns modais sobre outros.
    Não há pq se intimidar com uma buzinada ou xingão de algum ogro que nem carteira de motorista deveria ter.

    Obs.: obviamente é MUITO importante ser MUITO visto e ouvido e em meio a esse trânsito violento e caótico. Uso as regras acima em conjunto com 2 luzes vermelhas piscantes traseiras (uma, de leds de alto brilho, no capacete e outra no canote do selim) ligadas dia e noite, VÁRIOS e LARGOS adesivos reflexivos distribuídos por toda a bicicleta, principalmente na parte traseira, olho de gato nos pedais e um extra virado para a traseira, um pisca de cor branca para a dianteira e uma buzina elétrica de ruído semelhante às de moto. Os adesivos e piscas são muito importantes mesmo de dia, sendo que os adesivos refletem muito a luz do sol e os faróis dos veículos.

    Quanto à faixa de pedestres me posiciona entre ela e a faixa de veículos automotores a fim de ver o semáforo. Mas também atravesso no vermelho se não tiver nenhum pedestre em menção de atravessar e minha visibilidade for suficiente para não me colocar em risco.

    De resto, em engarrafamentos não há pq não se comportar como uma moto em meio aos “corredores” que, sim, são permitidos de serem utilizados. Obviamente, com muita cautela.

    Abraços.

    • heltonbiker disse:

      Interessante a tua estratégia de “se fazer de louco”. Não tenho ânimo para pôr sempre em prática algo que testei uma vez, mas funcionou muito bem, era o seguinte: acompanhando pelo retrovisor (de capacete, que eu uso e recomendo muito), cuido quando e como vêm os veículos por trás. Depois de, andando em linha perfeitamente reta, ter tomado várias fininhas (isso foi numa estrada sem acostamento), cada vez que via um carro vindo, começava a “cambalear” de propósito, como se estivesse bêbado, para assustar o motorista que ainda estava longe. Ele na hora já ia lá pro meio, passava bem longe… Claro que na hora que ele passava eu andava retinho, no cantinho. A gente pode achar que é mais perigoso ir pro meio da rua, mas por incrível que pareça às vezes é (e infelizmente a gente tem que criar a própria segurança usando essas táticas que por si só já são fonte de desconforto…)

  4. Aldo M. disse:

    Tenho respostas para todas elas, Helton.

    Qual é a forma correta de o ciclista ultrapassar outro veículo?
    R. Gritando algo como: “Por que não te livras dessa banheira?”.

    É correto/seguro NÃO andar em fila indiana quando houver outros ciclistas?
    R. Sim, porque se consegue ver o rosto da outra pessoa e fica muito mais agradável e fácil de se conversar.

    Quando o trânsito está PARADO, qual é a atitude correta para o ciclista?
    R. Passar por cima, esmagando os veículos que estiverem à frente.

    Qual é o posicionamento melhor/certo do ciclista ao parar no semáforo?
    R. Parar no semáforo? Ficaste maluco?

  5. Aldo M. disse:

    Fazendo uma paródia…

    Quando estou dirigindo meu automóvel, às vezes também me pergunto se, afinal, é possível/viável/fácil/seguro ao motorista andar PERFEITAMENTE na lei, em nosso trânsito?

    Como material para reflexão trago as seguintes perguntas:

    O motorista deve sinalizar quando pretende mudar de faixa ou converter?
    Embora esteja previsto no CTB, quase ninguém aqui em PoA sinaliza. Se eu ligar a seta, posso ser confundido com um paulista e com certeza irão buzinar e rir da minha cara. Além disso, se eu sinalizar, os outros vão saber para onde vou e tentarão ir primeiro.

    Deve-se parar completamente quando houver placa “PARE”?
    Claro que não! Nunca vi niguém fazer isso aqui na República Riograndense. Também não sei de ninguém que tenha levado uma multa. O certo é só dar uma diminuidinha bem de leve.

    Pode-se arrancar antes do sinal abrir, quando consegue se ver que já fechou para a rua transversal?
    Sim, claro. Isso é ser esperto, e se você não o fizer, o táxi atrás de ti irá buzinar.

