Para EPTC, ciclovias ameaçam a fluidez do trânsito

Em conversa com o blog Somos Andando o coordenador de Projetos de Mobilidade da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) Régulo Franquine Ferrari disse que a implementação de ciclovias ameaçaria a fluidez do trânsito, devido à possível diminuição das pistas para carros. Essa declaração não foi a única em que representantes do órgão de trânsito disseram que ciclovias piorariam o trânsito em Porto Alegre. Ano passado em reunião com ciclistas, o diretor-presidente da EPTC, Vanderlei Capellari disse que se a EPTC fizesse uma ciclofaixa na Avenida Loureiro da Silva, o trânsito ia parar…

Enquanto no mundo todo, as ciclovias têm se apresentado como parte da solução para dar mais fluidez e descongestionar as vias urbanas, para a administração de Porto Alegre parece que elas são o problema (embora ainda nem existam). Isso explica em muito por que o Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre não é cumprido. Os administradores o vêem mais como um estorvo do que como algo que vá ajudar a desafogar o trânsito e tornar Porto Alegre mais agradável de se viver.

De acordo com os especialistas da EPTC as vias em Porto Alegre são estreitas demais para comportar ciclovias (discurso mencionado diversas vezes em reuniões). Realmente se a Loureiro da Silva e a avenida Ipiranga não têm espaço para ciclovias (cada uma com até oito faixas de rolamento) nenhuma outra rua terá. É engraçado que muitas cidades na Europa têm ruas mais estreitas que as de Porto Alegre e eles encontraram espaço para as ciclovias.

Mas segundo Régulo Ferrari a solução para Porto Alegre não é a ciclovia. A solução seria o motorista respeitar mais o ciclista, isentando assim a EPTC de qualquer responsabilidade sobre medidas para inserir e incentivar o uso da bicicleta em Porto Alegre. Na verdade, essa medida (educação dos motoristas) foi um dos pedidos à Prefeitura Municipal de Porto Alegre e à EPTC, e que, como todos os outros pedidos, nunca foi atendido.

É engraçado Régulo Ferrari dizer que a solução é a educação dos motoristas, quando a EPTC nunca fez uma única campanha para conscientizar os motoristas de como conviver com ciclistas na via e nunca ter multado um único motorista por não ter respeitado o 1,5m de distância regulamentar.

Porto Alegre está na contra-mão quando o quesito é mobilidade urbana e valorização dos espaços públicos, está realizando obras que deixariam qualquer urbanista, especialista em mobilidade urbana com os cabelos em pé. Duplicação de avenidas diminuindo calçadas e áreas verdes, construção de viadutos, construção de estacionamento subterrâneos no centro da cidade. Obras que degradam a cidade, possuem efeito paliativo e custam fortunas (com o valor dos cinco viadutos previstos para a terceira perimetral, seria possível construir 500km de ciclovias).

Mas Régulo resumiu bem as prioridades da administração municipal: “A prioridade são veículos automotores e pedestres”. Notem que os veículos automotores vêm antes dos pedestres, isso fica óbvio quando vemos o quanto o pedestre é penalizado em Porto Alegre: a administração atual vêm instalando quilômetros e mais quilômetros de gradis que tiram a liberdade do pedestre e o forçam a fazer trajetos absurdos para atravessar uma simples rua.

Embora não esteja praticamente nenhuma medida oficial para incentivar a utilização da bicicleta como modal de transporte em Porto Alegre, o número de ciclistas vêm crescendo visivelmente. A posição da EPTC é patética e criminosa, a administração da cidade descumpre as leis que ela mesmo criou. Nesta terça-feira tem Bicicletada Nacional, vamos todos às ruas mostrar a Porto Alegre que queremos.

About these ads
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

20 respostas para Para EPTC, ciclovias ameaçam a fluidez do trânsito

  1. Diego Alves disse:

    Poa sempre na vanguarda. Com gestores inteligentes e extremamente preocupados com o bem estar da população. [NOT]. Bafo na nuca da EPTC e da PMPA. Estou pensando em criar um blog de humor sobre o Plano Cicloviário de Porto Alegre. Um saco de promessas, que tal? Uma imagem com links para as diversas promessas e prazos do plano. Lembram do querido secretário Senna? Ele e o Fogaça com aquela fala mansa, jeito maroto e muito xalala.

  2. Melissa disse:

    Pô, o Régulo falou isso? O autor do Plano Cicloviário? Que bizarro.
    Quando ele diz que a prioridade são os automóveis e pedestres, não me parece ser uma posição pessoal dele, mas sim a realidade da empresa em que trabalha. De qualquer forma, é lamentável ler essas coisas. Ainda bem que temos um movimento crescente e que aos poucos está caindo a ficha de mais pessoas quanto à utilização diária do carro. Chega de bundamolização, né?

    • lobodopampa disse:

      Que me conste o Plano foi encomendado a uma empresa especializada, não é “obra” de nenhum funcionário da Prefeitura. No máximo tem o aval deles.

