Retrocesso abala comunidade ciclística nos EUA

No post anterior mencionei minha admiração pelo cicloativismo eficaz e organizado praticado nos EUA.

Pois o cicloativismo e a comunidade norte-americana acabam de sofrer um baque de terríveis proporções.

Um mega-projeto de lei (não sei se este é o termo correto; o sistema político e legislativo deles é bem diferente do nosso) intitulado American Energy and Infrastructure Jobs Act foi apresentado anteontem e será votado hoje na Comissão de Transportes e Infraestrutura do Congresso. O projeto prevê investimentos da ordem de 260 bilhões (!!!) de dólares em 5 anos. A meta de “recuperar a infraestrutura” e “criar empregos” de fato abre as porteiras para a expansão petrolífera desenfreada, para investimentos fabulosos em estradas, e outras medidas caríssimas e não-sustentáveis.

O projeto tem 846 páginas e sua abrangência, evidentemente, é gigantesca e complexa. O deputado Peter DeFazio denuncia que seus companheiros na Comissão não conhecem bem o projeto (houve apenas 2 dias para ler tudo), e vai adiante afirmando que o mesmo vai custar muito dinheiro e não vai resolver os problemas do país.

A Liga dos Ciclista Americanos organizou uma lista com os 10 pontos que atingem diretamente ciclistas e pedestres. Mesmo essa parte é complexa demais para ser resumida aqui (veja vídeo abaixo).

Basicamente são cortes em verbas anteriormente conquistadas para: calçadas, ciclovias urbanas e rurais, implantação de traffic calming, apoio técnico a comunidades; além disso, abandono de investimentos na intermodalidade, revogação da proibição de construir pontes sem calçada/ciclovia, entre outras coisas.

O ponto mais maquiavélico talvez seja a eliminação do programa
Safe Routes to School que visa recuperar a cultura de ir à escola de bicicleta, que era comum nos EUA até a década de 60. Bob Mionske, titular da coluna Road Rights do portal Bycicling, diz que o lobby petrolífero está “com medo de uma criança numa bicicleta”, e compara esse ponto da proposta ao Exterminador do Futuro, que volta no tempo para tentar impedir que uma certa criança cresça e se torne o adulto que conseguirá liderar os humanos na luta contra as máquinas. O argumento não é absurdo; uma criança que cresceu pedalando tem uma probabilidade maior de se tornar um adulto ativo e menos dependente do automóvel. A diferença é que o Exterminador só queria matar uma criança, enquanto que esse projeto pode “matar” o ciclista em potencial dentro de milhões de pessoas.

O deputado Peter DeFazio , tentando desesperadamente (e sem sucesso) passar um emenda que salvasse Safe Routes to School, fez um discurso tocante na Comissão de Transporte e Infraestrutura, convidando seus companheiros de plenário a visitar locais onde o programa funciona:

“…olhe aquelas crianças bem nos olhos, olhe aqueles professores nos olhos, olhe aqueles policiais nos olhos, olhe aqueles pais e mães nos olhos e diga, ‘desculpe, nós não podemos nos dar ao luxo de proporcionar ao seu filho uma rota segura para ir à escola de bicicleta e adquirir um estilo de vida mais saudável’…”

 

E o que é que nós temos com isso?

Sinceramente não sei. Como sempre, informação pode ser usada – ou escamoteada – de muitas maneiras.

Algo me diz que nós temos muito a ver com isso, potencialmente. O mundo é redondo. E a influência dos EUA – em todos os sentidos e em todas as esferas – é imensa.

About these ads

Sobre lobodopampa

Falar de si mesmo é contraproducente. Ah: lobodopampa e artur elias são a mesma pessoa (eu acho).
Esse post foi publicado em apocalipse motorizado, ciclovia, na imprensa, políticas públicas, Sem categoria, video e marcado , , , . Guardar link permanente.

13 respostas para Retrocesso abala comunidade ciclística nos EUA

  1. Aldo M. disse:

    É a velha artimanha dos capitalistas: gerar dívidas para os governos e cidadãos e usufruir dos juros. Os humanos têm vários pontos fracos e podem ser facilmente iludidos pelos que os conhecem. Mesmo em meio a uma das maiores crises financeiras da história dos EUA, onde até a GM faliu, o povo quer acreditar que Papai Noel existe e vai lhes dar um carro novo no Natal.

    A propaganda voltada às crianças é o ponto chave. É tão terrível e criminosa que as pessoas não conseguem sequer percebê-la. Ela diz que você poderá ficar rico quando crescer se trabalhar e guardar dinheiro no banco; que irá crescer, ser feliz e conquistará quem você quiser se fumar, beber, comprar um carro, etc.