    Quando o trânsito após um cruzamento parar, mas o sinal estiver aberto, o motorista deve avançar, mesmo que tranque tudo?
    Sim, é o direito de preferência. Se ficar comendo mosca, o motorista que está ao seu lado irá ultrapassar e entrar na tua faixa. Além disso, os da transversal também irão te trancar na vez deles.

    Deve-se parar na faixa se segurança quando houver pedestres esperando para atravessar?
    Só se esticarem bem a mãozinha, e olhe lá!

    Se não houver pardal nem radar, deve-se respeitar o limite de velocidade?
    Só se quiseres arriscar ser abalroado pelo veículo de trás.

    (aviso: para os que eventualmente não perceberam, este é um texto sarcástico que mostra situações infelizmente muito comuns em nosso trânsito. Não deve ser tomado no sentido literal, bem como o texto anterior)

    • heltonbiker disse:

      A frase que define o espírito do nosso trânsito: “(…) se eu sinalizar, os outros vão saber para onde vou e tentarão ir primeiro.”

      Gargalhei quando li, de tão real que é… (Aliás, eu dirigia assim, quando tinha carro… Que feio…)

  6. Gustavo disse:

    Acho que em qualquer situação dessas vale o bom-senso, não a lei, que não é feita para nós…

    Por exemplo, sinaleira de pedestre eu só paro se tiver pedestre… mas cruzamento eu paro sempre, mesmo que dê pra seguir adiante tranquilo, ainda mais se tiver carro parado. 1o porque me irrita, como ciclista, ver um companheiro passando reto no sinal fechado, apesar de eu entender os motivos. 2o porque passa a imagem para o motorista de que a bicicleta está inserida no trânsito, assim como o carro. Do contrário, se eu passasse reto, além de poder estar me colocando numa situação de perigo, ainda deixaria aquela impressão de que o ciclista pouco se lixa, o que é o suficiente pra alguém mais desequilibrado me alcançar e passar coladinho em mim, “se fazendo de louco” também :(

    Tb não entendo como ficar parado na frente da faixa de segurança ajuda… se sempre tem aquele espaço vago entre a faixa horizontal e a faixa de pedestre, porque não usar como um bikebox? É só ficar de olho na sinaleira de pedestre, ou na sinaleira da rua adjacente, esperando pelo amarelo e avançar caso não tenha ninguém na faixa… e tu se posiciona na frente do carro, não tem perigo nenhum. Motoquero ñ incomoda pn. Se tu ñ vai converter a direita, fica mais a esquerda e deu.

    Eu ñ me acostumei a sinaliza, e acho que não vou também… eu “sinalizo” olhando pra trás, e andando como “bêbado” como o rapaz aí disse :P

    • Aldo M. disse:

      Em Paris, os ciclistas está sendo autorizados, em alguns cruzamentos específicos por enquanto, a avançarem no sinal vermelho, se não houver carros na transversal. Também lá, os ciclistas podem andar na contra-mão nas ruas de mão-única.
      Aqui, muitas vezes eu avalio que é menos arriscado cruzar o sinal vermelho que aguardar e sair junto com os carros. Não me agrada muito, mas não devemos deixar de lado o bom senso ao tomarmos nossas decisões apenas para obedecermos cegamente a uma determinada regra.
      Sinalizar olhando para trás, desde de que seja efetivo, para mim é perfeitamente válido. A essência é comunicar. O único problema é que outros para os quais tu não olhaste talvez também devessem saber das tuas intenções.

  7. Gabriel W. disse:

    Paro em 90% nos semáforos. Os 10% são de noite ou casos especias como sábado-domingo demnhã quando poucos pessoas estão na rua.
    Mais que pela lei eu paro pra “dar exemplo” pros motoristas, e 95% das vezes que paro tem algum carro vizinho olhando pra mim de bike esperando o semáforo abrir assim como ele, dá quase pra ver a cara deles de “bá, isso acontece, isso é possível”. E é mais legal ainda quando eu encontro o mesmo carro vizinho no próximo semáforo, daí ele fica com aquela cara de “wow”.