      O que não consigo entender é por que raios o Fogaça encomendou esse plano e sancionou a lei? Mobilidade por bicicleta nunca esteve no plano de governo nem nunca foi mencionada em campanha.

      Eu tbém acho que a solução é educar (não o “motorista”, e sim as pessoas – todas elas), mas isso só vai acontecer quando Educação de maneira geral voltar a ser tratado como um tema crucial com empenho total dos governos nos 3 níveis.

      Boa análise resumida da história cicloviária recente.

      • Marcelo disse:

        Artur e Melissa, o Plano Diretor Cicloviário foi uma contrapartida exigida pelo BID para financiar as obras da terceira perimetral. Por isso a Prefeitura criou o Plano Diretor Cicloviário, para que fosse possível fazer a terceira perimetral. Não era um desejo deles, mas uma exigência.

      • Aldo M. disse:

        A Lei do Plano Cicloviário de Porto Alegre é um blefe. Só existe para dar de mão beijada a permissão de construir absurdos empreendimentos comerciais. O item que prevê a ínfima contrapartida de meio metro de ciclovia por vaga de estacionamento não tem nada a ver com plano cicloviário, mas tá lá, escondido no finzinho do texto. Chega a ser irônico que, para ganhar investimentos em ciclovias, os cidadãos sejam levados a torcer por mais vagas de estacionamento de automóveis em shoppings, inclusive em áreas da cidade cujo trânsito já está saturado.

      • Aldo M. disse:

        Eu não sabia que era uma exigência do BID. Mas, como tem se constatado, o plano até agora foi só “para inglês ver”. Por que o BID não exigiu algo mais concreto e óbvio, como uma ciclovia na própria 3ª Perimetral?

      • Olavo Ludwig disse:

        Fica cada vez mais difícil acreditar na educação sabendo como o governo trata os professores. Mas de qualquer forma o investimento em estrutura cicloviária se mostra um importante passo em várias cidades pelo mundo, não dá para negar isso, por mais que a nossa prefeitura queira.

    • lobodopampa disse:

      Marcelo, temos acesso a documentação demonstrando isso?

      Aldo, ouvi várias vezes um forte boato dizendo que na verdade ESTAVA PREVISTA e planejada ciclovia na III Perimetral, e que esta teria sido eliminada “em tempo” por um forte lobby empresarial (não me lembro de que ramo, provavelmente de transportes).

  3. Cynara disse:

    O nome do cara é Ferrari ou vocês tão brincando? como é que um Ferrari vai querer saber de ciclovia?

  4. heltonbiker disse:

    “Ano passado em reunião com ciclistas, o diretor-presidente da EPTC, Vanderlei Capellari disse que se a EPTC fizesse uma ciclofaixa na Avenida Loureiro da Silva, o trânsito ia parar…”

    …E O PREFEITO NÃO IA SE REELEGER!!

    (dito assim, na sequência mesmo, inclusive foi gravado)

    • lobodopampa disse:

      Se não me engano, ele disse que ia parar se a EPTC “desse” os 30 cm a mais que fariam a ciclofaixa crescer para 1,8 m – o que é ainda mais ridículo

  5. Daniela disse:

    A loureiro da silva parece otima pra ciclovia, é larga, e não tem um transito tão forte, 5vezes por semana passo por essa rua, não sei que transito pararia com uma ciclovia ali. Tem pequenos trechos que trancam em 2 cruzamentos, na esquina lima e silva E tb na da jose do patrocinio, mas é só em horario mega de pico, eles já trancam pela natureza das conversões e posicionamento das paradas de onibus, no resto dos horarios dá pra fazer picnic na rua.

  6. André Paz disse:

    Esse é o vídeo que os antas do nosso (des)governo precisam ver…

    ‎”Então, quando demos espaços às bicicletas, talvez as ruas tenham ficado congestionadas por um certo tempo. Mas mais gente começou a pedalar e os carros começaram a andar com fluidez novamente…”

    Por que raios as soluções têm que ser imediatistas por aqui?

    • Ana VAleria Bratkowski disse:

      em porto alegre, há uma movimentação para abrir, cada vez mais, o centro histórico para o trânsito de veículos particulares. as áreas para pedestres forma eliminadas como o largo glenio peres que se transformou em um grande estacionamento, e como resultado temos o calçamento constantemente quebrado. há a valorização de prédios para moradias, uma especulação imobiliária apoiada pela pmpa. e etc

  7. O Senhor Régulo e algo do outro mundo. Ele quer agradar o chefe e o chefe maior este é o objetivo, quer ficar bem visto pelos “políticos” como ele falava nas reuniões. Que tristeza, tem coisas do comportamento humano que são inexplicáveis. Arquiteto urbanista com esta visão? Gostaria de saber qual foi a faculdade de Arquitetura ou o curso de especialização, que levou o individuo a pensar assim. Quiçá seja esta uma das teorias válidas de mobilidade urbana, será que existe isto. Será isto resultado de uma grande experiência no setor, em cidades com excesso de veículos. Saúde.