    Na educação formal, as crianças só aprendem a ler aos seis anos de idade. Mas elas já são capazes de ler símbolos, letras e números quando completam um ano. Por isto a minha filha com 12 meses vibrava e gritava “papá” quando lia a letra M do MacDonald’s em algum lugar, inclusive em inserções subliminares em filmes onde menos da metade do símbolo aparecia ao fundo de uma cena.

    Há poucos anos, a indústria do fumo nos EUA obteve uma vitória crucial. A Justiça julgou ser contra a liberdade de expressão uma lei que proibia outdoors de propagandas de cigarro a menos de 90m de escolas.

    Faltava ainda arrancar as bicicletas das mãos destes agora futuros fumantes para que não transformassem um dia o País em uma grande Copenhagen.

    • lobodopampa disse:

      E de fato a idéia do programa Safe Routes to School veio da Dinamarca.

      Agora o que eu não entendo é: 260 bilhões, porra. Será que não sobra alguns milhõezinhos pra fazer alguma coisa decente?

      Eu me sinto triste e impactado, quase como se fosse acontecer aqui na porta de casa.

      • Aldo M. disse:

        Se esta coisa decente for comprometer os lucros no futuro, não sobra nem um centavinho para ela. É nojento mas não é difícil de compreender.

  2. André disse:

    É… E fiquem de olho na candidata Manuela D’Ávila hein. Tudo indica que ela será a próxima na prefeitura de Porto Alegre.
    Nesse vídeo ela reclama de uma porto alegre muito apertada que precisa de uma nova engenharia de tráfego:

    http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=236934&channel=232

    Aí tem que ver se esse tráfego é o tráfego de todos ou só o dos carros.

    Acredito que deveríamos fazer alguma pressão pra que ela esclareça isso e sua visão da importância da valorizacão da bicicleta como meio de transporte. Temo que ela seja do time que vê a ciclovia como um problema, que deixa ruas apertadas.

    Por último e fugindo um pouco do assunto só queria chamar atenção para um momento do vídeo que manuela diz: “nós tivemos opção de prédios baixos e isso estreita as ruas”.
    Espigões não salvariam as ruas de Porto Alegre, mas a deixariam menos bonita, candidata.

  3. Os Estados Unidos são um referencial de comportamento para, exclusivamente, os Estados Unidos. Falo isto porque o comportamento do povo Norte-americano tem paradigmas referenciais que solidamente demonstram a rigidez de determinadas regras ou princípios de economia, que apesar de serem testados inúmeras vezes e demonstrado serem inócuos, continua a ser experimentados.
    Sempre os Estados Unidos tentam retomar o crescimento, frente a uma crise econômica, através da construção civil, especificamente investindo dinheiro público, em obras faraônicas de infra-estrutura.
    Por exemplo o New Deal, plano empregado pelo presidente eleito Franklin Roosevelt, pôs uma breve interrupção à depressão. Diante de um enorme desemprego e um possível descontrole social, o governo fez com que o Estado interviesse na economia, criando grandes obras de infra-estrutura, salário-desemprego, assistência aos trabalhadores e concessão de empréstimos. No entanto, os Estados Unidos só conseguiram retomar seu crescimento econômico com o início da produção armamentista para a Segunda Guerra Mundial, no final de 1940.
    Este plano do Obama tenta novamente chegar a um New-Deal, moderno, que certamente terá seu prejuízos imensos, não tão somente aos ciclistas e pedestres, mas acredito seja um saco sem fundos de dinheiro público que alimentará novamente um conjunto de feudos.
    Então pensar no ciclismo veicular, frente a este imenso problema parece-me ser o menor deles.
    Analisa todo este entorno frente aos 10 pontos e verás a complexidade desta atitude do congresso americano. Sem esquecer que uma das indústrias de base americanas é a automobilística e que ela está sedenta por dinheiro público novamente, a fundo perdido e no contexto que eles atuam são muito, mas muito, fortes mesmo. Mais forte que eles tão somente a indústria armamentista que já tem tirado os Estados Unidos do vermelho muitas vezes. A Manoela acho que nem sabe o rabo de foguete que está querendo pegar.Saúde.

  4. Aldo M. disse:

    Ficou na minha cabeça a parte deste diabólico projeto de lei americano que quer acabar com os moderadores de tráfego e concluí mais uma teoria conspiratória: para a indústria automobilística, o trãnsito PRECISA ser perigoso, especialmente para pedestres e ciclistas.

    Agora ficou mais fácil para eu entender as atitudes aparentemente esdrúxulas de governantes que priorizam o trânsito de automóveis e assim mantêm elevadas as funestas estatísticas de trânsito. Nem vou acusá-los de estarem recebendo dinheiro da indústria automobilística para agirem desta forma. O fato é que estão agindo como se estivessem governando para eles e não para o o povo que os elegeu.