  8. Jeferson disse:

    Na minha opinião, a pergunta central do post não está bem posta. Não se trata de saber se os ciclistas devem ou não seguir esta ou aquela lei. Se trata de um sistema de interações muito mais amplo, do qual as leis são um aspecto. Quem usa bicicleta sabe que as relações de trânsito não são entre ciclistas e leis, mas entre ciclistas e inúmeros agentes e objetos (motoristas, pedestres, vias traçadas para carros etc). Esse sistema no seu todo é francamente ILEGAL, ILEGÍTIMO e VIOLENTO. Como andar na lei num sistema assim? As leis não servem somente para dizer, a priori, as maneiras pelas quais devemos todos agir. No caso do uso de bicicletas, o corpo de leis beira a fantasia, pois nem foi construído sobre costumes, nem sobre a prática diária de andar de bicicleta em ambientes adversos a ela. Os nobres e austeros ciclistas que te criticaram por não respeitar “leis” possivelmente não usam bicicleta como meio de transporte.

    • heltonbiker disse:

      Seguindo essa linha, a pergunta então, ao invés de ser “Afinal, é possível/viável/fácil/seguro ao ciclista andar PERFEITAMENTE na lei, em nosso trânsito?”, seria:

      “Afinal, e antes de mais nada, será que o ciclista DEVERIA TENTAR seguir ESSAS leis?”

  9. lobodopampa disse:

    As normas de trânsito se baseiam em convenções que por sua vez são a melhor maneira encontrada até hoje para que a maioria das pessoas consiga coexistir e se comunicar minimamente bem enquanto se movimenta pelas ruas e estradas. Quem compreende essas convenções, seja por intuição, por ter tido uma boa instrução (coisa rara) ou por tentativa e erro al longo de anos, consegue se sair bem com um mínimo de conflito e frustração.

    Se você está se envolvendo em conflitos com freqüência que lhe parece inaceitável, ou se sente pressionado e ameaçado o tempo todo, e tem a tendência de acreditar que “o mundo está contra o ciclista”, é porque

    - você ainda não compreendeu bem esses princípios, ou
    - talvez você tenha compreendido (como motorista), mas não consegue aplicá-los ao conduzir bicicleta, ou
    - você precisa praticar mais em situações de menor complexidade, risco e tensão, e pouco a pouco migrar para as situações mais complexas, à medida em que a auto-confiança crescer de mãos dadas com as habilidades de condução, comunicação, antecipação etc.

    Pode-se especular sobre como essas normas deveriam ser adaptadas à bicicleta. Pessoalmente sou da opinião contrária, creio que regras separadas (as poucas que já existem) são uma das raízes do problema. Se mais regras específicas forem criadas, o papel da bicicleta como veículo será definitivamente comprometido.

    Portanto, na minha opinião, respondendo a pergunta acima, devemos (não por senso de dever, mas para o nosso próprio bem) seguir as convenções que se baseiam nos princípios e práticas que todo condutor competente, responsável e educado conhece e segue. Nas situações excepcionais em que a lei infelizmente conflitua com os princípios que subjazem às normas de circulação, eu recomendo seguir os princípios e não a lei de forma literal. Exemplo: para fazer uma conversão à esquerda, é necessário desobedecer a norma de manter-se sempre no bordo da pista (obviamente).

    Os princípios fundamentais do ciclismo veicular são praticamente os mesmos de qualquer outro veículo. São apenas 5, mas, se bem compreendidos, revelam-se a chave para deslindar quase todas as situações de trânsito.

    http://vadebici.wordpress.com/2011/09/18/ciclismo-veicular/

    (rolar a página bastante para baixo)

    Sei que alguns discordam dessa concepção. Tudo bem.

    Apenas peço que não tentem desqualificar/simplificar essa concepção com esse papo de bairro, horário, etc. O que expus aqui não depende de circunstâncias. Tenho 17 mil km pedalados em 5 anos com apenas UMA das minhas atuais 4 bicicletas, em muitos bairros, em estradas, e em todos os horários. Sei do que estou falando.

    • heltonbiker disse:

      Respeito muito a tua opinião (tanto que vivo citando-a), mas me parece que, no caso específico do ciclista que se sente permanentemente pressionado pelo trânsito (que até não é o assunto principal deste post específico), faltou a variável “você está andando em um ambiente, de fato, hostil ao ciclista” (que é uma coisa que existe objetivamente, e não só na cabeça de paranóicos/neuróticos). Acho que nesse caso o horário e o trajeto contam, pois principalmente na hora do pré-gridlock (quando o trânsito ainda não “parou”, mas o fluxo é intenso e a disputa por espaço mais ainda) a coisa pode ser bem hostil para o ciclista, a ponto de ele ter muita dificuldade em manter o conforto psíquico (para não falar na segurança objetiva), independente de experiência, habilidade, preparo físico ou uso de ciclismo veicular. Sei que esse é um assunto polêmico, e por isso mesmo acho que ele merece ser debatido a avaliado enquanto nossas condições de trafegabilidade urbana não se humanizarem um pouco.