  8. pedrolunaris disse:

    Porto Alegre tem vias apertadas para fazer ciclovia QUANDO SE ESTÁ PENSANDO EM NÃO PERDER LUGAR PARA OS CARROS! Sabemos que a Ipiranga parece apertada, quer dizer, quando está cheia de carros parados eu não tenho espaço para passar de bicicleta. Portanto, para pôr uma ciclofaixa ali, seria necessário retirar uma via dos carros. Um ÓTIMO INVESTIMENTO quando se pensa a médio e longo prazo, no que possibilita uma cidade com infra-estrutura segura para ciclistas. Mas, para isso, é preciso políticos com estratégia; e com coragem frente a inércia na qual estamos inseridos, que é carrocêntrica. E isso nós não temos! E isso, de novo, o próprio Cappelari diz, quando anuncia que precisa de pressão pública para fazer qualquer coisa.

    Ciclofaixas e ciclovias só são um péssimo investimento quando se pensa na estrutura já armada. Às vezes é difícil entender porque nossos políticos resistem de tantas formas, veladas e abertas, a sua implementação, quando o mundo tem tantos e tantos exemplos de urbanidade que em muito se baseiam nelas. Eu acho que a resposta é simples: a grana atualmente não está nas ciclovias e ciclofaixas. Como dizem os norte-americanos: “follow the money”. A arrecadação do IPVA é muito importante para as Prefeituras, e o lobby automobilístico é gigantesco no Brasil.

    O que não entra em perspectiva é que vias nas quais há mais pedestres e ciclistas ganham um grande acréscimo no comércio. Pode-se atestar isso, de novo, nas cidades que fazem grandes investimentos nos modais de locomoção alternativos aos carros. Mas parece que é um absurdo, dado que é tão estranho ao nosso modelo. De novo, precisamos de pessoas capazes de planejar, verificar estudos, agir com coragem; e disso, nosso políticos não parecem capazes.

    Então cabe mesmo a nós, enquanto população, mostrar como essa mentalidade de governo está ultrapassada, e não tem mais lugar.

  9. pedrolunaris disse:

    “É engraçado Régulo Ferrari dizer que a solução é a educação dos motoristas, quando a EPTC nunca fez uma única campanha para conscientizar os motoristas de como conviver com ciclistas na via e nunca ter multado um único motorista por não ter respeitado o 1,5m de distância regulamentar.”

    É realmente engraçado. Quase que eu disse “é, mas a EPTC fez uma campanha sobre andar de bicicleta na cidade”, e aí me dei conta que ela foi voltada para os próprios ciclistas. Era o tal do MOVIMAN. Argh!

    Aliás, houveram várias reuniões com a parte educativa da EPTC para se elaborar uma campanha sobre bicicletas no trânsito voltadas aos motoristas. O que aconteceu com o que estava sendo elaborado???

    • lobodopampa disse:

      Aconteceu que na hora H, depois que um grupo de mais ou menos 10 pessoas (incluindo 3 ótimos funcionários da EPTC/Educação) haviam doado muitas noites e muita saliva, alguém “lá de cima” mudou completamente o texto já exaustivamente combinado. Os ciclistas participantes desse GT se negaram a endossar aquilo, e a EPTC aparentemente decidiu não imprimir (já que não poderia mais afirmar que era um trabalho em conjunto com a comunidade) e jogar fora todo o NOSSO trabalho.

      Numa nota pessoal, sou a favor de campanha educativa para ciclistas tbém, até porque isso é mais eficiente e salvaria mais vidas mais rápido.

  10. Parabéns, Porto Alegre, pelo movimento cicloativista da capital gaúcha!

    Pelo que conheço do Cicloativismo, aqui no Brasil a primeira grande cidade a ter um movimento forte foi São Paulo. Aí Curitiba, com uma atuação forte, cheia de arte, festas, bicicletadas e protestos no quintal dos gestores públicos, conseguiu uma cadeira no Conselho da Cidade de Curitiba (Concitiba), instância em que se discutem as prioridades da gestão municipal, e várias outras conquistas relevantes. Há muito o que se fazer, claro, mas o clima daqui de Curitiba, entre os especialistas e cicloativistas, é de otimismo.

    Porto Alegre soube aproveitar um fato triste, “promovido” pelo Ricardo Neis, para fortalecer o grupo dos cicloativistas. Um ano depois, com o Fórum Mundial da Bicicleta, PoA se provou uma cidade madura e consistente no que se diz de cicloativismo. A gestão pública sempre está atrás das tendências, mas acredito que, como em São Paulo e em Curitiba, vocês estão no caminho certo para convencer os gestores públicos a ter em sua pauta de governo (de modo irreversível) a bicicleta.

    Gogogo Bikers!


    Felipe França Silva, de Curitiba – PR.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s