    Pelo visto, a Manuela, para bons entendedores, já falou o suficiente para se saber a que veio.

    • lobodopampa disse:

      Uma coisa que vi mencionada nos últimos dias é o fato que o lobby do petróleo contribui com cifras milionárias para as campanhas eleitorais norte-americanas. Enquanto isso, o “lobby ciclo-peatonal”…

      Agora, tem uma coisa bacana. O povo norte-americano a grosso modo parece ser bastante alienado e desinteressado da política (da externa, então, nem se fala).

      MAS, a parcela da população que não é alienada, tbém não é PASSIVA.

      Olha a mensagem do presidente da League of American Byciclists:

      http://blog.bikeleague.org/blog/2012/02/a-crazy-week-behind-us-and-more-big-days-ahead/

      Depois de tudo o que aconteceu nos últimos dias, o cara consegue dizer que a luta continua, consegue ver na derrota por apenas 2 votos na votação da emenda (que teria salvo alguns investimentos) como uma vitória – pelo simples fato que eles conseguiram vender caro a derrota, o que mostra que há força e há esperança.

      De onde vem tanto otimismo? É que o cara SABE que não está sozinho. Ele sabe que não é um Quixote. Foram enviados 18.000 emeios para os congressistas – isso só contando a rede de contatos da LAB! Estima-se em dezenas de milhares de manifestações de outras origens. Alguns congressistas ficaram em cima do muro até o último momento – um sinal de que estavam preocupados.

      Um comentário no blog diz: “dois votos é tão pouco, não podemos desistir agora”.

      O projeto segue tramitando no Congresso.

      E a LAB marcou já para março, em Washington DC, um evento nacional para “salvar a bicicleta”:

      http://www.bikeleague.org/conferences/summit12/index.php

      • Aldo M. disse:

        Eu acredito que a nossa parcela não alienada ativa seja menor que a americana. Em compensação, talvez seja mais radical, até porque contestar a fundo pega melhor aqui do que lá. E temos também a vantagem das forças reacionárias aqui serem bem menos organizadas que lá. Em resumo, vale muito à pena lutar em qualquer lugar. E para isto é preciso dedicação e esforço. Foi o que o LAB fez ao analisar mais de 800 páginas de um projeto de lei pretensamente bom para o povo americano e denunciar itens enxertados pelos poderosos que só fazem se apropriar dos frutos do trabalho dos cidadãos. Trazendo à tona essas “maracutaias”, qualquer cidadão, mesmo dentre os alienados, irá se revoltar apenas por terem tentado enganá-lo. Neste contexto, os reacionários se veem obrigados a recuar para não perderem mais.

  5. heltonbiker disse:

    No site Copenhagenize.com há uma série de posts com a temática “Car Industry Strikes Back” (a indústria automotiva contra-ataca) focada em campanhas publicitárias que ridicularizam outros meios de transporte (a pé, bicicleta, ônibus) e ressaltam as supostas vantagens do automóvel, FOCADAS ESPECIFICAMENTE nos jovens, adolescentes e até crianças. Isso se deve ao FATO de que, em vários lugares “desenvolvidos”, há um processo de progressivo desinteresse da juventude com relação ao carro, ou seja, deixou de ser sonho de consumo, e a juventude não vê mais grande vantagem em possuir uma máquina dessa (por custo, sustentabilidade, e outras externalidades).

    • Aldo M. disse:

      As grandes indústrias estão sempre fazendo propaganda, especialmente para as crianças desde a mais tenra idade. O que muda é apenas o enfoque de acordo com o momento histórico. Desde a cena do filme E.T., em que as bicicletas ganham dos automóveis em uma perseguição policial, não lembro de ter visto outro filme americano dos grandes estúdios que não estivesse sempre associando o automóvel ao conceito de vitória.

  6. artur elias disse:

    Obrigado Aldo e Helton pelas contribuições.

    No fórum Bent Rider Online (onde é proibido falar de política, teoricamente) teve um tópico sobre isso. Apesar do conservadorismo que predomina em boa parte dos participantes, teve um republicano assumido e de carteirinha (literalmente) que disse que vai se desfiliar do partido, pois este teria se tornado um feudo da extrema direita.

    Eu acho que não é extrema “direita”, é extrema ganância e sacanagem mesmo. O Obama, teoricamente de “esquerda” para o padrão norte-americano (!), foi o presidente que mais estimulou a exploração de petróleo – ganhou do Bush que é empresário do setor! E sua campanha à reeleição, segundo li hoje em ZH, se baseia justamente nisso, para horror da comunidade internacional pró-sustentabilidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s