      • Aldo M. disse:

        Para complicar ainda mais, eu perguntaria qual é mesmo a lei em relação à bicicleta? Há muita ignorância aí, seja entre ciclistas e motoristas, seja em autoridades de trânsito. Há uma tendência a se achar o cotidiano certo. Então congestionamentos são considerados normais, assim como acidentes e mortes. Já uma bicicleta no meio do trânsito, para muitos, parece errado. Chegaram a dizer que o ciclista atropelado pelo Thor não deveria ESTAR ali. Ou seja, não deveria existir.

        Acho mais produtivo discutir situações específicas no trânsito. Gostei das estratégias para evitar finos, evitando andar em linha reta quando um carro estiver se aproximando por trás. Outra situação de risco bastante estressante é a dos carros e ônibus andando colados na traseira. Não conheço ainda uma estratégia mais eficiente que fugir, mesmo que seja para a calçada. Não considero essa uma boa oportunidade para afirmar que a bicicleta é um veículo e tem prioridade de trânsito nas vias.

    • lobodopampa disse:

      Eu tbém acho mais produtivo discutir situações específicas e soluções que estejam ao alcance de todos e sejam independentes de questões macro. (Mesmo assim eu me envolvo na militância por melhorias no nível macro, mas não porque eu sinta necessidade delas, e sim porque acho que elas beneficiarão a todos, especialmente às próximas gerações).

      Então que tal começar estudando este excelente manual do John Allen?

      http://bikexprt.com/streetsmarts/usa/index.htm

      Primeiro compreender o que está escrito ali. Depois tentar sinceramente aplicar aquilo tudo na prática. Passo a passo, sem pular etapas em demasia. Sem tentar encontrar a “exceção” antes de entender a “regra”. Sem essa de “eu faço assim e pronto, quando o governo melhorar eu penso em melhorar um pouco tbém”. Pense que você aprimorando suas habilidades de condução, atenção, comunicação, você faz um ENORME BEM a SI MESMO. Não é uma questão de ser obediente, pessoal! É uma questão de conviver bem consigo e com os outros. É possível. Muitas pessoas conseguem. Se elas conseguem é porque é possível. Mesmo que algumas pessoas que não conseguem façam muito barulho na internet tentando provar que o mundo está todo errado e eles estão certos. E quem não consegue e tenta desqualificar a versão de quem consegue está ap

      Dar uma lida por cima, dizer que “aqui isso não funciona”, ou “aqui motorista não respeita” não vale.

      Depois disso, quando tivermos uma boa base, podemos fazer um debate pra valer, estudar nos detalhes, ver se tem alguma coisa que precisa ser adaptada.

      O manual do J. Allen tem menos de 50 páginas e muitas delas são ilustrações.

      Está em inglês apenas (por enquanto) mas isso não é obstáculo para os nossos cultos cicloativistas.

      Uma pessoa tem que investir algo como 40 horas de sua vida durante no mínimo 1 mês (fora o gasto em $) para obter as condições absolutamente mínimas de conduzir um veículo motorizado. Condições essas que muitos de nós consideramos insuficientes.

      Será que a bicicleta, pela qual nos dizemos apaixonados, não vale um esforço ao menos semelhante a esse?

      http://bikexprt.com/streetsmarts/usa/index.htm

      • heltonbiker disse:

        Peço desculpa se o comentário ficou aguardando moderação, não costumo entrar nessa parte de administração do blog, mas vou começar a fazê-lo pelo menos para os meus posts. Já estou lendo o material e de fato parece ser de alto nível. Quando terminar de lê-lo, posso entrar em contato contigo para talvez darmos um encaminhamento no estilo tradução/reformatação.

      • lobodopampa disse:

        Beleza. Numa dessas eu entro em contato com o autor ou editores pra ver se rola uma autorização.

        Talvez seja melhor ainda produzir um material próprio, totalmente ambientado no nosso contexto. Porém sem reinventar a roda.

      • Aldo M. disse:

        Esta discussão está bem interessante. Há algo aí que deveria ser feito. Dei uma lida rápida no material e tive uma ideia: E se fizéssemos uma versão em quadrinhos voltada para crianças? Eu achei o máximo quando o Helton descobriu e começou a traduzir as tirinhas do Yehuda, e a Lívia Araújo criou as suas. Não só um manual, mas histórias que mostrem crianças se divertindo com suas bicicletas, seja na época de seus pais, em outros países, em comunidades menores, etc. Enfim, algo que mostre que a bicicleta pode ocupar um lugar na vida das pessoas maior que hoje, e as maravilhosas consequências disso. É claro que uma história para crianças obrigatoriamente envolverá seus pais, que inclusive serão demandados pelos próprios filhos. Além disso, do jeito devagar que as coisas tem andado, faz bastante sentido despertar o ciclo-ativismo nos que hoje ainda são crianças.
        Já fizeste alguma oficina de ciclismo veicular para crianças, Artur? Imaginei se fosse feita uma aos domingos, em algum lugar da Redenção, por exemplo. Quando começarem a ver crianças entusiasmadas, aprendendo a andar no trânsito, sinalizando com os braços, ninguém mais poderá sustentar que bicicleta no trânsito e coisa de ciclo-chatos, anarquistas, etc. E, com certeza, as crianças despertarão ainda mais a vontade dos adultos em resgatar as ruas como espaço lúdico, mesmo quando for para ir ao trabalho.

  10. airesbecker disse:

    A verdade é que todas as Lei que temos podem ser imprecisas ou imperfeitas.
    Mas grande verdade é que a maior Lei a regrar o ciclismo como um todo em nossa cidade se chama PDCI e não é respeitada, mas não são os ciclistas que a desrespeitam e sim a administração do prefeitura, que desvia as verbas e desrespeita o espaço público da Rede Cicloviária Estrutural, destinando os espaço do gravame para estacionamento de vaículo.

    • lobodopampa disse:

      O PDCI não tem nada a ver com as normas escritas e não-escritas de circulação e conduta que estas são sim a base de todos os deslocamentos e com a bicicleta não haveria por que ser diferente.

      Ciclistas e motoristas conduziram, conduzem, e conduzirão bem, mal, e muito mal, independente do PDCI ser implementado.

  11. Fernando Filho disse:

    A minha leitura do art. 58 do CTB vai além da simples regra de conduta do ciclista. Quando o art. diz que a circulação será no bordo “quando não houver ciclovia e ciclofaixa”, ele estabelece uma regra geral e uma de exceção. A regra geral é a circulação em ciclovias e ciclofaixas e a exceção o compartilhamento. Mas hoje, todos nós andamos predominantemente em regime de exceção. É injusto impor condutas ao ciclista sem lhe dar condições de tráfego. Então ao meu ver, quaisquer condutas no trânsito que nao exponham os outros a riscos e que sirvam para garantir a própria segurança são absolutamente legítimas, sejam ocupar a faixa da direita, parar antes ou depois da faixa de segurança, ultrapassar pela esquerda, entre os carros, etc.
    Ao meu ver, o art. 58 se aplicaria em vias que possibilitam o compartilhamento de forma segura, devendo ser interpretado juntamente com os arts. 21, inc II, 29, par. 2 e 38, par. ún.

    • heltonbiker disse:

      Excelente. Também, no meu entender, essa interpretação do Art. 58 (exceção vs. regra) pode e deve ser usada como argumento exigindo a implementação imediata do PDCI.

      • lobodopampa disse:

        É mesmo? Quer dizer que vocês imaginam (ou ao menos desejam) um mundo com ciclovias em praticamente TODAS as ruas e ciclistas impedidos de pedalar em quaisquer outros lugares?

        Seria a única maneira de embasar o argumento que ciclovia é a REGRA.

  12. lobodopampa disse:

    Tem um comentário propositivo meu que desde ontem aparece pra mim como “aguardando moderação”. Como não sei se o mesmo está sendo visualizado pelos leitores, vou me permitir repeti-lo.


    Eu tbém acho mais produtivo discutir situações específicas e soluções que estejam ao alcance de todos e sejam independentes de questões macro. (Mesmo assim eu me envolvo na militância por melhorias no nível macro, mas não porque eu sinta necessidade delas, e sim porque acho que elas beneficiarão a todos, especialmente às próximas gerações).

    Então que tal começar estudando este excelente manual do John Allen? É de graça e é o melhor que eu conheço.

    http://bikexprt.com/streetsmarts/usa/index.htm

    Primeiro compreender o que está escrito ali. Depois tentar sinceramente aplicar aquilo tudo na prática. Passo a passo, sem pular etapas em demasia. Sem tentar encontrar a “exceção” antes de entender a “regra”. Sem essa de “eu faço assim e pronto, quando o governo melhorar eu penso em melhorar um pouco tbém”. Pense que você aprimorando suas habilidades de condução, atenção, comunicação, você faz um ENORME BEM a SI MESMO. Não é uma questão de ser obediente, pessoal! É uma questão de conviver bem consigo e com os outros. É possível. Muitas pessoas conseguem. Se elas conseguem é porque é possível. Mesmo que algumas pessoas que não conseguem façam muito barulho na internet tentando provar que o mundo está todo errado e eles estão certos. E quem não consegue e tenta desqualificar a versão de quem consegue, bem – me desculpem – está tentando nivelar o conhecimento da comunidade por baixo. Ou tentando justificar a própria escolha de não se instruir. Ou querendo que as coisas dêem errado, para poder continuar se queixando.

    Dar uma lida por cima, dizer que “aqui isso não funciona”, ou “aqui motorista não respeita” não vale.

    Depois disso, quando tivermos uma boa base, podemos fazer um debate pra valer, estudar nos detalhes, ver se tem alguma coisa que precisa ser adaptada.

    O manual do J. Allen tem menos de 50 páginas e muitas delas são ilustrações.

    Está em inglês apenas (por enquanto) mas isso não é obstáculo para os nossos cultos cicloativistas.

    Uma pessoa tem que investir algo como 40 horas de sua vida durante no mínimo 1 mês (fora o gasto em $) para obter as condições absolutamente mínimas de conduzir um veículo motorizado. Condições essas que muitos de nós consideramos insuficientes.

    Será que a bicicleta, pela qual nos dizemos apaixonados, não vale um esforço AO MENOS semelhante a esse?

    http://bikexprt.com/streetsmarts/usa/index.htm

  13. Rafael Zart disse:

    País de leis importadas adaptadas com visão técnica inexistente por pessoas que não são atingidas pelas mesmas. Isso que dá, está todo mundo enquadrado e, ao mesmo tempo, salvo por elas.

    Em tempo, mais um post brilhante.

  14. lobodopampa disse:

    Postei um comentário propositivo em resposta a esta frase do Aldo:

    “Acho mais produtivo discutir situações específicas no trânsito. ”

    Porém o dito comentário está no limbo aguardando moderação desde ontem. Eu mesmo não consegui aprová-lo, então peço ao Helton que o faça.

    Minha única meta é informar.

    Muita coisa não teria sido escrita neste tópico se as pessoas se informassem mais.

  15. “as leis não bastam. Os lírios não nascem da lei.” Carlos Drummond de Andrade

  16. Com relação à terceira pergunta, o CTB nos diz:
    Art. 211. Ultrapassar veículos em fila, parados em razão de sinal luminoso, cancela, bloqueio viário parcial ou qualquer outro obstáculo com exceção dos veículos não motorizados</strong:
    Infração: Grave. Penalidade: Multa.

    Parados, os automóveis não oferecem risco ao ciclista.

    Portanto, é perfeitamente lícito ao ciclista ultrapassar os pelo corredor os carros parados no sinal vermelho. Além de ajudar a fluir o trânsito, em termos práticos é conveniente ao ciclista sair detrás dos carros parados no semáforo também para evitar ficar respirando os gases dos escapamentos.

    • marcosknijnik disse:

      Também havia notado isso assim que li o post. Um ciclista pode (e na minha opinião deve) sair de trás de carros quando esses estão parados e utilizar o corredor. Isso é completamente legal, como visto no Art. 211.

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